Categories
Traduções

O Movimento de Mulheres da Coréia do Sul: “Nós não somos flores, somos uma fogueira”

Jen Izaakson e Tae Kyung Kim contam sobre o crescimento do Feminismo Radical inspirando as mulheres por toda a Coréia do Sul. Traduzido do original publicado no site Feminist Current.

Crédito da imagem: Ryu Hyo-lim/ Yeonhap via AP

No último outono, Jen Izaakson viajou para a Coreia do Sul para documentar o crescimento do Feminismo Radical como parte de um grupo de estudos da Cambridge University, após ganhar um fundo de pesquisa, e entrevistou 40 feministas. Ela escreveu este artigo junto a Tae Kyung Kim, uma Feminista Radical coreana de Seoul, que atualmente vive e estuda em Berlim.

As notícias do crescimento do movimento feminista na Coreia do Sul chegaram à mídia ocidental, mas as raízes deste levante radical ainda estão escondidas. A mídia convencional do ocidente costuma mostrar os aspectos do feminismo sul coreano que espelham nossas próprias conquistas, deixando as realizações das mulheres sul coreanas e os aspectos mais radicais do movimento menos visíveis. Em setembro, mais de 40 Feministas Radicais da Coreia do Sul foram entrevistadas como parte de uma pesquisa acadêmica. Os resultados dessa pesquisa estão resumidos neste artigo. Devido ao curto espaço deste texto, muitas informações não foram abordadas, mas tentamos incluir o material que melhor esclarece como o movimento surgiu, seu contexto histórico; e quais as práticas, estratégias e formações políticas constituem o Feminismo Radical na Coreia do Sul.

A violência masculina politiza e radicaliza

Em 2016, o infame “Assassinato de Gangnam” provocou uma onda de protestos entre as mulheres. Um homem de 34 anos chamado Kim Sung-min esfaqueou uma mulher de 23 anos (cujo nome permanece em sigilo) até a morte dentro de um banheiro para ambos os sexos em um bar de karaokê. Kim Sung-min esperou dentro do banheiro, permitindo que vários homens entrassem e saíssem, até que uma mulher entrou. No julgamento, ele explicou: “Fiz isso porque as mulheres sempre me ignoraram”. Esta é uma explicação similar àquela oferecida por outros “incels” (“celibatários involuntários”) que cometeram assassinatos violentos, mas na Coreia do Sul as autoridades explicitamente negaram a motivação misógina, mesmo com o testemunho de Sung-min.

Em resposta ao assassinato, as mulheres encheram as ruas do lado de fora da Gangnam Station e na região de Seocho-dong em protesto. Muitas dessas mulheres não se consideravam feministas nessa época, mas a natureza do assassinato e a motivação misógina ajudaram a politizá-las.

Em 2018, o “molka” (o ato de filmar secretamente mulheres em banheiros e vestiários, ou de filmar embaixo de suas saias em lugares públicos) já havia se tornado um problema generalizado na Coreia. Entrevistadas me contaram que isso acontece em parte porque os homens coreanos não são confidentes o bastante para assediar mulheres diretamente na rua, então suas tentativas para acessar mulheres sexualmente são feitas de modo mais sub reptício. Apesar de existirem leis contra este tipo de voyeurismo na Coreia do Sul, a polícia dificilmente aplica essas leis. A situação chegou a um ponto crítico quando uma estudante foi acusada de fotografar um modelo nu em sua escola de arte. De acordo com as mulheres entrevistadas, o homem rotineiramente saía despido da sala de aula, de modo que as estudantes eram forçadas a ver seus genitais. Por fim, uma estudante tirou uma foto do homem na sala de aula e a publicou na internet para condenar seu comportamento. Ela foi autuada, julgada, presa e forçada a se desculpar com o homem, que disse que as fotos dele mostrando seus genitais em público lhe haviam causado “dano psicológico”. A mulher foi inicialmente multada com o valor equivalente a 18,000 euros, mas o modelo insistiu na corte que a mulher fosse enviada para a prisão, e ela permaneceu lá por 10 meses.

Considerando que os homens usam câmeras escondidas com impunidade quase total, este incidente provocou uma onda de protestos contra a prática do molka. Centenas de milhares de (principalmente) jovens mulheres se uniram, indignadas que as leis a respeito do voyeurismo fossem usadas contra mulheres e não homens. Até o momento, 360,000 mulheres participaram em protestos contra câmeras escondidas. Essas manifestações consistem em procissões fortemente estruturadas, músicas políticas impressas em flyers e distribuídas entre as multidões e discursos cheios de vida, que frequentemente começam com os cantos, e então as manifestantes se juntam e alcançam crescendos que parecem com gritos de guerra. Em alguns protestos, mulheres sobem ao palco para ter seus cabelos cortados bem curtos, em outras, suas coleções de maquiagem são ritualisticamente jogadas no lixo.

A necessidade da organização exclusiva de mulheres

Por trás dos eventos reais, que foram o Assassinato de Gangnam Station e os protestos contra o molka, havia um cenário virtual central. A partir de 2015, uma guerra verbal se desenvolveu na internet entre os homens e as mulheres. Uma grande disputa aconteceu quando o MERS (Síndrome Respiratória do Oriente Médio) chegou na Coreia do Sul. No DC Inside Gallery, um popular fórum de internet com milhões de usuários em todo o país, usuários do sexo masculino começaram a fazer postagens dizendo que a Paciente Zero era uma mulher sul coreana, alegando que ela foi prostituída no Oriente Médio e voltou infectada para a Coreia do Sul. Outros homens se juntaram, escrevendo comentários como “as mulheres coreanas deviam morrer”, “as mulheres coreanas gastam dinheiro em futilidades” e “as mulheres coreanas são burras e espalham esse vírus”. Em resposta, mulheres começaram suas próprias postagens no fórum, discutindo essa misoginia escancarada. Eventualmente descobriu-se que, na verdade, a MERS foi levada para o país por um homem, e as mulheres encheram as postagens masculinas de comentários, se sentindo vingadas. Mas a misoginia não foi esquecida.

Como resposta, as mulheres criaram a Megalia, parecida com o Reddit, mas livre de misoginia. A Megalia se tornou um espaço de construção de companheirismo entre mulheres, centrado em amizade e humor afiado. Tornou-se comum que as mulheres chamassem umas às outras de “vulvas” no site, dizendo coisas como “Muito bem, você é a buceta mais forte” ou “Que ideia brilhante! Você é uma bucetão!”. No entanto, a Megalia tinha usuários do sexo masculino, e muitos dos administradores do site eram homens gays. Primeiramente esses homens eram fortes simpatizantes da experiência das mulheres com a misoginia, mas assim que as postagens começaram a discutir a misoginia de homens gays e a cultura gay (como o drag), os comentários das mulheres começaram a ser removidos.

A moderação pesada do discurso das mulheres não é uma surpresa para muitas feministas no Facebook, Mumsnet ou no Twitter. As mulheres perceberam que para ter um debate livre e justo a respeito da realidade de suas vidas e da misoginia pela qual passavam, precisavam de um espaço moderado por elas mesmas, sem administradores homens. Essa experiência mostrou a necessidade da organização exclusiva de mulheres. Mulheres começaram a deixar a Megalia em massa, e em Janeiro de 2016, milhares já haviam se inscrito em um fórum online chamado Womad, descrito pelas minhas entrevistadas como um espaço “feminista radical lésbico”.

A espantosa prevalência da lesbiandade entre as feministas sul coreanas é um dos aspectos mais marcantes e significativos. Todas as feministas com quem eu falei para as mais de 40 entrevistas se identificaram como lésbicas.

Na Coréia do Sul, o Feminismo Radical e o Feminismo Lésbico são fortemente ligados, gerando o movimento “4비”/“4B” (a pronúncia de 4비 soa para o ouvido anglófono como algo próximo a “4B” [1]). O 4B se baseia em 4 regras que orientam esse movimento feminista radical e agem como um guia que as mulheres podem adotar para destruir o patriarcado e viver vidas mais seguras e livres dos homens. Os princípios são, a grosso modo; não se casar com homens, não namorar com homens, não fazer sexo com homens e não engravidar. O movimento 4B tem hoje um número estimado de 50.000 seguidoras.

Um estudo de 2016 revelou que 50 por cento da população feminina da Coréia do Sul não vê o casamento como necessário — as mulheres perceberam que o casamento é um contrato leonino, o que levou o governo a agir. Em resposta às preocupações a respeito do aumento da idade média da população e o declínio das taxas de natalidade, o governo sul coreano encomendou várias novelas para promover uma visão idílica do amor romântico heterossexual. Vários reality shows — Heart Signal; We Got Married; Same Bed, Different Dreams e The Return of Superman — foram encomendados para encorajar o casamento e a reprodução. Essas séries tendem a seguir uma narrativa em progresso, na qual os casais heterossexuais expressam primeiro o desejo de um bebê, depois a concepção, a gestação e o nascimento, cada passo documentado e apresentado sob uma luz positiva.

Tire o espartilho

Entre 2015-2016 e 2017-2018, as mulheres sul-coreanas gastaram 53,5 bilhões a menos de wons [R$ 243,5 milhões] sul coreanos em produtos de beleza e cirurgias estéticas, optando por investir esse dinheiro em carros, escolhendo a independência à objetificação. Parte dessa rejeição cultural das práticas de beleza femininas foi estimulada pelo movimento 4B e também pelo “Tire o Espartilho”. Inspiradas por Beleza e Misoginia, o livro de Sheila Jeffreys (traduzido para o coreano como Espartilho: Beleza e Misoginia), o movimento descreve a remoção do “espartilho” moderno: práticas de beleza como depilação, maquiagem, sapatos de salto, cirurgias estéticas, cabelos longos, dietas restritivas etc. A Coreia do Sul tem uma indústria de cirurgia estética gigantesca, sendo que a cirurgia mais comum para as mulheres é o procedimento de duplicação de pálpebra — uma operação que altera as pálpebras para que pareçam mais “ocidentais”. Sendo semelhante ao clareamento de pele, esta prática voltada ao lucro é fundada em uma idéia racista e pode levar à infecções pós-operatórias, perda das pálpebras, problemas de visão e até mesmo cegueira.

Crédito da foto: XYFreeWorld

Muitas entrevistadas se referiram ao movimento como um ponto de partida da sua jornada para o Feminismo Radical, dizendo “tirei meu espartilho no último janeiro”, ou “já estou sem espartilho há dois anos”. Para as mulheres sul coreanas, o termo “backlash” está ligado a “Tirar o Espartilho” — ele não faz referência a um backlash de fora, contra o feminismo (como no Ocidente), mas é um backlash pessoal, em que uma mulher se volta para a feminilidade. Uma mulher me disse “minha melhor amiga e eu tiramos nossos espartilhos em 2017, mas desde então ela teve um backlash e voltou a usar maquiagem por causa da pressão familiar”.

Outros slogans predominantes no movimento tendem a girar em torno do poder e determinação das mulheres. Um grupo de entrevistadas assinou um cartão pra mim com alguns deles, escrevendo “Nos encontramos no topo”, “Seja ambiciosa”, e “Nós somos a coragem umas das outras”. Eu reconheci esses slogans rapidamente porque eles costumam aparecer nos perfis das feministas nas mídias sociais. Uma recorrente e proeminente chamada à ação é “Se não eu, quem? Se não agora, quando?”. Este slogan foi parafraseado, emprestado de Hilel, o Ancião (Pirkei Avot 1:14), uma figura babilônica famosa na história judia.

Uma base histórica para a cultura centrada nas mulheres

Parte da razão pela qual o feminismo se desenvolveu da forma que ele é na Coréia do Sul é histórica e cultural. As mulheres com que eu falei explicaram que, historicamente, não existiu a mesma cultura de “cavalheirismo” (educação masculina e proteção social das mulheres) que existe no Ocidente, o que significa que existe muito menos fingimento a respeito da dominação masculina. No começo dos anos 1950, soldados que estavam lutando na guerra da Coréia faziam que as mulheres andassem antes deles sobre campos minados para checar por caminhos seguros e detonar as bombas com seus corpos. Não existe um arrependimento quanto à história desta prática. Eu perguntei “se o Titanic fosse coreano, teria havido uma política de mulheres e crianças primeiro, determinando quem entraria nos botes salva vidas?” A pergunta foi recebida com gargalhadas e negativas. Uma das entrevistadas via a ausência de cavalheirismo como menos gentileza dos homens, nos termos em que o patriarcado se desenrola. Ao mesmo tempo, as mulheres estão bem menos suscetíveis ao casamento porque os homens são muito mais claros, mesmo antes do casamento, a respeito de quão desiguais as coisas serão. Não é que os homens coreanos se comportem contra as mulheres de modo mais opressor que aqueles no Ocidente, é só que eles são muito mais abertos ao se comportar assim. Dado que a opressão masculina está menos escondida, algumas entrevistadas argumentaram que isso permitiu às mulheres que detectassem as armadilhas do casamento e da domesticação mais facilmente. É muito mais claro o que significa optar por se casar.

Outra entrevistada explicou que, historicamente, esperou-se das mulheres que trabalhassem na lavoura, muitas vezes trabalhando mais que os homens, de modo que eles foram vistos menos como provedores de riqueza material do que eles costumam ser vistos em outros lugares. As mulheres trabalhavam fora assim como faziam o trabalho doméstico. O benefício econômico de ter um marido, mesmo um que tivesse um emprego, era muito menor que o de outras sociedades em que tradicionalmente as mulheres eram proibidas de trabalhar, ou que tinham acesso limitado ao mercado de trabalho. Historicamente, na Coréia do Sul, existiu um estrito sistema de classes, e as mulheres não tinham a oportunidade de se casar com outras classes, de modo que pudessem acessar uma maior riqueza material, como as mulheres de outros países tiveram a chance. Com a falta dessa vantagem havia ainda menos motivo para as mulheres aspirarem a se casar. Essas condições históricas combinadas produziram um conjunto particular de políticas sexuais na Coréia do Sul, que significa que é comum para as mulheres rejeitar o casamento, já que existem benefícios mais claros que o cálculo de custo.

Outra razão pela qual existiu espaço para o Feminismo Radical prosperar é porque existe literalmente espaço para que isso aconteça. Universidades femininas foram criadas por todo o país durante o último século, e a maioria das cidades possui várias instituições exclusivas para mulheres (algumas possuem professores homens, e às vezes estudantes homens de outras universidades podem se inscrever em cursos por determinado tempo no campus, mas existem toques de recolher noturnos e todos os homens são obrigados a sair do local). Nos prédios da união estudantil, professores e estudantes do sexo masculino estão proibidos de entrar. São zonas exclusivas para mulheres, 24 horas por dia.

