RADFAQ

Olá! Este é um lugar para tirar dúvidas. Essa seção será constantemente atualizada. Se você tem alguma dúvida que ainda não foi sanada abaixo, deixe nos comentários. 🙂

Qual a visão sobre gênero de vocês radfems?

Pra começar, nós temos uma visão de gênero bem diferente da corrente na academia e na cultura popular. Acreditamos que os papéis de gênero são uma imposição do patriarcado feita a partir do sexo de nascimento das pessoas, e que separa a humanidade em dois grandes grupos: os homens (que dominam) e as mulheres (que são dominadas). Ninguém ainda chegou numa conclusão muito definitiva sobre o porquê de isso acontecer desse modo. Algumas especulações muito boas foram feitas por antropólogos e até por economistas a partir de estudos de diversas sociedades e da história. A noção que adotamos no radfem, que tem por base esses estudos e mais a realidade em que a gente vive, é a de que somos dominadas por conta de nossas funções na reprodução. Nascemos com o potencial de criar vida. Óbvio que nem todas nós temos essa capacidade, mas pensa que também não vão usar isso contra nós para nos dominar?

Então vocês acham que ter vagina é o que faz de uma mulher, mulher?

Nós não. Quem acha isso — e quem imputa esse rótulo na gente — é o patriarcado, a partir da nossa genitália. Como essa imputação de gênero é feita a partir da nossa realidade material, nosso corpo é essencial para entender porque mulheres (e não homens) são oprimidas na maior parte das sociedades. Por isso, achamos que é prioridade do movimento feminista que as mulheres se unam por esta característica que, talvez, seja a única comum que temos, considerando-se todos os recortes que possam ser feitos numa análise da situação das mulheres no mundo (classe, raça e etnia, localização geográfica, etc).

Mas isso não é essencialista?

Não é essencialista porque não acreditamos que haja uma essência que defina o que é ser mulher. Ser mulher, para nós, é como ser japonês, ou ser negro, ou ser careca: é um fato, é uma realidade corporal a respeito da qual a gente não pode fazer muita coisa. Temos nossas particularidades sim, principalmente no que diz respeito às nossas funções e necessidades biológicas enquanto mulheres (menstruamos, parimos, entramos na menopausa). Mas isso não determina quem somos, como vamos agir, que interesses profissionais teremos, ou que tipo de roupa devemos vestir. Justamente por não sermos essencialistas é que acreditamos que não exista uma forma correta ou normatizada de ser mulher. Quem acredita que ser mulher é se vestir ou se portar de um jeito específico é o patriarcado e o sistema de gênero, que punem quem não se conforma. Consequentemente, esse sistema também pune os homens que não se conformam a ele. O que torna os padrões de comportamento de homens e mulheres tão diferentes é a socialização que cada um desses grupos humanos sofre por conta da designação que receberam ao nascerem.

Mas e as pessoas intersexo?

As pessoas intersexo vivem realmente uma situação bastante complicada, nós não negamos isso. Muitas feministas radicais já apontaram os sofrimentos específicos dessas pessoas como sendo graves e extremamente prejudiciais às suas vidas, tanto do ponto de vista social quanto por parte do que a indústria médica e farmacêutica impõe sobre eles. As pessoas intersexo, no entanto, são casos limítrofes, são exceções; usar essas pessoas como ponto em argumentações a respeito do feminismo radical é um desrespeito a elas, porque também elas sofrem sob o patriarcado quando têm aparência de mulher, e são socializadas como tal. Tanto é que boa parte dos casos de intersexualidade são descobertos já na fase adulta, quando o organismo da pessoa não dá sinais de ter passado de forma natural pelos processos de desenvolvimento físico humano esperados. Numa estimativa otimista muito otimista feita pela embriologista Anne Fausto-Sterling, os muito diversos casos de intersexualidade na espécie humana correspondem a aproximadamente 1,7% da população.

E as pessoas trans?

As pessoas trans passam por vários problemas que podem ser comparados aos das pessoas intersexo, principalmente no que diz respeito a indústria médica e farmacêutica. Essas experiências, no entanto, não podem ser igualadas ou tratadas como correspondentes. Cada uma delas tem suas especificidades. As pessoas trans, por exemplo, geralmente não recebem o apoio e os cuidados da família e da sociedade geralmente dispensados às pessoas intersexo, e podem com frequência terem de se prostituir para conseguirem sobreviver, estando em situação de extrema vulnerabilidade. Entretanto, as feministas radicais acreditam que, da mesma forma que os intersexos criaram um movimento que trate de reivindicar suas causas e trate de suas necessidades específicas, os trans deveriam procurar se organizarem politicamente em separado. Suas especificidades e reivindicações são muito diferentes das das mulheres, e por vezes podem até mesmo entrar em conflito, causando impasses. Isso não significa que mulheres e pessoas trans não possam se unir em pautas que dizem respeito a ambos os grupos. A prostituição, por exemplo, é um tema bastante complicado e que afeta de forma bastante danosa ambos os grupos.

