Feminismo indefinido

Tradução livre de: THOMPSON, Denise. Radical Feminism Today. Londres: SAGE, 2001. p. 53-58.

O lugar óbvio de se procurar por definições é, claro, um dicionário, e dicionários feministas existem. Mas eles não são muito mais úteis para esclarecer o significado de feminismo que qualquer outro texto. Por seu propósito ser dar uma visão geral o mais abrangente possível, seu principal critério de seleção é qualquer coisa chamada de ‘feminista’. Como consequência, eles tendem a reproduzir os conflitos e contradições sem resolvê-los. As entradas sob o termo feminismo são tão díspares que são de pouca ajuda ao se buscar um sentido coerente do que o feminismo é.

Geralmente essa é uma estratégia deliberada por parte dos compiladores uma vez que seu objetivo é incluir a maior gama possível a respeito do que as mulheres têm a dizer sobre cada tópico designado por um termo. Mas a palavra feminista tem um status diferente de todas as outras entradas. Quando aparece no título ela provê por definição o foco para todo o resto. Assim, o lugar a se procurar pela definição de ‘feminismo’ neste dicionário é a declaração dos objetivos e intenções das compiladoras. Cheris Kramarae e Paula Treichler, por exemplo, inicialmente os declararam largamente em termos de ‘mulheres’, por exemplo ‘documentando palavras, definições, e conceitualizações que ilustram as contribuições linguísticas das mulheres’ (Kramarae e Treichler, 1985:1). Entretanto, elas estão conscientes de que para os propósitos de um dicionário feminista, referências a mulheres somente não eram suficientes. Elas disseram que chamaram o livro de dicionário feminista em vez de dicionário das mulheres porque estavam particularmente interessadas no que tem sido dito ’em oposição à definição, difamação, e ignorância masculina a respeito das mulheres e suas vidas’’ (p. 12). Em outras palavras, elas estavam cientes de que a necessidade de se focar em mulheres vem das condições da supremacia masculina, ainda que, no interesse da diversidade, a consciência não apareça claramente e indubitavelmente sob a entrada ‘feminismo’ no texto propriamente dito.

Usualmente, porém, essa abordagem pluralista significa que o feminismo acaba por ser definido apenas em termos de mulheres. As editoras de uma obra panorâmica do feminismo australiano disseram que ‘sequer tentaram impôr uma definição singular de feminismo … por causa da diversidade, e do constante movimento, no terreno feminista’. Elas, no entanto, oferecem uma definição de feminismo nos termos de uma preocupação com a opressão das mulheres e com como mudar isso em relação à cidadania das mulheres e a sua participação na vida social (Caine et al., 1998: x). Maggie Humm, também, definiu o feminismo em grande parte em termos de mulheres — ‘direitos iguais para as mulheres’, ’em geral, o feminismo é a ideologia da libertação das mulheres, a teoria do ponto de vista da mulher’, etc. (Humm, 1989). O feminismo também é caracterizado em termos de mulheres no Prefácio: ‘a teoria feminista é fundamentalmente sobre a experiência das mulheres’ (p. xi). Sob o título ‘Dominação’, ela reconhece que ‘Uma parte distinta da teoria feminista contemporânea é sua análise da dominação masculina e toda a teoria feminista é feita de modo a mostrar como a dominação masculina sobre as mulheres pode ser encerrada’’ (p. 55); e há uma entrada para ‘dominação masculina’. Mas essa consciência não é incluída na definição de feminismo.

Sei de apenas um texto que explicitamente aponta a questão de se definir o feminismo. Karen Offen (1988) apresenta o feminismo nos termos da dominação masculina como uma questão crucial das políticas feministas. O feminismo seria ‘uma análise crítica do privilégio masculino e da subordinação das mulheres dentro de qualquer sociedade dada’, e ‘um desafio político à autoridade e à hierarquia masculina em seu mais profundo sentido’’ (pp. 151, 152). Mas sua principal preocupação era porque a palavra ‘feminismo’ tão frequentemente evoca antagonismo. Ela sugere que foi a ênfase individualista que alienou muitas mulheres (e homens), porque desconsiderava a experiência tradicional das mulheres e as diferenças das mulheres em relação aos homens. Ela argumenta que a solução seria reconhecer o importante papel ‘relacional’ que o feminismo desempenhou historicamente. ‘Feminismo relacional’, ela diz, ‘enfatiza os direitos das mulheres enquanto mulheres (definidos principalmente por suas capacidades férteis e nutridoras) em relação aos homens. Ele insiste nas contribuições distintas das mulheres nesses papéis na sociedade de forma ampla e faz reivindicações na comunidade com base nessas contribuições’’ (p. 136 — ênfase da autora). Ela reconhece que argumentos em favor da ‘diferenciação das mulheres e complementariedade dos sexos’ têm sido constantemente apropriados ‘para novamente sancionar o privilégio masculino’ (p. 154). Mas ela acredita que um feminismo que valoriza as capacidades tradicionais das mulheres para amparo e relacionamento terão mais apelo para as mulheres do que um que se baseie somente nos conceitos abstratos (e definidos por homens) de direitos individuais e autonomia pessoal.

Porém, enquanto ela está certa de que há muito o que se valorizar nas capacidades tradicionais das mulheres, ela entende erroneamente a origem do antagonismo relativo ao feminismo. O feminismo irrita, não porque seja muito abstrato e individualista, mas porque identifica a dominação masculina. O problema do feminismo com os papéis tradicionais femininos não é que as mulheres de fato os desempenhem, mas que eles asseguram a subserviência das mulheres aos homens. O problema não é que mulheres sejam nutridoras e cuidadosas (caso sejam), mas que se requeira que as mulheres nutram homens sem reciprocidade. É a perspectiva de as mulheres se recusarem servir aos homens que é tão alienante, para os homens porque irão perder seu reconhecimento não recíproco às mulheres do status ‘humano’, e para as mulheres porque perderão seu único acesso à intimidade e ao status ‘humano’ permitido dentro das condições da supremacia masculina. Mas Offen não reconhece que é a própria oposição do feminismo à supremacia masculina, uma oposição que ela mesma não achou problemática, a origem do antagonismo.

Muito frequentemente os textos feministas se equivocam na questão da dominação masculina, até mesmo, curiosamente, onde ela é explicitamente nomeada. Sandra Harding, por exemplo, reconhece claramente a existência da dominação masculina, uma vez que define ‘sexo/gênero’ como ‘um sistema de dominação masculina tornado possível através do controle masculino do trabalho produtivo e reprodutivo das mulheres’ (Harding, 1983: 311). “Dominação masculina” é sinônimo a ‘sistema sexo/gênero’ ao longo do artigo. Ela nos diz que é provavelmente imprudente ‘assumir que qualquer coisa que conheçamos como sistema sexo/gênero seja um aspecto universal da vida social humana’’, e então restringe o escopo de sua generalização à ‘vasta maioria de culturas às quais temos acesso histórico’’ (p. 323 n. 10 — ênfase da autora). Assim quaisquer culturas (hipotéticas) que não sejam dominadas por homens, ao que parece, não teriam o ‘sistema sexo/gênero’. Mas se a dominação masculina é a característica comum e invariável do ‘sistema sexo/gênero’, por que há a necessidade de se substituir ‘sistema sexo/gênero’ por ‘dominação masculina’? Dado o quão prevalente é a evasão em se nomear a dominação masculina, essa substituição não é inocente. Muitas vezes ela funciona como uma negação eufemística das relações de poder desafiadas pelo feminismo. Porque ela deveria aparecer em um texto que, ao contrário, identifica claramente as relações de poder, é intrigante.

Enquanto a maioria dos textos auto-identificados feministas que falham em reconhecer a dominação masculina como o principal antagonismo do feminismo o faz implicitamente ou por omissão, há alguns textos que explicitamente argumentam contra isso. Por exemplo, há o argumento de Judith Butler contra o que ela caracteriza como ‘a noção de que a opressão das mulheres tem uma forma singular discernível na estrutura universal ou hegemônica do patriarcado ou da dominação masculina’’. Ela continua dizendo:

A noção de um patriarcado universal tem sido amplamente criticada nos últimos anos por sua falha em considerar as atuações da opressão de gênero nos contextos culturais onde ela existe. Onde esses vários contextos foram consultados dentro dessas teorias, têm sido para encontrar ‘exemplos’ ou ‘ilustrações’ de um princípio universal que é assumido desde o princípio. Essa forma de teorização feminista tem sido objeto de crítica por seu esforço em colonizar e apropriar culturas não-ocidentais para apoiar noções altamente ocidentais de opressão, [e] porque tendem também a construir um ‘Terceiro Mundo’ ou até mesmo um oriente no qual a opressão de gênero é sutilmente explicada como sintomática de um barbarismo essencial, não-ocidental. A urgência do feminismo em estabelecer um status universal para o patriarcado no sentido de fortalecer a aparência das próprias demandas do feminismo de ser representativo ocasionalmente tem motivado um atalho para uma universalidade categorial ou fictícia da estrutura de dominação, feita para produzir uma experiência comum de subjugação das mulheres. (Butler, 1990:3–4)

Esse único parágrafo compromete toda a crítica de Butler no texto. A escassez do argumento indica tanto a crença de Butler na natureza auto-evidente da crítica, e seu desprezo pela ‘forma de teorização feminista’ que ela está rejeitando. Nenhuma evidência ou exemplos de ‘universalidade fictícia’ são dados, logo a acusação é impossível de se avaliar nessa instância em particular. Não nos é dito onde ‘a noção de patriarcado universal aparece’, nem onde ela foi criticada. Não podemos então decidir por nós mesmos se há ou não alguma forma de teorização feminista que ‘coloniza e apropria culturas não-ocidentais’ e as constrói como ‘bárbaras’, nem de que formas elas devem ser.

Seu argumento é uma instância da acusação de ‘falso universalismo’, e funciona da mesma maneira que todas as acusações do tipo contra a teoria feminista funcionam, ou seja, negando a dominação masculina. Ela caracteriza o ‘patriarcado’ como uma ‘noção altamente ocidental’. Ela insiste que ele não é apropriado quando aplicado às ‘atuações da opressão de gênero’ e ‘experiência de subjugação das mulheres’ em culturas diferentes das ‘ocidentais’, negando assim que o conceito de ‘patriarcado’ é relevante para culturas outras que não do ‘ocidente’. No entanto, ela reconhece que a ‘opressão de gênero’ e ‘subjugação das mulheres’ existe em culturas outras que não do ‘ocidente’. Mas se a subjugação das mulheres não é resultado da dominação masculina, de onde ela vem? Parece que o ‘universalismo’ só é falso quando o que está sendo ‘universalizado’ é a dominação masculina. Não há problema, ao que parece, em ver a opressão das mulheres como ‘universal’ no sentido de que ela existe em outras culturas que não o ‘ocidente’. O que é proibido sob o risco de ser acusado de ‘falso universalismo’ é nomear o inimigo.

Localizar a causa da subordinação das mulheres na dominação masculina não é ‘universalizar’ uma noção peculiar do ‘ocidente’ e aplicá-la a ‘outras culturas’. Identificar a dominação das mulheres pelos homens (e de alguns homens sobre outros homens) não é afirmar que há somente uma forma singular de dominação masculina. Mesmo no ‘ocidente’, ela tem a multiplicidade de diferentes formas. Onde quer que os interesses dos homens prevaleçam às custas das mulheres, e os interesses de alguns homens prevaleçam sobre os de outros homens, a dominação masculina existe, seja que forma tome. Enquanto algumas vezes ela é violenta e descaradamente desumanizadora, ela também é multifacetada e pervasiva na vida cotidiana. Ela toma diferentes formas em diferentes culturas sob diferentes condições históricas, contanto que a existência ‘humana’ continue a ser definida nos termos dos homens, e que a existência ‘humana’ de alguns homens exista às custas de outros homens, ela continua sendo dominação masculina, em todas as suas ‘infinitas variedades e monótonas similaridades’ (Fraser and Nicholson, 1990:35).1

Essa relutância entre muitas das que se identificam como feministas em nomear e identificar a dominação masculina requer explicação. Uma razão reiterada com frequência é a relutância em se caracterizar as mulheres como ‘vítimas’. Focar na dominação masculina, assim se argumenta, faz dos homens mais poderosos do que realmente são, e só faz as mulheres se sentirem acuadas e indefesas. Insistir na extenção do poder masculino, vê-lo como amplamente pervasivo, vê-lo a todo momento nos violando, invadindo nossas vidas, penetrando nos recôncavos profundos da nossa psique, enraizado nos nossos atos mais íntimos, é retratar as mulheres como nada mais que vítimas passivas e indefesas dos homens, ou assim se diz.