Em algumas universidades femininas, masculinistas (MRAs) protestaram segurando placas com dizeres como “Mulheres, abandonem suas bolsas de marca!”. Aparentemente o feminismo se desenvolveu tão longe dos homens na Coréia do Sul que alguns deles não sabem exatamente o que é que as feministas exigem, já que, ironicamente, os MRAs esperam que as mulheres parem de gastar dinheiro em itens caros de feminilidade. Enquanto isso, o Feminismo Radical organiza boicotes contra empresas e produtos que façam propagandas misóginas, encoraja mulheres a comerem apenas em restaurantes cujas donas são mulheres, beber em bares de mulheres e comprar em lojas de mulheres, assim o dinheiro das mulheres retorna aos bolsos femininos.

Enquanto as universidades femininas emergiram de um contexto cristão que considerava impróprio que mulheres solteiras estivessem junto de homens, elas proporcionaram um terreno fértil para que o feminismo florescesse. Muitos desses campi estão cercados por ruas que apenas as mulheres frequentam, com lojas e cafés quase que exclusivamente cheios de mulheres. Como resultado desta norma cultural, a maioria das cidade tem pelo menos um ou vários bares exclusivos para mulheres. (A Coréia do Sul não é refém da política da auto-identidade, então isso significa que os espaços são genuinamente exclusivos para mulheres)

A marginalização inspira a organização política

O movimento 4B e as idéias do Feminismo Radical se espalharam pela Coréia do Sul durante a metade da última década, tomando diferentes vilas e cidades, apesar de suas diferenças culturais e políticas.

Daegu, a quarta maior cidade do país, existe em forte contraste com sua capital, Seoul. Daegu é sem dúvidas a cidade mais conservadora da Coréia do Sul, e apenas 3 a cada 7 pessoas no local são mulheres, devido a abortos para seleção sexual. Em Daegu, os filhos são tão desejados que se uma família tem duas filhas seguidas, a segunda filha frequentemente receberá um nome com um significado do tipo “Desejando um filho” ou “Por favor, que o próximo seja menino”. Como para cada 3 mulheres existem 4 homens, a política sexual segue a regra. As mulheres que vivem em Daegu me explicaram que, enquanto as mulheres de Seoul podem chamar a polícia para denunciar um caso de violência doméstica, as mulheres de Daegu temem que a polícia ficará do lado do agressor e perpetrará ainda mais violência contra elas.

Apesar disso, as mulheres de Daegu são firmes. Elas contaram sobre como se recusam a usar maquiagem, apesar de que isso certamente resultará em falta de emprego. A cidade é mais pobre que sua vizinha, Busan, e que Seoul ao norte, mas ainda assim as feministas de Daegu abordaram o problema do desemprego gerado pela recusa à feminilidade se organizando. Elas formaram “cartéis” femininos, reunindo recursos, vivendo juntas em moradias baratas e conjuntamente fazendo campanha nas ruas para alcançar outras mulheres. Esses “cartéis” me foram descritos como grupos organizados, mas com estruturas abertas e flexíveis, focadas em divulgação. Isso contrasta com o que vemos no Ocidente, onde o Feminismo Radical tende a florescer através de pequenos grupos de amigas/namoradas, funcionando em conjunto como uma rede privada, em vez de se organizar primariamente em torno de alianças políticas e se engajar em recrutamento e campanhas públicas.

A Coréia do Sul tem a mais alta disparidade salarial de todos os países da OCDE (os 37 países mais ricos do mundo, de acordo com o PIB), com mulheres ganhando em média um terço a menos que os homens. Enquanto as feministas do Ocidente que tem empregos, propriedades, famílias apoiadoras e que não encaram discriminação direta por recusar práticas de feminilidade dirão que não podem ser abertamente radicais devido à precariedade financeira ou medo de represálias, as mulheres em Daegu — cuja renda é precária e que vivem numa cultura muito mais masculinamente centrada, persistem [2]. A experiência de conhecer feministas em Daegu enfatizou que insegurança social e econômica não precisa prejudicar nossa disposição de falar sobre questões feministas. É possível que o status econômico mais elevado das Feministas Radicais no Ocidente – que tem mais a perder (carreiras, respeitabilidade, status, dinheiro) é o que impulsiona seu anonimato online e seu silêncio na vida pública.

Na Coréia do Sul, as leis atuais permitem que uma mulher aborte apenas se ela tiver consentimento de um parente homem ou de seu namorado/marido/parceiro. Se a mulher conseguir abortar sem a permissão do homem (abortando em outro país ou tendo um amigo que finja ser o namorado, por exemplo) ela corre o risco de ser julgada e condenada ou multada em até U$ 2.000. As feministas lutaram bravamente para mudar essa lei e, em abril, a Corte Constitucional da Coréia do Sul julgou que a lei que criminalizava o aborto era inconstitucional. A Corte deu ao Parlamento até o fim de 2020 para implementar a nova lei, uma vitória óbvia para o movimento.

Em fevereiro, o Partido das Mulheres foi criado, chegando a 8.000 membras em março — um número que agora cresceu para 10.000. O Partido visa representar os interesses de todas as gerações, e por isso tem 5 líderes, cada uma de uma década diferente: uma adolescente, uma mulher nos seus 20, 30, 40 e 50 anos. Embora o partido tenha conseguido mais de 200.000 votos, elas não conseguiram nenhum cargo. No entanto, o Partido das Mulheres conta com grande apoio, particularmente de mulheres jovens que, ao contrário do ocidente, são as maiores divulgadoras do Feminismo Radical. Teoricamente, estima-se que ao redor de 60 mil moças poderiam ter votado no Partido das Mulheres, se elas não fossem menores de 18 anos.

Mudar a linguagem muda a cultura

Em resposta às recentes vitórias feministas, os masculinistas da Coréia do Sul que se opõem ao movimento feminista mudaram de tática e começaram a afirmar que na verdade desejam “igualdade”, em vez da “violenta” exclusão e preconceito que eles dizem que o Feminismo Radical exige. A adoção da retórica liberal é notavelmente semelhante àquela dos transativistas ocidentais que se opõem à priorização de mulheres no feminismo. Os homens da Coréia do Sul são relativamente organizados e às vezes fazem ações. Jae-gi, um homem que criou um site para MRAs, pulou de uma ponte para demonstrar a difícil situação dos homens devido ao feminismo, e por acidente foi empalado analmente por um galho subaquático e morreu. Desde então, Jae-gi se tornou um verbo que significa suicídio masculino, e as feministas dizem aos masculinistas “vá se Jae-gir!!”, que significa basicamente “foda-se, morra!”.

Pode parecer rude, mas esse é um exemplo de “espelhamento”, uma tática em que as mulheres empregam reversões linguísticas e jogos de palavra à língua coreana. A criação de verbos como “Jae-gi” é uma resposta direta ao abuso verbal e físico por qual as mulheres passam, tanto na internet quanto na vida real, pelas mãos dos homens.

Com mais de 1 milhão de palavras, o coreano tem mais que o dobro do vocabulário que da língua inglesa. As regras gramaticais do coreano facilitam a criação de novas palavras e expõem o quanto a língua é usada para reprimir as mulheres. A palavra “pais” em coreano é ‘부모님’(bu-mo-nim) — “bu” [1] significa “pai” e “mo” significa “mãe”, colocando o pai na frente porque o homem é considerado mais importante. Em vez disso as feministas coreanas começaram a usar o termo ‘모부님’(mo-bu-nim), mudando a ordem para que “mãe” venha primeiro. A palavra “carrinho de bebê”, em coreano, é ‘유모차’(yu-mo-cha) — “yu” significa criança, “mo” significa mãe” e “cha” significa “cadeira de rodas”, o que sugere que o cuidado infantil é reservado às mães. As feministas mudaram a palavra para “유아차” (yu-ah-cha) — “yu-ah” significa “criancinha”, então a palavra “mãe” foi removida e agora a palavra significa “carrinho de criança” (similar ao termo “carrinho de bebê”). Ajustes como este são possíveis em várias palavras, permitindo que seus significados sejam alterados.

O termo “6.9” (literalmente o número 6,9) é outro exemplo de como as mulheres “espelharam” e responderam a uma cultura que valoriza as mulheres de acordo com o tamanho de seus corpos. 6.9 se refere ao tamanho médio (em centímetros) do pênis de um homem coreano. Usar o termo nas mídias sociais respondendo às discussões com os homens é um modo de envergonhá-los, assim como as mulheres se envergonham quando os homens discutem o tamanho de seus seios ou outras partes de seus corpos, além de servir para diminuir o poder que eles acreditam que possuem devido a seus pênis.

Infelizmente também existem adições misóginas novas à língua, graças às comunidades online como o ILBE, onde homens podem trocar fotos de familiares nuas para ganhar curtidas e capital social. Os usuários criaram expressões como “As mulheres deveriam apanhar a cada três dias, como o peixe seco, para que se tornem mais gostosas” e “Ponha uma lâmpada na vagina e a quebre”, que entraram recentemente para o vernáculo popular.

Esses tipos de expressão são considerados banais na Coréia do Sul, de modo que as feministas coreanas desenvolveram uma nova linguagem como resposta, redefinindo termos misóginos.

Feministas Radicais estrategicamente redefiniram o termo “feminina” para que signifique mulher forte, poderosa e ambiciosa. Elas também redefiniram “masculino”, para que signifique inveja, magreza, infantilidade e o desejo de se emperiquitar. O “espelhamento” faz com que as pessoas se lembrem de quantos termos misóginos elas usam diariamente, sem sequer notar, mas também gera uma forte negação reativa a respeito das expressões sádicas usadas contra as mulheres através do humor. Com “feminilidade” redefinida, as mulheres coreanas buscam características como força e excelência, concentrando-se no autodesenvolvimento para alcançar suas próprias ambições. O espelhamento é uma maneira pela qual as mulheres usam a linguagem para tirar o controle dos homens.

Um modelo para o ocidente

O movimento feminista sul-coreano se desenvolveu a partir de condições particularmente misóginas, comparadas com o ocidente, em conjunto com melhores oportunidades para organização política, criando uma situação em que a ação radical era tanto necessária quanto viável. Essas circunstâncias únicas e contraditórias produziram condições sociais em que a ação radical das mulheres era tão possível quanto urgente.

O movimento feminista sul-coreano não está em total acordo interno, mas o que o diferencia do ocidente é que suas diferenças são discutidas — não apenas online, mas na vida real — e o debate direto não é considerado uma força destrutiva que deve ser evitada a todo custo, mas algo aceito e parte necessária da política. Por causa da presença desse movimento verdadeiramente próspero existe um maior senso de comunidade e cooperação.

As mulheres do Ocidente podem aprender muito com suas irmãs coreanas: sua habilidade para se organizar coletivamente, seu foco crucial em política, sua inventividade e engenhosidade e, talvez o mais significativo, sua prática de levar a política às ruas.


Notas

[1] Nota da revisora: apesar de, na romanização do Hangul (o alfabeto silábico coreano), o símbolo “ㅂ” normalmente ser grafado como equivalente ao “B”, a pronúncia de “비” (bi) é um pouco mais complicada: faz-se um bico com a boca como se fosse pronunciar um B, mas na verdade faz-se um P soprado, quase um F.

[2] Nota das tradutoras: Finalmente um texto longo e bastante esclarecedor sobre as práticas do movimento de libertação das mulheres sul coreanas! Nós já havíamos ouvido falar do assunto há um tempo, mas não havíamos visto nenhum material tão pessoal. Parece-nos muito específico da Coreia do Sul que o movimento tenha um caráter identitário tão forte e mesmo assim se mantenha inabalado. Para nós, é questionável essa possibilidade de se recusar práticas de feminilidade sem sofrer represálias no Ocidente (ou em lugares sob influência do chamado Ocidente, como o Brasil): a possibilidade das mulheres perderem suas posições, empregos ou prestígio por se posicionarem ou atestarem o óbvio evidencia o quão frágeis são essas conquistas e liberdades. Uma vez que a pressão do masculinismo se faz sentir, mais mulheres têm se posicionado. Quanto mais próximas de posições de poder e independência, menor a possibilidade de sofrer os danos do contra-ataque — vide o caso de J.K. Rowling.


Tae Kyung Kim é uma estudante da Universidade de Mulheres de Sungshin. Siga-a no Instagram ou faça contato por email: dohsmath@gmail.com.

Jen Izaakson é uma candidata ao doutorado do CRMEP. Siga-a no Instagram ou faça contato por email: jenizaakson@gmail.com.

Categories
Resumos

A contraditória relação entre o aborto e as mulheres da Direita [RESUMO]

Adaptado de: DWORKIN, Andrea. “Abortion”. In: Right-Wing Women. Nova York: Perigee Books, 1983. P. 71-105.


Andrea Dworkin, autora de Right-Wing Women.

Antes do aborto ser legalizado nos EUA, as estatísticas sobre ele eram criadas em cima das evidências que haviam disponíveis: depoimentos de mulheres e médicos, casos que deram errado e resultaram em atendimentos de emergência ou mortes. O perfil da mulher que abortava ilegalmente era: casada e com filhos, demonstrando que a ligação entre aborto e imoralidade sexual é falsa.

Essas mulheres permanecem em silêncio sobre o assunto e se dissociam das outras que realizaram o procedimento, se vendo como exceções, mulheres respeitáveis que tiveram que recorrer a isso em um momento de desespero. Admitir ter feito aborto seria como admitir sofrer violação e estar em uma posição vulnerável.

Há também o medo de ter feito algo imperdoavelmente errado, uma vez que qualquer coisa tem mais valor que a própria vida delas. Esse medo de ter cometido assassinato existe porque homens assumem em suas oposições ao aborto que se mulheres tivessem tido essa escolha, poderiam tê-los abortado. Coloca-se uma responsabilidade imaginária na mulher por vidas adultas já existentes a partir do óvulo fertilizado porque não é aceitável que mulheres afirmem possuírem existências separadas dos homens. Mulheres, aqui, não têm direito a um corpo fora dos domínios dos homens.

O medo e o silêncio acompanham uma experiência que só mulheres têm, e que são os seus maridos que as colocam nessa situação: o abortista termina o trabalho que o marido começou. O aborto é considerado um ato egoísta e de rebelião, sendo a mulher punida pela culpa de dispôr de seu útero conforme lhe convém e um modo estranho de dizer não.

As mulheres não podem ser responsabilizadas por gravidezes indesejadas porque não são elas que controlam as condições em que são engravidadas. O direito sexual do homem sobre sua esposa é garantido na lei, de modo que o estado define o uso sexual do corpo da mulher. Mesmo quando o estupro dentro do casamento é proibido por lei, o homem dispõe de outros meios para garantir a coerção sexual.

O casamento é a prova irrefutável da posição de desigualdade das mulheres. A lei é um instrumento da religião, que garante o direito do homem sobre o corpo da mulher abençoado por deus. Entretanto, a pressão para a submissão vem de várias fontes. A gravidez é uma consequência dessa submissão, e as mulheres vivem em um contexto de sexo forçado. O repúdio das mulheres ao estupro e sua vontade de liberdade são interpretados como aversão ao sexo.

