Um chamado às feministas para se lembrarem da natureza sexual da opressão das mulheres

O real brilhantismo do patriarcado… é que ele não apenas naturaliza a opressão. Ele sexualiza atos de opressão. Ele erotiza a dominação e a subordinação. Ele os institucionaliza como masculinidade e feminilidade. Então, ele naturaliza, erotiza e institucionaliza a dominação e a subordinação. O brilhantismo do feminismo é que nós descobrimos isso.

Lierre Keith

Nos últimos meses muita legislação tem passado ou foi proposta nos Estados Unidos e em outros lugares o suficiente para indicar uma assustadora escalada na guerra — sim, é uma guerra — contra as mulheres. O parlamento Russo acabou de votar a 380-3 para descriminalizar a violência doméstica. Trata-se de um país onde em média 40 mulheres por dia — 14.000 mulheres por ano — são mortas por seus parceiros homens. Os Estados Unidos, onde 1.000 mulheres são mortas por seus parceiros por ano, acabou de eleger um presidente que diz que “quando você é uma estrela, elas deixam você pegá-las pela buceta”, está envolvido com pornografia e tráfico sexual. Ele planeja eliminar o financiamento a 25 programas de combate a violência doméstica e está ordenando às funcionárias mulheres para que “se vistam como mulher”. O estado do Texas está pensando em retirar os direitos eleitorais de mulheres que fizeram aborto; o estado do Arkansas quer permitir a estupradores que processem mulheres por abortar.

Todas essas empreitadas se baseiam, é claro, em uma noção há muito estabelecida de que mulheres são propriedades dos homens. O estigma do aborto se baseia na ideia de que as mulheres não criam a vida humana através de um processo de dez meses de gestação e trabalho; seriam os homens a ejacular vida nas mulheres, e as mulheres, como incubadoras reguladas pelo estado, são obrigadas a levá-la a termo. A violência doméstica, a indústria da pornografia e da prostituição que abastecem o tráfico sexual, normas de vestimenta, tudo isso se baseia no mesmo princípio do merecimento sexual dos homens. Não surpreende que os comentadores estejam comparando essa tendência atual a O Conto da Aia de Margaret Atwood; uma nova era de regras e normas mais ortodoxas e estritas para as mulheres do Ocidente. Tudo isso justificado através dos mitos de que as mulheres são biologicamente predispostas a essas regras e normas.

Dada a situação que enfrentamos, é alarmante confrontar a realidade de que a esquerda é tão mal preparada e indisposta a discutir a opressão das mulheres quanto a direita conservadora. Hoje em dia, noções como a de “identidade de gênero” por exemplo, ameaçam engolir a compreensão coletiva das mulheres a respeito do todo da opressão baseada no sexo. A ideologia da “identidade de gênero” afirma que gênero é uma questão pessoal de identificação, e que o sexo biológico de alguém pode ser trocado e mudado à vontade. “Cis” é uma palavra que as mulheres estão adotando cada vez mais como sinal de sua compreensão de que possuem o “privilégio” de ter sua identidade de gênero em conformação com seu sexo biológico. Ao mesmo tempo, é claro, mulheres estão sofrendo pressão para engolirem a ideia de que o sexo biológico propriamente dito não é real.

A questão é que ser fêmea é algo muito real, e que ser consequentemente generificada como mulher também é — e não se trata de uma forma de privilégio. É uma forma de opressão que as mulheres têm resistido desde a criação do patriarcado. Ao oferecer uma curta história do sistema ocidental canceroso e globalizado de objetificação sexual sob o qual vivemos hoje, espero oferecer aqui um pequeno lembrete disso. Esse ensaio busca resgatar o desenvolvimento da opressão baseada no sexo desde as suas raízes, passando pela caça às bruxas, ao comércio de escravos, à patologização dos corpos das mulheres na ginecologia, e às reações à insurgência feminista recente.

Matricentralidade e a criação do patriarcado

Apesar da insistência ortodoxa de que a dominação dos machos reflete simplesmente a ordem “natural” das coisas, o patriarcado é apenas um desenvolvimento relativamente recente na história da humanidade. Durante 99% de nossa existência, os humanos não viveram sob o domínio patriarcal. A autora feminista Marilyn French chama os grupos de parentesco matrilineares de subsistência horticulturais que existiram amplamente antes do desenvolvimento do patriarcado de matricêntricos; Audre Lorde escrever sobre os cultos a deusas como Afrekete, Iemanjá, Oyo e Mawulisa; o filme Woman Shaman de Max Dashu explora a arte e os achados arqueológicos que restaram dessas culturas matricêntricas ao redor do mundo.

Imagem: Max Dashu

History of Women de French e The Creation of Patriarchy de Gerda Lerner são textos incríveis sobre os processos históricos por meio dos quais os homens criaram o patriarcado que forma a base da sociedade ocidental. Isso aconteceu ao longo de aproximadamente 2500 anos, desde cerca de 3100 a.C., durante a revolução agrícola. De acordo com Lerner, a transição de um modo de vida de subsistência para a agricultura significou que as crianças se tornaram um ativo econômico, uma fonte de trabalho — e as mulheres se tornaram a primeira forma de propriedade privada.

French mostra como a dominação masculina foi primeiramente afirmada através de reivindicações paternais de posse e direito de nomear filhos. O assassinato dos primogênitos era comum nos primeiros grupos patrilineares, quando homens queriam garantir que o primeiro filho de suas esposas eram realmente “seus”. O fato de o aborto ainda estar na legislação criminal da Nova Zelândia é uma expressão contemporânea da presunção de que a vida humana é feita por e pertence aos homens. Em 2016, a Organização Mundial da Saúde também santificou os “direitos” dos homens sobre as crianças através de uma nova política declarando que a incapacidade de encontrar um parceiro sexual é uma “deficiência”.

Com a apropriação do controle sobre os filhos, a instituição do casamento progressivamente se tornou uma prática que comodifica, desempodera e isola mulheres de suas famílias e comunidades. Para colocar em perspectiva, o estupro dentro do contexto do casamento não era ilegal na Nova Zelândia até 1985.

Com a instituição do casamento veio o dote, e o maior valor no que diz respeito a ter filhas mulheres vinha de seu potencial enquanto esposas; “roubo de noivas” e “defloração ritual” eram comuns, como ainda são hoje no Quirguistão, por exemplo. As “esposas” raptadas são em geral crianças, e hoje uma média de 15 milhões de meninas por ano são forçadas a casar. Em 2013, uma garota iemenita de oito anos morreu de sangramentos internos na noite em que foi casada com um homem cinco vezes mais velho. É isso que o patriarcado faz às meninas.

Uma das práticas que melhor exemplifica a comodificação através do casamento é o costume indiano do suttee, banido legalmente apenas em 1829. Essa prática envolvia queimar vivas as viúvas, incluindo garotas sequestradas como esposas, nas piras funerárias de seus maridos. O mito de que meninas e mulheres perderam seus maridos como resultado de seu próprio carma ruim motivava a prática. Como este era para ser um ritual de “limpeza”, os homens tipicamente evitavam queimar mulheres enquanto elas estivessem menstruadas, e esperavam dois meses depois do nascimento de uma criança se ela estivesse grávida. Incontáveis mulheres poderiam ser queimadas depois da morte de um único homem da realeza.

Depois de os homens terem se apropriado das mulheres e da esfera doméstica, o estatuto das mulheres foi futuramente institucionalizado e codificado como lei através da construção das religiões monoteístas, do estado, e do desenvolvimento da prostituição comercial. Se alguém tentar te dizer que a prostituição é “a profissão mais velha do mundo”, estarão sendo condescendentes e essencialistas: como Max Dashu mostra, mulheres praticavam a medicina muito antes de os homens se darem conta de como objetificar e lucrar com as mulheres através da prostituição. Lerner discute como a burqa, o costume de as mulheres usarem véu, foi criado para ajudar os homens a distinguir entre as mulheres “respeitáveis e não respeitáveis”, entre as esposas e as mulheres na prostituição.