Esse tipo de argumento é comum nos círculos ‘feministas acadêmicos’. Lois McNay, por exemplo, diz que a ‘tendência de se considerar mulheres como vítimas impotentes e inocentes das estruturais sociais patriarcais … impede muitos tipos de análises feministas’ (McNay, 1992: 63, 66). Ela diz que isso falha em ‘considerar o potencial da criatividade das mulheres e sua agência sob restrições sociais’. Isso também é opressivo a algumas mulheres porque não reconhece ‘que gênero não é a única influência determinante na vida das mulheres’, e porque ‘toma as experiências das mulheres brancas como norma e as generaliza’. Ela não dá nenhum exemplo de obra feminista que supostamente exiba tais características porque, ela diz, isso é ‘bem documentado’’ (pp. 63–-4). Ela ainda diz também que há ‘indubitavelmente … estruturas de dominação, em particular construções de gênero, que asseguram a posição subordinada geral das mulheres na sociedade’ (pp. 66-7). Ela não percebe as contradições em se rejeitar ‘estruturas patriarcais sociais’ em conjunto à ‘vítimas impotentes e inocentes’ por um lado, e se aceitar ‘estruturas de dominação de gênero’ e ‘subordinação geral’ das mulheres por outro. Não está claro que tipo de distinção está sendo desenhada aqui.

Argumentos como esse cometem o mesmo erro que supostamente encontram em outros lugares. Eles interpretam as referências à dominação masculina em termos de ser algo monolítico e inevitável. Mas a exposição feminista da vitimização das mulheres tem a intenção de combatê-la, não de mantê-la. Se ela não pode ser nomeada, não pode ser enfrentada. E o projeto das mulheres de criarmos para nós mesmas formas não exclusivas e não opressivas de ser humanas é evidência suficiente de que o feminismo não define as mulheres como somente vítimas. Esse tipo de objeção falha em levar em conta o senso de poder, triunfo ou alívio que vem com uma visão de mundo clara. Falha em levar em conta a necessidade imperiosa que temos de ver o quão ruins realmente estão as coisas, e o senso de libertação que vem com esse conhecimento. Ignora a necessidade política de se saber contra o que estamos lutando, se estamos dispostas a fazer algo. Aqueles com medo de confinar as mulheres à vitimização perpétua parecem ter esquecido (ou nunca tiveram conhecimento) do alívio de se ouvir a respeito de uma opressão como opressão, em vez de uma falha meramente pessoal e idiossincrática. É toda uma libertação em si mesma dar-se conta de que a culpa recai, não sobre as falhas próprias de alguém, mas em uma realidade onde é possível dizer ‘não’. Esse é um passo vital no processo de se desembaraçar de condições opressoras. Todas nós provavelmente chegamos a um ponto de ruptura, um ponto em que já é o bastante e a angústia supera o alívio. Mas a angústia não é aliviada ao se recusar ver a dominação masculina quando ela é manifestadamente presente, ao se chamá-la de algo menos horrendo (como ‘gênero’), ou ao se retratar mulheres como poderosas quando elas não o são. Reconhecer as amarras ao qual se está sujeita é parte intrínseca de se ter consciência da própria agência moral sob opressão (Hoagland, 1988). Agência moral requer uma habilidade de se decidir não apenas o escopo mas os limites da responsabilidade de alguém, a medida em que alguém é ou não responsável, quando se pode agir, quando não se pode.

Assim, nomear a dominação masculina não é retratar as mulheres como nada além de vítimas. As mulheres também podem ser colaboradoras, podem abraçar os significados da supremacia masculina e valorizá-los como seus e os defender vigorosamente. O sistema oferece benefícios e vantagens limitadas, mas não por isso insignificantes. Ele atrai e seduz enquanto oprime. As mulheres também podem ser resistentes corajosas e perspicazes. Há um sentido no qual o desafio do feminismo à dominação masculina não é em nada ‘sobre’ as mulheres. Se refere ao sistema social que certamente opera em detrimento das mulheres, mas ao qual qualquer um pode ser cúmplice e contra o qual qualquer um pode resistir. Mas é importante esclarecer que as mulheres são as suas principais vítimas. Evitar nomear a vitimização é uma falha em se nomear a opressão. Pela mesma lógica, também não poderíamos nomear qualquer uma das grandes opressões na história. Deveríamos evitar falar sobre o Holocausto ou sobre colonialismo? Essas grandes maldades produziram incontáveis milhões de vítimas inocentes e impotentes. Por que essas vítimas podem ser nomeadas assim, mas não as mulheres vítimas da supremacia masculina? Como podemos saber o tamanho do dano feito às mulheres se estivermos proibidas de nomear esse dano? À medida em que o ‘feminismo acadêmico’ suprime qualquer referência às mulheres enquanto vítimas, ele está em conluio com a dominação.


Nota

1. Essas autoras utilizam a expressão ‘opressão das mulheres’, e não ‘patriarcado’ ou ‘dominação masculina’.

Ainda sobre escracho

Texto publicado originalmente no blog More Radical With Age. Traduzido com permissão da autora.


A irmandade é poderosa. Ela mata. Majoritariamente irmãs.
– Ti-Grace Atkinson

Fui lembrada desse ensaio hoje, publicado pela primeira vez em 1976. A autora, escrevendo do meio da Segunda Onda do ativismo feminista, descreve em detalhes desoladores o dano psicológico a longo prazo infligido nas mulheres no coração daquele movimento, pelas relações que deveriam justamente nutri-las, ampará-las e libertá-las. Na primeira vez que encontrei esse ensaio, enquanto estudante da graduação com um vago interesse na história da Segunda Onda mas sem nenhuma experiência direta própria em ativismo feminista, li-o com uma certa fascinação perplexa e desconectada, incapaz de compreender como mulheres podiam fazer isso umas com as outras, ou o que poderia explicar essas dinâmicas devastadoras. Hoje, tendo testemunhado a última rodada brutal e implacável de racha direcionado a uma amada amiga minha, e tendo sido alvo disso ontem mesmo, a familiaridade disso tudo torna esse texto quase doloroso demais para ser lido de novo.

Há um certo pequeno conforto a se tirar da percepção de que nada disso é novo: que minha geração não é unicamente não-saudável ou disfuncional, que não somos incomumente incapazes de demonstrar solidariedade e irmandade umas pelas outras, que essas feministas fenomenais, intrépidas e destemidas cujos escritos e ativismo eu admiro tanto sofreram muito das mesmas tristezas que eu sofro, e iriam empatizar com minha dor. Mas isso é acompanhado da tristeza real de que quase quarenta anos depois que o artigo de Joreen foi publicado, fizemos tão pouco progresso. Estamos repetindo os mesmos erros de nossas ancestrais. Outra geração de mulheres brilhantes, comprometidas e apaixonadas está se desgastando. Sendo morta pelo poder da irmandade.

Todas as tendências que Joreen descreve ainda existem. Ainda rachamos mulheres pela frente, e também pelas costas. Ainda ostracizamos. Ainda denunciamos. Ainda damos falsos relatórios sobre as coisas horríveis que outras mulheres disseram ou fizeram. Ainda interpretamos umas às outras impiedosamente. Ainda temos expectativas ridículas e não-razoáveis umas das outras e usamos isso para justificar a raiva e o abuso onde eles não se justificam. Ainda julgamos umas às outras como culpadas por associação, e vemos amizades e relacionamentos como origem de mácula. Ainda nos juntamos para rachar mulheres como nós, usando-as como escudos para desviar a atenção de nós mesmas. Ainda sussurramos nosso apoio ao alvo da vez via canais fechados, mas não falamos nada publicamente, por medo de ser a próxima da fila. Ainda mascaramos a brutalidade disso tudo atrás do véu da “crítica legítima”.

Claro que agora temos todo um conjunto de novas vias através das quais expressamos essas tendências. Nós blogamos. Reblogamos. Twittamos. Subtweetamos. Storifycamos. Printamos. Chamamos atenção. Nós nos aglomeramos. Mobilizamos nossos seguidores. Parodiamos. Fazemos doxxing. Essa coisa de racha se tornou algo muito mais em tempo real, e muito mais inescapável. Se você está envolvida no feminismo online nos últimos dois anos, você quase que certamente já experienciou essa onda de pânico, o pavor doentio e o pulso acelerado, quando seu telefone explode e suas notificações se exaurem, mensagem atrás de mensagem aparecendo para te dizer que ser humano abominável você é. (Desenvolvemos um novo verbo irregular para descrever o que tipicamente acontece no fim dessas aglomerações: eu dou um tempo do Twitter; você desativa a conta por auto-cuidado; ela esperneia.)

Como Joreen, fico preocupada de lavar nossa roupa suja em público — me deixa triste pensar nos homens rindo de nós enquanto assistem a nós nos despedaçando. Somos todas bem versadas nesses estereótipos sexistas de brigas de mulher e mulheres barraqueiras e “vocês não acham que as mulheres são seus piores inimigos?”, e nós sabemos que cada um desses rachas públicos age de acordo com, e reforça esses estereótipos. Mas quero reiterar o ponto que Joreen apontou em 1976 — nada disso é peculiar ao feminismo. Nada disso é específico das políticas ou das relações das mulheres, e ainda que as pessoas pensem que é, é porque aceitaram esses estereótipos sexistas, e aprenderam a desconsiderar os conflitos entre mulheres como sendo brigas histéricas, enquanto tomam os conflitos entre os homens como sendo indicativos de discordâncias políticas substanciosas sérias. Muitas dessas tendências são exacerbadas pelo fato de que somos mulheres — nossa socialização feminina geralmente não nos prepara para passar pelos conflitos e discordâncias de forma leve, e nossa marginalização política significa que podemos ser inexperientes em organização política comparadas aos homens. (Por outro lado, quando brigamos umas com as outras, nações não entram em guerra). Mas as questões psicológicas e estruturais que causam essas fraturas políticas estão presentes não apenas na política feminista, mas nas políticas de esquerda e progressista em geral.

Em nível individual, o que se encontra na esquerda são pessoas que tendem a ser movidas pelos princípios e convicções, e que têm forte comprometimento moral sustentando suas posturas políticas. Então os tipos de mulheres que são levadas ao feminismo são os tipos de mulheres que têm princípios políticos firmes e fortes a que elas são apaixonadamente comprometidas, e que não raro fazem parte de sua identidade e auto-percepção. Por esse motivo, elas geralmente não estão dispostas a desviar desses princípios para se comprometerem com aqueles com quem elas discordam. Uma vez que princípios políticos são uma questão de convicção moral e identidade pessoal, muitas feministas, e esquerdistas em geral, preferem se afastar do movimento a se desfazerem de seus princípios mesmo que minimamente para cooperarem com pessoas cujos princípios são marginalmente diferentes dos seus. Essa convicção — junto com um bocado de narcisismo em pequenas diferenças — resulta em um deslize inevitável em direção a políticas puristas, onde os indivíduos se tornam mais preocupados em manter suas mãos limpas e suas almas livres de poluição a realmente efetuarem uma mudança real no mundo com que dizem se importar. E uma vez que sua doutrina se tornou mais uma questão de salvação pessoal que teoria política, se torna fácil ver aquelas com quem você discorda não apenas como equivocadas, mas como perversas, más, perigosas. Denúncias e ostracismo são justificados, porque as incrédulas são uma ameaça à pureza da doutrina e à própria identidade, e devem ser impedidas.