O sexo forçado, geralmente a penetração, é um problema central na vida de toda mulher. Elas serão avaliadas pelos homens de acordo com a sua relação com a penetração, e tudo nela deve ser um sinal de sua aceitação dessa situação. O coerção que as mulhers sofrem dentro do casamento seria considerada coerção estatal caso elas não fossem mulheres, mas essa coerção é disfarçada por uma montanha de propaganda que busca fazer as mulheres se conformarem com a feminilidade.

A feminilidade é a aceitação do sexo nos termos dos homens e pode ser definida como submissão ritualizada. A propaganda da feminilidade, em tempos de resistência feminista, prega que o sexo pode ser bom se as mulheres o fizerem direito, e dentro da esfera da dominação dos homens. As regras da feminilidade quebram o espírito das mulheres e as treinam para desejar e depender dos homens. As mulheres são submetidas aos homens através da ignorância a respeito do sexo, vendo-se como buracos. Se elas soubessem o propósito deles para elas, repudiariam tudo, uma vez que o uso que eles fazem delas nada tem a ver com a mulher enquanto indivíduo.

Apesar da propaganda, a feminilidade precisa ser imposta à força. A força (e o sexo forçado) é o que mantem o vínculo sexual dos homens às mulheres, e se ela não fosse necessária, não seria tão disseminada. A violência física, o abuso de meninas, a manutenção das mulheres em estado de pobreza e dependência econômica, e a propaganda da feminilidade são o que permitem a manutenção da dominação.

É impossível falar de sexualidade feminina fora do contexto de sexo forçado; independente dos gostos ou experiências individuais de cada mulher, todas elas vivem nesse contexto. A força usada no sexo é tornada ela mesma “sexy”, romantizada e naturalizada. A coerção sexual é o que molda as mulheres à submissão e viola os limites de seu corpo. É pela penetração que os homens asseguram sua dominação e o direito ao uso do corpo das mulheres: a centralidade da penetração não tem nada a ver com reprodução ou prazer, mas acaba se tornando um sinônimo de sexo porque é uma das mais emblemáticas expressões da dominação masculina. É pelo intercurso sexual que a mulher é moldada.

O estupro e o sexo marital são formas opostas de expressão sexual apenas quando as mulheres são vistas como propriedade sexual, quando a propriedade de um homem é violadas por outro. É somente quando a mulher é reconhecida como um ser humano que o estupro é reconhecido como tal. Se o estado regula o uso da força sexual contra as mulheres, é o estado quem distingue o sexo “normal” do estupro. O consentimento se torna a aquiescência passiva, e esta a participação padrão das mulheres no sexo. E se as mulheres consentem com o que é feito a elas, não há como sinalizar, provar ou mesmo sugerir estupro. É o sexo forçado no casamento que valida todas as outras formas de uso da força sexual contra as mulheres.

Existe a crença de que os homens usam a força porque são homens, e também a crença de que as mulheres respondem sexualmente à violência infligida a elas. Existe toda a sexualização da violência e a crença de que a mulher casada é a mais protegida de todas: se está certo usar a força contra a mulher casada, contra que mulher isso será errado? A definição da mulher no contexto de dominação é feita nos termos de sua função, que é ser fodida. Se ela desperta desejo em um homem, é porque ela já é adulta o suficiente e, presumivelmente, já é uma mulher. Uma vez que uma mulher é fodida, ela cumpriu a sua função enquanto mulher e pode ser legitimamente fodida.

No que diz respeito à gravidez, se é possível forçar uma mulher a conceber dentro do casamento, e se a força é a norma, não existe diferença para a gravidez fruto de estupro ou incesto. O estupro só será considerado enquanto tal para os homens se o emprego da força for monstruosamente brutal. Se a função da mulher é ser fodida, se ela estiver grávida é porque ela já foi fodida. Ser fodida não viola a sua integridade de mulher, porque ser fodida é o que significa a integridade da mulher sob o sistema de dominação. O reconhecimento de alguns casos de estupro se dá pela vontade do homem de não reconhecer os frutos do estupro de outro homem — essas exceções existem para protegê-los. O aborto só é tolerado quando ele protege os homens.

O problema da revolução sexual é que ela esteve o tempo inteiro nas mãos dos homens. A ideia central era de que o sexo era bom. No caso das meninas, significava que elas queriam ser fodidas. A filosofia da revolução sexual vem de antes dos anos 1960 e se manifestou na esquerda de várias formas. Segundo esse pessoal, se fazia guerra porque se odiava o sexo/amor. Os homens que resistiram à convocação para a guerra deixaram seus cabelos crescer e foram comparados a covardes, a garotas. Por causa disso, muitas delas acreditaram que eles eram seus aliados.

As jovens mulheres eram idealistas e, como não corriam o risco de serem convocadas para a guerra, tinham no homem negro a sua figura para demonstração de empatia. Estupro era visto como uma arma racista para prejudicar homens negros. Essas jovens eram idealistas porque acreditavam que a paz e o amor prometidos eram para elas também. Elas não queriam a mesma vida que as suas mães tinham e aceitavam as ideias de amor livre e liberdade sexual dos homens porque isso as tornava diferentes das suas mães.

O radicalismo sexual dessa época era definido em termos masculinos: número de parceiros, frequência do sexo, variedade sexual (sexo grupal), disposição de se engajar em atos sexuais. Supostamente deveria valer para ambos os sexos. O estupro era comum e o lesbianismo jamais aceito em seus próprios termos. A homossexualidade masculina era tolerada, mas desprezada porque o homem heterossexual não toleraria ser fodido como mulher. O sonho das mulheres nessa utopia era a transcendência sexual, o sonho de ser menos mulher em um mundo menos masculino, uma erotização da igualdade fraterna.

A contradição das mulheres dessa época era buscar a liberação sexual justamente através do ato que mais reifica a dominação. A contracultura ficou cada vez mais agressiva e dominada pelos homens, enquanto que as mulheres se viram obrigadas a serem objetificadas e comercializadas em pornografia e tráfico, ou serem socialmente segregadas nos papéis tradicionalmente femininos. A liberação sexual não funcionou para as mulheres, e sua consequência acabou sendo a de libertar os homens para fazer uso das mulheres fora das restrições burguesas. Ao interagirem sexualmente com uma maior variedade de homens, as mulheres descobriram que sua individualidade era irrelevante diante da prática sexual masculina generalizada.

A ideologia do movimento de liberação sexual dos anos 1960 assumia que todo mundo queria fazer sexo o tempo todo, e não levava em conta o estado subordinado das mulheres. Segundo eles, a aversão das mulheres ao sexo era resultado e prova da repressão sexual. Havia a crença generalizada de que as mulheres não recusariam sexo se não fossem reprimidas, nem os homens precisariam fazer uso da força. O estupro era negado por razões políticas se o estuprador era negro e a mulher não. Por outro lado, se um estupro racial era fabricado, jamais era ignorado como falso. Quando uma mulher negra era estuprada por um branco, o reconhecimento do estupro enquanto tal dependia das alianças políticas de negros e brancos naquele território social específico. A mulher negra estuprada por um homem negro carregava o fardo de não poder prejudicar sua própria raça, não chamando atenção para a brutalidade cometida contra ela.

Em momento algum a ideologia da liberação sexual problematizou o estupro ou lutou pelo fim da subordinação social e sexual das mulheres aos homens: sequer reconheceu esses problemas. As mulheres eram punidas por qualquer tipo de limites que quisessem estabelecer em suas relações.

A gravidez era um problema e um real obstáculo às demandas masculinas por sexo, e tornava as mulheres relutantes e preocupadas. Nessa época a pílula não era tão fácil de se conseguir e nenhum outro método era mais seguro ou acessível. Por mais que as mulheres tolerassem ou gostassem do sexo em que participavam, para elas as consequências eram dolorosas e sangrentas, enquanto que os homens perdiam apenas talvez dinheiro. As formas de convencer as mulheres a cooperarem era tratar a possibilidade da gravidez como “natural” ou prometer uma criação comunal das crianças. Ao invés das punições tradicionais, a mulher que engravidava era frequentemente abandonada. A liberdade para os homens era foder, e a foda terminava para os homens quando a foda acabava. O fato da gravidez era um poderoso antiafrodisíaco, e a visão das mulheres abandonadas tornou-as um pouco mais preocupadas.

Foi justamente a realidade da gravidez que fez do aborto uma prioridade política alta para os homens nos anos 1960. A descriminalização do aborto tornaria as mulheres totalmente acessíveis, e foi por isso que se tornou uma prioridade da esquerda na época. E foi aí que as mulheres que viviam políticas radicais na contracultura se voltaram ao feminismo.

Feministas apontaram que mulheres eram excluídas de grupos políticos simplesmente porque o cara com quem elas estavam saindo no momento não estava mais afim, ou ainda que em certos contextos as mulheres eram excluídas ou classificadas como puritanas porque não estavam dispostas a serem estupradas. Houve o reconhecimento de que os camaradas eram na verdade exploradores cínicos como qualquer outro explorador. Conversando, as mulheres descobriram que suas experiências eram idênticas, indo do sexo forçado à humilhação e ao abandono. Os homens queriam as mulheres para foder, não como companheiras de revolução.

Por conta disso, as mulheres resolveram formar seu movimento autônomo, que tinha como premissa central a ideia de que a liberdade das mulheres não é possível sem que ela tenha o controle absoluto sobre seu corpo, tanto no sexo quanto na reprodução. Isso incluía não apenas o direito ao aborto, mas também o direito de dizer não ao sexo. Para os homens, as feministas eram as estraga-prazeres, e desde então eles tem trabalhado para frear os avanços do movimento. O direito ao aborto era uma parte intrínseca e essencial aos homens na revolução sexual, a liberdade das mulheres não tinha a menor importância.

As feministas lutaram a batalha pela descriminalização do aborto praticamente sozinhas nos EUA. A partir de 1973, a indiferença masculina se transformou em hostilidade, uma vez que o direito ao aborto conseguido naquele ano não levou as mulheres a abrirem as pernas. Ideias a respeito de traumas sofridos no útero e psicologia fetal floresceram na esquerda sem qualquer influência de pastores de direita; posteriormente, a direita iria defender a proteção de óvulos fertilizados como se fossem pessoas. O argumento do aborto como arma genocida contra negros e outras etnias ganhou tração política, mesmo diante do fato de que são as mulheres negras e latinas as que mais morrem em abortos ilegais. Alguns pacifistas da esquerda comparavam o aborto com armas nucleares.

O fim da fodinha fácil mudou as prioridades na esquerda. Havia ressentimento entre os homens pelo fato de as mulheres terem se retirado da revolução sexual: se uma mulher não servia para foder, ela não existia. A esquerda trabalhou deliberadamente contra o direito ao aborto, seja se posicionando ativamente, seja ignorando completamente o assunto. Esses homens envelheceram e agora queriam ter os seus bebês. A gravidez compulsória era a única forma de assegurar que eles pudessem tê-los.

As mães das garotas dos anos 1960 pareciam sexualmente conservadoras e diziam que suas filhas iriam se machucar, mas não diziam como nem porquê. Para essas mulheres, o sexo era uma obrigação do casamento. Elas ensinavam suas filhas a respeitarem os homens enquanto classe e, ao mesmo tempo, a não fazer sexo com eles. Essas jovens não entendiam a ambiguidade dessa mensagem: as mulheres tentavam proteger suas filhas dos homens tentando direcioná-las para um único homem bom, ensinando-as a navegar pelo sistema de dominação masculina. Não havia vocabulário para explicar essa ambivalência do sexo — aceitável em alguns contextos como o casamento, mas não em outros. O silêncio a respeito do assunto por parte dessas mães era um jeito de evitar que suas filhas descobrissem que tipo de vida elas viviam.

Uma característica essencial da dominação masculina é manter as mulheres distraídas e ocupadas com os detalhes dela, impedindo-as de conversarem a respeito da natureza da força que as domina. Essas mães foram incapazes de deter a esperança e o entusiasmo trazidos pela liberação sexual — elas não podiam conversar e contar o que sabiam sobre a natureza e a qualidade da sexualidade masculina, dentro de sua própria experiência no casamento. O que essas mães sabiam sobre a promiscuidade é que o que um homem é capaz de fazer, dez também são. Suas filhas não sabiam o que os homens poderiam fazer com elas, mas elas não tinham nenhuma outra alternativa a oferecer. O repúdio que essas mães tinham do sexo não era visto como tendo uma causa objetiva.

As mulheres da direita cresceram em movimento político. O que elas têm a dizer a respeito do aborto está relacionado ao que elas sabem a respeito do sexo, e elas sabem algumas coisas horríveis a respeito. Elas viram os homens se utilizarem cinicamente do aborto para tornarem as mulheres mais acessíveis. Depois que o aborto foi legalizado, elas viram um movimento social em direção à ampliação do acesso sexual às mulheres sob os termos da dominação masculina expresso na pornografia — e relacionam as duas coisas. Elas acreditam que o que a direita tem a oferecer é um pouco menos cruel.

As mulheres da direita acreditam que a promiscuidade generaliza, enquanto que o casamento contém, a força destruidora dos homens — um de cada vez. Elas continuam silenciosas a respeito da natureza do sexo dentro do casamento tradicional, mas o que elas falam se baseia em experiência real. As mulheres da direita também acreditam que a gravidez é a única consequência do sexo que torna os homens responsáveis pelos seus atos sobre elas, e é por isso que se opõem ao aborto e aos anticoncepcionais. Sem a inevitabilidade da gravidez, se ampliariam as crueldades que os homens poderiam fazer às mulheres.

As mulheres da direita enxergam o cinismo dos homens da esquerda, e sabem que as posições políticas deles são sempre congruentes com o sexo que eles querem. Elas também sabem que as mulheres podem se foder querendo ou não nas mãos deles, e fazem o melhor acordo de que são capazes dentro de suas possibilidades. A gravidez é uma arma de sobrevivência dessas mulheres. Ela confirma, assim, o que aprendeu a respeito de sua própria natureza enquanto mulher: que ela merece ser punida, e que a punição por fazer sexo é o aborto ilegal. Elas se sentem envergonhadas porque é mesmo vergonha o que se sente quando se é usada para sexo. Uma vez que a vergonha confirma a sua culpa, o aborto ilegal é um sofrimento merecido.

Aborto, sendo ilegal, fica fora do campo de visão das mulheres de direita. Tira da visão delas a opção de escolher não ser uma mãe, a opção de não conformidade ao casamento. As mulheres rebeldes devem fazê-lo em segredo, sem causar confusão em outras mulheres. Sendo ilegal, o aborto coloca a vida e a morte nas mãos de Deus, o homem superior e juiz absoluto. Nenhuma mulher deve ser obrigada a encarar o aborto, até que aconteça com ela. Mulheres que realizam o procedimento e recusam a maternidade, segundo as mulheres da direita, merecem morrer. As mulheres da direita seriam, portanto, mártires, sobreviventes e preocupadas individualmente com a sua própria sobrevivência.

