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Quem é o dono da bola?

Traduzido de RadFemPrinciples.com.


Estamos dentro de um debate cultural acalorado: os direitos das mulheres e meninas devem estar subordinados aos direitos dos homens, quando eles se “identificam” como mulheres?

Olé!

Atualmente nossos adversários têm a vantagem de jogar em casa, já que foram eles que construíram o campo. Eles nos chamaram de “anti-trans” em vez de “pro-mulher”. Eles sabotaram a Michfest [1] e disseram que o conflito era culpa nossa. Eles inventaram palavras voltadas para interesses dos homens e nos fizeram legitimá-las através do uso. Eles convenceram as mídias sociais de que nossos pontos de vista são extremos em vez de comuns e razoáveis. Eles tiraram o foco dos direitos das mulheres e meninas e o redirecionaram para as preocupações dos homens. Nós mordemos a isca. Agora nós falamos de “autoginefilia” e “pronomes” mais do que falamos de direitos reprodutivos e de manter meninas na escola.

O campo que eles construíram é feito de raciocínio circular, ameaças e jargão. Nós precisamos jogar em um campo diferente — um em que tenhamos vantagem. Este campo é a honestidade, a coragem e a linguagem simples. A vantagem do nosso campo é a verdade e a clareza.

Para vencer essa discussão nós precisamos, em primeiro lugar, nos recusar aos atuais termos e condições do debate, já que foram decididos por nossos opressores. Para tanto, devemos rejeitar não apenas as palavras inventadas “pelo lado deles” (como “cis”) mas também as palavras inventadas pelo “nosso lado” em resposta direta a eles, (como “transativista”).

E o motivo disso é o seguinte: quando criamos nossas próprias palavras — palavras que mais ninguém usa — especificamente com o propósito de refutar argumentos absurdos, nós damos validade a esses argumentos absurdos, e mostramos nossa disposição para participar da estrutura em que esses argumentos surgiram. Mas a estrutura é defeituosa e precisa ser descartada.

Imagine que um grupo de geólogos respeitados se encontre com um grupo enfurecido de criacionistas. Na realidade, os cientistas certamente dariam pouca atenção aos criacionistas, principalmente na esfera pública.

Imagine se em vez de considerar os criacionistas irracionais, os geólogos inventassem palavras para se referir a eles, como, sei lá, ARNGs (ativistas religiosos em negação da geologia), e então usassem essas palavras em documentários científicos e shows de televisão. Os telespectadores iam se perguntar, com razão, por que os geólogos estavam desperdiçando seu tempo. Os cientistas tem a vantagem contra os charlatães religiosos. Os cientistas tem a verdade ao seu lado. A menos que os cientistas se sintam ameaçados, e não deveriam, eles não precisam dessa história de “ARNGs”. Isso exporia uma insegurança da parte deles. Seria melhor se eles gastassem seu tempo para avançar com as questões da geologia em vez de entrar em discussões bobas com seus detratores.

É a mesma coisa quando nós criamos palavras como “transativista”.

Uma abordagem muito melhor seria falar em linguagem simples e insistir em respostas com linguagem simples. Isso desarma as pessoas que não podem se explicar e fortalece aquelas que podem, o que trabalha em nosso favor.

Nós precisamos rejeitar o jargão, mesmo que seja o nosso.

  • O jargão reforça boatos de que pertencemos a uma facção extremista de feminismo, com valores obscuros.
  • Ele dificulta que outros grupos (os que não tem familiaridade com o debate) entendam o que nós estamos dizendo.
  • Ele permite que os dois lados evitem discussões importantes, e faz com que se apoiem em truques semânticos e obscuridade.
  • Ele devolve o poder ao opressor, já que ele está decidindo os termos do debate e nós estamos permitindo que isso aconteça.
  • Ele faz com que pareçamos malvadas para quem está acompanhando. E ser as vilãs não nos interessa.

Reflita se você consegue defender as coisas que afirma em linguagem simples. Você pode, principalmente se levar em conta que todo mundo já concorda conosco. Agora pense se seus adversários podem defender as alegações que fazem sem o uso de uma linguagem de grupo, apoiada em definições mal feitas e mantras repetitivos. Eles não podem. O jargão deles serve para mascarar, desviar e confundir. E funciona.

Usar uma linguagem simples é a coisa mais inteligente, profissional e equilibrada a se fazer. Usar a linguagem do grupo obscurece nossa mensagem e faz com que pareçamos mesquinhas e distanciadas.


[1] Michfest foi um festival feminista exclusivo para mulheres que aconteceu de 1976 a 2015, com as organizadoras e participantes tendo sido boicotadas e atacadas em seus últimos anos de funcionamento.

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