Isso combina mais com características estruturais de uma situação em que esquerdistas se encontram — ou seja, o fato de que o sistema é tão completamente injusto, os problemas são tão aparentemente intransponíveis e a mudança que se quer fazer no mundo parece tão profundamente impossível de se realizar que um tipo de desespero e desânimo se abate. A vitória é tão intangível e além do alcance dos esquerdistas, dado que a mudança desejada é nada mais que a completa transformação do panorama político e social. Como feministas, queremos acabar com a violência masculina contra as mulheres, eliminar a exploração do trabalho feminino, e abolir as normas opressivas de gênero. Esses objetivos estão muito longe do nosso alcance, e as vitórias em geral parecem poucas e distantes umas das outras, então não há muita oportunidade para comemorar, ou o sentimento de satisfação e gratidão de uma batalha ganha. Mas enquanto não podemos vencer a guerra contra o patriarcado, estamos a uma distância razoável de vencer a batalha contra nossas amigas. E independente de ganharmos ou não essas batalhas, nós certamente temos algum tipo de resposta; enquanto o patriarcado permanece imóvel diante da nossa fúria, brigar com uma irmã a respeito de alguma discordância pequena é garantia de se conseguir algum tipo de reação. Não surpreende então que desferir socos em nossa irmã seja uma opção mais gratificante e atraente que continuar a bater desesperada e desapercebidamente em nosso inimigo mútuo.

Então, o resultado é que aqueles à esquerda são frequentemente levados a brigar e se rachar, em vez de trabalhar juntos para tentar derrotar seu inimigo comum. E incorporada a essa política progressista está uma justificativa ostensiva de se selecionar um alvo, na forma de um profundo comprometimento com a igualdade e um inerente desprezo pelo poder e pela autoridade. Um dos aspectos mais característicos das ideologias políticas de esquerda é um comprometimento com a igual distribuição de poder e o desmantelamento de hierarquias estabelecidas, e o feminismo não é diferente nesse aspecto — desafiar o poder dos homens sobre as mulheres, assim como desafiar as dinâmicas de poder de raça e classe dentro do nosso próprio movimento, é essencial ao ativismo feminista. Mas uma implicação desse igualitarismo e rejeição de hierarquia é a suspeita insidiosa de qualquer pessoa que obtenha status ou sucesso fora do movimento. Qualquer pessoa na esquerda que consiga alcançar alguma influência política se torna instantaneamente um alvo válido para racha, pois sua influência (ou “plataforma”) é vista como um tipo de privilégio que o movimento se dedica a desmantelar. Para as mulheres, isso é exacerbado pelos estereótipos sexistas a respeito da mulher poderosa: ela é insolente, uma castradora, ela não é feminina nem fodível.

O desfecho disso tudo é que qualquer mulher que demonstre ter algum talento, ambição e determinação e que tenta conseguir algum poder e influência no que ainda é um mundo de homens pode estar desenhando em suas próprias costas um alvo. Ela é um objeto perfeito para se rachar, porque fez o que outras mulheres não conseguiram, e arrumou para si um lugarzinho nesse ambiente dominado por homens. Nada mais pode explicar porque tanta virulência feminista é direcionada ao punhado de mulheres de poder e influência na mídia e na academia, e não aos homens que detém a estrutura de poder e privilégio. Não importa que ela use seu poder para ajudar outras mulheres a avançarem. Não importa que ela tenha noção de que a sorte e o privilégio ajudaram-na a chegar ao sucesso. A mulher com poder e influência é perfeita para se rachar, e será acusada de atropelar os outros em seu caminho em direção ao topo, independente de isso ser ou não verdade. E ao fazer isso, estamos implicitamente dizendo às mulheres que não é feminista ser bem sucedida, ter poder e influência, mesmo que você possa usar esse poder e influência para avançar causas feministas. A coisa mais feminista que você pode fazer é sentar-se e calar a boca. Mas a consequência disso não é uma ruptura do poder estabelecido. A consequência disso é que homens continuam tendo esse poder.

Não tenho nenhuma solução para isso. Acho que esses aspectos explicam porque movimentos de esquerda em geral tendem a conflitos internos, fratura e dissolução, e são parte da razão do porquê a esquerda se despedaça em frangalhos, enquanto a direita apenas toca o barco e consolida seu poder. Também penso que enquanto feministas temos o direito de desafiar as relações de poder e hierarquias estabelecidas, e de manter nossas teorias e ativismo sob escrutínio e reflexão críticos. Mas quarenta anos depois de nossas ancestrais feministas escreverem pela primeira vez a respeito disso, estamos ainda nos despedaçando, e nosso inimigo comum se regozija enquanto isso. Mulheres inteligentes, gentis e compassivas estão se ferindo nessa guerra, e vamos perder nossas brilhantes e melhores vozes enquanto muito poucas mulheres têm estômago para esse infinito, implacável racha e assassinato de reputação daquelas do seu próprio lado.

Como Joreen, experienciei isso por tempo suficiente para que me prejudicasse psicologicamente, me ferisse enquanto pessoa e minasse minhas capacidades enquanto feminista. Independente de isso ser comum, eu não sei, mas fui alvo por vezes o suficiente no passado de modo que isso me dói menos quando é direcionado a mim pessoalmente; o que realmente me aflige agora, o que me faz verter lágrimas de raiva e frustração, é ver isso acontecendo com mulheres que amo. Não estou escrevendo isso para buscar simpatia e compaixão. Nem quero terminar esse texto com uma chamada banal e simplista por solidariedade e coesão em nosso movimento fraturado. Minha aposta é que ou você se atrai por esse tipo de idéia ou não se atrai; se não se atrai, nenhum montante de blogagem angustiada e desanimada vai te fazer mudar de idéia. Quero acreditar que apesar de nossas muitas diferenças e da multiplicidade de experiências que trazemos para a discussão, há comunalidade suficiente entre as mulheres para nos tornar um movimento de classe politicamente coeso capaz de trabalhar em conjunto e formar uma comunidade entre nós.

Se você não se sente assim a meu respeito, respeito seu direito de se organizar sem mim, e te desejo o melhor. De minha parte faço aqui as seguintes promessas:

  • Não participarei em rachas, não importa o quão pouco eu goste da mulher em questão, ou o quanto eu discorde de suas políticas
  • Assumirei que outras mulheres agem de boa fé e interpretarei suas posições de forma caridosa
  • Celebrarei quando uma mulher alcançar sucesso de qualquer tipo — e se eu realmente não conseguir comemorar, guardarei meu desapontamento para mim mesma
  • Colocarei o bem estar das mulheres e o progresso de nossos objetivos comuns acima da minha pureza pessoal

Imagino que esse post me tornará impopular. Que o meu racha comece!

Resistência

O primeiro ato do movimento das mulheres não se pode precisar na história. Considere apenas que toda vez que duas ou mais mulheres reuniram-se em torno de suas necessidades enquanto classe, ali esteve o feminismo. Enquanto puderam abrir brechas onde quer que conseguissem dentro da escuridão ignorante onde os homens as mantiveram, ali esteve o feminismo. Enquanto resistiram da forma como puderam dentro de seu contexto, ali esteve o feminismo.

No entanto, a luta feminista tem sido reconhecida apenas pelos seus feitos nos últimos duzentos anos. Foi também nesses últimos duzentos anos que as mulheres que se dedicaram à ela nas mais diversas frentes foram chamadas por esse apelido — feministas —, um xingamento que passaram a usar com orgulho, recebido de jornalistas ingleses indignados com as atitudes daquelas mulheres. E por terem ganhado um nome apenas muito recentemente, diz-se que a luta das mulheres é também recente, que antes disso elas apenas agiam como gado, e que pouquíssimas foram as mulheres que se rebelaram e despontaram talentosas.

Há até mesmo quem diga que foram alguns homens — aqueles, tão generosas exceções — quem tão bondosamente abriram mão de seus privilégios em favor das mulheres. É uma coincidência muito grande que toda essa generosidade tenha começado a aparecer justamente quando as mulheres começaram a se alfabetizar em massa, e a dar voz às suas frustrações usando a mídia impressa. Uma coincidência realmente muito interessante se você parar para pensar, porque coincide com o período não muito distante daquele em que se queimavam mulheres por saber demais, mulheres que tinham a vida e a cura em suas mãos. E que logo depois foram atiradas aos montes às fábricas, ganhando metade do que um homem ganha e fazendo ainda mais trabalho.

Hoje, muito tempo depois do primeiro ato feminista, as mulheres estão sendo convencidas de que sua condição é um sentimento tão subjetivo e indefinível que é impossível afirmar com certeza o que é ser uma mulher, principalmente se você for de fato mulher. As mulheres estão sendo convencidas de que liberdade é o modelo de vida que os homens estabeleceram pra si enquanto exploravam a nós, e que é esse o modelo que devem buscar. As mulheres estão aprendendo Novilíngua. As mulheres já nem se reconhecem mais.

Se as mulheres que entregaram os pontos precisam de uma fuga tão flagrantemente falsa para ter um pouco da sensação de liberdade, é compreensível. Não é a primeira vez que as mulheres sofrem baixas desse tipo em sua história. E muito provavelmente não vai ser a última, enquanto esse movimento precisar existir. Ainda não temos de volta o direito de decidir sobre a vida, decidir quem pode e quem não pode nascer, mas já estivemos muito pior.

Mas essa é apenas uma fase. Já fomos (e somos) mortas, mutiladas, estupradas, prostituídas, vendidas, separadas. Isso vai passar. E nós vamos lutar para que no futuro as mulheres não precisem batalhar novamente pelas mesmas coisas que nós estamos batalhando agora. Para que elas sejam fortes onde hoje somos fracas. Para que elas não se deixem convencer por teorias tortas, promessas vazias e montes de nada. Para que elas tenham as estruturas necessárias para aguentarem o backlash — porque ele vem, ele sempre vem.

Vamos continuar gritando sob os escombros disso que chamamos de feminismo. Illegitimi non carborundum. As mulheres resistem.

Saindo do culto trans

Texto publicado originalmente no blog Purple Sage; traduzido com permissão da autora.

Quando saí do armário como lésbica, foi durante a época da inclusão, quando mais e mais letras foram adicionadasà sopa de letrinhas LGBTQ porque cada minoria sexual precisava de representação. Parecia óbvio que deveríamos incluir a todos — uma vez que nós mesmos sofríamos ostracismo e sabíamos o quão ruim era ser excluído. Queríamos justiça social, queríamos amor e respeito a todas as minorias. Não importa que outra letra fosse adicionada ao acrônimo “queer”, a incluíamos sem questionar. Conheci pessoas de todos os tipos durante minha época na universidade — homens gays, lésbicas, bissexuais, transexuais, assexuais, pessoas de gênero fluído, etc. Eu acreditava que estávamos trabalhando juntos e ganhando aceitação das pessoas hétero. Durante esse tempo também comecei a aprender sobre o feminismo. A princípio, as várias blogueiras feministas que eu estava lendo não pareciam divergir muito entre si. Mas nos últimos anos, um grande golfo começou a nos dividir. Os assuntos que nos separavam era a indústria do sexo e as políticas transgêneras. Nunca comprei a idéia de que a prostituição era um trabalho que precisava ser sindicalizado — eu era capaz de ver prontamente que se tratava de violência. Mas comprei a idéia da transgeneridade por um bom tempo. Eu acreditava, como éramos ensinados a acreditar, que as pessoas trangêneras eram apenas outra minoria sexual que, como os gays e as lésbicas, precisavam lutar contra a discriminação. Eu queria muito ajudar qualquer grupo minoritário a superar a opressão. Fui ensinada que as pessoas transgêneras tinham nascido no corpo errado e precisavam modificar seus corpos para que correspondessem à imagem interna que tinham de si mesmos. Sou uma pessoa de mente aberta e não tinha nenhum problema em acreditar nisso. Mas um monte de irmãs feministas não estavam abertas a essa idéia. Comecei a entrar em brigas com outras feministas. Queria que elas enxergassem que estavam sendo violentas com uma minoria perseguida, e que isso não era compatível com o feminismo. Eu era contra as “TERFs”. Fui ensinada que estava fazendo a coisa certa.