Não existe medida melhor para se calcular o que o sexo forçado faz às mulheres. O estupro destrói a autoestima e a vontade de sobreviver enquanto ser humano autodeterminado. O treino da feminilidade sobre as meninas e o uso sexual das mulheres no casamento significa a aniquilação de qualquer vontade de liberdade nelas. Seu senso de personalidade está tão danificado que ela prefere correr o risco de morrer a dizer não a um homem que vai fodê-la de qualquer modo, com a benção de Deus e do Estado, até que a morte os separe.

Categories
Artigos inéditos Resumos

A Promessa da Extrema-Direita para as Mulheres [RESUMO]

Adaptado de: DWORKIN, Andrea. “The Promise of the Ultra-Right”. In: Right-Wing Women. Nova York: Perigee Books, 1983. P. 13-35.


Andrea Dworkin, autora de Right-Wing Women.

Socialmente, as ações de homens e mulheres são valoradas de forma diferente, sempre colocando mulheres em posições subjugadas. Elas são vistas, portanto, como “biologicamente conservadoras”. A ideia de que mulheres têm filhos porque por definição mulheres podem ter filhos, tomada como fato, pensa o ato de ter filhos (e as obrigações que vêm com isso) como instintivo e inerente às mulheres. Se o estado atual de coisas é supostamente mais seguro para as mulheres terem filhos, então isso seria melhor que os potenciais perigos da mudança.

Segundo os homens que filosofaram sobre o assunto, o imperativo biológico devido ao potencial reprodutivo das mulheres se traduz em mentes estreitas, vidas sem muito significado e, por conseguinte, puritanismo. Resultado dessa ideia: mulheres obrigadas a terem filhos, com exceção de alguns curtos intervalos onde os homens ficam meio desorientados — o exemplo dado no texto é o que resulta do sexo depois de certas revoluções.

Mulheres de todo o espectro político apoiaram conflitos onde seus filhos acabam mortos. Essa contradição mostra como a realidade das mulheres vai contra as teorias criadas sobre elas. Mas as mulheres enquanto classe acabam aderindo a normas e tradições de seu contexto social; se rebelar ao credo dos homens em volta delas é perigoso. A aquiescência das mulheres se dá em razão de conseguir alguma proteção da violência masculina para si mesmas.

Às vezes, essa conformidade é militante: provando sua fidelidade a estes princípios, ela pode encarnar a puta feliz ou a puritana fervorosa. Isso raramente a salva, contudo. Mas reconhecer essas traições dos homens pode ser o prego no caixão dessa mulher: confrontar a violência pode levar a mais violência. A luta é sempre contra “algo pior” que sempre tem a possibilidade de ocorrer, e a maioria das mulheres não tem condições de se dar ao luxo de reconhecer que não existe nível suficiente de lealdade aos homens.

Geralmente, as mães criam suas filhas para se conformarem aos valores ideológicos dos homens à sua volta, independente de orientação política. A maioria das meninas não quer a vida da mãe, mas às vezes acaba se conformando dada a violência masculina à volta dela. Mesmo quando se rebela, a filha acaba reproduzindo os padrões de sua mãe, e assim os homens acabam conseguindo atar mulheres em seu lugar de subjugação através de culpa e ressentimento.

Os homens sempre criam “tipos” de mulheres para odiarem e fazerem piadas internas. A caricatura da “mulher burguesa”, megera vaidosa que abusa da paciência do marido bondoso, por exemplo, está na boca de todos eles independente de classe social. Falar mal desse espantalho de mulher é instantaneamente gratificante aos homens. Outros tipos desses são a mãe judia castradora, a mulher negra matriarca raivosa, a lésbica que na verdade é frustrada porque queria ser um homem etc.

A maior piada entre os homens e a maior ofensa a uma mulher é reduzi-la ao seu sexo: a mulher é uma boceta, é um útero, e todo o resto do seu corpo (principalmente o que o caracteriza como humano) é cortado fora como inútil. A obcenidade favorita entre os homens é esse ser desmembrado.

Toda mulher, independente de sua condição, luta contra isso com todos os recursos de que dispõe, e eles são muito poucos. Por causa disso, elas sempre se agarram com todas as forças às próprias estruturas de poder que as degradam. É uma fidelidade cravada no auto-ódio, e é isso que define a própria feminilidade no contexto da dominação masculina.

O medo que Marilyn Monroe tinha de atuar a paralisava, independente de ela se saber capaz disso. No entanto, a atuação da atriz se dá dentro das espectativas dos homens que controlam os processos do audiovisual. O medo de Marilyn Monroe poderia estar ligado ao fato de ela mesma não estar convencida do papel de mulher que deram para que ela representasse. A morte de Monroe provocou nos homens que fizeram uso sexual dela ou de suas imagens o questionamento de que talvez ela não gostasse de todas as coisas que eles faziam a ela — é daí que viriam, talvez, os rumores de que ela poderia não ter se matado. A ilusão dela enquanto mulher ideal era encantadora demais para esses caras.

Mulheres morrem sozinhas e solitárias, sorrindo até o momento final, tentando encarnar a fantasia masculina que se coloca sobre elas. Talvez se elas fossem a mulher perfeita — esposa perfeita, puta perfeita, mãe perfeita —, talvez não sofressem tanto. Elas morrem não insatisfeitas com o que fizeram com elas, mas por não terem conseguido encarnar o papel imposto a elas pelos homens. Sua própria sobrevivência depende disso.

A sobrevivência das mulheres, portanto, é prometida em troca de sua conformidade com as correntes que as prendem. Elas não podem fazer nada que as destaque individualmente, que chame atenção predatória sobre si. Elas acabam esperando que essa atenção masculina destruidora caia sobre outra mulher, menos hábil em se conformar, que não elaa.

As histórias de violência sobre as mulheres são dispensadas e ridicularizadas como se fossem nada até mesmo por aqueles que dizem se importar. Para reconhecer a realidade e a validade das queixas das mulheres é preciso antes reconhecer a existência daquela pessoa. Nem homens nem mulheres acreditam da existência das mulheres enquanto seres dignos. Se as mulheres negam a validade de sua própria experiência vivida, elas não têm como reagir.

Para buscarem seu próprio valor, as mulheres acabam se aliando aos homens e aos seus valores. E se os homens demandam obediência delas, elas irão valorar sua própria existência enquanto servas deles, e não irão reconhecer o roubo da sua dignidade realizados por eles.

A direita nos EUA atua sobre as mulheres através da propagação do medo de que a violência masculina é imprevisível e incontrolável. Sua promessa se baseia na restrição dessa violência oferencendo:

  • Forma: os homens moldam as mulheres através da ignorância, do não cultivo de suas capacidades físicas e intelectuais.
  • Abrigo: a direita promete proteger as mulheres através da crença de que uma mulher sem um homem (ou sem uma família, um lar) está completamente à mercê dos perigos da vida.
  • Segurança: em um mundo indubitavelmente violento com mulheres, a direita promete que, se a mulher se comportar direito nenhum mal cairá sobre ela.
  • Regras: ignorantes em um mundo construído por homens, mulheres devem seguir regras para bem viver; a direita promete a elas um bom comportamento da parte dos homens, mas sem nenhuma garantia.
  • Amor: o conceito de amor é crucial na aliança das mulheres; uma mulher será amada (e recompensada com a proteção do homem ou de deus, sendo Jesus o único homem a quem ela pode se submeter sem medo de ser violada) se for obediente em cumprir suas funções de mulher (maternidade e servitude sexual).

Jesus jamais é enxergado como um filho perfeito, ele é apenas uma outra encarnação do deus-pai. E as mulheres passam a vida tentando agradar esse homem ideal, sofrendo com seu próprio apagamento no processo. Jesus é o modelo de homem perfeito que as mulheres devem projetar sobre todos os outros, e através do qual as mulheres perdoam as faltas e abusos deles. As mulheres também são levadas a creditar ao próprio espírito santo qualquer lampejo seu de inventividade intelectual.

O casamento é a esfera onde, com a força da religião, as mulheres devem tolerar a servidão e levantar as barreiras de sua resistência. O desejo de servir Cristo leva as mulheres à conformidade e a realizarem as vontades de seus maridos. E a autoridade paterna sobre os filhos é o que justifica algum grau de violência física dentro da família e da vida doméstica.

Essa tentativa de se tornar perfeita aos olhos dos homens e de deus pode levar as mulheres a se verem e agirem como “one of the boys“. Assim, mulheres acabam lutando contra seus próprios interesses na tentativa de alcançar suas ambições individuais. Porém, eventualmente elas acabam descobrindo que são também mulheres e não têm acesso aos altos escalões. Mas é através da manipulação dessa habilidade desenvolvida nas mulheres de respeitarem aqueles que as usam que muitas dessas advogadas do antifeminismo conseguem converter outras mulheres à direita.

As mulheres da direita temem as lésbicas. A fantasia que elas criam entorno das lésbicas é que elas são estupradoras e abusadoras de crianças, independente da falta de qualquer evidência para embasar isso. O abuso cometido pelos homens acaba normalizado por ser heterossexual, enquanto que o desejo homossexual das mulheres é visto como monstruoso.

O aborto para as mulheres da direita, uma vez que elas abdicam de seu próprio valor, valorando mais um óvulo fertilizado que uma mulher adulta, é equivalente ao assassinato de crianças. Os fatos sobre o aborto — realizado principalmente por mulheres mais velhas com filhos, e que a ilegalidade do procedimento leva muitas à morte — não as convencem. O aborto seriam então um ato de mulheres cruéis e sem deus, o exato oposto delas mesmas. O reconhecimento do direito ao aborto seria, portanto, o reconhecimento da desigualdade de condições da mulher que é obrigada a parir um filho indesejado. Reconhecer que mulheres não queiram parir filhos indesejados é devastador para essas mulheres.

A direita americana é um movimento social e político quase que controlado totalmente por homens, mas contruído sobre a ignorância e os medos das mulheres, ambos consequências da dominação dos homens. Os sentimentos conflitantes, resultados dessa experiência de dominação, acabam projetados em outros, em estrangeiros, nos diferentes, não não-cristãos. Isso pode resultar em nacionalismo, racismo, homofobia e desprezo por aquelas mulheres que não tiveram tanta sorte — grávidas na adolescência, mulheres prostituídas etc.

Elas se apegam a esses ódios irracionais temendo danos aos seus, e projetando o medo em um “mal maior”. Uma vez não têm meios de externar essa raiva, acabam se tornando odiadoras obedientes e manipuláveis. Esse comprometimento com sua própria sobrevivência individual leva mulheres a não reconhecerem que estão jogando contra si mesmas. Com sorte, sua própria experiência da realidade pode levá-las a questionar sua posição inferior. Independente das crenças ideológicas de origem masculina que as mulheres possam adotar, essa é uma luta compartilhada por mulheres de todo o espectro político.

Categories
Traduções

Sadomasoquismo: O Culto Erótico do Fascismo

Comentário da autora: Esse artigo foi escrito em 1984, quando eu [Sheila Jeffreys] fazia parte do grupo Lésbicas Contra o Sadomasoquismo em Londres. As feministas lésbicas na Grã-Bretanha sabiam dos desenvolvimentos do sadomasoquismo lésbico nos Estados Unidos, mas nenhum grupo havia se reunido no entorno deste assunto até que o novo London Lesbian and Gay Center concordou que sadomasoquistas deveriam ser aceitos lá. Os eventos dessa época são descritos no capítulo “A Pale Version of the Male” no livro The Lesbian Heresy. O artigo foi originalmente escrito para uso do próprio grupo, e também foi distribuído em forma de fotocópias para outras lésbicas interessadas. Ele não deve ser considerado uma afirmação definitiva das políticas do grupo, mas uma visão individual. Em 1986 ele foi publicado na Lesbian Ethics nos Estados Unidos.


Cartaz do filme The Night Porter (1974). Arte de Liliana Cavani.

Soube das ligações entre o sadomasoquismo e o fascismo em 1981, quando visitei Amsterdam vinda de Londres para participar de um festival de mulheres. Um tema importante do festival, senão o principal, era o sadomasoquismo. As mulheres do festival de Amsterdam demonstravam cenários sadomasoquistas, por exemplo, um homem transexualizado chicoteando uma mulher, ambos vestidos em roupa fetichisticamente “feminina” e couro negro. Um número considerável de mulheres no festival estava vestida de couro negro, e algumas usavam coleiras e guias enquanto eram conduzidas por outras mulheres. As oficinas que promoviam o sadomasoquismo argumentavam com base na liberdade pessoal para as minorias sexuais. Os seus promotores argumentavam que o sadomasoquismo era basicamente um assunto privado, ainda que os praticantes de sadomasoquismo tivessem que “sair do armário” por serem oprimidos por preconceito e discriminação contra as práticas sexuais de sua preferência.

Na mesma semana em que o festival aconteceu, o primeiro membro fascista do parlamento foi eleito em Amsterdam desde a guerra. Houveram brigas de rua naquele fim de semana nas quais fascistas celebraram batendo em membros da população imigrante de Amsterdam, e uma rede de contatos por telefone teve de ser operada para distribuir os antifascistas a diferentes partes da cidade para resistirem à violência racista. As feministas de Amsterdam que me contaram da violência e do triunfo eleitoral não viam nenhuma conexão entre o aumento do fascismo e a promoção do sadomasoquismo como uma prática sexual. Elas aceitavam que o sadomasoquismo era simplesmente uma questão pessoal. Eu não estava convencida. Uma importante estação policial de Amsterdam ficava na mesma rua do prédio onde aconteceu o festival, o Melkweg. Fora do prédio do festival havia um poster gigante de uma mulher nua com suas mãos amarradas às costas. A mulher escrava estava do lado oposto da estação policial. Ela não me parecia representar um símbolo de provocação. Parecia mais que o sadomasoquismo, a polícia, a crescente ameaça fascista, os meninos adolescentes que jogaram pedras em mim e em minha namorada por andarmos de mãos dadas na rua depois do festival, tinham muita coisa em comum. Qual era o fio que os ligava?

Berlim nos anos 1930

Existe um exemplo histórico da conexão entre sadomasoquismo e fascismo que ignoramos, e que nos prejudica. Antes de os nazistas dominarem na Alemanha em 1933, o sadomasoquismo estava florescendo e crescendo enquanto prática sexual, particularmente entre homens gays. Christopher Isherwood, um novelista britânico gay que viveu em Berlim naquela época, deixou um registro escrito dos flertes com o sadomasoquismo que estavam acontecendo não apenas entre os gays, mas também entre a juventude alienada e desempregada da Alemanha. Em um livro de 1962, Down There on a Visit, Isherwood discorreu sobre as conexões entre o sadomasoquismo e o crescente fascismo em suas descrições de um jovem alemão, Waldemar.