Como escreve Moana Jackson, a colonização sempre acontece com com uma tomada da memória histórica, saqueada de forma que um vasto silêncio se prolifera. “Algumas vezes, esse silenciamento é descrito como uma amnésia social”, diz Jackson, “na qual o passado sumiu das mentes quase como um esquecimento acidental e sem culpados que ocorre com a passagem do tempo”. O que realmente acontece porém, diz ele, é que as histórias são conscientemente redefinidas de modo que ficam “na cara” das realidades políticas e sociais dos colonizados. O mesmo se aplica às mulheres. Hoje, poucas de nós sabe sua história — seja a da nossa opressão ou da nossa resistência a ela, uma vez que a história é contada pelos patriarcas. Mas podemos retomá-la.

A queima das bruxas e a ginecologia

A “pérola”. Durante a caça às bruxas, os torturadores aqueciam essa ferramenta no fogo e então a enfiavam nas vaginas das mulheres, abrindo lá dentro as suas peças. Imagem da autora.

As mulheres continuaram a praticar amplamente a medicina na Europa até o chamado período do “Iluminismo”. Entre o Império Romano e este período, a caça às bruxas e o seu “mito da feminilidade maléfica” resultaram no assassinato de 9 milhões de pessoas, a maioria delas mulheres, ao longo de 300 anos. A história se lembra deste esforço de 300 anos, quando se lembra, como uma espécie de episódio isolado de loucura supersticiosa (pense no The Crucible de Arthur Miller). Escritoras feministas como Mary Daly, Andrea Dworkin e Max Dashu oferecem outra versão.

Dworkin escreve que muitas das mulheres tidas como bruxas eram praticantes de medicina, uma verdade que ainda existe na nossa memória cultural, de forma distorcida e corrompida, no estereótipo da bruxa dos sapos e caldeirões. Mas estas não eram mulheres más de cara esverdeada. De acordo com Dworkin, eram parteiras, principalmente, uma vez que mulheres educadas realmente ofendiam a Igreja.

As bruxas utilizavam drogas como a beladona e acônito, anfetaminas orgânicas e alucinógenos. Elas também foram pioneiras no desenvolvimento de analgésicos. Elas realizavam abortos, providenciavam toda a ajuda médica necessária para realizar partos, eram consultadas em casos de impotência que tratavam com ervas e hipnose, e foram as primeiras praticantes da eutanásia.

Anna Göldi é tida como a última mulher executada como bruxa na Europa. Ela era a empregada de um médico, que a acusou de colocar agulhas nos pães de seus filhos através de meios sobrenaturais. Depois de tentar escapar do julgamento, ela foi capturada e decapitada na Suíça em 1782.

Em seu livro Gyn/Ecology, Mary Daly aponta como a ginecologia foi estabelecida como uma prática governada pelos homens depois do tempo da queima das bruxas. O ano de 1873 marca a publicação da invenção da castração feminina de Robert Battey: a remoção dos ovários das mulheres para a “cura da insanidade”. Desde então, os homens ginecologistas têm rotineiramente patologizado, torturado e ferido cirúrgica e medicamente as mulheres e seus corpos através de práticas violentas de parto, mastectomias e histerectomias radicais, “terapias” de choque e hormonais, e lobotomias.

Imagem da autora

Desde os anos de 1890, houve um interesse louco em úteros mecânicos ou prostéticos feitos de madeira e vidro (“mães artificiais” ou “incubadoras”) — tecnologias que tentavam desafiar a indispensabilidade dos corpos das mulheres. Nessas incubadoras nós podemos ver que a pressão atual dos transativistas em neutralizar e desumanizar a linguagem da gravidez e do parto, e separar a conexão dos corpos das mulheres de sua saúde, possui ecos através da história.

Daly aponta que a tomada do controle da saúde das mulheres pelos homens depois da caça às bruxas não foi coincidência:

Muitas feministas notaram a significância do fato de que o massacre das mulheres sábias e curandeiras durante a caça às bruxas foi seguido de um crescimento no número de homens parteiros, que eventualmente se tornaram dignificados pelo nome de “ginecologistas”. A ginecologia demorou a crescer. Os homens parteiros dos séculos dezesseis, dezessete, dezoito e dezenove foram combatidos pelas mulheres parteiras, tais como Elizabeth Nihell, que discreveu seus instrumentos como “máquinas da morte”. Mesmo assim, o século dezenove viu a ereção da ginecologia sobre montes de corpos de mulheres mortas.

O acúmulo de abusos

J. Marion Sims, “o Pai da Ginecologia Moderna”, usou mulheres afro-americanas escravas para conduzir seus experimento cirúrgicos. Sims fez experimentos em mulheres negras para pesquisar doenças como câncer — sem prover anestésicos ou outros remédios para controlar a dor. Caso uma mulher morresse das complicações ou por sangramento excessivo, ele simplesmente substituiria ela por outra escrava, e sua prática era completamente legal.

Harriet Tubman. Imagem da autora.

O acúmulo de opressões sobre as mulheres negras é o tópico do livro Mulher, Raça e Classe de Angela Davis. Nele, Davis discute a experiência das mulheres negras durante o tráfico escravagista; incluindo Harriet Tubman (foto), que resgatou mais de trezentas pessoas através da Underground Railroad e foi a única mulher nos Estados Unidos a liderar tropas em uma batalha.

As mulheres negras, segundo Davis, tinham de trabalhar tão duramente quanto os homens nas plantações, performando as mesmas tarefas independente dos mitos que o patriarcado perpetua sobre as mulheres.

As mulheres não eram femininas demais para trabalhar em minas de carvão, nas fundições de ferro ou para serem lenhadoras ou escavadoras de valas. Quando o canal Santee foi construído na Carolina do Norte, mulheres escravizadas eram cinquenta porcento da força de trabalho.

As mulheres eram também escravas sexuais, além disso. “Se as punições mais violentas dos homens consistiam em flagelos e mutilações”, escreve Davis, “as mulheres eram flageladas e mutiladas, bem como estupradas”. Os homens brancos também viam as mulheres negras como “matrizes”:

Durante as décadas que precederam a guerra civil, as mulheres negras foram crescentemente avaliadas em função de sua fertilidade (ou falta dela): aquela que era potencialmente mãe de dez, doze, quatorze ou mais se tornava um tesouro cobiçado. Isso não significava, porém, que como mães as mulheres negras desfrutassem de um status mais respeitável do que o que desfrutavam enquanto trabalhadoras. A exaltação ideológica da maternidade — tão popular no século dezenove — não se estendia às escravas. De fato, para os proprietários de escravos, as mulheres escravas não eram mães; eram apenas instrumentos para a garantia do crescimento da força de trabalho. Elas eram “parideiras” — animais cujo valor monetário pode ser calculado precisamente em termos de sua habilidade de multiplicar seus números.

Uma vez que as mulheres escravas eram consideradas “parideiras” ao invés de “mães”, seus filhos ainda crianças poderiam ser vendidos e tirados delas como novilhos das vacas.

Imagem da autora

Este é outro motivo pelo qual devemos olhar com desconfiança para a introdução de termos como “menstruadores” e “incubadores” na linguagem da saúde da mulher, da gravidez e do parto como resultado da ação do transativismo hoje. Estes termos possuem uma história, e estão ligados especialmente ao tratamento desumanizador da escravidão sexual das mulheres negras. O documentário Google Baby mostra como como as mulheres são atualmente forçadas a tolerar uma vida sob o tratamento de “incubadoras” em clínicas de barriga de aluguel na Índia, muitas vezes dando à luz a bebês brancos feitos com o uso de óvulos e espermatozoides de doadores externos. O tratamento de linha de produção que as mulheres que dão à luz a bebês em clínicas de barriga de aluguel recebem é de dar arrepios, mas o mercado prevê 12 mil estrangeiros por ano indo à Índia para alugar úteros, em geral de mulheres pobres, em uma indústria de valor anual de US$ 1 bilhão.