Foi impossível não fazer pesquisas sobre a transgeneridade porque foi impossível conter as muitas perguntas que continuavam surgindo e eram difíceis de responder. Feministas me desafiavam em discussões perguntando “O que é uma mulher?”. Descobri que não conseguiria responder essa questão. Li livros sobre transgeneridade e finalmente me decidi que “mulher” era uma categoria social, mas isso nunca foi fácil de explicar. Entrei em brigas amargas em comentários de tópicos. Chamei outras mulheres de transfóbicas. Isso me fazia sentir muito, muito mal. Nós mulheres deveríamos estar trabalhando juntas e em vez disso estávamos nos rasgando umas às outras em pedaços. Achei que as coisas que o feminismo radical falava eram exageradas. Não parecia possível que mulheres trans estivessem tentando invadir os espaços das mulheres para nos machucar porque pensei que eram apenas outra minoria sexual perseguida, como os gays e as lésbicas. Pensei que eram apenas mulheres que aconteceu de nascerem com as partes erradas. Qualquer ataque a qualquer uma das letras do acrônimo GLBTQ parecia um ataque a mim, porque eu estava naquele acrônimo também. Achei que todas as pessoas representadas sob o guarda-chuva queer eram iguais — pessoas inocentes enfrentando discriminação.

Transativistas estão constantemente à procura de qualquer coisa que possam condenar como transfóbica. A princípio eram coisas óbvias. Pessoas trans têm direito à emprego, moradia e cuidados médicos, e não deveriam ser vítimas de violência. Claro! Mas as coisas que eram condenadas como transfóbicas comecaram a ficar menos óbvias. Chamar alguém pelo pronome errado se tornou fóbico também. E então, não colocar pessoas trans no centro de todas as conversas se tornou fóbico. Daí, falar sobre biologia e anatomia também se tornou fóbico. Eu era contra as “TERFs” até que um dia li no Twitter que insinuar que mulheres menstruam é transfóbico, e percebi — segundo esse princípio, sou uma TERF. Eu sei que mulheres menstruam e que quem menstrua é mulher, e isso é suficiente para ser uma TERF. A coisa toda começou a degringolar aí. Se todo mundo que tem consciência de que mulheres menstruam são TERF, então todo mundo é TERF. Tudo mundo no mundo inteiro. Isso não faz sentido, uma vez que a maioria das pessoas não é feminista radical.

Sabendo que qualquer uma pode ser chamada de TERF por qualquer coisinha, e que não precisa sequer ser feminista radical para ser caluniada dessa maneira, me fez levar o acrônimo muito menos a sério. Comecei a ficar cada vez mais curiosa pelo que as então chamadas TERFs estavam falando. Os transativistas dizem que as feministas radicais sentem ódio pelas pessoas trans, mas toda vez que eu lia um post de blog de uma feminista radical ele era bem fundamentado, claramente explicado, baseado em fatos, destacava nuances e era compassivo. Nunca encontrei de fato a tal fobia que os escritos das feministas radicais supostamente deveriam conter. O que muitas feministas radicais estão dizendo na verdade é que não concordam com as políticas transgêneras porque as políticas transgêneras em geral são prejudiciais às mulheres, mas elas não desejam que nenhum mal aconteça a quem é transgênero. Elas estão apenas se preocupando com as mulheres, o que é algo que as feministas sempre fizeram.

Quando eu brigava com as chamadas “TERFs” online, elas me mandavam artigos de jornal sobre mulheres trans que cometeram crimes contra mulheres. Eu ignorava isso no começo, pensando que eram histórias exageradas ou que eram casos isolados. Mas com o tempo, os casos isolados começaram a se acumular. Começaram a formar um padrão. Depois de um tempo eu simplesmente não poderia negar que mulheres trans podiam ser violentas com mulheres, da mesma forma que os homens são. Então, lendo as palavras das próprias mulheres trans, no Twitter ou em outras redes sociais, uma coisa se mostrou muito clara: mulheres trans se comportam exatamente como homens. Algumas delas não fazem qualquer tentativa de se comportar da forma que as mulheres se comportam ou de sequer tentar entendê-las, e são abertamente hostis à elas.

O fato de que algumas “mulheres trans” são homens violentos e misóginos que tentam se misturar entre outras mulheres realmente destrói a teoria do “sexo cerebral” e a de “nascido no corpo errado”. Estes homens claramente não são mulheres. Não faz qualquer sentido que tais homens tentem convencer a todos de que são mulheres. A única explicação possível para homens violentos e misóginos alegarem que são mulheres é para que possam entrar nos espaços das mulheres para nos perseguir e conseguir mimos e atenção. É óbvio que seu real objetivo é se infiltrar quando se olha pro ativismo deles. Eles não fazem qualquer tentativa de criar espaços para mulheres trans, ou de defender que elas tenham abrigos, empregos e moradia. Tudo o que tentam fazer é entrar nos espaços exclusivos para mulheres. E estão de fato conseguindo muita atenção da mídia, dos profissionais de medicina, e dos ativistas de gênero.

Tenho visto pessoas entrarem na ideologia trans e perderem a cabeça completamente. Cruzei com pessoas que realmente acreditavam que sexo biológico não existe e que não podiam ter acesso a cuidados médicos a menos que um doutor validasse sua identidade de gênero. Imagine, estar em um país rico com sistema de saúde disponível, e recusá-lo só porque o médico quer tratar seu corpo físico baseado em sua real biologia, em vez de tratá-lo baseado em seus sentimentos? O quão ridículo e absurdo é dizer que você não tem assistência médica quando na realidade tem, e quando há pessoas em países pobres que realmente não têm? Cruzei com homens que serviram no exército, tiveram carreiras fantásticas nas Exatas, foram pais de muitos filhos, e então decidiram que eram mulheres durante esse tempo todo. O quê?! E tenho visto lésbicas que fazem ativismo lésbico, participam da comunidade lésbica, fazem casamentos lésbicos, e de repente dizem que eram homens o tempo todo. Muito disso é puro nonsense, mas se você questionar será chamada de TERF e dirão que você está oprimindo pessoas. É como o criacionismo: inventam falsas evidências que não se sustentam quando verificadas, dizem que a ciência é intolerante com suas crenças, dizem que são perseguidos quando não conseguem forçar suas crenças a outras pessoas, e tentam silenciar e destruir os incréus. Transativismo é um culto religioso.

O efeito que o transativismo tem causado no feminismo é como o de um cavalo de Tróia. Ele entrou silenciosamente ao longo dos anos e então explodiu nos anos 2010, e agora as feministas estão divididas e brigando entre si. Gastamos metade do tempo discutindo se mulheres trans são mulheres e se tal pedacinho do feminismo é “transfóbico”, e isso significa que não estamos mais lutando pela libertação das mulheres. O feminismo deveria libertar as fêmeas humanas da opressão. Não deveríamos estar gastando tempo algum preocupadas com os sentimentos de gênero de homens abusivos. E o fato de que os transativistas geralmente são pró-prostituição deveria nos dizer alguma coisa. Essas pessoas estão lutando pelos direitos dos HOMENS. Agora que vi o que vi, voltei para o verdadeiro feminismo, aquele que luta por mulheres. Não estou mais confusa sobre o que é uma mulher. Uma mulher é uma fêmea humana adulta, como sempre foi. Aprendi algo muito importante: minhas irmãs sempre devem vir em primeiro lugar. Realmente sinto muito pela hostilidade que usei para me expressar com mulheres que têm noção de que mulheres trans são homens. Gostaria de voltar no tempo. Tenho usado uma tag em alguns posts chamada “auge trans”. Auge trans é o ponto em que os transativistas finalmente ficam tão ridículos que até mesmo seus antigos aliados não podem mais apoiá-los. Isso foi o que aconteceu comigo e sei que vai acontecer com mais gente.

O Ideal de Beleza

Trecho de “A Dialética do Sexo”, de Shulamith Firestone.

Toda sociedade promoveu um certo ideal de beleza acima de todos os outros. Qual seja este ideal não importa, porque todo ideal exclui a maioria. Os ideais, por definição, são moldados em qualidades raras. Por exemplo, na América, a moda atual de modelos franceses, ou o ideal erótico da Loura Voluptuosa, são moldados a partir de qualidades verdadeiramente raras. Poucas americanas são de origem francesa, a maioria não parece, nem nunca parecerá francesa. Morenas voluptuosas podem descorar o cabelo (como fez Marilyn Monroe, a rainha da sexualidade), mas as louras não podem aumentar suas curvas à vontade — e a maioria delas, anglo-saxã, simplesmente não tem essa conformação. Se e quando, através de métodos artificiais, a maioria consegue espremer-se dentro da forma ideal, o ideal muda. Se ele fosse atingível, como poderia ser bom?

A exclusividade do ideal de beleza serve a uma função política clara. Alguém — na maioria mulheres — ficará de fora. E ficarão disputando, porque, como vimos, só foi permitido às mulheres alcançar a individualidade, através da aparência — atributos definidos como “bons”, não por amor à detentora deles, mas por causa de sua maior ou menor aproximação de um padrão externo. Essa imagem, definida pelos homens (e comumente por homens homossexuais, em geral misóginos da pior espécie), torna-se o ideal. O que acontece? As mulheres, em todo lugar, se apressam em comprimir-se no sapatinho de cristal, forçando e mutilando o corpo com dietas e programas de beleza, roupas e maquiagem, qualquer coisa para se tornarem a garota sonhada do príncipe joão-ninguém. Mas elas não têm escolha. Se não conseguem amoldar-se, os castigos são enormes. Sua legitimidade social está em perigo.

Assim, as mulheres tornam-se cada vez mais parecidas. Mas, ao mesmo tempo, espera-se que elas expressem sua individualidade, através da aparência física. Assim, elas ficam oscilando, tentando, ao mesmo tempo, expressar sua semelhança e sua singularidade. s exigências da privatização Sexual contradizem as exigências do Ideal de Beleza, provocando intensa neurose feminina, em torno da aparência pessoal.

Mas, mesmo esse conflito tem uma função política importante. Quando as mulheres começam a ficar cada vez mais parecidas, diferentes apenas pelo grau em que elas se distinguem de um papel ideal, elas podem ser mais facilmente estereotipadas como classe. Elas se parecem, pensam similarmente, e, pior ainda, são tão burras, que acreditam não serem parecidas.

Patriarcado-Racismo-Capitalismo

SAFFIOTI, Heleieth I. B. O Poder do Macho. São Paulo: Editora Moderna, 1987. p. 60-63.

Já se viu que, historicamente, o patriarcado é o mais antigo sistema de dominação-exploração. Posteriormente, aparece o racismo, quando certos povos se lançam na conquista de outros, menos preparados para a guerra. Em muitas destas conquistas, o sistema de dominação-exploração do homem sobre a mulher foi estendido aos povos vencidos. Com freqüência, mulheres de povos vencidos eram transformadas em parceiras sexuais de guerreiros vitoriosos ou por estes violentadas. Ainda na época atual isto ocorre. Quando um país é ocupado militarmente por tropas de outra nação, os soldados servem-se sexualmente de mulheres do povo que combatem. Este fenômeno aconteceu durante a Segunda Guerra Mundial, dele resultando muitos filhos de soldados norte-americanos com mulheres japonesas. O mesmo se passou durante a guerra do Vietnã, havendo lá deixado os soldados norte-americanos muitos frutos destas uniões sexuais esporádicas e sem compromisso.