Tenho certeza que Waldemar instintivamente sente a relação entre as cruéis senhoras vestidas de botas que costumavam frequentar seu comércio fora da Kaufhaus des Westens e os jovens valentões em uniformes nazistas que estavam lá naqueles dias agredindo os judeus. Quando uma senhora dessas reconhecia um cliente promissor, ela costumava arrastá-lo, puxando-o para um táxi e o batia com um chicote. Os garotos da SA não fazem exatamente a mesma coisa com os seus fregueses — exceto que, nesse caso, o chicoteamento é fatal? Um não era uma espécie de ensaio psicológico para o outro? [1]

Martin Sherman usa o sadomasoquismo como um tema subjacente importante em sua poderosa peça chamada Bent. A peça abre com o personagem principal, Max, pegando e levando para casa consigo, presumivelmente para sexo a três com seu amante, um jovem homem vestido de couro que praticava sadomasoquismo. Na manhã seguinte, os oficiais da Gestapo chegam à procura do jovem alemão e cortam sua garganta. O ano é 1934. Max e seu amante estavam então foragidos. Depois que seu amante foi morto, Max acabou em um campo de concentração. Na cena mais comovente da peça, Max e um companheiro de cela, que estava no campo porque assinou uma petição que repelia o estatuto alemão contra a homossexualidade, interagem sexualmente apenas conversando, enquanto moviam pedras sob vigilância pesada. Max é incapaz de fazer sexo sem dor e inclui mordidas dolorosas nos mamilos durante a fantasia falada. Horst, o amante, reclama e relaciona o sadomasoquismo com o fascismo que os aprisionou.

Horst: …Você tentou me machucar. Você me conforta, e então me machuca. Já estou machucado o suficiente. Não quero mais sentir dor. Por que você não pode ser gentil?
Max: Eu sou gentil.
Horst: Não, você não é. Você é como eles. Você é como os guardas. Você é igual a Gestapo. Nós paramos de ser gentis. Eu observei, enquanto estávamos lá fora. As pessoas fazem dor e chamam de amor. Eu não quero ser assim. Não se faz amor para machucar. [2]

A peça relaciona o sadomasoquismo de Max à sua inabilidade de aceitar sua homossexualidade e realmente amar outro homem. Ao fim da peça, embora Horst seja morto, Max alcança algum tipo de triunfo moral e pessoal ao demonstrar que ele ama Horst, ao deliberadamente vestir o triângulo rosa dos homossexuais e caminhar em direção à cerca elétrica.

A tragédia da prática sadomasoquista nos anos 1930 em Berlim era que os cenários que os homens gays estavam encenando para seu desfrute sexual, complementados com os uniformes nazistas, eram apenas uma antecipação da grande violência que cairia sobre eles, vinda dos valentões fascistas, quando esses homens gays foram internados em campos de concentração. A experiência dos homens gays nesses campos é graficamente descrita no livro de Heinz Heger, The Men with the Pink Triangles. Um exemplo de tortura e morte de um prisioneiro gay é interessante pela forma com que esclarece como funciona a prática sadomasoquista.

O primeiro “jogo” que o sargento da SS e seus homens faziam era fazer cócegas em suas vítimas com penas de ganso, nas solas dos seus pés, entre suas pernas, nas axilas e em outras partes de seu corpo nu. A princípio, o prisioneiro se forçava a manter o silêncio, enquanto os seus olhos se contraíam de medo e tormento, olhando de um homem da SS para o outro. Até que ele não podia mais se conter e finalmente explodia em uma risada aguda que logo se transformava em um choro de dor, enquanto lágrimas escorriam de seu rosto, e seu corpo se retorcia contra as correntes…
Mas os homens depravados da SS estavam prontos para se divertir ainda mais com a pobre criatura. O chefe do bunker trouxe duas tigelas de metal, uma cheia de água fria e outra com água quente. “Agora nós vamos cozinhar seus ovos, sua abominação suja [filthy queer, no original], logo logo você vai estar quentinho”, disse o oficial do bunker alegremente, levantando a tigela de água quente entre a virilha da vítima de modo que suas bolas fossem mergulhadas nela…
“Ele é um fodido, não é?, que tenha o que tanto quer”, rosnou um dos homens da SS, pegando uma vassoura que ficava no canto e enfiando o seu cabo no ânus do homem… [3]

Eventualmente o homem foi morto ao ser atingido na cabeça por uma pá de madeira.

As descrições a seguir são de um capítulo de uma cartilha lésbica sobre como praticar sadomasoquismo com segurança.

Fisting ou fistfucking significa mover a mão inteira dentro ou para dentro para fora da vagina ou do reto de alguém. A introdutora começa colocando um ou dois dedos dentro de sua parceira, colocando um dedo de cada vez, e dentro de alguns minutos o movimento estimulatório entre eles aumenta, até que ela coloca toda a sua mão lá dentro, até que os dedos se curvem para preencher o espaço, formando um “punho”. Neste ponto, a inclinação usual da pessoa que está recebendo a ação é pedir “dá para colocar mais?”
A primeira coisa a se fazer antes de qualquer fisting é manter as unhas curtas e sem rebarbas. Suas unhas devem ser cortadas bem rentes, e então polidas com uma lixa ou lima, polindo tanto as laterais quanto das costas das mãos ao lado da palma. Também é importante utilizar um bom e espesso lubrificante que não se transforme em uma poça de água em cinco minutos, óleo é bom. Deve-se cobrir a mão de forma espessa com óleo sem passar do ponto em que encaixe muito facilmente… [etc]
O modo de se gotejar cera de uma vela de forma segura é deixar uma gota ou duas cair por vez, ao invés de deixar cera derretida acumular em volta da base do pavio e espirrar na pele de sua parceira tudo de uma vez… [etc.] [4]

Incluí as duas práticas acima porque elas se aproximam bastante de replicar os métodos de tortura usados nos exemplos da vida real dos campos de concentração. (Outras instruções incluem como cortar os seios de uma mulher com lâminas e como perfurar seus lábios vaginais.) Elas deixam claro que a prática sadomasoquista vem de nenhum lugar menos misterioso que a própria história da opressão bastante real que sofremos. Os cenários sadomasoquistas reencenam a tortura dos gays pelos fascistas bem como a tortura dos negros pelos brancos, dos judeus pelos nazistas, das mulheres pelos homens, dos escravos pelos senhores. Tais práticas podem ser vistas como rituais performáticos, como um talismã. Uma vez que parece improvável que os praticantes gays do sadomasoquismo realmente desejem ser torturados de forma inteiramente fora de seu controle, parece provável que tais práticas cumpram o papel do alho para espantar o demônio, ou sejam simplesmente uma antecipação ansiosa do que pode acontecer de pior para que se acostume-se a ele.

Ambientação fascista

Os proponentes do sadomasoquismo geralmente são bastante abertos a respeito de seu uso de símbolos e fantasias fascistas e nazistas, por exemplo os quepes de couro negro da SS, suásticas, uniformes e sobretudos de couro parecidos com os da SS. Assim explica Pat Califia, principal teórica do sadomasoquismo nos Estados Unidos:

Uma cena sadomasoquista pode ser feita usando as personas do guarda e do prisioneiro, do policial e do suspeito, do nazista e do judeu, branco e negro, homem hétero e queer, pais e filhos, padre e penitente, professor e estudante, puta e cliente etc. Entretanto, nenhum destes símbolos têm um único significado. Seu significado é derivado do contexto onde é utilizado. Nem todo mundo que porta uma suástica é nazista, nem todo mundo que tem um par de algemas em seu cinto é um policial, e nem todo mundo que usa um hábito de freira é católico. O sadomasoquismo é mais uma paródia da natureza sexual oculta do fascismo do que uma adoração ou uma aquiescência a ele. Quantos nazistas, policiais, padres ou professores reais estariam envolvidos em uma cena sexual kinky? [5]

A resposta para a ingênua pergunta de Califia é, claro, um bom tanto de gente. Pelo menos uma membra do grupo de apoio ao sadomasoquismo lésbico de Londres foi vista usando um quepe da SS e suásticas em eventos sociais. Ela foi questionada a respeito do fato de esses símbolos serem ofensivos a muitas mulheres e respondeu com ameaças de violência a qualquer outra crítica feita.

No começo de 1984, skinheads gays foram à uma festa gay na discoteca Bell em Kings Cross. Um deles fez uma saudação nazista abrupta direta e deliberadamente dirigida à face de um homem gay negro na pista de dança, e três deles seguiram um homem negro gay portador de deficiência ao banheiro e o ameaçaram. Um homem gay branco puxou o som da tomada para que se discutisse a respeito do incidente e se tomasse alguma atitude. Ele foi expulso e barrado da discoteca. Este era um clube que supostamente fazia parte da cena gay alternativa, política ou pelo menos não-comercial. Os skinheads eram clientes regulares. O organizador nacional do Young National Front também apareceu no Bell e foi expulso quando tirou sua jaqueta e revelou suásticas. O coletivo do Bell e outros coletivos que gerenciavam clubes tiveram de instituir normas de vestimenta, isto é, sem suásticas ou camisetas “Hitler’s European Tour”, mas o uniforme de couro foi aceito.

Mas, diriam os proponentes do sadomasoquismo, somente usamos insígnias nazistas por diversão e não gostaríamos de ser associados a comportamentos violentos. Até é possível, mas como os outros gays vão saber a diferença? O medo será igual independente de as suásticas serem usadas por “diversão” ou perseguição. No que diz respeito à suásticas, a diversão de uma mulher é o terror de outra. Os fascistas obtêm exatamente o mesmo tipo de diversão ao usarem suásticas que os proponentes do sadomasoquismo, o poder conseguido a partir do medo e da angústia de outra mulher. Um perigo sério que resultará da tolerância ao simbolismo nazista na cena gay, sob a guisa de “diversão”, prática sexual, ou moda, é a paralisia da nossa vontade ou habilidade de agir em face de violência fascista real. É tão importante combater e rejeitar o uso irônico de emblemas nazistas agora tanto quanto o era na Alemanha nos anos 1920 e 1930, quando o fascismo tomou conta. Os indubitavelmente antifascistas de então que questionaram as suásticas encontraram os mesmos tipos de ameaças que os proponentes do sadomasoquismo já fazem quando seu prazer é questionado. O nazismo era a moda daqueles tempos?

O sadismo do fascismo alemão

Um dos termos usados para ofender as feministas em Londres que estavam realizando um encontro para questionar a promoção do sadomasoquismo era “fascistas”. As feministas lésbicas eram acusadas de serem “exatamente iguais ao Front Nacional” por ousarem realizar tal encontro. Essa linha de ataque, que se assemelha às tentativas atuais dos libertários sexuais socialistas de rotular feministas como de direita, é feita com base em um pressuposto de que as políticas fascistas seriam opostas ao sadomasoquismo. Na realidade o oposto é verdadeiro, e essa acusação é um bom exemplo do que Mary Daly chama de “reversal patriarcal”. [6]

Dorchen Leidholdt, do grupo Mulheres Contra a Pornografia de Nova York, em um artigo esclarecedor, Where Pornography Meets Fascism, explica a extensão do papel que o sadomasoquismo erótico cumpria enquanto esteio da ideologia e da prática fascista.

Hitler adotou o chicote como seu símbolo pessoal, por exemplo, e quando exaltado geralmente batia com ele em suas próprias pernas. Ele sentia muito prazer ao citar a máxima de Nietzsche, “Vais encontrar mulheres? Não esqueças teu chicote!” Talvez o mais revelador a respeito da resposta sexual de Hitler às mulheres era o seu deleite em assistir mulheres parcamente vestidas arriscarem suas vidas. Em The Psychopathic God, Waite aponta, “Ele apreciava particularmente assistir belas mulheres em um circo no alto do trapézio e fortemente amarradas… Ele não se impressionava particularmente com atos de animais selvagens a menos que mulheres bonitas estivessem envolvidas. Ele então assistia avidamente, sua face avermelhada, sua respiração logo vinha em assovios enquando seus lábios trabalhavam avidamente.” O sadismo de Hitler direcionado às mulheres provavelmente tinha algo a ver com seu histórico ruim de relações românticas: das seis mulheres com quem ele se envolveu romanticamente durante sua vida, cinco cometeram ou tentaram suicídio.
O sadomasoquismo também caracterizava as interações de Hitler com seus subordinados imediatos — “Toda vez que o encaro”, relembra Hermann Goering, “meu coração vai parar nas calças” —, bem como sua relação com o povo germânico como um todo. Eric Fromm apontou que a orientação sadomasoquista de Hitler jogava com a subordinação sadomasoquista das massas alemãs, seu desejo de ser dominado por um líder poderoso enquanto domina outros. Hitler estava bastante consciente desse teor dos tempos e das pessoas que ele governava. Em um discurso aos cadetes do exército alemão em 1942 ele declarou, “Por que resmungar a respeito da brutalidade e se indignar com a tortura? É isso que as massas querem. Eles precisam de algo que lhes dê um terror emocionante?” [7]

Leidholdt parece sugerir que o povo alemão tinha uma tendência particular para o sadomasoquismo. Toda a evidência disponível iria sugerir que toda a supremacia masculina está imbuída na mesma tendência. Mas as suas observações nos forçam a considerar a extensão com que o apelo do fascismo e do próprio racismo são abastecidas pelo erotismo. Ela prossegue apontando que Jacobo Timerman, um argentino judeu torturado por direitistas, descreveu o antissemitismo argentino como tendo um caráter erótico e sádico: “o ódio aos judeus era visceral, explosivo, um relâmpago sobrenatural, um excitamento das tripas, o senso de um ser inteiro abandonado ao ódio.” [8]

Em virtude de algum processo misterioso, tudo o que diz respeito ao sexo nesta sociedade tem sido separado da política até mesmo por aqueles que se consideram a si mesmos socialistas e radicais. Na tentativa de tornar a prática sexual um enclave privado de deleite individual, de alguma forma a sexualidade tem sido vista como removida dos efeitos do sexismo, do racismo, e de qualquer opressão que acontece no mundo fora do quarto, e se considera que ela não tem qualquer efeito ou relevância neste mundo. Na verdade, o sexo cumpre um papel crucial ao abastecer e regular a opressão das mulheres e a opressão racista. Não há nada puro a respeito do sexo ou de qualquer outra coisa que possa justificar uma exceção especial da crítica política.

Os promotores do sadomasoquismo chamam suas oponentes feministas de fascistas com a intenção de nos evitar, para nos calar, para dificultar que apontemos as ligações entre o sadomasoquismo e o fascismo. Eles devem saber que estão em uma posição exposta e acusam de “fascista” desesperadamente, na intenção de que nós não depositemos tais acusações sobre eles.