Uma expressão de colonização racista e patriarcal tão dolorosa e brutal quanto as clínicas de barriga de aluguel na Índia seria difícil de encontrar, se não fosse pela mais velha das opressões: a prostituição. Hoje, 80% das pessoas usadas na prostituição são mulheres, 98% das quais são vítimas do tráfico sexual. Quase todos os prostituintes são homens e o tráfico sexual gera aos homens US$ 32 bilhões por ano. Uma crescente indústria de pornografia violenta acumula cerca de US$ 97,06 bilhões, o que é mais que o lucro combinado das 10 maiores companhias de tecnologia. A mais recente “tendência” na pornografia é a de mulheres sendo analmente estupradas até que sofram prolapso retal (“rosebudding“). Mesmo assim, a Anistia Internacional mostrou seu apoio a esta indústria, submetendo-se às pressões de prostituintes influentes.

Como Cherry Smiley aponta, as mulheres indígenas são mais desproporcionalmente afetadas. Na Nova Zelândia, 15% das mulheres são maori. Em nosso país onde o comércio sexual é completamente descriminalizado, 32% das pessoas prostituídas são maori. Existe uma narrativa ganhando força na Nova Zelândia, sem dúvida abastecida por homens brancos administrando os programas no Coletivo de Prostitutas da Nova Zelândia (NZPC), de que criticar a prostituição é racista por causa das mulheres maori e do Pacífico na indústria. Lembre-se que a demanda por esta indústria vem de homens brancos ricos. Em 2017, os liberais ainda estão sendo doutrinados a acreditar que mulheres indígenas são de alguma forma inatamente pré-dispostas a serem sujeitas a abusos de homens brancos ricos.

O livro de Angela Davis aponta não apenas como as mulheres negras têm sido afetadas pelo acúmulo das opressões de raça, classe e baseadas no sexo, mas que também tiveram que lutar mais arduamente por representação política, mesmo dentro dos movimentos de resistência. Seu livro mostra a interseção entre os movimentos abolicionista pelo fim da escravidão e a primeira onda do feminismo; nenhum dos quais tendo sido suficiente para representar o jugo das mulheres negras. Sojourney Truth lutou com as feministas brancas da primeira onda, assim como bell hooks com as da segunda. Hoje, novamente vemos um movimento de classe média branca liberal que marqueteia um liberalismo identitário chamado “sex positive” como feminismo. Isso aconteceu porque a reação a cada onda feminista assegurou que o feminismo mainstream sairia do outro lado domesticado, branqueado e sexualizado.

Sexologia, pornografia e feminismo

Em seu ensaio Sexology and Antifeminism, Sheila Jeffreys descreve como a “disciplina” da sexologia foi construída como uma reação à primeira onda das feministas sufragistas.

Esse período, imediatamente depois da Primeira Guerra Mundial, foi um tempo no qual muitas mulheres tinham uma considerável maior liberdade e independência do que jamais tiveram. O fato de que grandes números de mulheres não estavam se casando, estavam escolhendo ser independentes, e estavam lutando contra a violência masculina causou considerável preocupação. Essa preocupação é aparente na literatura da sexologia.

Muitas mulheres tinham pouco interesse em intercurso sexual, e mais comumente, pensavam que “nenhuma mulher deveria ser obrigada a fazer intercurso sexual” (isso foi, é claro, muitas décadas antes da segunda onda feminista lutar para criminalizar o estupro marital). Em resposta a essa crescente resistência e independência, e para defender o status quo da opressão das mulheres, a subordinação sexual das mulheres foi naturalizada na sexologia. Havelock Ellis, o fundador do campo, argumentava que

a sexualidade masculina era absoluta e inevitavelmente agressiva, tomando a forma de busca e captura, e que era inevitável aos homens sentir prazer ao infligir dor nas mulheres. A sexualidade das mulheres, dizia ele, era passiva. As mulheres deveriam ser capturadas e “desfrutar” a experiência de dor nas mãos de seus amantes homens.

Os sexologistas também inventaram o conceito da “frigidez” feminina: mulheres “frígidas” eram doentes, e tinham que ser mandadas aos ginecologistas e psicanalistas.

No encalço da sexologia veio a indústria pornográfica que conhecemos hoje. Ao fim da Segunda Guerra Mundial, houve um crescimento no negócio da promoção dessa objetificação das mulheres. Pornógrafos-empresários como Hugh Hefner (Playboy), Bob Guccione (Penthouse) e Larry Flynt (Hustler) começaram a preparar o mercado para tornar a pornografia socialmente aceitável. Nos anos 90, produtos do coelhinho estavam sendo consumidos por meninas em todo lugar — a marca do coelhinho estampava tudo, de papelaria a pijamas. Os publicadores da Cosmopolitan, Bauer Media, estão envolvidos no lobby global do tráfico sexual, e chegaram a possuir os direitos de publicação da Playboy na Alemanha.

“Era um mundo muito diferente”, diz a escritora feminista Gail Dines, “depois de Hefner ter erodido as barreiras culturais econômicas e legais da produção e distribuição em massa de pornografia”. Agora é passível de discussão se pole dancing é a melhor atividade extracurricular para garotas de 8 anos de idade.

Como essa mudança ao mainstream aconteceu? A resposta é simples: de propósito. O que vemos hoje é resultado de anos de estratégia e marketing cuidadosos da indústria pornográfica para sanitizar seus produtos… reconstruindo a pornografia como divertida, deferente, chique, sexy e quente. Quanto mais a indústria se tornou sanitizada, mais ela escorregou para dentro da cultura pop e da nossa consciência coletiva.

A segunda onda feminista reconheceu e resiste aos abusos e à normalização da pornografia — mas os departamentos de Estudos das Mulheres das universidades nos quais muitas críticas como essa poderiam ser feitas não existem mais. Até mesmo os livros estão ameaçados. A disciplina que usurpou os Estudos das Mulheres é a teoria queer, e de acordo com as feministas, a teoria queer está para a segunda onda do feminismo como a sexologia era para a primeira: uma contra-reação [backlash]. Sheila Jeffreys esclarece como ela veio

dos liberais sexuais da esquerda — em particular, homens — e em grande parte do movimento gay masculino. É daí que vem a contra-reação, mas também possui representantes dentro do feminismo.

Lierre Keith ilustra a representação dessa contra-reação dentro do feminismo:

Já em 1982, Ellen Willis inventou o termo “sex positive” para se distinguir das feministas radicais — porque somos tão negativas, nós feministas radicais. Estupro, estupro, estupro — isso é tudo sobre o que queremos falar. Bom, proponho um trato — se os homens pararem com o estupro, eu paro de falar a respeito.

Keith também aponta que a busca pelo termo “torture porn” gera 32 milhões de resultados. Vale notar que a estética, as ferramentas e as práticas da pornografia moderna e do BDSM endossadas como “diferentes”, a “sexualmente positiva” teoria queer e as “taras” remontam aos tribunais de caça às bruxas. O ensaio de Max Dashu Reign of the Demonologists mostra como a tortura das bruxas era sexualizada, através da fetichização de procedimentos e equipamentos de tortura e as confissões forçadas de sexo grotesco com demônios. Uma entrevista com Audre Lorde em Burst of Light critica o sadomasoquismo por razões similares.

O sadomasoquismo é congruente com com outros desenvolvimentos acontecendo neste país que tem a ver com dominância e submissão, com desigualdade de poder — político, cultural e econômico… O sadomasoquismo é uma celebração institucionalizada das relações de dominação e subordinação… O sadomasoquismo alimenta a crença de que a dominação é inevitável e legitimamente desfrutável.

A feminista Susanne Kappeler nos oferece um lembrete para quando encontrarmos esses tipos de práticas aceitos e celebrados como revolucionários na academia.

Enquanto feministas, faremos bem em lembrar e destacar o fato de que a história do liberalismo, do libertarianismo e da libertinagem tem sido a história de cavalheiros advogando liberdade e permissão para cavalheiros — liberdades pelas quais os direitos e as liberdades das mulheres têm sido rotineiramente sacrificadas.


Cópia de um desenho de 1515 de “witch porn” de Hans Franck.

Comoditização e “escolha”

A produção dos robôs sexuais é um aprofundamento contemporâneo da objetificação das mulheres que disciplinas como a teoria queer sancionam, e até celebram. Distúrbios alimentares e a demanda por cirurgias cosméticas como a labioplastia são apenas dois exemplos do impacto da escalada de objetificação das mulheres. Estamos vendo outras invenções bizarras no mercado, também: o FitBit peniano, uma peça bucal para sexo oral.