Desta sorte, não foi o capitalismo, sistema de dominação-exploração muitíssimo mais jovem que os outros dois, que “inventou” o patriarcado e o racismo. Para não recuar demasiadamente na história, estes já existiam na Grécia e na Roma antigas, sociedades nas quais se fundiram com o sistema escravocrata. Da mesma maneira, também se fundiram com o sistema feudal. Com a emergência do capitalismo, houve a simbiose, a fusão, entre os três sistemas de dominação-exploração, acima analisados separadamente. Só mesmo para tentar tornar mais fácil a compreensão deste fenômeno, podem-se separar estes três sistemas. Na realidade concreta, eles são inseparáveis, pois se transformaram, através deste processo simbiótico, em um único sistema de dominação-exploração, aqui denomi­nado patriarcado-racismo-capitalismo.

Há quem use expressões como capitalismo patriarcal, patriarcado capitalista, capitalismo racial, racismo capitalista. Neste livro, rejeitam-se estes conceitos pelas razões a seguir expostas.

Quando se usa um destes sistemas de dominação-exploração na forma substantiva e outro na forma adjetiva, como, por exemplo, na expressão capitalista patriarcal, está-se atribuindo maior importância ao capitalismo, deixando em plano secundário o patriarcado. O mesmo se passa com a expressão capitalismo racista. No primeiro caso, o patriarcado apenas qualifica o capitalismo, assim como no segundo o racismo exerce esta função de qualificação. Há também quem tome o patriarcado, o mais antigo sistema de dominação-exploração, e o qualifique com os sistemas de produção surgidos ao longo da história. Nesta linha de raciocínio, tem-se o patriarcado escravista, o patriarcado feudal e, finalmente, o patriarcado capitalista. Neste caso, privilegia-se o patriarcado, em prejuízo dos sistemas produtivos com os quais ele foi-se fundindo através dos tempos. Como se verá mais adiante, o ato de atribuir prioridade a um dos três sistemas mencionados tem sérias conseqüências do ponto de vista das estratégias de luta dos contingentes humanos oprimidos, dominados, explorados.

Há uma razão muito forte para que não se proceda pelo raciocínio da priorização, do privilegiamento de um sistema de dominação-exploração. É que, na realidade concreta, observa-se, de fato, uma simbiose entre eles. Esta fusão ocorreu em tal profundidade, que é praticamente impossível afirmar que tal discriminação provém do patriarcado, ao passe que outras se vinculam ao sistema de classes sociais e ou ao racismo.

Se o patriarcado fosse regido por leis específicas, independentes das leis capitalistas, o homem continuaria a ser o único provedor das necessidades da família, não havendo mulher trabalhando remuneradamente. Pelo menos, não haveria mulher trabalhando fora do lar, podendo ganhar algum dinheiro com trabalho no domicílio. Ora, foi o capitalismo que, com a separação entre o local de moradia e o local de trabalho, criou a possibilidade de as mulheres saírem de casa para trabalhar. Isto não significa que as mulheres, antes do advento do capitalismo, fossem ociosas. Ao contrário, trabalhavam na produção e conservação dos alimentos, teciam, confeccionavam roupas, enfim, realizavam atividades hoje executadas pela indústria. À medida que estas atividades foram sendo industrializadas, as mulheres tiveram necessidade de sair de casa para ganhar seu sustento e o de seus dependentes, ou, então, para colaborar no orçamento doméstico.

Assim, é correto afirmar-se que as mulheres se transformam, crescentemente, em trabalhadoras extralar. Não é correto dizer-se que as mulheres penetraram no mundo do trabalho a partir do ad­vento do capitalismo, pois isto significaria que elas não exerciam tarefas produtivas em outros regimes. Nestes, que precederam historicamente o capitalismo, não apenas as mulheres, mas também os homens desenvolviam muitas atividades-trabalho no interior da casa e em seus arredores. Além das atividades desenvolvidas no seio da família, há que se mencionar o trabalho agrícola, realizado, na época, nas imediações da casa, uma vez que as sociedades de então eram eminentemente agrárias.

Por outro lado, se as leis capitalistas vigorassem independente­mente do patriarcado e do racismo, o desemprego dentre os homens seria muito mais alto que dentre as mulheres. Para provar a vali­dade deste argumento, nem se necessita recorrer ao fato de que as mulheres aceitam trabalhar em péssimas condições e por salários aviltados. Basta pensar que, dado o treinamento que recebem para a execução de tarefas tidas como exclusivamente femininas, as mulheres tem maior agilidade nos dedos. Em virtude disto, são muito requisitadas para o desempenho de atividades nas quais o rendimen­to do trabalho aumenta em função da mencionada agilidade. Pode-se lembrar, também, que a atividade de educar, na medida em que é entendida como um prolongamento da função de socializar os filhos, absorve grandes contingentes de mulheres. O mesmo se passa no setor da saúde. Não fora, pois, a forte ideologia que situa o ho­mem como o chefe da família e seu provedor, os interesses empre­sariais na contratação de trabalhadoras teriam grandes probabilida­des de se realizar. Tal conduta deixaria à margem do mercado de trabalho um gigantesco contingente masculino. Há que se ponderar, porém, que as vantagens oferecidas por mulheres no desempenho de certas atividades não derivam nem de sua anatomia, nem de sua fisiologia. São, ao contrário, vantagens adquiridas ao longo do processo de socialização a que são submetidas.

Estes comentários revelam como é impossível isolar a responsabilidade de cada um dos sistemas de dominação-exploração fundidos no patriarcado-racismo-capitalismo pelas discriminações diariamente praticadas contra mulheres. De outra parte, convém notar que a referida simbiose não é harmônica, não é pacifica. Ao contrário, trata-se de uma unidade contraditória. Se o patriarcado e o racismo contém elementos capazes de permitir a maximização dos lucros capitalistas, estes mesmos elementos contém o consumo das classes trabalhadoras dentro de limites bastante estreitos. Ora, so­bretudo num país de economia dependente como o Brasil, a comercialização de produtos industriais realiza-se, principalmente, no mercado interno. Para dar escoamento a estes produtos é, pois, necessário elevar a capacidade aquisitiva, o poder de compra das classes trabalhadoras.

Ao exaltar as qualidades sexuais das mulheres negras, o branco não apenas transformou-as em objeto da satisfação de seus desejos, mas também produziu o mulato. Este produto híbrido, que atualmente constitui cerca de 39% da população brasileira, introduziu cunhas na supremacia do branco sobre o negro. Ele constitui a lembrança permanente de que o branco acasalou-se com negras, o que debilita muitíssimo as justificativas para as discriminações contra não-brancos. O mulato mostra, assim, uma violenta contradição do patriarcado-racismo-capitalismo. Não obstante sua lógica contraditória, este sistema simbiótico de dominação-exploração continua vivo. Cabe, pois, indagar sobre as forças de sua conservação.

A “inferioridade” da mulher

SAFFIOTI, Heleieth I. B. O Poder do Macho. São Paulo: Editora Moderna, 1987. p. 12-16.

Presume-se que, originariamente, o homem tenha dominado a mulher pela força física. Via de regra, esta é maior nos elementos masculinos do que nos femininos. Mas, como se sabe, há exceções a esta regra. Variando a força em função da altura, do peso, da estrutura ossea da pessoa, há mulheres detentoras de maior força física que certos homens.

Em sociedades de tecnologia rudimentar, ser detentor de grande força física constitui, inegavelmente, uma vantagem. Em sociedades onde as máquinas desempenham as funções mais brutas, que reque­rem grande força, a relativa incapacidade de levantar pesos e realizar movimentos violentos não impede qualquer ser humano de ganhar seu sustento, assim como o de seus dependentes. Rigorosamente, pore tanto, a menor força física da mulher em relação ao homem não deveria ser motivo de discriminação. Todavia, recorre-se, com fre­qüência, a este tipo de argumento, a fim de se justificarem as dis­criminações praticadas contra as mulheres.

A força desta ideologia da “inferioridade” da mulher é tão gran­de que até as mulheres que trabalham na enxada, apresentando maior produtividade que os homens, admitem sua “fraqueza”. Estão de tal maneira imbuídas desta idéia de sua “inferioridade”, que se assumem como seres inferiores aos homens.

O mero fato de a mulher deter, em geral, menos força física que o homem seria suficiente para “decretar” sua inferioridade? Os fatos históricos indicam que não. Somente para ilustrar esta questão, evoca-se o fato de que em todos os momentos de engajamento de um povo em uma guerra, via de regra, os homens são destinados ao com­bate, enquanto as mulheres assumem as funções antes desempenhadas pelos elementos masculinos. Por que são elas capazes de trabalhar em qualquer atividade para substituir os homens-guerreiros, devendo retornar ao cuidado do lar uma vez cessadas as ações bélicas? Ade­mais, nos últimos anos, vêm-se assistindo a uma participação cres­cente de mulheres em atividades bélicas. Contingentes femininos apreciáveis têm participado não apenas de guerrilhas, mas também têm assumido funções em exercitos convencionais.

A Nicarágua ilustra bem este fato. Tendo participado da guer­rilha que levou o atual regime ao poder em julho de 1979, muitas mulheres integram as tropas regulares daquele país. No exército nicaragüense não há mulheres somente nas patentes mais baixas. Muitas ostentam o título de comandante, comandando efetivamente tropas formadas majoritariamente por homens.

Desta sorte, até na guerra a mulher provou sua capacidade. La­mentavelmente, esta parece ser a atividade que trabalha mais veloz­mente para minar a idéia de que a mulher e “inferior” ao homem. É lamentavel, repita-se, que o ser humano, no caso o homem, só venha a reconhecer na mulher um seu igual através da atividade guerreira, quando há milhares de outros setores de atuação humana em que as mulheres se mostram capazes.

Do ponto de vista biológico, o organismo feminino é muito mais diferenciado que o masculino, estando já provada sua maior resis­tência. Tanto assim e que as mulheres, estatisticamente falando, vi­vem mais que os homens. A sobrevida feminina em relação aos homens já alcançou oito anos nos Estados Unidos, estando entre cinco e seis no Brasil. É bem verdade que à medida que se intro­duzem fatores de risco — tabagismo, tensão nervosa provocada pela competição no trabalho e ou pelo pesado tráfego das grandes cida­des, pela duplicação da jornada de trabalho (no lar e fora dele) ­as vantagens femininas ficam reduzidas.

Permanece, porém, a defesa natural, orgânicamente oferecida pe­los hormônios femininos contra, por exemplo, as doenças das coro­narias, causa numero um dos óbitos masculinos. Esta proteção perdura até a menopausa, quando os ovários deixam de produzir hormônios, o que ocorre no intervalo entre os 45 e os 50 anos. Como a incidência de enfartos e muito maior antes dos 50 anos que posteriormente, esta defesa hormonal representa uma notável vantagem para a mulher, em termos de longevidade.

Não se trata, contudo, de desejar provar qualquer superioridade da mulher em relação ao homem. O argumento biológico so foi uti­lizado a fim de mostrar a ausência de fundamentação científica da ideologia da “inferioridade” feminina. Por outro lado, este argumento serve também para revelar, mais uma vez, a elaboração social de fe­nômenos orgânicos, portanto, naturais. Ademais, a elaboração ideo­lógica caminha em sentido oposto ao das evidências orgânicas, pois as tábuas de vida da maioria esmagadora dos países mostram que as mulheres são mais longevas que os homens.

São necessários fatores muito específicos para inverter esta ten­dência. Exemplo disto está em certas regiões da Índia, onde as mu­lheres, ao se casarem, são obrigadas a se mudar para a comunidade do marido, devendo aprender uma nova cultura que, via de regra, agride profundamente condutas adquiridas na comunidade de origem.

Como o casamento ocorre na fase adulta da vida, os hábitos anterior­mente aprendidos por estas mulheres já estão solidamente estrutura­dos, constituindo uma verdadeira violência a obrigação de esquecê-los e substitui-los por novos costumes, típicos da comunidade do marido. Dados estatísticos revelam que mulheres sujeitas a este traumatismo tendem a viver menos que os homens. Trata-se, porém, de um caso muito específico, pois a Índia comporta diferenciações culturais gi­gantescas, capazes de produzir profundos conflitos, agravados pela existência da família patrilocal.

