Definições

O Feminismo é um modo de olhar para as mulheres. Mas trata-se de um modo específico — pode-se chamar de enviesado se quiser —, que necessariamente reconhece a situação de sujeição das mulheres.

Dá para dizer que, na verdade, essa é a característica primeira de qualquer feminismo: ele olha para as mulheres. Mas se engana quem acredita que o Feminismo se restrinja a isso; é preciso que haja uma ação política. Apesar de reconhecer a situação das mulheres, essa idéia primordial ainda não arranjou um meio de ação. Para ser Feminismo, o feminismo carece um vetor de ação. Ele não pode ser apenas o reconhecimento de um sistema de opressão/exploração, ele tem que necessariamente pensar na ação. Ou o faz, ou deixa de ser uma luta política.

Dentro desse reconhecimento de que as mulheres são um povo colonizado, existem várias formas de se olhar para o problema — sua origem —, e de tomar uma atitude para resolvê-lo —, seu destino. Tais formas vão justamente diferir na conclusão que chegaram ao elaborar a resposta para a pergunta “Qual é a origem da opressão das mulheres?”. Tal resposta vai interferir na construção de seus modos de ação e, assim, diferir um feminismo do outro.

As duas principais correntes do feminismo

Não se sabe de qualquer pesquisa de confiança que tenha conseguido auferir a orientação política das feministas, muito menos ainda no Brasil. No entanto, dado o modo como as discussões parecem se polarizar na internet, é possível concluir que há pelo menos dois tipos de feminismo. As duas correntes têm atritos constantes, e outras ideologias podem influenciar essa orientação em outras direções:

Feminismo Liberal

Os feminismos de orientação liberal tendem a achar que o problema está nas leis, e a solução para esses problemas faria uso de uma estatégia legalista, apoiada no Direito e na legislação. A situação das mulheres mudaria conforme fossem feitas mudanças nas leis. Apesar de estarem em um ambiente que as aprisiona, acreditam as liberais, as mulheres têm condições plenas de agência para mudar sua própria situação individual; “a porra da buceta é minha”. O feminismo liberal também acredita que não se pode enfrentar diretamente seu réu: é preciso seguir, ou mudar, as normas.

As suffragettes, que lutavam pelo direito do voto foram, principalmente, feministas liberais. A conquista do voto foi importante para a conquista dos direitos civis das mulheres pois fez com que o sistema legislativo reconhecesse por escrito que as elas eram iguais aos homens em valor e merecimento. A situação das mulheres, porém, mudou pouco, e a passos lentos, depois da conquista dos votos.

São parte do feminismo liberal feministas que acreditam que uma pornografia feminista é possível, e também as que crêem que é possível escolher voluntariamente a prostituição como profissão.

Feminismo Materialista/Radical

Os feminismos de orientação radical são aqueles que acreditam que o meio e as condições de vida das mulheres estão diretamente ligados à sua situação de opressão. Elas partem do princípio de que a principal característica que une as mulheres enquanto classe é sua condição de fêmea. Elas também acreditam que mesmo os símbolos estereotípicos que se referem a mulheres têm relação com o papel que desempenham na sociedade por causa de sua fisiologia. O feminismo radical/materialista não acredita que somente as leis estão erradas; tudo, da infraestrutura à superestrutura, está fundamentalmente errado.

Boa parte das feministas de Segunda Onda que fizeram parte dos movimentos pelos direitos civis, pacifistas e também dos movimentos operários é dessa linha. Elas buscavam mudar sua situação através de ações diretas, como por exemplo a construção de abrigos para mulheres vítimas de violência doméstica e ocupações. Apesar de comemorarem e até buscarem mudanças nas leis para alterar as condições, não têm muita esperança nelas.

São parte do feminismo radical todas aquelas que acreditam que o fato de termos um papel diverso do homem na reprodução sexuada é o que nos colocou nessa enrascada.

É possível trabalhar juntas?

O maior desafio quando se trata de ação política é a representatividade numérica. Quanto mais adeptos uma causa tem, mais chances de conseguir atingir os seus propósitos. No entanto, nem todos os que se aliam às mulheres pensam nos interesses delas; é preciso equilibrar essa balança.

Porém, independente da lente que se usa ao olhar para o mundo, todas as feministas precisam entender que toda mulher tem direito à auto-organização. E, principalmente, temos direito de ter e cultivar nossas próprias convicções. Também é preciso lembrar que não dá pra culpar alguém que não queira ser feminista: nós somos barulhentas, nós incomodamos, e por vezes nos colocamos em risco para tentar construir esse movimento.

Estenda a mão a quem quiser, mas evite apontar seu alvo para uma mulher. Precisamos aprender a respeitar as divergências ideológicas, e para isso é preciso aprender mais sobre nós mesmas, ler mais sobre o movimento das mulheres, sua história e suas lutas, e também levar em conta as convicções das outras mulheres, mesmo discordando. Temos que aprender com umas com as outras: estamos juntas nesse barco.