Imagem da autora

Um jeito que o lobby do mercado sexual se infiltra sob a pele das mulheres, suga sua confiança, encoraja competição e instiga dependência a um parceiro abusivo ou um prostituinte, é através da mídia, através das revistas femininas. 70% das mulheres alega sentir culpa ou vergonha depois de três minutos folheando esse tipo de revista. É é notório que publicadores e seus anunciantes alimentam inseguranças — e abuso. A maioria das modelos nessas revistas pesa 25% menos que a média das mulheres, e está na faixa de peso da anorexia. Agora, na Europa e nos Estados Unidos, 50 milhões de mulheres sofrem de distúrbios alimentares, e meninas de 6 anos de idade vêm crescentemente expressando ansiedade a respeito de seu corpo.

A Bauer Media publica a Cosmopolitan, a Woman’s Day e a revista adolescente Dolly. Atualmente ela também lucra com pornografia online, e costumava possuir os direitos de publicação de uma série de revistas pornográficas alemãs: a Playboy alemã; Das neue Wochenend; Blitz Illu; Schlüsselloch (que significa “fechadura”); Sexy, Praline e Coupe. A Bauer Media também possui um terço do famoso canal privado RTL II, que transmite reality shows a favor de “trabalho sexual” quase diariamente. Não é surpreendente ver a última edição da Cosmopolitan oferecer conselhos sobre tratamentos cosméticos invasivos indo de micropigmentação de sobrancelha a preenchimento labial, tratamento a laser e terapia de luz.

Labioplastia — redução cirúrgica dos lábios vaginais das mulheres — é outra tendência ocidental que está aumentando e que tem conexões com práticas mais brutais, nesse se caso a mutilação genital feminina (FGM). De acordo com a OMS (que apoiava essa prática em 1958), mais de 200 milhões de mulheres e meninas vivas hoje passaram pelo procedimento em 30 países da África, do Oriente Médio e da Ásia onde a prática da FGM é concentrada. Nessas práticas, as meninas têm seus clitóris e lábios vaginais removidos; na Somália, há a prática de costurar os lábios, deixando apenas um pequeno buraco. A mulher somali Hibo Wardere diz que urinar através dessa pequena abertura é como se “uma ferida tivesse sido esfregada com sal ou pimenta”. O feminismo deve trabalhar para acabar com a mutilação genital, e não se ocupar de glorificar variedades novas e comerciais dela como “escolhas” sexualmente positivas.

O patriarcado mina e recorta os corpos das mulheres enquanto diminui o valor delas. Desde o décimo século e por dez séculos, os patriarcas chineses perceberam que as meninas e mulheres jamais conseguiriam correr, amarrando seus pés e fetichizando esse ato de aleijar mulheres. Hoje vemos o comércio de cabelos, óvulos, leite materno e aluguel de úteros através da prática da barriga de aluguel. Enquanto as incubadoras são normalmente mulheres pobres, as doadoras de óvulos são geralmente mulheres estudadas e jovens, cuja saúde foi investigada em busca de doenças hereditárias e que não foram alertadas para as implicações ou possíveis efeitos colaterais da coleta de seus óvulos.

O feminismo branco mainstream hoje irá classificar a labioplastia como algo que as mulheres “escolhem“. Da mesma forma que a imolação foi “escolhida” através da prática indiana do suttee. Da mesma forma que as mães “escolheram” amarrar os pés de suas filhas, “escolheram” cortar seus clitóris; como as mulheres que “escolhem” ser prostituídas e até mesmo traficadas, “escolhem” usar burqa, salto alto, não comer, amarrar seus seios. Essas práticas são por vezes não apenas marqueteadas e chamadas de “escolha”, mas também de altruísmo. A prostituição, a barriga de aluguel e a imolação tem sido chamadas de práticas “altruístas”. As mulheres, obviamente, querem ser capazes de escolher e contribuir. E que escolhas a sociedade nos permite fazer? Estas. Então alegamos que nós mesmas fizemos estas escolhas. Mas o feminismo precisa entender que, conforme Megan Tyler, sim, “nós fazemos escolhas, mas estas escolhas são moldadas e constritas por condições desiguais nas quais nós vivemos.”

NZPC promove a prostituição como uma “escolha” da mulher. Imagem da autora.

Quando se trata de tendências modernas como o transativismo, não podemos separar o desejo masculino de acesso aos espaços das mulheres e por transplantes de útero, de uma história de apropriação patriarcal (incluso aí as imitações de “úteros prostéticos”). Não podemos separar este movimento de uma história inteira que o precede, da exploração simultânea dos corpos e da desvalorização da mulheres. Também não podemos separar os desejos dos homens de sufocar e apropriar a discussão e a capacidade da habilidade das mulheres de criar vida de uma história inteira disso. O sistema masculino tem trabalhado para se apropriar do controle dos corpos das mulheres e de sua habilidade de criar vida humana, e para sufocar a discórdia feminista desde que chegou ao poder. Nessa Era Trump, a história continua.

Por outro lado, não podemos separar os desejos manufaturados das mulheres pelo privilégio masculino nem esquecer que as escolhas das mulheres de passar por procedimentos como binding e queima dos seios, mastectomias e cirurgias invasivas de uma história de opressão, demonização, mutilação e auto-destruição.

Não podemos separar qualquer discurso sobre gênero das realidades da opressão baseada no sexo — isso se realmente quisermos liberdade.

Imagem: Barbara Kruger

Traduzido do original: “A call to feminists to remember the history and sex-based nature of women’s oppression“. In: Writing by Renee, 7 de fevereiro de 2017.

A interdependência entre militarismo e prostituição

Traduzido de: GERLICH, Renee. “Conquest: on the inseparability of militarism and prostitution“. In. GERLICH, Renee. Writing by Renee — trigger warning: feminism and women’s rights. 20 de dezembro de 2018.


Desde que os homens começaram a se envolver com guerra, eles têm sequestrado mulheres e crianças para a escravidão sexual. De acordo com o historiadora Gerda Lerner, a conquista militar levou à escravidão e ao abuso sexual de mulheres e crianças capturadas no terceiro milênio antes da era comum. Em The Creation of Patriarchy, Lerner escreve:

Conforme a escravidão se tornou uma instituição estabelecida, donos de escravos alugavam suas escravas mulheres como prostitutas, e alguns senhores estabeleceram bordéis comerciais geridos por escravos. A pronta disponibilidade das mulheres capturadas para uso sexual particular e a necessidade de reis e chefes, frequentemente eles mesmos usurpadores da autoridade, estabelecerem sua legitimidade através da exibição de sua riqueza na forma de servas e concubinas levou ao estabelecimento dos haréns.

Os primeiros códigos legais encorajavam essa prática — como essa passagem do Velho Testamento (Deuteronômio 21:10-15):

Quando saíres à peleja contra os teus inimigos, e o Senhor teu Deus os entregar nas tuas mãos, e tu deles levares prisioneiros, e tu entre os presos vires uma mulher formosa à vista, e a cobiçares, e a tomares por mulher, então a trarás para a tua casa; e ela rapará a cabeça e cortará as suas unhas. E despirá o vestido do seu cativeiro, e se assentará na tua casa, e chorará a seu pai e a sua mãe um mês inteiro; e depois chegarás a ela, e tu serás seu marido e ela tua mulher. E será que, se te não contentares dela, a deixarás ir à sua vontade; mas de modo algum a venderás por dinheiro, nem a tratarás como escrava, pois a tens humilhado.

Ainda hoje, onde houver militarismo, haverá prostituição. Na ocupação de Papua do Leste foi reportado tráfico sexual no entorno das minas — como Freeport, a maior mina de ouro do mundo — sob a guarda do exército da Indonésia. A prostituição é abastecida pelas assim chamadas “tropas de manutenção de paz”: relatórios recentes de Rohingya mostram o envolvimento das tropas de paz no tráfico sexual e, antes de 2009, mostravam o envolvimento das tropas de paz no tráfico de mulheres e crianças para a prostituição nos Balcãs, Moçambique, Libéria, Guiné, Serra Leoa, Congo e Haiti. No começo dos anos 2000, mulheres tailandesas estavam sendo traficadas em bordéis frequentados por tropas de paz em Timor-Leste; tropas de paz criaram a indústria da prostituição em Ruanda em 1995; e no Camboja, a chegada das tropas de paz causou um aumento de 1.500 para 20.000 no número de mulheres e garotas prostituídas em 1990.