A patrilocalidade da família define-se pela obrigatoriedade de a mulher passar a integrar a comunidade do marido. Se as diferenças culturais não fossem tão pronunciadas naquele país, certamente as dificuldades seriam menores, podendo não repercurtir negativamente na expectativa de vida das mulheres.

Na tentativa de inculcar nos seres humanos a ideologia da “infe­rioridade” feminina, recorre-se, freqüentemente, ao argumento de que as mulheres são menos inteligentes que os homens. Ora, a Ciência já mostrou suficientemente que a inteligência constitui um potencial ca­paz de se desenvolver com maior ou menor intensidade, dependendo do grau de estimulação que recebe. Dado o pequeno número de estímulos que recebem, crianças que vivem em instituições destinadas a recolher menores abandonados desenvolvem muito pouco esta poten­cialidade, a qual se convencionou chamar inteligência.

Isto posto, não é dificil concluir sobre as maiores probabilidades de se desenvolver a inteligência de uma pessoa que freqüenta muitos ambientes, o que caracteriza a vida de homem, em relação a pessoas encerradas em casa durante grande parte do tempo, especificidade da vida de mulher. Aliás, o dito popular lugar de mulher é em casa é eloqüente em termos de imposição da ideologia dominante. Em fi­cando em casa todo ou quase todo o tempo, a mulher tem menor número de possibilidades de ser estimulada a desenvolver suas poten­cialidades. E dentre estas encontra-se a inteligência.

O argumento de que há muito poucas mulheres dentre os grandes cientistas, grandes artistas, até grandes cozinheiros, tenta provar que também em termos de inteligência a mulher é inferior ao homem. Os portadores e divulgadores desta ideologia esquecem-se de medir as oportunidades que foram oferecidas, ou melhor, negadas às mulhe­res. Ao se atribuir a elas a responsabilidade praticamente exclusiva pela prole e pela casa, já se lhes está, automaticamente, reduzindo as probabilidades de desenvolvimento de outras potencialidades de que são portadoras.

Desta forma, a igualdade de oportunidades pressupõe a partilha de responsabilidades por homens e mulheres, em qualquer campo de atividade, aí incluso o espaço doméstico. Não se trata de ensinar os homens a auxiliarem a mulher no cuidado com os filhos e a casa, pois sempre que a atividade de alguem se configurar como ajuda, a responsabilidade é do outro. Trata-se de partilhar a vida doméstica, assim como o lazer e as atividades garantidoras do sustento da família. Nada mais injusto do que tentar disfarçar a dominação dos ho­mens sobre as mulheres através da “ajuda” que os primeiros podem oferecer as últimas.

Esta forma de raciocinar é exatamente igual aquela que consi­der o trabalho extralar da mulher como “ajuda” ao marido. Na qualidade de mera “ajudante”, à mulher se oferece um salário me­nor, ainda que ela desempenhe as mesmas funções que o homem. A própria mulher, admitindo seu trabalho tão-somente como “ajuda”, aceita como natural um salário inferior.

Pode-se, pois, detectar, ainda uma vez, o processo de naturali­zação de uma discriminação exclusivamente sociocultural. A com­preensão deste processo poderá promover enormes avanços na cami­nhada da conscientização quer de mulheres, quer de homens, a fim de que se possa desmistificar o pretenso caráter natural das discri­minações praticadas contra os elementos femininos.

Do exposto pode-se facilmente concluir que a inferioridade fe­minina é exclusivamente social. E não é senão pela igualdade social que se luta: entre homens e mulheres, entre brancos e não-brancos, entre católicos e não-católicos, entre conservadores e progressistas. Afinal, travam-se, cotidianamente, lutas para fazer cumprir um pre­ceito já consagrado na Constituição brasileira. Efetivamente, desde a primeira Constituição republicana, de 24 de fevereiro de 1891, “To­dos são iguais perante a lei” (§ 2.° do artigo 72). Esta igualdade legal, que passou a ser minuciosamente especificada a partir da Constituição de 1934, assim consta da Constituição vigente desde 17 de outubro de 1969: “Todos são iguais perante a lei, sem distin­ção de sexo, raça, trabalho, credo religioso e convicções políticas” (§ 1.0 do artigo 153).

Estruturas de dominação não se transformam meramente através da legislação. Esta é importante, na medida em que permite a qual­quer cidadão prejudicado pelas práticas discriminatórias recorrer à justiça. Todavia, enquanto perdurarem discriminações legitimadas pela ideologia dominante, especialmente contra a mulher, os próprios agen­tes da justiça tenderão a interpretar as ocorrências que devem julgar à luz do sistema de idéias justificador do presente estado de coisas. O poder esta concentrado em mãos masculinas há milênios. E os homens temem perder privilégios que asseguram sua supremacia sobre as mulheres.

As mulheres como incapazes: a ciência enviesada pela cultura

Em “Profissões para mulheres e outros artigos feministas”, Virginia Woolf escreve:

Para explicar a ausência completa não só de boas, mas também de más escritoras, não consigo conceber nenhuma razão a não ser alguma restrição externa de suas capacidades. […] Por que, a não ser que estivessem forçosamente proibidas, não expressaram seus talentos na literatura, na música ou na pintura?

[…] [Pode-se] apontar um único nome entre os grandes gênios da história que tenha surgido entre um povo privado de educação e mantido na submissão […]? Parece-me inquestionável que Shakespeare pode existir porque tem predecessores em sua arte, porque faz parte de um grupo que discute e pratica a arte em liberdade de ação e experiência. [1]

Quando Woolf escreveu estas palavras, não havia nenhuma evidência empírica para sustentar a hipótese de que mulheres eram naturalmente incapazes de grandes feitos intelectuais. Seus defensores, munidos de balanças e fitas métricas para medir e pesar crânios —, não se deixavam intimidar por resultados inconclusivos: as mulheres eram, em sua visão, tão obviamente diferente dos homens em suas capacidades e realizações que sua inferioridade já estava atestada, bastava buscar as origens dessas diferenças. Hoje ferramentas como a ressonância magnética possibilitam uma aproximação maior dos cientistas com seu objeto de estudo, mas ainda não permitem tirar conclusões definitivas. Mas, como na época em que os métodos da frenologia e ideais da eugenia estavam em voga, alguns cientistas continuam tecendo conclusões precipitadas: ainda se discute atualmente, com especial vigor nas ciências naturais e em campos interdisciplinares como a psicologia evolutiva e a neurociência, se homens e mulheres possuem de fato diferenças biológicas, genéticas e neurológicas determinantes que possam explicar o “sucesso” daqueles e o “fracasso” destas em suas realizações intelectuais ao longo da história.

A teoria dominante atualmente na neurociência e, principalmente, na psicologia evolutiva, conforme meta-análises realizadas por Rebecca M. Jordan-Young [2], Cordelia Fine [3] e Anne Fausto-Sterling [4] é a seguinte: por causa de diferentes dosagens dos hormônios sexuais [5] em diferentes fases da vida (intra-uterina, adolescência etc), homens e mulheres possuem diferenças fundamentais em seus cérebros. Essas diferentes dosagens hormonais não afetariam tão somente suas preferências sexuais, mas também sua atuação na sociedade e suas performances de gênero. Essas diferenças seriam, portanto, solidamente enraizadas no cérebro e, consequentemente, imutáveis. Parte-se nestes estudos do pressuposto que as diferenças de oportunidades entre homens e mulheres — e, consequentemente, entre héteros e pessoas cuja sexualidade e padrões de comportamento “desviam” da “norma” — não possuem causas sociais [6]; são, portanto, explicadas por essas diferenças inatas na cognição e pelos interesses naturalmente divergentes nas muitas esferas de atuação na sociedade.

O uso do termo “diferenças” no parágrafo anterior não foi por acaso. Esses estudos em geral se empenham em detectar diferenças muito mais do que semelhanças, de modo que qualquer mínima anomalia é recebida e apontada efusivamente, enquanto que as semelhanças detectadas entre os componentes das amostras são imediatamente descartadas. Este fenômeno é conhecido no meio acadêmico como “efeito gaveta” [7].

A ideia de que existam diferenças congênitas e irreconciliáveis firmemente atreladas aos cérebros de homens e mulheres e que é praticamente impossível se desvencilhar delas é, por definição, uma ideia determinista. Se biologia é destino, então as diferenças inatas entre os sexos encontradas pelos cientistas que diligentemente as buscam devem ser aceitas, e as mulheres, conformarem-se com seu papel subalterno na sociedade. Entretanto, um olhar atento na forma como esses estudos vêm sendo feitos — não apenas na época das fitas métricas, mas na da moderna neurociência — encontra erros de metodologia e condução se não grotescos, no mínimo preocupantes, mesmo quando não se consideram variáveis sociais e atentando-se somente à lógica interna dos estudos em si.

Devido às dificuldades operacionais e éticas em se medir diretamente as influências dos hormônios no comportamento humano, os estudos que visam comprovar diferenças cerebrais entre homens e mulheres são sempre quase-experimentos. Neste modelo de estudo empírico, mede-se o impacto de um elemento (que não pode ser administrado diretamente, seja por questões éticas ou devido à natureza do objeto de estudo) numa amostra, de modo que a amostra é selecionada a partir da presença deste elemento e não aleatoriamente, como em estudos empíricos tradicionais. São quase-experimentos clássicos os estudos que verificam taxa de incidência de câncer em populações fumantes. Quase-experimentos normalmente possuem amostras menores dada a dificuldade de se encontrar indivíduos afetados pelo que se busca estudar e, em geral, quase-experimentos de uma mesma área de estudo devem se validar mutuamente para consolidar, sustentar e também validar externamente suas hipóteses [8].

Os métodos de coleta de dados especificamente dos estudos que visam encontrar variações de desempenho baseadas em sexo são, portanto, quase-experimentos, e envolvem: medições indiretas de níveis hormonais de vários tipos (da mãe durante a gravidez, da criança através de coleta de sangue pelo cordão umbilical, através de medição da proporção dos dedos das mãos, entre outros métodos), questionários quantitativos a respeito do desempenho em variadas atividades ou padrões de comportamento, entrevistas, e exames de ressonância magnética comparando a atividade cerebral sob determinados contextos e em repouso. As pessoas selecionadas para fazerem parte das amostras destes estudos em geral pertencem a grupos considerados “normais”, ou com padrões biológicos e genéticos ou de comportamento atípicos (como por exemplo meninas com hiperplasia adrenal congênita).

Porém, as evidências que corroboram as conclusões dos estudos neste meio são, em geral, desconexas e bastante duvidosas, justamente o oposto do que deveriam ser para se validarem: incorporam preconceitos e vieses dos próprios pesquisadores; possuem definições bastante diversas (e por vezes contraditórias) a respeito de padrões de normalidade esperados de homens e mulheres — e, portanto, não podem ser comparados entre si para se mutuamente sustentar, como se espera de quase-experimentos; partem para conclusões apressadas e generalizantes usando amostras pouco significativas; por vezes não são possíveis de serem replicados; nem sempre utilizam grupos de controle, isso quando não utilizam a mesma amostra em vários estudos; e não levam em consideração o contexto social da amostra, raramente dando nota de que esses fatores podem ter papel significativo e até mesmo determinante nos padrões e resultados encontrados.

Os sérios problemas metodológicos encontrados e apontados por Rebecca Jordan-Young, Cordelia Fine e também Anne Fausto-Sterling em seus relatórios e meta-análises, e os próprios resultados desencontrados destes estudos facilmente levam a crer que as áreas do conhecimento humano que se propõem a investigar as possíveis diferenças cognitivas e cerebrais entre homens e mulheres até o momento não encontraram nenhuma evidência que comprove a idéia de inabilidades (ou habilidades) inatas a partir das diferenças biológicas, ou até mesmo que cérebros de homens e mulheres possuam diferenças drásticas que determinem seus comportamentos, idéia bastante enraizada no senso comum e também em alguns campos de pesquisa. O que se sabe, entretanto, é que cérebros se desenvolvem conforme o meio e as oportunidades oferecidas aos seus donos[9].