Seriam fascistas os proponentes do sadomasoquismo? Eles provavelmente não são membros de organizações fascistas e não se importam com nenhum aspecto do fascismo fora da sua esfera erótica. Eu diria que a maioria deles não é fascista, ainda que experienciar prazer ao aterrorizar outras lésbicas ao vestir iconografia fascistas se aproxime bastante disso, mas sim são promotores de valores fascistas. A erotização da dominação e da submissão, a glamourização da violência e da opressão dos gays, judeus e mulheres, é do que o fascismo é feito.

As raízes eróticas do fascismo

Qual o principal apelo do fascismo? O sistema político do fascismo oferece aos capitalistas uma forma de manter seus lucros sem qualquer ameaça de resistência da classe trabalhadora. A violência e o racismo do fascismo oferecem aos desiludidos e desempregados, aos jovens e alienados, um bode expiatório para os seus problemas em uma forma substituta de “satisfação” e excitamento. Oferece-lhes comícios, um sentimento de poder (assédio), orgulho nacionalista e um auto-respeito espúrio baseado na ideia de que se se é branco, homem e gentio, ao menos se é superior a outros grupos raciais e às mulheres. Sem dúvida há muitos outros mecanismos operando conforme o fascismo e seus valores tomam conta. Um deles inclui o excitamento do erotismo. As raízes eróticas do fascismo não têm recebido muita atenção, talvez porque exijam uma avaliação bastante assustadora da nossa própria sexualidade.

Para entender as raízes eróticas do fascismo é necessário realizar uma análise um tanto diferente e mais complexa do fascismo que a versão simplista geralmente empreendida pelos homens de esquerda. É errado assumir que o fascismo é uma força do mal que existe em algum lugar já completamente desenvolvida no mundo lá fora, que ele é facilmente reconhecível e chegará de repente, de forma óbvia, chamando-se a si mesmo de fascismo e em uma forma que seja facilmente desafiada. Esse foi, penso, o erro conceitual atrás de muito do trabalho antifascista de meados dos anos 1970. A Liga Anti-Nazi confrontou, de maneira bem sucedida, as organizações claramente fascistas. Embora estes partidos estejam atualmente adormecidos conforme o governo conservador na Grã-Bretanha faz muito de seu trabalho para eles, as pessoas envolvidas na política de esquerda podem acreditar que o uso de suásticas por pessoas que não são membros dessas organizações não é importante. Mas o fascismo não cai do céu pronto na forma de organizações fascistas. Partidos fascistas necessitam de apoio amplo, ou pelo menos tolerância para serem bem sucedidos. Membros de partidos não nascem fascistas, e às vezes são homens e mulheres que foram socialistas. Oswald Mosley é o exemplo britânico mais famoso desse fenômeno. O jovem Isherwood descrevendo que esteve em um partido nazista em um dia e no partido comunista no próximo, levado pela sedução das oportunidades para a violência e pelos sentimentos de poder pessoal, é outro exemplo.

Houve um tempo, no final dos anos 1960 e início dos 1970, em que os radicais de esquerda falavam sobre as raízes psicológicas e emocionais do fascismo em todos os que viviam sob uma sociedade supremacista masculina. Wilhelm Reich era lido avidamente. Artigos eram escritos sobre a formação da personalidade autoritária dentro da família patriarcal e sobre a necessidade de se criar um modo completamente novo de se viver que reduziria a atração por figuras do tipo do fuehrer. A análise era parcial porque não havia muita consideração a respeito da opressão das mulheres para além da simples crença de que a eliminação da família nuclear resolveria todos os problemas das mulheres. Mas havia um entendimento de que as raízes emocionais do fascismo são imbricadas nas nossas personalidades a partir de um tipo de estrutura familiar na qual nós nascemos e pelos tipos de autoridade aos quais nós somos submetidos ao longo da infância e do nosso crescimento. Esse era um entendimento de crucial importância, e seus frutos existem hoje nas novas atitudes em relação à criação das crianças, na organização política dentro do feminismo, e em algumas partes da esquerda e do movimento gay. Esse entendimento da importância das políticas pessoais, na base na qual o movimento de libertação das mulheres foi formado, parece agora cada vez mais impopular. Estou convencida, mas pode ser que seja ilusão, de que o significado do uso de suásticas poderia ser claro em 1971 de um modo que hoje não é mais.

As raízes eróticas do fascismo residem no modo pelo qual a sexualidade sob a supremacia masculina é estruturada nos indivíduos. Porque a supremacia masculina ocidental encoraja-nos a experienciar a sexualidade como uma força imensamente poderosa e quase incontrolável, o aspecto erótico do fascismo tem grande significado. Nós não aprendemos a expressar-nos sexualmente em um mundo de relações igualitárias e amorosas. Mulheres e homens nascem dentro de um sistema heterossexual de dominação masculina e submissão feminina. Isso é verdade independente de sermos capazes de escapar o suficiente disso para amar mulheres. A sexualidade na infância é construída através de interações com garotos agressivos puxando as calcinhas das meninas e através de abuso sexual e exploração por parte de homens adultos. Os modelos oferecidos a nós de sexualidade feminina são os de passividade e submissão. Somos ensinadas a responder sexualmente a investidas agressivas dos homens. Muitas lésbicas tem dificuldade em aprender qual a resposta feminina correta à sexualidade submissa dócil aos homens, todavia não emergimos facilmente incólumes da construção da sexualidade feminina no entorno do sadomasoquismo. Vivemos sob opressão e onde não há virtualmente nenhuma forma de escapar, pelo menos até atingirmos uma idade avançada, em direção a relacionamentos igualitários nos quais tomamos iniciativas sexuais, temos pouca alternativa além de nos aprazer de nossa opressão. A resposta mais comum é a de erotizar nosso desempoderamento no masoquismo. Para algumas mulheres que vêm isso como muito “afeminado”, o papel de humilhar mulheres pode ser utilizado no sadismo — os modelos para isso em uma cultura que odeia mulheres estão em todo lugar.

Lésbicas e gays sofrem pressões particulares que podem levar à posse de uma sexualidade construída no entorno do sadomasoquismo. Como resultado do heterossexismo e do anti-lesbianismo, frequentemente crescemos odiando a nós mesmos e particularmente a nossa sexualidade. É difícil para nós construir uma sexualidade própria que seja positiva, igualitária e livre de conotações sadomasoquistas. Algumas lésbicas e gays não conhecem nenhuma outra sexualidade além das fantasias sadomasoquistas que influenciam sua prática, ainda que possam evitar agir dentro do ritual sadomasoquista. Qualquer questionamento do sadomasoquismo é sentido por algumas dessas lésbicas e gays como uma ameaça séria. Eles se enxergam como não tendo nenhuma alternativa de prática sexual se tiverem de abandonar essa que é baseada na erotização da opressão. Mas existe, no nosso próprio entendimento de que a sexualidade é algo construído e não dado, uma mensagem de esperança. Podemos reconstruí-la. Existe espaço para otimismo. Algumas lésbicas e gays são bem pouco afetados pelo sadomasoquismo, e são capazes de praticar um tipo diferente de sexualidade. Até mesmo aqueles de nós que sabem do alcance da influência do sadomasoquismo em nossas vidas usualmente experienciam momentos de intensidade e prazer sexual incomum nos quais não há envolvimento de fantasias de dominação e submissão em qualquer grau. As sementes da mudança estão em todos nós. Podemos buscar maximizar a sexualidade positiva ao invés de maximizar a sexualidade negativa do sadomasoquismo.

Os gatilhos da resposta sexual construída no entorno do masoquismo são os símbolos de poder e autoridade. Os símbolos particularmente poderosos são aqueles que representam poder e autoridade abusiva, cruel e arbitrária, sendo o chicote o símbolo mais poderoso que um distintivo de chefe. Os aparatos e rituais do fascismo são símbolos perfeitos para esse propósito. Uniformes, marchas, suásticas, retratos de Hitler, discursos autoritários são todos gatilhos eróticos. Os sádicos do Front Nacional são estimulados através da visão repetida de vídeos de marchas e paradas nazistas na Alemanha. Toda a parafernália do fascismo é calculada para obter uma resposta erótica poderosa daqueles cuja sexualidade tem sido formada sob a supremacia masculina e modelada no sadomasoquismo. Isso inclui a maioria de nós.

É a capacidade de ser atraído pelo nazismo que entorpece a resposta de ultraje que muitas pessoas podem de outra forma sentir por ele. A construção da sexualidade sadomasoquista é um poderoso e inteligente truque para o opressor. Nossa resistência é minada nas nossas próprias vísceras se nossa resposta à tortura dos outros ou às armadilhas do militarismo é mais erótica do que politicamente indignada. É muito difícil lutar contra o que te excita. Esse é um problema que as feministas anti-pornografia já reconheceram e entenderam. É humilhante e paralisante ser estimulada pela própria degradação das mulheres que você visa combater. O único jeito de lutar é transformar essa dor em raiva. Não somos culpados pela forma como a nossa sexualidade é construída, ainda que sejamos totalmente responsáveis pela forma como escolhemos agir sobre isso. Temos direito de estar furiosas e de direcionar a nossa dor ao ataque aos mercadores da pornografia, aos apologistas da pornografia (infelizmente eles incluem as lésbicas do sadomasoquismo), os compradores e consumidores de pornografia. É difícil, mas devemos entender que as imagens e mensagens — das mulheres como objetos, torturadas, usadas e abusadas — que influenciam nossa própria resposta sexual têm a intenção de nos paralisar. Não podemos nos dar ao luxo de ser debilitadas por essas imagens, mas podemos compartilhar nossos sentimentos e construir nossa raiva.

Da mesma forma que com o sexismo, as armadilhas do fascismo e até mesmo suas práticas podem ser excitantes não apenas para o opressor mas também para suas vítimas. Edmund White, um novelista gay americano, entrevistou um casal de homens gays que tinha o hábito de usar uniformes policiais em seu livro States of Desire: Travels in Gay America. Ele explica que havia um bar cheio de homens gays em uniformes policiais no qual entre os clientes se incluíam homens gays vestidos como policiais e policiais na vida real. Esse flerte trágico e degradante com a opressão teve implicações alarmantes. Um homem fantasiado de policial, quando mais tarde foi preso do lado de fora do bar, passou esse tempo extasiado pelas botas do policial. Outro que também foi preso e surrado não falava de outra coisa que não a sua paixão pelo seu atormentador. [1]

Os promotores do sadomasoquismo constantemente destacam que o sadomasoquismo é “apenas fantasia” e não possui nenhuma relação com a realidade. A promoção do sadomasoquismo e de sua imagética vai assegurar que seja cada vez mais e mais difícil no futuro para algumas lésbicas e gays, e talvez até mesmo para todos aqueles que fazem parte da cena gay social que são afogados em imagética sadomasoquista, serem apenas raivosos e de forma nenhuma excitados eroticamente pela imagética de prática real de fascistas, policiais e valentões. Acredito que é importante que sejamos capazes de distinguir as ameaças fascistas de forma precisa e lutar contra elas de forma clara. Não quero pensar que quando os tanques, as botas marchando e as suásticas passarem em um golpe fascista real, a população gay esteja experienciando uma onda de desejo erótico que nos imobilize.

O sadomasoquismo é racista?

Os promotores britânicos e americanos do sadomasoquismo ficam moralmente indignados a respeito da sugestão de que possa haver alguma coisa de racista em suas políticas. Assim, Pat Califia, representante do sadomasoquismo lésbico californiano, proeminente “top” ou sádica, dispensou as críticas de racismo feitas quando disseram ao grupo sadomasoquista Samois que eles não poderiam alugar um espaço em um edifício de mulheres em São Francisco, “Espera-se que nos defendamos contra acusações de que somos racistas…”, ela reclamou indignada. [10] Ela claramente não o faz, nem menciona em qualquer lugar o conteúdo das alegações e os modos pelos quais ela enxerga essas acusações como falsas. Tal crença arrogante de uma mulher branca de que eles estão acima e além de qualquer possibilidade de comportamento ou atitude racistas seria, espera-se, em qualquer outra esfera além dessa da sexualidade, vista como uma forma de racismo.

Os proponentes do sadomasoquismo deveriam estar cientes da ofensa a todos os gays não brancos que o emblema de uma ideologia política que significa a morte ou a perseguição odiosa significa a todos os não arianos. O Gay Black Group deixou bastante claras as suas perspectivas em resposta à imagética nazista em eventos gays mistos.

Estamos cada vez mais conscientes da presença de pessoas usando insígnias fascistas e nazistas em vários eventos lésbicos e gays, orgulhosamente exibindo símbolos do Movimento Britânico e do Front Nacional. Crescem as denúncias de ataques a homens gays e mulheres por esse tipo de gente. Não é mais aceitável para nós que pessoas usando tais tipos ofensivos de roupas sejam perdoados ao justificarem que se trata apenas de “moda”.
Achamos ofensivo e perturbador que o racismo continue incontestado, tido como normal ou de outra forma tolerado por toda a comunidade lésbica e gay. Estamos atordoados com a ignorância a respeito dos numerosos ataques, abusos e hostilidade direcionadas às pessoas gays pelos grupos de fascistas. Sentimos que um esforço conjunto precisa começar a identificar e erradicar as raízes do racismo e do fascismo inerentes na comunidade lésbica e gay…
O Gay Black Group tem experimentado violência nas mãos dos fascistas tanto por motivo de racismo quanto por causa da nossa sexualidade. [11]

A feminista negra americana Alice Walker, em um comovente e, poderia-se pensar, incontestável artigo, explanou o modo pelo qual ela via a prática do sadomasoquismo como sendo racista. Walker escreve como uma professora que passou um período com mulheres estudantes, negras e brancas, tentando “chegar a um consenso, pela imaginação e pelos sentimentos”, a respeito do que significa ser uma escrava, senhor ou sinhá. “Mulheres negras, brancas ou mestiças escreveram sobre cativeiro, estupro, procriação forçada para reabastecer as senzalas do senhor de escravos. Elas escreveram sobre tentativas de fuga, sobre a venda de seus filhos, sobre sonhos com a África, sobre tentativas de suicídio.” [12] Em seguida, ela escreve sobre os efeitos de assistir a um programa de TV no qual duas mulheres do Samois participam como mestra e escrava. Ainda que o artigo seja escrito em um estilo ficcional e tenha sido publicado originalmente em um livro de contos, o programa de TV sadomasoquista não era ficção, mas realmente acontecia conforme ela descreve.