Conforme os Estados Unidos transforma o Oriente Médio em uma zona de desastre, a história está se repetindo. A autora feminista egípcia Nawaal El-Saadawi aponta em The Hidden Face of Eve que “[e]m um único ano, as Cruzadas tiveram de pagar os custos de alimentação e abrigo de mais de 13.000 prostitutas”. Hoje, o Oriente Médio tem a indústria de tráfico sexual que mais cresce no mundo, com tropas de paz envolvidas no tráfico de mulheres sírias.

Os comerciantes de escravas brancas introduziram a prostituição e as doenças sexualmente transmissíveis como parte de sua conquista e colonização: quando o capitão Cook foi ao Havaí em 1778, ele levou uma mulher havaiana chamada Lelamahoa-lani para si, em troca de ferro, e os marujos da Endeavour seguiram seu exemplo. De acordo com o historiador James Belich, pelo ano de 1810 na Nova Zelândia, a prostituição era mais lucrativa que o comércio de lã, laticínios e até mesmo ouro. Sheila Jeffreys no livro The Industrial Vagina escreve que “o estado colonial holandês agiu como um cafetão” em Curaçao, administrando, regulando e recrutando mulheres para bordéis desde o começo do século XX. Em Mulher, Raça e Classe, Angela Davis aponta que no tráfico escravagista, “as mulheres […] eram inerentemente vulneráveis a todas as formas de coerção sexual. Se a mais violenta forma de punição para um homem consistia em chicotadas e mutilações, as mulheres eram chicoteadas e mutiladas, mas também estupradas.”

A regulação do estupro pelo Estado originou de uma tentativa de evitar que a sífilis tivesse um efeito debilitante no exército como um todo. É isso que a prostituição é: a regulação do estupro no sentido de manter a capacidade dos homens de dominar. Feministas organizadas em campanha contra a regulação do estupro datam do Ato das Doenças Contagiosas de 1864 na Grã-Bretanha, que ditava que qualquer mulher encontrada em portos marítimos ou nos arredores de cidades militares (como Portsmouth) poderia ser presa, examinada e — se tivesse alguma doença venérea —, encarcerada em internamento forçado. Feministas como Josephine Butler reconheceram que essa lei significava que “homens podiam usar prostitutas com impunidade enquanto ao mesmo tempo puniam todas as mulheres”, conforme relata a jornalista Julie Bindel. Butler venceu sua luta contra o Ato das Doenças Contagiosas em 1886 — e então ela se voltou para a Índia, onde o exército britânico estava vendendo mulheres na prostituição em cidades militares usando os mesmos métodos legais. No século XIX, na Irlanda, as tropas britânicas também estavam prostituindo mulheres em cidades militares.

1884 foi o ano do “Passeio pela África” da Europa: foi quando nações européias dividiram o continente africano entre si mesmos em uma conferência em Berlim, antes de invadirem seus novos territórios reivindicados. Tropas italianas e francesas estabeleceram sistemas de prostituição assim que chegaram na África: o exército italiano montou um sifilicomio, para onde mulheres seriam levadas para se recuperar de doenças sexualmente transmissíveis, quase imediatamente depois de terem ocupado Massawa em fevereiro de 1885. Assim como os franceses: o primeiro sistema de prostituição regulamentada foi criado em Algiers em 13 de julho de 1830, apenas oito dias depois de as tropas francesas terem capturado a cidade. Filles soumises ou “garotas submissas” eram levadas a bordéis europeus e distritos da luz vermelha marcadas como “indígenas” — esse sistema gradualmente se estendeu por todos os territórios do norte da África que estavam sob o controle da França.

No Congo ocupado pela Bélgica, o rei Leopoldo II enviou soldados recrutas a vilarejos para sequestrar e manter mulheres reféns, de modo a forçar os homens locais a coletar a altamente lucrativa borracha cujas árvores que cresciam na floresta. “As mulheres capturadas durante a última incursão… não estão me causando nenhum tipo de perturbação”, escreveu em seu diário um oficial belga chamado Georges Bricusse em 22 de novembro de 1895. “Todos os soldados querem uma. Os sentinelas que deveriam estar as vigiando desacorrentam as mais bonitas e as estupram”. No início dos anos 1900, os invasores alemães causaram um genocídio na Namíbia. Eles então montaram um bordel para prostituir as mulheres nativas que sobreviveram.

Os livros The Industrial Vagina e Does Khaki Become You.
Imagem da autora do texto.

Na Nigéria, grandes porcentagens de mulheres de tribos nativas foram arrastadas para a prostituição durante essa era de colonização. A pesquisadora Mfon Ekpo-Otu conta que no ano de 1948, “a prostituição se tornou tão endêmica na região de Agwagune (Akunakuna) que seu nome se tornou sinônimo de prostituição” — tribos próximas chamavam mulheres prostituídas de akuna ou akwunakuna. No Quênia, um oficial da polícia reportou em 1917 que havia entre 300 e 500 mulheres e crianças sendo prostituídas em Nairóbi, algumas com 10 anos de idade. Na época da Segunda Guerra Mundial, muitas mulheres quenianas que estavam na prostituição de rua — que começou a ser chamada de watembezi — começaram a alugar camas, esteiras e quartos em cabanas de barro onde eram prostituídas em tempo integral por soldados alocados em Nairóbi.

De acordo com livro de Cynthia Enloe Does Khaki Become You, no começo da Segunda Guerra Mundial, os bordéis em Trípoli (Líbia) passaram a ser controlados diretamente pelo exército britânico. Oficiais foram postos em seu comando. Comandantes do exército britânico alocados na Índia também administravam bordéis oficiais, e em ambos os casos, as mulheres foram submetidas a exames médicos obrigatórios, e os bordéis eram designados de acordo com a raça e a posição na hierarquia dos soldados. Quando mais tarde vieram ordens de Londres para fechar os bordéis na Índia, os militares colocaram a culpa na epidemia de sífilis. Em seu livro A Man’s Country, Jock Phillips narra como soldados da Nova Zelândia queimaram bordéis no Egito em 1915 como uma vingança por contraírem sífilis, como se as mulheres fossem as culpadas — uma vez que era esperado delas se manterem “limpas” para o uso das tropas.

Nos anos 1930 e 40, o Japão continuou expandindo seu território através da China e do Pacífico. Em Japan’s Comfort Women, Yuki Tanaka explica que em abril de 1933, o exército imperial japonês criou uma estação chamada “Instalação Higiênica para Prevenção de Epidemias” em Xangai, onde mantinha 35 mulheres coreanas e três japonesas. Duas camisinhas eram distribuídas para cada soldado — um total de 15.528 camisinhas. No ano de 1942, 32,1 milhões de camisinhas foram enviadas para unidades alocadas fora do Japão, e além disso, as tropas japonesas sequestraram por volta de 200 mil mulheres e meninas da Coreia através de tráfico, trapaça e à força, para usá-las no que ficou conhecido como “mulheres conforto”. Mulheres japonesas chinesas e taiwanesas também foram usadas, e meninas filipinas de dez anos foram sequestradas por grupos de soldados. Jovens meninas virgens eram preferidas, uma vez que era menos provável que estivessem infectadas com sífilis, e sob o sistema das mulheres conforto, os oficiais tinham a preferência no “direito” às garotas mais jovens traficadas.

Os japoneses estabeleceram esse sistema de mulheres conforto na Indonésia; 3000 mulheres japonesas chinesas e coreanas foram também enviadas a Papua Nova Guiné ocupada pelo Japão, para lidar com entre 25 e 35 “clientes” por dia. As mulheres japonesas foram menos usadas no papel de “mulher conforto” porque se acreditava que seu papel era criar crianças japonesas saudáveis que cresceriam fiéis ao Império. O governo japonês no período das grandes guerras se inspirou na ideologia eugênica nazista, proclamando a Lei Eugênica Nacional em 1940. De acordo com Jeffreys, Himmler ordenou o estabelecimento de pelo menos nove bordéis em campos de concentração. Sob instruções do departamento de saúde, o gueto de Varsóvia estabeleceu um bordel com cinquenta mulheres judias para o uso dos soldados alemães, e em alguns lugares mulheres judias eram aprisionados para o uso dos guardas da SS.