A busca incessante por explicações científicas com o intuito de “provar” diferenças cerebrais entre homens e mulheres e, consequentemente, a incapacidade intelectual das mulheres, é sintomática e deve ser vista com desconfiança crítica. Desconsideram-se as variáveis culturais e contextuais, como o fato de que ainda muito recentemente às mulheres foi permitido — com muita luta por parte delas — o acesso ao estudo da maioria das ciências e, mesmo hoje, o fato de esse atraso ter-se feito presente nas estatísticas. Ainda que a igualdade, pela letra da lei, tenha sido atingida ou se pareça estar próximo disso, mudanças culturais levam tempo.


1. WOOLF, Virginia. Profissões para Mulheres e Outros Artigos Feministas. Tradução de Denise Bottmann. Porto Alegre: L&PM, 2012. p. 47-49.

2. JORDAN-YOUNG, Rebecca M. Brain Storm: The Flaws in the Science of Sex Differences. Cambridge, Mass: Harvard University Press, 2010.

3. FINE, Cordelia. Delusions of Gender: The Real Science Behind Sex Differences. Nova York: Icon Books, 2005.

4. FAUSTO-STERLING, Anne. Sexing the Body: gender politics and the construction of sexuality. Nova York: Basic Books, 2000.

5. Aos chamados “hormônios sexuais” são atribuídas funções em geral relacionadas ao sexo biológico e seus processos e ciclos, sendo cada um deles (estrogênio e testosterona) ligados a cada sexo (feminino e masculino, respectivamente). Essa visão dualística e oposta é errônea principalmente porque ambos são importantes no desenvolvimento biológico tanto de homens quanto de mulheres, e não estão relacionados apenas às funções reprodutivas, mas a uma bem variada lista de propósitos, não ainda totalmente bem compreendidos. Seus níveis e efeitos no organismo também podem mudar drasticamente conforme o meio em que se encontra o indivíduo (JORDAN-YOUNG, 2010. p. 16,
p. 280-285).

6. JORDAN-YOUNG, 2010. p. 139.

7. “File drawer effect”; SCARGLE, Jeffrey D. “Publication Bias: The ‘File-Drawer’ Problem in Scientific Inference”. Journal of Scientific Exploration. Society for Scientific Exploration. v. 14. n. 1. 2000. p. 91-106.

8. JORDAN-YOUNG, 2010. p. 3.

9. FAUSTO-STERLING, 2000. s.p.

Auto-definição

Este é um trecho do livro “The Transsexual Empire”, de Janice Raymond — que pode ser baixado no formato mobi aqui —, publicado em 1979. Apesar de ainda não usar os termos da moda (“trans*” e “transgênero”) o texto é ainda muito atual e merece ser lido com atenção.

Uma das questões mais constrangedoras que transsexuais, e, em particular, “feministas lésbicas” transsexualmente construídas, fazem é a questão da auto-definição — o que é ser mulher, o que é ser feminista lésbica? Mas, é claro, eles colocam a questão em seus próprios termos, e nós é que temos que respondê-la. Os homens sempre fizeram estas grandes questões, e esta questão, no verdadeiro sentido fálico, é imposta a nós. Quantas estudantes mulheres escrevendo sobre um tema feminista fraco como “As Mulheres Deveriam Ser Motoristas de Caminhão, Engenheiras ou Operadoras de Escavadeiras?” e coisa do tipo têm escrito nas margens de seu trabalho um rabisco de um professor homem: “Mas quais as reais diferencas entre homens e mulheres?”

Os homens, claro, têm definido as supostas diferenças que vêm mantendo as mulheres longe de tais trabalhos e profissões, e as feministas têm gasto muita energia demonstrando como estas diferenças, se realmente existem, são primeiramente o resultado da socialização. Contudo, há diferenças, e algumas feministas se deram conta que essas diferenças são importantes pois brotam da socialização, da biologia, ou de toda a nossa história como mulher existindo em uma sociedade patriarcal. O ponto é, entretanto, que a origem dessas diferenças provavelmente não é a questão importante, e provavelmente nunca saberemos a resposta completa a ela. Ainda assim somos obrigadas a tentar respondê-la de novo e de novo [1].

Transsexuais, e “feministas lésbicas” transsexualmente construídas, nos obrigam novamente a responder estas questões antigas reelaborando-as de um jeito novo. E assim feministas debatem e se dividem porque continuamos focando nas questões do patriarcado sobre o que é ser mulher e o que é ser uma feminista lésbica.

É importante que nós percebamos que estas podem muito bem ser “não-questões” e que a única resposta que podemos dar a elas é que nós sabemos quem somos. Nós sabemos que somos mulheres que nasceram com cromossomos e anatomia feminina, e que sendo ou não socializadas para sermos a chamada “mulher normal”, o patriacado tem nos tratado e vai nos tratar como mulheres. Transsexuais não têm tido esta mesma história.

Nenhum homem pode ter essa história de vida de ter nascido e ter sido situado nessa cultura como uma mulher. Ele pode sim ter tido em sua história a vontade de ser uma mulher ou de agir como uma mulher, mas essa experiência de gênero é a de um transsexual, não a de uma mulher. Cirurgias podem dar os órgãos femininos internos e externos artificiais, mas não podem lhe conceder a história de ter nascido uma mulher nesta sociedade.

Mas e as pessoas que nasceram com órgãos sexuais ambíguos ou com anomalias cromossômicas que os põem na situação de serem biologicamente interssexuais? É preciso notar que praticamente todos eles são alterados cirurgicamente para se tornarem machos ou fêmeas anatomicamente e são criados de acordo com a identidade e o papel de gênero social que acompanha seus corpos. Pessoas cuja ambiguidade sexual é descoberta mais tarde são alteradas conforme têm sido seu gênero de criação (masculino ou feminino) até aquele momento. Então, aqueles que foram alterados logo depois do nascimento têm a história de praticamente terem nascido como homens ou mulheres, e aqueles alterados tardiamente têm seu corpo cirurgicamente conformado à sua história. Quando e se submetem às mudanças cirúrgicas, eles não se transformam no sexo oposto depois de uma longa história atuando e sendo tratados de forma diferente.

Ainda que a literatura popular a respeito do transsexualismo dê a entender que a Natureza tenha cometido erros em relação aos transsexuais, na realidade é a sociedade que cometeu erros, produzindo condições que criam a divisão transsexual entre corpo/mente.

Enquanto as pessoas interssexo nascem com anomalias cromossômicas ou hormonais, as quais podem ser relacionadas a certas disfunções biológicas, o transsexualismo não é um problema desta ordem. A linguagem da “Natureza comete erros” só serve para confundir e distorcer o assunto, tirando o foco do sistema social, que é ativamente opressivo. Essa linguagem é bem sucedida em culpar uma “Natureza” amorfa que é feita para parecer opressiva e é convenientemente passível de dirigir controle/manipulação através de instrumentos como hormônios e cirurgias.

Ao falar da importância da história para a auto-definição, duas questões devem ser feitas. Uma pessoa deve querer mudar sua história pessoal e social e, em caso positivo, como essa pessoa deve mudar essa história de forma mais honesta e integral possível? Em resposta à primeira questão, qualquer um que tenha vivido em uma sociedade patriarcal precisa mudar sua história pessoal e social a fim de ter um caráter próprio. Devemos ser agentes de mudança de nossa própria história. Mulheres que são feministas obviamente querem mudar partes de sua história enquanto mulheres nesta sociedade; alguns homens que estão honestamente lidando com questões feministas querem mudar suas histórias enquanto homens; e transsexuais desejam mudar suas histórias ao quererem ser mulheres. Ao sublinhar a importância da história enquanto fêmeas para a auto-definição do sexo feminino, não estou defendendo uma visão estática desta história.

O que é mais importante, no entanto, é como alguém muda sua história pessoal da forma mais honesta e integral possível se essa pessoa quer romper com a opressão dos papéis sexuais. Homens não-transsexuais que desejam lutar contra o sexismo devem assumir uma identidade de mulher e/ou de feminista lésbica enquanto mantém sua anatomia masculina intacta? Por que homens castrados deveriam tomar para si estas identidades e serem aplaudidos ao fazerem isso? Em que medida negros devem aceitar brancos que passaram por mudanças medicalizadas de cor de pele e, no processo, afirmaram que não apenas têm corpo de negro, mas alma de negro?

Um transsexual pode se auto-definir como “feminista lésbica” só porque ele quer, ou esta auto-definição em particular procede de certas condições próprias da biologia e da história do sexo feminino? As mulheres adotam estas auto-definições de feministas e/ou de lésbicas porque esta definição realmente procede não apenas do fato de ter nascido com cromossomos XX, mas também de toda uma história do que ter nascido com estes cromossomos significa nesta sociedade.

Os transsexuais seriam mais honestos se lidassem com sua forma específica de agonia de gênero que os inclina a quererem uma operação transsexualizante. Essa agonia de gênero provêm do fato de ter nascido com cromossomos XY e querer ter nascido XX, e da história de vida particular que produz este tipo de aflição. O lugar para lidar com este problema, no entanto, não é na comunidade de mulheres. O lugar para confrontar e resolver isto é entre os próprios transsexuais.

As pessoas devem poder fazer escolhas em relação a quem querem ser. Mas devem poder fazer qualquer tipo de escolha?

Uma pessoa branca deve tentar se tornar negra, por exemplo? Essa é uma questão moral, que trata basicamente da validade de tal escolha, não da possibilidade dela ser feita.

Uma pessoa deve poder fazer escolhas que camuflam para os outros certas facetas de nossa existência que os outros têm direito de saber — escolhas que se alimentam das energias dos outros, e reforçam a opressão?

Jill Johnston comenta que “muitas mulheres estão dedicadas a trabalhar pelo ‘homem reconstruído'” [2]. Isso normalmente significa mulheres gentil ou fortemente estimulando seus homens a comportamentos e ações andróginas.

Mulheres que aceitam estas “feministas lésbicas” transexualmente construídas dizem que estes homens são realmente “reconstruídos” no mais básico sentido que as mulheres podem esperar — isto é, eles pagaram com suas bolas para lutar contra o sexismo. Em última análise, porém, o “homem reconstruído” se torna a “mulher reconstruída” que obviamente se considera um igual e uma semelhante às mulheres genéticas em termos de “mulheridade”. Um transsexual expressou abertamente que ele sentia que homens transsexuais cirurgicamente construídos como mulheres ultrapassaram as mulheres genéticas.

Mulheres genéticas não podem possuir esta coragem muito especial, brilho, sensibilidade e compaixão — e visão geral — derivada da experiência transsexual. Livre das amarras da menstruação e da maternidade, mulheres transsexuais são obviamente muito superiores às genéticas em muitos sentidos.

Mulheres genéticas estão se tornando obsoletas, o que é óbvio, e o futuro pertence às mulheres transsexuais. Nós sabemos disso, e talvez algumas de vocês suspeitem disso. Tudo o que vocês têm é sua “habilidade” de ter filhos, e num mundo onde haverá 6 bilhões chorando por comida no ano 2000, essa é uma qualidade negativa. [3]

Em última análise, as mulheres devem se perguntar se “feministas lésbicas” transsexualmente construídas são nossas semelhantes. Eles são iguais a nós? Questões sobre igualdade geralmente se centram em igualdade proporcional, como “salário igual para trabalho igual”, ou “direitos iguais de saúde”. Não me refiro a igualdade nesse sentido. Em vez disso, uso o termo igualdade para dizer: “como em qualidade, natureza ou status” e “capaz de satisfazer as exigências de uma dada situação ou de uma dada tarefa”. Nestes sentidos, transsexuais não são iguais a mulheres e não são nossas semelhantes. Eles não são nem iguais às mulheres nem nossos semelhantes. Eles não são iguais nem em “qualidade, natureza ou status” nem são “capazes de satisfazer as exigências de uma situação” de mulheres que passaram sua vida toda vivendo como mulheres.