É verdade que seu feminismo é focado nas mulheres brancas, acadêmico, classista e racista?

Essa é uma dúvida bastante frequente quando se trata de feminismo radical. Em primeiro lugar é preciso entender que o feminismo é uma construção, e nem mesmo o feminismo radical é uniforme e todas concordam com tudo o tempo todo. Acontece que o que hoje se conhece como feminismo tem uma história bastante comprida (e raramente pacífica) de estabelecimento de um corpo teórico que servisse bem como uma ferramenta de análise útil do ponto de vista das mulheres sobre a sociedade. Depois que as mulheres perceberam, com a conquista de voto, que apenas essa participação política bastante restrita não era suficiente para uma verdadeira libertação das mulheres, elas resolveram lutar em outras frentes. Obviamente que as primeiras mulheres a serem ouvidas não foram as ativistas na linha de frente, que causavam rebuliços em protestos e que, segundo as lendas, queimavam sutiãs em protestos contra padrões de beleza excludentes em concursos de misses. As primeiras mulheres a serem ouvidas foram as brancas, acadêmicas, que tinham o privilégio de ter acesso aos patamares mais altos da educação e aprenderam a falar numa linguagem que os homens (os donos do capital e comandantes das instituições) entendiam — graças às mulheres que vieram e lutaram antes delas, claro. Por isso, num primeiro momento, o feminismo como um todo era realmente branco. Posteriormente, no entanto, outros recortes foram sendo feitos: já naqueles primeiros tempos em que o feminismo estava se construindo teoricamente haviam feministas botando em pauta a situação das negras, das lésbicas, das pobres, das deficientes, das mães. Isso abriu caminho para que mais feministas, com as mais diferentes histórias de vida e graus de instrução, tivessem voz. Muitas importantes teóricas do feminismo radical sequer passaram pela academia, ou eram brancas, ou até mesmo de classe média. É importante lembrar também que mesmo o feminismo que se autodenomina interseccional é herdeiro dessa longa tradição e batalha por afirmação; se o radfem é branco, classista, acadêmico e racista, os demais feminismos também são.

5 thoughts on “RADFAQ”

  1. A pergunta sobre pessoas trans parece se referir no sentido geral transgênero, tanto feminino e masculino, não sei se entendi certo ou não. Mas e em relação a mulheres que nasceram mulheres mas são trans visando a transformação masculina, se enquadrariam no feminismo radical também ou só no trans?

    1. “se enquadrariam no feminismo radical também ou só no trans?”
      se enquadrariam no feminismo radical também ou só no movimento trans?****

  2. Eu gostaria de saber mais sobre o posicionamento do feminismo radical sobre o liberalismo sexual, li pouco sobre isso e gostaria de mais fontes e/ou mesmo algo mais explicativo, pois me despertou certo interesse. Obrigada!

  3. Antes de tudo, obrigada por fazer o site, espero que as mulheres tenham esse local para se informar e se fortalecer.

    Como feminista radical em formação, não concordo que “mulheres” trans tenham espaço no feminismo das mulheres natas, existe o “feminismo trans” ou “transfeminismo” que luta por causas que podem ser as nossas também mas não dá pra colocar tudo num saco só e dizer “somos todas mulheres”, desculpe mas não. A mulher trans não tem toda a vivência nem a experiência de vida de uma mulher nata por isso não compreende toda a opressão que vivemos e contra a qual lutamos. As mulheres natas também desconhecem o que é ser uma mulher trans numa sociedade patriarcal, talvez nós não temos como ajudar muito em certos aspectos de suas vidas.

    Sinto muita vergonha e desânimo em ver que mulheres com acesso à mídia, publicidade e visibilidade, querem enfiar mulheres trans nos nossos espaços como aquela tal revista digital, cuja autora se autointitula feminista e tem um travesti como colunista fazendo campanha pró-prostituição para mulheres! Travestis ou mulheres trans não estão em posição de opinar sobre isso para mulheres natas porque fazem parte de outro aspecto da prostituição, não é a mesma coisa, dizer que é, seria como dizer que um frequentador de prostíbulos não se importa se alguém lhe mandar um travesti em vez de uma mulher.

    É um desgosto ver essa mulher, que talvez apenas seja uma oportunista, lucrando e se promovendo sobre causas sérias, espalhando desinformação e inconsequentemente apoiando a prostituição num país que ultrapassou a Tailândia em prostituição infantil e turismo sexual infantil.

    Sinto que nós temos que nos esconder sob pseudônimos porque nossas visões sobre criar espaços para mulheres natas é visto como transfobia, preconceito ou extremismo, espero que um dia possamos nos expressar abertamente sobre isso.

    PS Uma nerdice: Li uma discussão de pessoas querendo algo físico para determinar a diferença entre homem e mulher. A diferença “física” irredutível entre fêmeas e machos humanos é que a fêmea tem um par de cromossomos X e o macho tem um cromossomo X e outro Y.

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