Em 1945, no início da primeira guerra do Vietnã, os vietnamitas resistiram às tropas francesas entregando a eles as mulheres locais — mas em 1954 os franceses quebraram essa resistência. “Primeiro garotas baristas, e então casas de massagens para os fuzileiros navais em Da Nang, até que uma favela de bordéis, casas de massagens e negociantes de entorpecentes conhecidos como Dogpatch logo rodeavam a região”, lembra um veterano americano. Novamente, haviam bordéis separados para os soldados brancos e negros. Em seu livro Don’t Be Afraid of Gringo, Elvia Alvarado diz que o povo hondurenho se referia a sífilis como “flor de Vietnam”. “Quando os gringos chegaram”, diz Alvarado, a prostituição “deu início a algo terrível, com ruas inteiras cheias de bordéis”. Ela acrescenta,

Houve também um escândalo em torno do abuso sexual de crianças pelos gringos. Houveram casos de crianças que foram estupradas. Nunca ouvimos falar de nada parecido com isso antes de os gringos virem para cá.

E as pessoas começaram a falar sobre uma doença sexual chamada “flor de Vietnam”. Acredito que esse nome venha do país Vietnã, onde os Estados Unidos lutou outra guerra. Tudo que sei é que é uma doença sexual difícil de curar.

Mas o pior tem sido a AIDS… Dizem que quando os gringos contraem AIDS eles duram mais, porque tinham mais defesas que nós indígenas temos.

Protesto da organização filipina Gabriela.
Imagem da autora do texto.

Evento do fim da Segunda Guerra Mundial, o Japão perdeu o seu domínio sobre a Coreia e ela se dividiu em dois estados: a do Norte e a do Sul, desencadeando a Guerra da Coreia. Desde então, mais de um milhão de mulheres coreanas foram prostituídas pelo exército dos Estados Unidos. Em seu livro In Order to Live, Yeonmi Park conta sua experiência de ter sido contrabandeada da Coreia do Norte por traficantes que tinham como alvo garotas norte-coreanas buscando passagem segura,de modo a vender essas garotas para casamento e prostituição na China.

Um dos focos do livro The Industrial Vagina de Jeffreys são as regiões que o exército americano transformou em regimes de “descanso e recreação”, antes desses países se tornarem destinos de turismo sexual. Coreia, Tailândia e Filipinas estão entre essas regiões: 100.000 mulheres em Bangkok foram prostituídas sob o pretexto de “descanso e recreação” antes de a Tailândia se tornar um destino para o turismo sexual. 70% dessas mulheres e garotas sofriam com sífilis. Por volta dos anos 1960, 55.000 mulheres filipinas foram usadas na prostituição por tropas americanas para “descanso e recreação”. A organização filipina feminista Gabriela foi criada para resistir ao modo como as mulheres e meninas filipinas eram responsabilizadas, punidas e medicalizadas por causa da epidemia de sífilis causada pelo influxo de tropas americanas que as estavam prostituindo.

De acordo com o expert em tráfico de pessoas Siddharth Kara, os países asiáticos tem agora o maior número total de mulheres e meninas na prostituição. Nações como Quênia, Hawaii, Tahiti e Brasil também estão entre os maiores destinos sexuais militarizados.

A conexão que a prostituição e a pornografia tem com o militarismo é cíclica. A prostituição organizada por exércitos abasteceu a demanda da indústria pornográfica que cresceu rapidamente depois da Segunda Guerra Mundial; a pornografia também é usada para encorajar a agressividade dentro das forças armadas. Pornografia foi usada com este propósito quando soldados paquistaneses invadiram Bangladesh durante o genocídio de 1971; um jornal de mulheres britânico chamado Outwrite reportou que filmes pornográficos hardcore eram exibidos as tropas britânicas com destino às ilhas Malvinas em 1982. A Iugoslávia foi saturada de pornografia antes do genocídio bósnio, e a pornografia foi um fator para o estabelecimento de campos de estupro por milícias sérvias na Bósnia. Combatente sérvios filmaram o estupro de mulheres não-sérvias para fazer pornografia dentro de um sistema de prostituição onde o assassinato era comum.

Prostituição e pornografia são inseparáveis do militarismo. Juntas, essas instituições mantém o domínio dos homens no poder sobre as mulheres, e sobre as regiões ocupadas: mais do que isso a pornografia e a prostituição encoraja os homens a fetichizar a violência e a dominação.

A resistência feminista contra o estupro regulamentado — como o trabalho da organização Gabriela nas Filipinas, e a campanha de Josephine Butler contra o Ato das Doenças Contagiosas na Grã-Bretanha e Índia — ainda é uma parte crucial da oposição a violência masculina e ao militarismo. A prostituição tem se tornado normalizada de forma crescente ao redor do mundo, com jurisdições como a Nova Zelândia implementando versões contemporâneas do Ato das Doenças Contagiosas de 1864. Sobre o modelo do legislativo da Nova Zelândia chamado de “redução de danos”, o “apoio” oferecido às mulheres na prostituição constitui em nada mais do que distribuição de preservativos, de modo que os homens possam se proteger de doenças sexualmente transmissíveis. O estupro de mulheres vai permanecer intocado, a menos que as feministas se deêm conta de que precisamos agir.

O crime de ódio mais antigo do mundo

Como a misoginia está sendo usada para sufocar o debate das mulheres sobre sexo e gênero

Traduzido do site da campanha Fairplay For Women, grupo apartidário que visa defender mulheres e meninas das possíveis vulnerabilidades legais que as novas leis de identidade de gênero podem criar ao remover proteções específicas ao sexo feminino.

Este relatório discute a forma como a voz de algumas mulheres tem sido calada dentro do debate político e social sobre sexo e identidade de gênero. As mulheres têm uma contribuição importante e legítima a fazer, mas essa censura está impedindo um debate justo e livre. O objetivo deste relatório não é apontar as questões e preocupações das mulheres, mas o de destacar como e porque as mulheres têm sido excluídas. Isso é conseguido através da demonização das mulheres com visões críticas de gênero através do uso difundido de ofensas misóginas e acusações de transfobia. Esse relatório descreve as formas como mulheres estão sendo vítimas de abuso, hostilidade e ações criminosas motivado por ódio e preconceito no que diz respeito às suas opiniões sobre sexo e gênero. As consequências disso são que as visões das mulheres não estão sendo representadas com justiça por conta de silenciamento baseado em ódio, por causa de medo, vergonha e rejeição.

1.0 Cenário político

O governo britânico anunciou sua intenção de reformar o Ato de Reconhecimento de Gênero de 2004 [GRA, na sigla em inglês]). Em outubro de 2007, Theresa May disse publicamente: “Temos planos de reformar o Ato de Reconhecimento de Gênero, simplificando e desmedicalizando o processo de mudança de gênero, porque ser trans não é uma doença e não deveria ser tratado como tal”. A Secretaria do Governo para Igualdade está atualmente rascunhando um documento de consulta pública a ser publicado em algum momento este ano. Esse documento vai informar a Ministra de Mulheres e Igualdades (atualmente Amber Rudd), que vai trazer ao governo propostas na forma de um projeto de lei para o parlamento.

O governo do Partido Nacional Escocês completou sua própria consulta pública com planos de usar seus poderes constituídos para implementar um processo de auto declaração na Escócia. Ela também propõe a introdução de um sistema legal de mudança de gênero para crianças e o aumento do reconhecimento de identidades não-binárias. Estamos atualmente esperando os resultados dessa consulta serem publicados e o projeto de lei a ser apresentado no parlamento escocês.

Partidos oposicionistas também expuseram suas intenções de reformar as leis de reconhecimento de gênero com o manifesto do Partido Trabalhista de 2017, afirmando: “Um governo Trabalhista irá reformar o Ato de Reconhecimento de Gênero e o Ato da Igualdade de 2010 para assegurar que protejam as pessoas Trans mudando as características protegidas [por lei] ‘atribuição de gênero’ para ‘identidade de gênero’ e remover outros termos desatualizados como ‘transsexual’”. Jeremy Corbyn também indicou seu apoio à auto identificação de gênero, evidenciado por essa afirmação feita no programa de Andrew Marr da BBC em janeiro deste ano: “A posição do partido é que se você se auto identifica como uma mulher, então será tratada como uma mulher”.

