Desconstruindo o “trans do bem”

Texto de Jennifer Bilek para o Uncommon Ground Media. Traduzido livremente do original.


Trans que se identificam como mulheres que reconhecem a misoginia inerente ao ativismo trans precisam ainda confrontar sua própria objetificação das mulheres e sua participação nisso.

Miranda Yardley, um “trans do bem” que ficou conhecido justamente por ser “crítico de gênero”.

Em espaços onde se criticam as políticas de gênero nas mídias sociais, há alguns homens que se identificam como “trans” que se destacam entre a maior parte das vozes “trans” e frequentemente criticam os motivos que levam seus companheiros de saias que afirmam serem mulheres de verdade. Esses homens identificados como “trans” que entendem e afirmam indubitavelmente que são homens geralmente têm uma compreensão abrangente das mulheres que se posicionam contra o transativismo. Muitos dão voz às nossas preocupações em plataformas de mídia e recebem a ira de outros ativistas “trans”. Por esses homens entenderem porque mulheres não querem homens em nossos espaços privados, expressam claramente os malefícios da “mitologia de gênero” sobre as crianças, bem como a destruição da linguagem, da lei, dos direitos das mulheres etc na sociedade, eles são comumente laureados por aqueles combatendo a “mitologia do gênero” como “um tipo de mulher trans do bem”.

Kristina Jayne Harrison, um homem que se identifica como “mulher trans” que vivem no Reino Unido é um desses caras. Ele “se posicionou a favor dos direitos das mulheres ao aborto, ao seu direito de controlar seus próprios corpos, definições, espaços, e de dirigir sua própria luta contra o sexismo”. Ele não tem nenhuma ilusão quanto a ser uma mulher de verdade e luta “contra a autodefinição de identidade de gênero”. Harrison acredita que sua transição médica vem de seu comprometimento de performar um papel social do sexo oposto, e isso torna suas escolhas diferentes (leia-se: menos sexistas) que aqueles que não se comprometem a uma transição completa. Ele acredita que mulheres eram/são mais receptivas em seus espaços privados a homens que fizeram todo o processo de adaptação de suas características sexuais secundárias, até que o guarda-chuva “transgênero” apareceu para incluir aqueles homens não “comprometidos”. Sua própria apropriação dos nossos corpos sexuados parece lhe escapar. Harrison acredita que sua performance é “não apenas baseada em estereótipos de papéis sexuais impostos a mulheres”, mas também “refle a agência das mulheres, porque mulheres também são agentes ativas na construção de seu mundo”. Ele não enxerga nenhuma desconexão no fato de que não nasceu com um corpo feminino, que é o único descritor universal de uma mulher, não foi criado no mundo como uma mulher, mas agora fala como homem que se apropriou de características sexuais secundárias de mulheres, e as têm usado como uma fantasia para falar sobre nossa agência.

Não existem equivalentes de mulheres identificadas como homens falando sobre a agência dos homens nas plataformas públicas, usando o espaço público para discutir o que homens são. Todo mundo sabe o que é um homem. Ainda que esses homens sejam “bons” em desmantelar o sexismo inerente às identidades transgênera e transexual, eles sempre perdem o ponto central: a objetificação é um ingrediente essencial do sexismo, ao qual eles se apegam como se fosse um bote salva-vidas. O custo do transativismo é a continuação do sexismo e da opressão das mulheres no mundo todo.

Debbie Hayton é outro homem que se identifica como “mulher trans” no Reino Unido que tem feito muitas aparições na mída e tem sido uma voz sólida no Twitter, apoiando aqueles que resistem à mitologia do gênero. Hayton, em uma entrevista bastante interessante com Benjamin Boyce, um produtor de mídia independente de agenda flexível, disse que evoluiu ao ponto que não necessariamente se identifica como mulher, mas mantém o desejo de “assinalar sexo” da mesma forma que “mulheres assinalam sexo” na sociedade. Ele sugere que “ser trans” é “o que ele faz, e não o que ele é”. O desejo de se ver como mulher, ele acrescenta, é para si, não para atrair a atenção de nenhum pretendente. Ele se entende como um autoginefílico.