Imagine nossa surpresa, portanto, quando muitas de nós assistimos a um especial de televisão sobre sadomasoquismo que foi ao ar na noite anterior ao fim das nossas aulas, onde o único casal interracial que aparece, lésbicas, se apresentavam como escrava e senhora. A mulher branca, que falou todo o tempo, era a senhora (usando um anel em forma de chave que ela disse encaixar na fechadura da corrente em volta do pescoço da mulher negra), e a mulher negra, que permaneceu sorrindo e silenciosa, era — disse a mulher branca — sua escrava…
Tudo o que estive ensinando foi subvertido por aquela única imagem, e eu fiquei enfurecida de pensar que a difícil luta das minhas estudantes para se livrarem dos estereótipos, para combater o preconceito, para se colocarem na pele das mulheres escravizadas, e então verem sua luta ridicularizada, e a condição real de escravizadas de literalmente milhões de nossas mães trivializada porque duas mulheres ignorantes insistiram em seu direito de encenarem publicamente uma “fantasia” que ainda causa terror nos corações das mulheres negras. E também vergonha e nojo, pelo menos nos corações da maior parte das mulheres brancas em minha sala de aula.
Uma estudante branca, aparentemente com ligações próximas ao grupo local de lésbicas sadomasoquistas, disse que não conseguia ver nada de errado com o que vimos na TV. (A propósito, havia muitos homens brancos nesse programa que possuíam mulheres brancas como “escravas”, e até mesmo diziam ter documentos legais atestando isso. De fato, um homem exibia sua escrava pela cidade com um arreio de cavalo em seus dentes e a “emprestava” a outros sadomasoquistas para ser chicoteada.) É tudo fantasia, disse ela. Nenhum mal estava sendo feito. A escravidão, a escravidão real havia acabado afinal.
Mas ela não acabou… e os livros de Kathleen Barry sobre escravidão sexual feminina e de Linda Lovelace relatando sua experiência como escrava não são os únicos indicadores de que isso é verdade. [13]

Pat Califia resolveu responder o artigo de Alice Walker em duas frases inteiramente desdenhosas em sua contribuição ao livro do grupo Samois, Coming to Power. “…Em uma tentativa de provar que o sadomasoquismo é racista, Walker descreve essas mulheres [aquelas interpretando senhora e escrava no programa de TV] como uma mulher branca dominadora e uma mulher negra masoquista. Na verdade, a dominadora nesse casal é uma lésbica latina.” [14] Esse é o nível de seriedade com qual o grupo Samois, a partir do qual os grupos de apoio ao sadomasoquismo lésbico britânico parecem usar de modelo, aborda o assunto do racismo.

O grupo britânico lésbico de sadomasoquismo apoiado pelo Coletivo Inglês de Prostitutas (ECP) e o Wages Due Lesbians (dois subgrupos dentro da organização guarda-chuva Wages for Housework, uma campanha fortemente antifeminista que tenta se infiltrar onde quer que vejam assuntos de interesse das mulheres que possam ser usados para destruir o movimento de libertação delas) foi ao encontro de algumas lésbicas feministas em Londres que queriam planejar uma campanha para questionar a disseminação das políticas sadomasoquistas. Uma mulher do ECP apresentou uma razão, pensada a partir da literatura padrão propagandista do sadomasoquismo, do porquê o sadomasoquismo poderia ser bastante útil nas relações. Ela explicou que em relacionamentos entre mulheres negras e brancas, os rituais sadomasoquistas poderiam ser encenados de modo a equilibrar as diferenças de poder ou ao menos ajudar a entendê-las. Essa mulher, que era branca, não disse quem deveria representar o papel de dominadora e quem deveria ser a dominada nessas relações. No exemplo americano citado acima, a dominada era uma mulher negra. Mas apenas supondo que não seja sempre este o caso, é realmente possível ver encenações de rituais racistas, mesmo nos casos em que as relações de poder não são com brancos sendo dominadores e negros os dominados, como formas de ajudar a eliminar o racismo? Na literatura pornográfica masculina, a mulher negra é representada tanto como uma vítima escrava submissa quanto como dominatrix. Os rituais do sadomasoquismo podem apenas reforçar um ou ambos desses estereótipos. O sadomasoquismo não oferece qualquer chance de se libertar deles.

Pode o sadomasoquismo ser reformado?

Pat Califia explica, em Coming to Power, que alguns membros do grupo Samois acharam que alguns dos seus princípios estavam em oposição à prática sadomasoquista, e que isso levou a alguns problemas dentro do grupo. Ela não diz quais são esses princípios e não se mostra simpática a eles, mas podemos tentar adivinhar que dizem respeito a coisas como o uso de suásticas ou até mesmo rituais onde mulheres negras eram escravas. Não parece que as mulheres britânicas sadomasoquistas estejam com a consciência pesada, uma vez que ao menos uma delas foi vista abertamente usando suásticas. Mas seria possível para os praticantes do sadomasoquismo “limparem” suas performances e cortarem fora simbolismo obviamente racista como resultado da crítica? (Até o momento, a resposta deles à crítica tem sido chamar os críticos de fascistas e racistas, dizer que os sadomasoquistas não iriam permitir qualquer encontro público sem lésbicas sadomasoquistas vestidas a caráter, e impedir a discussão.)

O ritual sadomasoquista erotiza as relações de dominação e submissão, e envolve a encenação da opressão. Os cenários de nazistas e judeus, ou de escravos e senhores podem possivelmente ser tirados da pauta por aqueles com a consciência mais sensível. Isso deixaria um escopo amplo de cenários e figurinos representando opressão sexista, usando imagens da prostituição, de assédio sexual ou simplesmente estereotipificação fetichizada sexista, como por exemplo um dos personagens vestido como ciclista forte e outro afeminado usando espartilhos e babados. Isso é realmente uma solução?

Fora o fato de que esse imagético permaneceria terrivelmente sexista e heterossexista, qualquer erotização do poder, qualquer glorificação da opressão pode apenas fortalecer os valores que mantém todas as formas de opressão. A opressão racista depende tanto das ideias de que o poder é um direito, de que a violência é um razoável modo de ameaçar aqueles tidos como inferiores, que as desigualdades de poder são desejáveis e inevitáveis, quanto o sexismo. A prática do sadomasoquismo reforça esses valores. Tal prática não permite qualquer espaço para a existência de uma alternativa a esses valores. Se estamos comprometidos com a meta de uma sociedade na qual nenhum grupo da população está sujeito a violência, discriminação e exploração, então devemos desenvolver uma forma de prática sexual que reflete o tipo de sociedade que queremos criar. Do contrário, o que estamos dizendo é que o sexo e as emoções envolvidas nele estão bastante desconectados do restante de nossas vidas e não possuem nenhuma relevância política. Tal prática precisa ser mútua, carinhosa e igualitária. Isso, claro, é um pecado na opinião dos proponentes do sadomasoquismo. Práticas assim são chamadas de bambi por homens gays defensores do sadomasoquismo como Jeffrey Weeks e de vanilla pelas lésbicas do Samois. [15] Ambos os termos foram criados de forma a mostrar desdém e afastar as pessoas. Práticas sexuais igualitárias são representadas como desprovidas de intensidade, monótonas, apropriadas apenas para fracotes.

Os proponentes do sadomasoquismo estão conscientes de que estão sujeitos à crítica política, de modo que alguns deles desenvolveram uma defesa engenhosa. Alguns anos atrás, um membro do agora defunto grupo Gay Left realizou uma fala em defesa do sadomasoquismo, com apresentação de slides, em um workshop gay. Ele mostrou slides de homens vestidos com uniformes nazistas urinando em sarjetas e forçando homens algemados a lamberem a urina nos seus joelhos. Intrigada, perguntei a ele o que tudo aquilo tinha a ver com socialismo. A princípio, ele respondeu que não tinha nada a ver com o socialismo mesmo, tratava-se apenas de prática sexual. Mais tarde, ele forneceu uma justificativa que alguns ex-sadomasoquista políticos se sentiram obrigados a desenvolver. A prática sadomasoquista seria uma forma de ajudar os envolvidos entenderem as diferenças de poder existentes no mundo e trabalharem mais efetivamente para o fim delas. (Vide também o argumento descrito acima dado pelo ECP e pelo grupo de apoio sadomasoquista lésbico.) Um defensor americano do sadomasoquismo expressou essa defesa de forma bastante sucinta:

Talvez um dos modos mais efetivos de lutar contra o poder político e até mesmo torná-lo desnecessário é entender os impulsos de poder e submissão em si mesmo e integrá-los. O envolvimento no sadomasoquismo tende a remover a “necessidade” pessoal de oprimir e ser oprimido, manipular e ser manipulado socialmente e politicamente — outra razão porque aqueles que possuem delírios de poder político tendem a se opor tão fortemente a ele. O sadomasoquismo pode ser parte de uma verdadeira rebelião contra a opressão social estruturada, o que é parte da razão porque anarquistas e libertários estão sub-representados entre os praticantes do sadomasoquismo. [16]

Para esse homem, a opressão parece ser algo que as pessoas “precisam” e atraem para si. Essa é a análise lógica da perspectiva do sadomasoquismo, que vê a violência e o abuso como algo que as pessoas podem “precisar” ou escolher. É uma análise completamente individualista, da qual a opressão da vida real não faz parte. É um argumento espúrio e auto-indulgente. De que forma a prática do sadomasoquismo nos ajuda a desmantelar o complexo militar-industrial, confrontar grupos de valentões fascistas ou ajudar uma mãe lésbica a conseguir a custódia de seus filhos?

Lutar contra a opressão estrutural requer amor-próprio e alguma ideia de que uma alternativa existe fora dos círculos de dominação e submissão. Podemos nos guiar apenas pela noção de que as estruturas de poder opressivas não “precisam” existir para a felicidade humana, seja ela sexual ou de qualquer outro tipo.

Sadomasoquismo como política

Os promotores do sadomasoquismo estão atraindo apoio de liberais com base em sua reivindicação de liberdade individual, o direito pessoal de seguir a prática sexual escolhida. Mas o argumento de liberdade pessoal não é necessariamente progressiva. Esse era o alicerce da política econômica e social Thatcheriana. Tal argumento depende da condição de que o comportamento em questão não fira qualquer outra pessoa além da própria praticante. (Algumas pessoas argumentam que deveria haver limites ao direito de qualquer ser humano causar dano físico a si mesmo ou requerer que outro ser humano cause dano a eles. Qual seria a nossa responsabilidade se confrontados com um cenário de fistfucking anal brutal em um contexto de uso de drogas e álcool, quando sabemos que a prática poderia levar a lesões terríveis ou a morte? Iríamos intervir nos masturbar para isso, ou dar as costas?) A promoção do sadomasoquismo causa dano para além de apenas aos seus praticantes e trata-se da promoção de muito mais coisas do que a de uma prática sexual; não se trata de um hobby, mas de uma política e de um estilo de vida.

O uso de roupas de sadomasoquismo em eventos sociais, marchas etc, na forma de fantasias de couro negro, algemas e rebites, cria uma atmosfera de ameaça e ansiedade para todas as lésbicas presentes. As lésbicas geralmente procuram a companhia de outras mulheres para escapar do assédio e da intimidação dos homens na rua, em anúncios e na pornografia. Estamos acostumadas ao “masculino”, a homens agressivos usando roupas de sadomasoquismo rotineiramente no intuito de intimidar, por exemplo Hell’s Angels. Não deveríamos ter que temer outras lésbicas ou sermos ostracizadas porque não aceitamos esse tipo de vestimenta intimidadora. Há muitas lésbicas em Londres agora cujas vidas sociais estão restritas pela prevalência do uso de roupas sadomasoquistas, seja à guisa de moda ou como extensão da prática do sadomasoquismo. Essas lésbicas não são fracotes. Temos direito de não sentir medo e direito a espaços livres da violência.

O uso de emblemas nazistas e fascistas, por exemplo, suásticas, quepes de couro negro da SS, sobretudos de couro negro da SS, ofendem e causam grande agonia em todas as lésbicas que estão conscientes do que o fascismo germânico significa em termos de violência e morte para os judeus, ciganos, lésbicas, aqueles física e mentalmente diferentes, todos os que não sejam homens brancos, gentios, heterossexuais e fisicamente capazes.

A aceitação de vestimenta sadomasoquista, particularmente a emblemática nazista, torna a comunidade lésbica menos apta a entender o florescimento bastante real de valores e práticas fascistas na sociedade britânica atualmente. Não precisamos que as distinções sejam ofuscadas. Devemos ver e questionar claramente qualquer tentativa de tornar os valores e comportamentos racistas e fascistas aceitáveis. Alguns daqueles que vestem emblemática fascista estão assediando e atacando gays, particularmente gays negros, agora mesmo. Eles se tornam mais difíceis de expor e rejeitar quando a emblemática fascista e “masculina”, e os valores agressivos se tornam lugar comum na cena social gay.

A erotização do poder e da opressão na sexualidade de crueldade que é o sadomasoquismo nos treina a nos excitarmos pelas armadilhas do fascismo. O apelo erótico do fascismo, estruturado em nossa sexualidade conforme aprendemos nossas respostas sexuais vivendo sob a supremacia masculinista, é aumentado pelas políticas do sadomasoquismo. Apenas a construção de uma prática sexual igualitária pode se encaixar em uma política antifascista.

O sadomasoquismo não é uma prática sexual que caiu do céu, mas uma resposta e um eco do crescente domínio dos valores e práticas fascistas no mundo fora do gueto gay. Como na Alemanha no início dos anos 1930, os ataques racistas estão aumentando agora. Militarismo crescente infecta a sociedade ocidental. O pornô e os anúncios publicitários se tornaram mais e mais violentos e sádicos com as mulheres. Temos um governo conservador que está dedicado a restringir as liberdades pessoais com a desculpa de aumentá-las. Há uma atmosfera de medo e tensão social crescentes conforme as políticas governamentais polarizam as diferenças entre os pobres e ricos, negros e brancos, mulheres e homens. Nesse contexto, o sadomasoquismo pode ser visto como sendo não uma saída corajosa e radical, mas um modo em que lésbicas podem traduzir diretamente o ódio e o desprezo por mulheres, e particularmente por lésbicas, em suas relações entre si, que os valores fascistas representam. Talvez esta seja uma forma de autodefesa mal direcionada, isto é, se lésbicas causam medo e dor umas às outras agora, não será tão angustiante quando recebermos tal tipo de abuso dos outros no futuro.

Os advogados do sadomasoquismo defendem que sua prática sexual não afeta de nenhum modo as suas relações uns com os outros e o resto do mundo fora do quarto, exceto em fazê-los se sentirem mais fortes. Nas escolas de treinamento para a tortura na Grécia sob ditadura militar e também em outros regimes de extrema-direita, os torturadores treineiros eram treinados sendo eles mesmos torturados. Pode ser que as lésbicas dominadas ou masoquistas, que correspondem à vasta maioria delas, tenham tido as suas sensibilidades enfraquecidas pela tortura a qual escolhem se sujeitar. Para criar um número suficiente de sádicas, algumas masoquistas precisam progredir na prática para distribuir o que receberam anteriormente.

A prática do sadomasoquismo escorre para fora do quarto em outras áreas das relações lésbicas. O trecho a seguir é de um artigo do Coming to Power no qual Susan Farr explica como ela e sua amante usam punição física para superar o ciúme que sentem uma pela outra na não-monogamia.