O manifesto dos Democratas Liberais afirma: “Apoiaremos uma atualização do GRA para que seja mais inclusiva removendo a exigência de um diagnóstico para disforia de gênero”. A líder do Plaid Cymru [partido de centro-esquerda do País de Gales], Leanne Wood, afirmou publicamente: “Acredito que mulheres trans são mulheres” ainda que não tenha firmado nenhum manifesto assumindo esse compromisso.

A questão dos direitos dos transgêneros é, então, uma área de debate político legítima e ativa na qual todos os envolvidos têm o direito de se envolverem e se espera isso deles. Há também um debate mais amplo e necessário a respeito das definições e do uso de certas palavras (sexo, gênero, macho, fêmea, mulher, homem, gay, hétero etc).

2.0 Mulheres também têm interesses em jogo nesse debate

As mudanças propostas nas leis de reconhecimento de gênero significam que o processo de mudar o sexo legal de alguém de masculino para feminino (e vice-versa) será feito de forma mais rápida e fácil. Atualmente, a pessoa deve prover evidência médica a uma Banca de Reconhecimento de Gênero antes de receber um Certificado de Reconhecimento de Gênero (GRC, na sigla em inglês). Uma vez que um GRC completo é atribuído a um requerente, o gênero da pessoa muda para o gênero requerido, de modo que um requerente que nasceu homem poderia, pela lei, e para todos os efeitos, se tornar uma mulher. Eles podem obter uma certidão de nascimento substituta com sua designação sexual pretendida. Mudar os critérios pelos quais uma pessoa nascida homem pode se tornar legalmente mulher vai potencialmente impactar mulheres legalmente fêmeas em virtude de seu nascimento como tal. Desse modo, mulheres também têm interesses em jogo nesse debate além da comunidade transgênero, e têm um papel legítimo a cumprir em qualquer debate ou tomada de decisão.

Se mudar a designação sexual legal de alguém se tornar nada mais que um processo de auto identificação (por exemplo, assinando um formulário), então isso significa efetivamente que qualquer homem pode se capaz de se declarar mulher. Uma vez que crimes violentos e sexuais são majoritariamente cometidos por homens, e mulheres são as vítimas desses crimes, qualquer mudança na lei e na cultura que aumenta a possibilidade de homens acessarem espaços e serviços destinados exclusivamente a mulheres deve ser considerad nos termos de seus impactos na segurança, dignidade e privacidade das mulheres. As mulheres têm algumas importantes preocupações e questões sobre isso, que incluem:

  • Como as mulheres prisioneiras serão mantidas em segurança se qualquer prisioneiro homem pode mudar seu sexo legal (sem qualquer exigência de cirurgia ou tratamento médico) e ser realocado a uma prisão feminina?
  • Se tanto nascidos homens e nascidas mulheres podem ser legalmente reconhecidos como mulheres, como a discriminação sexual que as mulheres sofrem baseada em sua biologia poderia ser registrada, monitorada e diminuída?
  • Como as mudanças legais afetarão os direitos e a disposição de uma organização de invocar as isenções legais para um único sexo, a fim de manter espaços exclusivamente para mulheres apenas para nascidas mulheres?
  • Com o súbito e rápido crescimento do número de crianças sendo encaminhadas a serviços de especialistas em gênero (a maioria meninas adolescentes), cujo tratamento pode resultar em intervenções médicas pelo resto da vida e esterilidade, como pais e profissionais podem garantir que essas crianças estejam a salvo, na ausência de pesquisas de longo prazo baseadas em evidências?
  • Como o aumento observado de transições de jovens mulheres lésbicas em homens transgêneros héteros pode impactar a comunidade lésbica? Como o aumento observado de homens héteros se identificando como mulheres trans lésbicas impacta a comunidade lésbica?

O objetivo deste documento não é responder essas questões, mas meramente mostrar a ampla gama de tópicos slegítimos que impactam e preocupam mulheres, e porque a qualquer mulher deve ser permitida a participação livre nesse debate público e político.

3.0 O silenciamento direcionado a mulheres

Há evidências claras de que mulheres que fazem perguntas ou demonstram suas preocupações estão sendo especificamente alvo de silenciamento. Seus motivos e visões são injustamente denunciados como transfóbicos e inspirados em ódio. Isso impacta diretamente essas mulheres, mas também induz um clima de medo e vergonha para impedir que outras mulheres falem ou aprendam mais sobre as questões que também as impactam. Também significa que as vozes de algumas poucas mulheres que conseguem ser ouvidas sejam repudiadas ou desacreditadas. A demonização e a marginalização do papel de um grupo na sociedade é uma tática bem conhecida. É explorada pelos opressores e não deve ser tolerada numa sociedade democrática onde o princípio da liberdade de expressão é encorajado e valorizado. Alguns exemplos bem conhecidos incluem a demonização dos judeus por Hitler, a difamação racista de imigrantes, e o desastre de Hillsborough provocado pelos torcedores do Liverpool em uma briga de torcida [1].

Mais especificamente, a estratégia misógina de tornar mulheres em alvos para silenciá-las e controlá-las é uma tática bastante antiga. A queima de bruxas, os assassinatos por honra, a culpabilização de vítimas de estupro, e a desmoralização das mães solteiras são apenas alguns exemplos. A Sociedade Fawcett recentemente tornou público seu apoio para que a misoginia seja considerada um crime de ódio juntamente com racismo, transfobia, homofobia etc. A misoginia é comum em todo lugar e não é um fenômeno novo, e tem todas as características identificáveis de ser motivada por ódio e preconceito.

A transformação de mulheres que se engajam no debate sobre identidade de gênero em alvo motivada por ódio é claramente evidente. Isso pode ser visto através do uso de termos ofensivos sexistas para demonizar esse grupo de mulheres e normalizar a violência contra elas. Isso facilita o controle das mulheres pelo medo, vergonha e rejeição. Mulheres estão sendo silenciadas pelo medo de violência na vida real ou de danos em suas carreiras e reputações. Mulheres têm sido silenciadas através da vergonha de terem seus nomes expostos publicamente e suas opiniões rotuladas como cheias de ódio e transfóbicas. Mulheres têm sido silenciadas por rejeição, tendo suas opiniões desacreditadas ou censuradas. Todos esses três métodos serão agora discutidos e ilustrados com exemplos.

4.0 O uso de termos ofensivos sexistas para demonizar e normalizar a violência contra mulheres

O termo TERF é agora comumente usado como uma ofensa sexista para rotular como transfóbicas e preconceituosas mulheres que falam a respeito desses assuntos, que então devem ser afastadas e ignoradas. Ainda que tenha sido originalmente definido por seus oponentes como um acrônimo de Feministas Radicais Trans Exclusionárias, ele é agora usado para descrever literalmente qualquer mulher que faça perguntas ou levante suas preocupações no debate sobre transgêneros. Essa palavra não é reservada apenas para as mulheres mais ousadas e provocadoras, mas para qualquer mulher comum. Qualquer mulher.

Há clara evidência de que “terf” agora aparece como insulto, ameaça e incitações, e sua designação como um insulto é discutida por experts em linguística como Deborah Cameron. “Terf” agora é usado em um tipo de discurso que tem claras similaridades com discursos de ódio direcionados a outros grupos. “Terf” aparece com frequência nos mesmos tweets junto com outras palavras das quais não se divida de seu caráter enquanto ofensas sexistas, como “cadela” e “puta” [cunt]. Outras palavras que também aparecem incluem “nojenta”, “feia”, “escória” e mais um grupo de palavras que implicam em sujeira (“fedor”, “ranço”, “lixo”, “imundície”) — que também são um tema bem explorado nos discursos racista e antisemita. Da mesma forma, o insulto sexista feminazi é também frequentemente usado.

Na imagem, transativistas ofendem mulheres com insultos e as ameaçam de violência.
Na imagem, transativistas ofendem mulheres com insultos e as ameaçam de violência.