A autoginefilia é precisamente o fetiche sexual masculino de enxergar a si mesmo como mulher. O que torna isso um fetiche, além do fato de estar fora do desejo “normal” ou “médio” por outras pessoas, é sua característica obsessiva, que Hayton assume, e seu foco na objetificação. Um fetiche implica uma fixação em um objeto particular para gratificação sexual. Homens que desenvolvem um fetiche de “assinalar sexo como as mulheres” necessariamente objetificam mulheres e a mulheridade. Para incorporar — como fetiche — o sexo oposto, essa pessoa precisa se desassociar de seu próprio corpo. É isso que o sexismo faz, e é isso que o transgenerismo também faz. Eles desassociam, desmembram e objetificam mulheres.

Em suas entrevistas, Boyce e Hayton discutem a vergonha social dessa propensão sexual particular e como isso contrasta com as marchas e eventos do orgulho LGBT. Ambos, inconscientemente, agrupam o trangenerismo com as relações e a atração entre pessoas do mesmo sexo — ou, pelo menos, discutem-nos como se fossem coisas aproximadas. Mas o desejo ou as relações entre pessoas do mesmo sexo não são obsessivas, não indicam dissociação nem a encorajam, não são fetiches nem necessariamente objetificam ninguém. O transgenerismo, por outro lado, é brilhantemente desconstruído pela Dr. Em em um artigo recente como um constructo social que tem suas raízes originárias no sexismo — na objetificação. Hayton parece entender isso — ou pelo menos chega perto. Ele diz que sua “identidade” como “trans” no momento é um compromisso com a sociedade. Ele não tem certeza de como lidar com seu desejo por objetificar mulheres ou “passar”, porque uma vez que “passe”, mesmo que isso lhe dê satisfação, o faz se perguntar se está mentindo para a sociedade. Ele está. Ele também entende, pelo menos agora, que o transgenerismo é um paliativo. Falando com Boyce, ele avalia o custo disso tudo para si e para sua família ao longo da vida e se pergunta se valeu a pena.

O que Hayton não considera é o custo disso para a sociedade. Esses homens, “identificados como mulheres”, “passando por mulheres”, com ou sem cirurgia, entendendo ou não sua situação, ainda estão objetificando mulheres. É incrível como eles chegam muito perto de compreender isso, de entender o quanto isso é destrutivo na sociedade, são capazes de descrever o problema eloquentemente para outras pessoas, e não têm qualquer pretenção de abandonar isso. Ainda se chamam de “mulheres trans”. Eles não são apenas caras que curtem batom e saias. Não estamos falando de Boy George ou do Prince aqui. Eles querem “assinalar sexo da mesma forma que as mulheres o fazem”. Eles querem se agarrar à sua obsessão pela objetificação das mulheres não importa quais sejam os custos disso para as mulheres no mundo real, sendo que essa é precisamente a forma como muitos homens se comportam. Eles não consideram o desenvolvimento da tecnologia e da farmacologia envolvidas na modificação de características sexuais, quando o que significa ser humano significa também fazer parte de uma espécie dimórfica, e como esses desenvolvimentos podem ser usados na manutenção dos estereótipos de sexo na sociedade.

Que esses caras entendam que o objetivo do transgenerismo é apoiar o aparato sexista através de avanços tecnológicos e farmacológicos que permitem a encenação de uma mentira social, não busquem a destransição nem falem enquanto os homens que são contra a transição, me lembra dos trabalhadores que furam greve ao passar por um piquete dos grevistas. Esses trabalhadores fazem examente o que o xingamento que recebem, “sarnentos”, descreve: sabem o que estão fazendo e continuam a fazê-lo, se beneficiando às custas de todos os outros que assumem a greve.

Os “trans do bem” não são tão ruins quanto os “do mal”, que descaradamente nos objetificam enquanto nos zombam e colecionam elogios de bravura enquanto isso, mas não são tão bonzinhos quanto a gente acha. Quando estiverem dispostos a assumir sua hombridade e pararem de tratar mulheres como se fôssemos objetos ou talismãs de desejo por conta de sua posição desconfortável na estrutural social dos estereótipos de sexo impostos a si, talvez aí eu tenha mais consideração por eles. Hacsi Horvath e Walt Heyer são homens assim. Ambos destransicionaram e se dispuseram a falar, como homens, sobre os males que o transgenerismo está causando às mulheres, crianças e à sociedade em geral. Se esse negócio de “trans do bem” existe, então esses homens, os que abandonaram o rótulo de “trans”, são isso.