Se eu chicoteio Rae após ela ter feito sexo com alguma pessoa, isso também expressa diretamente o quanto estou com raiva e ciúmes. Este é um exercício de poder, inquestionavelmente. Ele me dá um escape para os sentimentos “negativos” e bastante naturais que existem independente do meu comprometimento com os princípios da não-monogamia. A punição também funciona como um alívio da culpa da pessoa tendo o caso, outro sentimento “negativo” e natural que existe independente das crenças sinceras de que os baixos ocasionais da não-monogamia são preferíveis à sufocação da monogamia monótona… Essa discussão dos rituais de punição usados como uma resposta à não-monogamia é um exemplo de como a agressão física pode funcionar para manter o relacionamento às claras. [17]

Os sadomasoquistas diriam que existe uma diferença entre o que é descrito aqui e um relacionamento onde ocorre agressão explícita. A distinção, baseada na falsa premissa de que podemos consentir com abuso (lembre da velha anedota na qual esposas agredidas na verdade gostam de apanhar), pode facilmente se tornar confusa de modo que a agressão se torna bastante danosa para um ou ambos os parceiros. Marissa Jonel, uma sobrevivente do sadomasoquismo, descreve uma situação em Against Sadomasochism. [18] Tal agressão “consensual” não é capaz de ajudar na nossa luta enquanto mulheres e lésbicas para afirmar o desejo das mulheres de viverem livres de violência, nosso direito de não sermos vistas como alvos apropriados para violência. O sadomasoquismo é muito mais do que uma prática sexual. É um estilo de vida e uma abordagem ao mundo que glorifica e legitima a violência. Relações onde ocorrem agressões reduzem o potencial de seus participantes e de todos nós de encontrar modos alternativos de lidar com o conflito. A agressão entre lésbicas, onde lésbicas direcionam seu anti-lesbianismo e auto-ódio internalizado umas às outras, é um problema sério com o qual a comunidade lésbica tem que lidar, não é uma brincadeira.

É importante compreender que se trata de uma política do sadomasoquismo que está sendo promovida, não apenas uma prática sexual. As táticas do sadomasoquista deixam isso claro. Os promotores do sadomasoquismo, com a desculpa de fazerem parte de uma minoria oprimida, levaram um cartaz sadomasoquista na marcha Lesbian Strength em junho de 1984. Isso significa que muitas lésbicas que sabiam desse cartaz nunca foram à marcha, e muitas outras se sentiram incapazes de fazer parte da marcha naquele dia. Os promotores do sadomasoquismo estavam bastante conscientes de que estavam dessa forma dividindo e excluindo muitas lésbicas da marcha, mas o direito de três lésbicas sadomasoquistas de causar dano à unidade e às políticas lésbicas foi defendido pelos seus asseclas e toda a objeção foi rejeitada. Os promotores do sadomasoquismo incitam deliberadamente esses confrontos e o estilhaçamento da unidade política que decorre deles. Nos EUA, o grupo Samois primeiramente destruiu a unidade das marchas do Orgulho Gay, e então buscaram dividir o centro coletivo de mulheres de São Francisco reservando espaços onde seriam realizadas atividades, e depois começaram a intimidar e assediar livrarias feministas que não exibissem sua literatura propagandista de forma proeminente. O grupo de lésbicas sadomasoquistas britânicas reservou espaço em um centro de mulheres de Londres, A Woman’s Place. A mesma tática foi usada no Lesbian and Gay Center. Apesar da oposição da vasta maioria das feministas lésbicas que eram membras do centro, os sadomasoquistas foram permitidos no espaço em junho de 1985.

Essa campanha coordenada para espalhar confusão, desunião e medo, de forma desproporcional ao seu número de integrantes, lembra nada menos do que as táticas fascistas. Fiando-se no apoio do liberalismo, eles criam confrontos para causar discórdia na oposição política e enfraquecer nossa capacidade de confrontar práticas e valores fascistas em qualquer forma que se apresentem. (Um exemplo de fascistas utilizando essa tática foi um movimento recente do Front Nacional demandando ajuda do Conselho Nacional pelas Liberdades Civis [NCCL, na sigla em inglês]. Isso foi calculado para dividir a NCCL e causou dano considerável.) O que está acontecendo é muito mais do que a tentativa de uma minoria “oprimida” de ganhar o direito de agir conforme suas práticas sexuais. O sadomasoquismo é uma política com táticas definidas, que incluem a intimidação por mulheres vestidas em uniforme de couro negro. Raras vezes um grupo “oprimido” foi tão opressivo e potencialmente destrutivo.

As implicações das políticas sadomasoquista são muito alarmantes para se ignorar. Não apenas as políticas feministas, mas todas as políticas antirracistas, antifascistas e anticapitalistas dependem de um entendimento de que os oprimidos não buscam, precisam ou querem sua opressão. O grande mito que une a ideologia da democracia ocidental é o do consentimento. No pensamento democrático ocidental todos os grupos dentro de uma população consentem com um sistema de governo. Aí existe consenso. Mas não é bem assim. Somente aqueles que são homens brancos detentores de riqueza estão em qualquer posição de exercer consentimento verdadeiro a um sistema político que rotineiramente degrada, explora e controla todos os outros. O sadomasoquismo utiliza essa noção politicamente manipulativa de consentimento para se justificar. A noção de que qualquer pessoa deliberadamente busca abuso e degradação pode ser explorada de forma muito fácil para justificar sistemas opressivos políticos, por exemplo, o valor fascista básico de que as massas “precisam” de um líder forte. A doutrina política básica do sadomasoquismo está então em contradição com a nossa luta por um sistema político baseado no direito de todo ser humano à dignidade, igualdade, amor-próprio e auto-governo.

A sexualidade de crueldade que é o sadomasoquismo não é nem inata nem inevitável. Ainda que muitos de nós experienciemos fantasias e práticas que incorporam valores de dominância e submissão do sadomasoquismo, também experienciamos uma sexualidade positiva com valores igualitários. É essa sexualidade positiva que precisamos promover e ampliar. Nossa capacidade de amarmos uns aos outros com dignidade e amor-próprio, não apenas com intensidade de sensações e prazer, tem sido danificada pela nossa experiência de opressão. Mas essa capacidade não foi destruída. Devemos lutar contra todas as pressões que nos encorajam a amar as botas que nos curvarão à submissão. Podemos decidir não participar de um romance com nossos opressores. Podemos ter uma sexualidade que é integrada, não com a nossa opressão, mas com as nossas políticas de resistência.


Notas

[1] ISHERWOOD, Christopher. Down There on a Visit. Londres: Methuen, 1962. P. 73-74.
[2] SHERMAN, Martin. Bent. Derbyshire, UK: Amber Lane Press, 1980. P. 67.
[3] HEGER, Heinz. The Men with the Pink Triangle. Tradução de David Fernback. Londres: Gay Men’s Press, 1980. P. 82-83.
[4] BELLWETHER, Janet. “Love Means Never Have to Say Oops: A Lesbian Guide to S/M Safety”. In: SAMOIS (editor). Coming to Power: Writings and Graphics on Lesbian S/M. Segunda edição. Boston: Alyson, 1982. P. 70-71 e 74.
[5] CALIFIA, Pat. “Feminism and Sadomasochism”. Heresies. Sex Issue 12. P. 32.
[6] Cf. várias passagens em DALY, Mary. Gyn/Ecology. Boston: Beacon Press, 1978; e também Beyond God the Father: Toward a Philosophy of Women’s Liberation. Boston: Beacon Press, 1973.
[7] LEIDHOLDT, Dorchen. “Where Pornography Meets Fascism”. WIN, 15 de março de 1983. P. 18. As citações usadas por Leidholdt estão em WAITE, Robert G. L. The Psychopathic God. Nova York: Basic Books, 1977. P. 153, 375 e 380.
[8] TIMERMAN, Jacobo. Prisioner without a Name, Cell without a Number. Nova York: Knopf, 1981. P. 66.
[9] WHITE, Edmund. States of Desire: Travels in Gay America. Nova York: Dutton, 1983. Aparentemente, o uso de violência real como excitação sexual tem aumentado desde as observações de White. Recentemente, uma pessoa da equipe da livraria Glad Day em Boston me disse que o livro History of Torture de Daniel P. Mannix (Nova York: Dell, 1983) é o campeão de vendas da loja.
[10] CALIFIA, Pat. “A Personal View of the History of the Lesbian SM Community and Movement in San Francisco”. In: Samois (editor). Coming to Power, 1982. P. 274.
[11] Gay Black Group. “Letter to the Editor”, Capital Gay. Londres, 14 de fevereiro de 1984.
[12] WALKER, Alice. “A Letter of the Times, or Should This Sadomasochism Be Saved?” In: LINDEN, Robin Ruth et al (editores). Against Sadomasochism: A Radical Feminist Analysis. Palo Alto, California: Frog in the Well Press, 1982. P. 206–207. Reimpresso de WALKER, Alice. You Can’t Keep a Good Woman Down: Stories by Alice Walker. Nova York: Harcourt Brace, 1981. P. 118–123.
[13] WALKER, Alice. “A Letter of the Times”, 1982. p. 207.
[14] CALIFIA, Pat. “A Personal View”, 1982. p. 268.
[15] Vide a contribuição de Jeffrey Weeks ao Gay News. No. 243. Edição de 10º aniversário, 1982. Vanilla é um termo que aparece com frequência na literatura lésbica sadomasoquista.
[16] YOUNG, Ian. Comentários sobre o “Forum on Sadomasochism”, em JAY, Karla; YOUNG, Allen (editores). Lavender Culture. Nova York: Harcourt Brace, 1978. P. 104.
[17] FARR, Susan. “The Art of Discipline: Creating Erotic Dramas of Play and Power”. In: Samois (editor). Coming to Power, 1982. P. 16.


REFERÊNCIA: JEFFREYS, Sheila. “Appendix — Sadomasochism: The Erotic Cult of Fascism”. In: The Lesbian Heresy: A Feminist Perspective on the Lesbian Sexual Revolution. Melbourne: Spinifex Press, 1993. P. 172-189.

Categories
Resumos

Da prática à teoria, ou: O que exatamente é uma “mulher branca”? [Resumo]

No feminismo, a prática (vivência social) vem antes da teoria, e a teoria precisa ser construída a partir da prática. No caso das mulheres, não dá pra partir de uma teoria da igualdade porque as que existem são feitas por homens e vêm das práticas de resistência deles. O problema é que homens nunca estiveram sob o mesmo contexto de dominação com base nas suas capacidades reprodutivas que as mulheres vivem.

Catharine MacKinnon

Falar que uma mulher foi tratada “como mulher” é fazer uma afirmação empírica a respeito da realidade. E levando em conta a forma como somente mulheres são tratadas sob a dominação dos homens, socialmente institucionalizada, isso inclui uma série de outras coisas. Ser tratada “como mulher” está longe de indicar uma visão universal da condição das mulheres, mas sim se refere às desvantagens que as mulheres têm pela forma como o sexo feminino é valorado socialmente.

“Como mulher” não significa a incorporação de uma experiência coletiva; não significa que todas as mulheres têm experiências iguais. Pensar na situação das mulheres exige formas diferentes de se pensar teoria e prática. Algumas feministas pensaram a condição das mulheres em termos de inevitabilidade biológica (Brownmiller e Beauvoir) em função de como funciona a reprodução e a vulnerabilidade das mulheres ao estupro. Falta apontar a dominação dos homens propriamente dita. É a exploração da reprodução que causa problemas às mulheres, não a reprodução propriamente dita. Isso diz respeito a todas as mulheres de todas as raças e etnias vivendo sob dominação, então não faz sentido dizer que se trata de um tipo de feminismo universalizante.

As críticas ao feminismo, de que ele falha em fazer os “recortes” de classe e raça, geralmente assumem “classe” e “raça” como abstrações prontas, sem discutir do que se tratam e fazendo uso dessas categorias apenas pra bater no feminismo. “Mulher branca”, em algumas críticas do tipo, é uma mulher que não passa os perrengues da dominação (não de verdade): ela não trabalha, não é estuprada, não é explorada, não apanha etc. Ela é a imagem que os homens branco e negro têm dela: fútil, privilegiada, autoindulgente e protegida, oprimida por seus privilégios, que acha que precisa de libertação.

O problema é que a realidade das mulheres brancas está longe de ser essa abstração fantasiosa. O mito de que os homens protegem as mulheres brancas serve à manutenção do racismo e à dominação masculina. A pele branca não protege as mulheres da brutalidade de homem nenhum: assumir que as brancas são privilegiadas num contexto de dominação sexual é assumir que não existe dominação dos homens, porque ela pode ser “cancelada” de alguma forma. As mulheres negras estão mais sujeitas a violação, mas tanto negras quanto brancas estão nessa posição de sujeição. Ser “menos estuprada” não esconde o fato de que ambas o são por serem mulheres e tratadas enquanto tal. Não significa dizer que a raça é irrelevante, mas que o sexo (e a dominação baseada nele) é uma experiência de todas as mulheres.

A pornografia é um exemplo bem ilustrativo de como essa dimensão do sexo afeta mulheres de todas as etnias e raças. O tratamento horrendo destinado às mulheres brancas ali — entre tantos tropos do tipo, como as “hot mommas latinas” ou as “asiáticas passivas” — é o melhor possível que uma mulher pode obter. Cada mulher na pornografia abrange um conjunto de particularidades, mas cada uma dessas experiências significa o que é ser mulher na pornografia. Não existe uma categoria padrão de mulheres: até mesmo “brancas” são marcadas como uma preferência sexual.

A crítica às abordagens que vêem a opressão das mulheres “como mulheres” exige que as mulheres se des-identifiquem de sua condição de mulher. O ponto é que as pessoas preferem fazer parte de qualquer outro grupo que possa incluir homens do que ser “apenas mulher”, um grupo que significa o resumo da noção de opressão. Se uma opressão também é aplicada a homens, ela tem mais chances de ser reconhecida enquanto tal, e não algo aplicado a um grupo subhumano. Se inclui homens, está dentro dos padrões de humanidade; as mulheres são apenas mulheres. A mulher branca não partilha nenhuma opressão com homens, então não é oprimida.

Quando se cria teoria a partir da prática, esse problema de se deparar com abstrações limitantes deixa de existir. A assunção de que todas as mulheres são iguais vem do mesmo sexismo que o feminismo visa combater. Teóricos que falham em identificar isso precisam mudar sua forma de pensar teoria para além dos formatos da dominação masculina. A base sexual da opressão que as mulheres sofrem vem da prática, e não de um constructo abstrato ou de uma “essência” partilhada por elas.


MACKINNON, Catharine. “From Practice to Theory, or What is a White Woman Anyway?” 4 Yale J. L. & Feminism. 1991. Disponível em: <link> — Acesso em 12 de outubro de 2019.