Jill Johnson escreveu sobre feministas lésbicas: “A essência da nova definição política é o agrupamento de semelhantes. Mulheres e homens não são semelhantes e muitas pessoas duvidam seriamente se já fomos ou se algum dia poderemos ser” [4]. Transsexuais não são nossos semelhantes em virtude de suas histórias.

É talvez nossa desconfiança do homem como agressor biológico que continua nos trazendo de volta à necessidade política do poder pelo agrupamento de semelhantes. Apesar de ainda estarmos virtualmente impotentes, é só por constantemente aderirmos a este difícil princípio de poder inerente em semelhantes naturais (os homens afinal têm demonstrado bem o sucesso deste princípio) que as mulheres vão eventualmente atingir uma existência autônoma [5].

Os transsexuais não demonstram o tipo comum de agressão fálica. Em vez disso, eles violam os espaços das mulheres tomando para si os órgãos femininos artificiais. A “feminista lésbica” transsexualmente construída se torna um agressor psicológico e social da mesma forma.

“Feministas lésbicas” transsexualmente construídas desafiam as mulheres a preservar uma existência autônoma. Sua existência dentro das comunidades de mulheres basicamente atesta a ética que diz que mulheres são incapazes de viverem sem homens — ou sem o “homem reconstruído”. A forma que as feministas acessam e encaram esse desafio afetará o futuro de nosso movimento genuíno, nossa auto-definição e nosso poder de existência.

No final das contas, “feministas lésbicas” transsexualmente construídas seguem a mesma tradição das “lésbicas” construídas pelos homens nos pôsteres centrais da Playboy. De vez enquando, a Playboy e outras revistas semelhantes apresentam uma “Safo pictórica” [6]. Recentemente, os homens fotógrafos entraram no mercado editorial retratando pseudolésbicas em todos os tipos de posições, vestimentas e contextos que só poderiam ser fantasiados pela mente de um homem [7]. Em resumo, a maneira como as mulheres são retratadas nessas fotografias imitam as poses de homens manipulando mulheres. Os homens produzem o amor entre “lésbicas” da forma como querem que seja e de acordo com os seus próprios cânones de como eles acham que deveria ser.

“Feministas lésbicas” transsexualmente construídas fazem parte dessa tradição de propaganda pseudolésbica. Ambas a pseudolésbica da Playboy e a pseudolésbica transsexual espalham a imagem “correta” (leia-se, “definida pelos homens”) da lésbica, que é filtrada para a consciência do público através da mídia como sendo verdadeira. Mutilando a verdadeira auto-definição de lésbica, os homens moldam sua imagem/realidade de acordo com a sua própria. Como Lisa Buck comentou, o transsexualismo é o verdadeiro “o Verbo se fez carne!” [8].

“Feministas lésbicas” transsexualmente construídas tentam funcionar como criadores da imagem das feministas lésbicas — não apenas para o público em geral, mas também para a comunidade das mulheres. Seus disfarces de lésbicas são filtrados na consciência das mulheres através da mídia feminista como sendo “a coisa real”. A tragédia final de tal paródia é que a realidade e a auto-definição de feministas lésbicas se torna mutilada nas próprias mulheres. Feministas lésbicas que aceitam “feministas lésbicas” socialmente construídas como seus outros eus estão mutilando sua própria realidade.

As várias “raças” de mulheres que a ciência médica consegue criar são infinitas. Há mulheres que estão hormonalmente dependentes em doses contínuas de terapias de reposição de estrogênio. Tais terapias supostamente irão garantir à elas uma nova vida de feminilidade eterna [9]. Há mulheres histerectomizadas, purificadas de seus órgãos “potencialmente letais” por motivos “profiláticos” [10]. Finalmente, há a “she-male” — o homem transsexual cirurgicamente construído como mulher. E o desdobramento dessa “raça” é a “feminista lésbica” transsexualmente construída.

Todos estes eventos apontam para o papel particularmente instrumental que a medicina tem desempenhado no controle das mulheres desviantes. O “Império Transsexual” é um última análise um império médico, baseado no modelo médico patriarcal. Este modelo médico forneceu um “dossel sagrado” de legitimações para o tratamento e a cirurgia transsexualizante. Em nome da terapia, este modelo medicalizou questões morais e éticas da opressão dos papéis sexuais, apagando assim seu significado mais profundo.


[1] Um paralelo com a questão do aborto, que pode ser notado neste contexto. A questão-chave, perguntada pelos homens há séculos, é “quando a vida começa?” Esta questão é feita pelos homens em seus termos e em seus territórios, e é essencialmente irrespondível. As mulheres têm se torturado tentando respondê-la e, dessa forma, não fazemos e nem mesmo desenvolvemos nossas próprias questões sobre o assunto.

[2] Jill Johnson, Lesbian Nation: The Feminist Solution (Nova York: Simon & Schuster, 1973), p. 180.

[3] Angela Douglas, Letter, Sister, Agosto-Setembro de 1977, p. 7.

[4] Johnston, Lesbian Nation, p. 178.

[5] Ibid., p. 279.

[6] Vide, por exemplo, o portifólio do fotógrafo J. Frederick Smith, “com deslumbrantes retratos inspirados por poemas da Grécia Antiga sobre o amor entre mulheres”, na Playboy de outubro de 1975, pp. 126-35.

[7] Um fotógrafo que é particularmente obcecado por “capturar” mulheres em poses pseudolésbicas é David Hamilton. Ele é o criador dos seguintes livros de fotografia: Dreams of a Young Girl, texto de Alain Robbe-Grillet (Nova York: William Morrow and Co., 1971). Sisters, texto de Alain Robbe-Grillet (Nova York: William Morrow and Co., 1971). Este livro tem uma seção pictórica ultrajante entitulada “Charms of the Harem” [Charmes do Harém]. Hamilton’s Movies — Bilitis (Zug, Suíça: Swan Productions AG, 1977).

[8] Lisa Buck (notas não publicadas a respeito do transsexualismo, outubro de 1977), p. 3.

[9] Um exemplo deste tipo de literatura é o livro Feminine Forever, de Robert Wilson (Nova York: M. Evans, 1966). Esse livro vendeu 100.000 cópias em seu primeiro ano, e foi citado na Look e na Vogue.

[10] Vide Deborah Lamed, “The Greening of the Womb”, New Times, 12 de dezembro de 1974. pp. 35-39

O mais íntimo dos espaços das mulheres — seus corpos

Jeffreys, Sheila. Gender Hurts: a feminist analysis of the politics of transgenderism. Abingdon, Oxon: Routledge, 2014. Traduzido com permissão da autora.

O mais importante espaço para as mulheres são seus corpos. A invasão masculina e a ocupação dos corpos das mulheres foram identificadas pelas feministas como o fundamento da subordinação das mulheres. Os homens têm, historicamente, vendido e trocado mulheres como propriedades no casamento e na prostituição de modo que seus corpos possam ser usados para sexo e reprodução (Lerner, 1987). A tentativa de tirar o controle de seus corpos por parte de homens individualmente e por parte de leis patriarcais e instituições têm sido talvez o mais importante ímpeto subjacente para a atividade feminista, porque sem esse controle mulheres não têm chance alguma de acessar qualquer outra forma de liberdade. O aborto tem sido a chave do ativismo feminista, de modo que uma mulher que não consegue controlar sua reprodução se torna um mero veículo aos propósitos alheios. Similarmente, o direito de uma mulher de definir sua própria sexualidade, de apenas ela mesma selecionar parceiros sexuais, de escolher o celibato, ou de escolher se relacionar sexualmente com pessoas cuidadosamente escolhidas, tem sido entendido como algo central ao direito das mulheres à autonomia. Talvez não seja surpreendente, então, que transgêneros de constituição masculina, alinhados à geração de homens que tem buscado controlar os corpos das mulheres, considerem que este seja um espaço importante de se ocupar.

O direito à autonomia sexual das mulheres é diretamente contraditório às tentativas de alguns ativistas transgêneros de forçar mulheres a disponibilizarem suas vaginas para uso sexual dos pênis desses homens. Em um extraordinário exemplo do que a cientista política Carole Pateman chama de direito masculino de acesso, alguns ativistas transgêneros estão agora procurando instilar culpa em lésbicas de modo a permitir acesso de pênis em seus corpos (Pateman, 1988). Isso está ocorrendo através de uma campanha para destruir o que esses ativistas transgêneros chamam de “teto de algodão” [no original, “cotton ceiling”], um termo que é baseado no entendimento feminista de que mulheres na vida pública encaram um “teto de vidro” que proíbe seu acesso aos santuários masculinos. O “teto de algodão”, um termo inventado pelo ator pornô transgênero Drew Deveaux, abrange as calcinhas das mulheres, que criam uma barreira contra a penetração por parte de pênis de transgêneros de constituição física masculina (Garmon, 2012). A idéia de que a relutância das mulheres e das lésbicas em servir estes pênis é um problema a ser abordado seriamente e superado conseguiu tanta aceitabilidade que a organização de caráter masculinista Planned Parenthood ajudou a fazer um workshop sobre o “teto de algodão” em sua conferência em Toronto chamada “Prazeres e Possibilidades” em 2011. Esse workshop era exclusivo para transgêneros de constituição física masculina, um espaço do qual as mulheres eram excluídas, e no qual esses homens poderiam discutir táticas para acessar os corpos das lésbicas ou de mulheres em geral que forem resistentes aos seus encantos (Planned Parenthood, 2011).

O workshop foi chamado de “Superando o Teto de Algodão: Quebrando as Barreiras Sexuais para Mulheres Trans Queer”, e era conduzido pelo ativista transgênero Morgan Page (Page, 2011). A descrição do workshop diz:

[O workshop] “Superando o Teto de Algodão” vai explorar as barreiras que as mulheres trans queer encaram dentro das amplas comunidades queer de mulheres através de discussões em grupo e da criação de representações visuais práticas dessas barreiras. Os participantes trabalharão juntos para identificar barreiras, traçar estratégias para superá-las e construir uma comunidade. (Page, 2011)

A campanha se baseia em instilar culpa, de modo que as mulheres são acusadas de “transfobia” ou “transmisoginia” em uma tentativa de induzi-las a admitir pênis não-desejados em seus corpos. Na campanha do teto de algodão, o direito à autonomia sexual das mulheres é redefinido como uma forma de discriminação contra pessoas de constituição física masculina, a qual deve se fazer oposição zelosa. Os transgêneros de constituição física masculina que fazem campanha para conseguir acesso aos corpos das mulheres desse modo chamam seus pênis de “lady sticks” [varinha de mulher[. A origem desse termo é um tanto informativa: É comumente usado em pornografia transgênera, onde homens com pênis são prostituídos para o prazer sexual de consumidores homens. Um site pornô transgênero, Shemale Models Tube, assim descreveu um dos transgêneros de constituição física masculina em um vídeo pornô: “Senhora Meat é uma garota safada que ama ter seu lady stick chupado o dia todo” (Shemale Models Tube, n.d.). É, portanto, irracional esperar que lésbicas e feministas suspendam sua descrença de modo a facilitar as vidas de fantasias sexuais desses homens com pênis. As demandas básicas das mulheres de terem o direito de definir suas próprias sexualidades e de escolher a quem vão amar são muito importantes.


Referências
LERNER, Gerda. The Creation of Patriarchy. Nova York: Oxford University Press, 1987.
PARTEMAN, Carole. The Sexual Contract. Cambridge, UK: Polity Press, 1988.
GARMON, Savannah. Requiem for a dialogue. 27 de janeiro de 2012. Disponível em: link — Acesso em 25 de julho de 2012.
PLANNED PARENTHOOD. Pleasures and Possibilities. 2011. Disponível em: link — Acesso em 25 de julho de 2012.
PAGE, Morgan. Overcoming the Cotton Ceiling. 2011. Disponível em: link — Acesso em: 25 de julho de 2012.
SHEMALE MODELS TUBE. Thick Black T-Girl. Sem data. Disponível em: link — Acesso em 17 de março de 2013.