Ofensas e ameaças de transativistas direcionadas a mulheres que questionam suas ideias.
Ofensas e ameaças de transativistas direcionadas a mulheres que questionam suas ideias.

Feministas têm há anos alertado contra a retórica violenta vinculada à palavra “terf” e tem-se escrito frequentemente sobre seu uso como um termo sexista de ódio; Megan Murphy, Clare Heuchen, Rebecca Reilly-Cooper, Sarah Ditum. Piadas e ameaças envolvendo vioência contra mulheres, muitas vezes indistinguíveis, são agora comuns na internet. Emblemas vendidos na Etsy misturam a libertação dos trans com violência contra mulheres. Mulheres não abordam os assuntos sexo e gênero a partir de uma posição de poder — o sexo biológico tem sido usado, por centenas e centenas de anos, para oprimir mulheres.

O transativista do sexo masculino Katherine Drevis ameaça mulheres de violência abertamente.
O transativista do sexo masculino Katherine Drevis ameaça mulheres de violência abertamente.

Mais ameaças e violência contra mulheres sendo trivializada.
Mais ameaças e violência contra mulheres sendo trivializada.

Mulheres podem ser rotuladas como transfóbicas odiosas por expressarem quase qualquer tipo de opinião ligada à biologia das mulheres. Por exemplo, Nimko Ali foi condenada por transativistas como transfóbica por conta de suas opiniões enquanto sobrevivente e ativista contra a mutilação genital feminina.

Negar a realidade biológica do dimorfismo sexual da espécie humana é hábito comum de transativistas.
Negar a realidade biológica do dimorfismo sexual da espécie humana é hábito comum de transativistas.

Outras mulheres são condenadas por apontarem que mulheres têm necessidades específicas, proteções e experiências que carecem de provisões legais de serviços e espaços apenas para mulheres.

Debater racionalmente não é uma especialidade dos transativistas.
Debater racionalmente não é uma especialidade dos transativistas.

Há literalmente centenas de exemplos de posts em mídias sociais usando a palavra “terf” e outras do tipo para desmerecer e ameaçar mulheres. Esses exemplos são catalogados em uma porção de sites como Terf is a slur, Transcriticalhate, Anti-female receipts, The new basklash.

5.0 Silenciando mulheres através do medo

As mulheres estão sendo controladas através do medo das consequências de suas discussões a respeito do conceito de identidade de gênero e por levantarem questionamentos e preocupações. A violência física, intimidação e danos à reputação e carreira dispensados àquelas que falam a respeito as deixam com medo de continuarem falando. Isso também funciona como um aviso a outras mulheres, que temem que o mesmo ocorra a elas. Para algumas mulheres com famílias e outros compromissos, o custo pessoal a si mesmas e aos que delas dependem é simplesmente alto demais para se colocar em jogo.

5.1 Mulheres temem ameaças de violência real

Pesquisas têm mostrado uma ligação clara entre desumanização de grupos sociais e a perpetração de violência contra eles. É óbvio que a desumanização das mulheres ao ponto de serem consideradas alvos legítimos de violência aumenta o risco de violência física contra elas. Quando a sociedade aceita ou não questiona essa retórica de “soque uma terf”, então as testemunhas disso se tornam cúmplices. Essa incitação ao ódio às mulheres consideradas “terfs” (incluindo mulheres que simplesmente se associam ou querem ouvir o que “terfs” têm a dizer) fez com que uma mulher apanhasse.

Em 13 de setembro de 2017, uma mulher de 60 anos chamada Maria MacLachlan levou um soco e foi atirada ao chão por manifestantes que aguardavam para ver uma palestra chamada “O que é Gênero” sobre mudanças na lei de reconhecimento de gênero. O incidente no Speaker’s Corner de Londres foi filmado e o transativista Tara Flik Wood foi preso pela polícia. O julgamento está agendado para abril. Wood postou nas mídias sociais pouco antes: “Quero foder com algumas terfs”.

Transativista compara mulheres que fazem perguntas demais a facistas.
Transativista compara mulheres que fazem perguntas demais a facistas.

Em novembro de 2017, Helen Steel interveio para que se parasse o bullying direcionado a duas mulheres que estavam distribuindo panfletos sobre a reforma do GRA na Feira de Livros Anarquista que foram cercadas e ameaçadas por transativistas. Meia hora depois, ela foi cercada por durante uma hora por um grupo de cerca de trinta transativistas que gritavam ofensas misóginas como “terf feia”, “escória terf fodida”, “cadela”, “fascista” entre outros.

Em março de 2018, Paula Lamont foi violentamente e verbalmente assediada e intimidada por um grupo de pessoas gritando “Terf Terf Terf” e “Tirem-na daqui, ela é uma Terf”. A polícia interferiu. Acredita-se que o ataque está relacionado a terem-na reconhecido por ter participado de um encontro sobre as mudanças planejadas para a GRA feito pelo A Woman’s Place UK (WPUK) em Londres em 27 de fevereiro. Paula disse: “O que mais me entristece sobre esse incidente é que, da grande turba que me cercou e presenciou um ataque completamente unilateral e não provocado, ninguém se sentiu inclinado a interferir. Foi um exemplo chocante de mentalidade de manada. Em nenhum momento eu disse ou fiz qualquer coisa que pudesse ser interpretado como agressivo ou ofensivo”. Esse incidente alarmante não destaca apenas como mulheres individuais agora correm riscos pessoais para conseguirem acesso a informação a respeito de mudanças que vão impactá-las. Ele também mostra como outras pessoas também estão assustadas demais ou simplesmente não estão dispostas a interferir e apoiarem o direito das mulheres de participarem do debate. A filmagem desse incidente pode ser vista aqui.

Pichações incentivam a violência contra mulheres que questionam a ideologia trans.
Pichações incentivam a violência contra mulheres que questionam a ideologia trans.

Há também muitos casos de violência acontecendo fora do Reino Unido. Aproximadamente trinta transativistas vandalizam, destruíram livros e assediaram feministas na abertura da Biblioteca das Mulheres de Vancouver, administrada por trabalho voluntário. Em suas paredes foram pichadas as palavras “FORA TERFS”. Apesar das alegações dos manifestantes de que a biblioteca era “exclusionária de trans e trabalhadoras sexuais”, ela não é nada disso, e o site da biblioteca afirma: “Nós saudamos todas as mulheres, independente de credo, classe, gênero, raça, sexualidade”. Os manifestantes exigiam que vinte livros fossem banidos da biblioteca.

Mulheres que participavam de um evento do WPUK em Edimburgo foram assediadas por manifestantes. Eles fizeram barulho durante todas as palestras, incluindo gritar enquanto mulheres contavam suas experiências com a violência masculina. Eles estavam mascarados e filmavam as participantes. Depois, atacaram o local. Transativistas também enviaram mensagens diretas individualmente para as mulheres que acompanhavam o WPUK nas mídias sociais, em uma clara tentativa de intimidar futuras participantes.

Transativista tenta impedir discussão a respeito do "A Woman's Place UK"
Transativista tenta impedir discussão a respeito do “A Woman’s Place UK”

5.2 Mulheres têm medo de danos à sua reputação profissional

O medo de serem rotuladas como “terfs” significa que muitas profissionais estão impedidas de falar sobre o assunto abertamente em público ou no trabalho. Isso é particularmente comum entre mulheres que trabalham na academia ou em serviços em favor das mulheres. Há uma thread muito esclarecedora no Mumsnet onde mulheres postam sobre como temem que suas reputações profissionais sejam prejudicadas e suas ambições de carreira, ameaçadas. Inúmeras envolvidas no setor de apoio às mulheres têm sido silenciadas temendo que o serviço social voltado a mulheres que realizam possa ser impactado de modo prejudicial. Esses temores incluem que os serviços prestados nessas casas de apoio virem alvo de transativistas ou tenham seu financiamento cortado. O medo pelo corte de verbas está dentro do contexto que vai de 2010 a 2015, quando autoridades locais que financiavam serviços de combate à violência contra a mulher como abrigos e aconselhamento foram cortados em média em 30%, apesar de a violência contra mulher ter sido um crime que aumentou neste mesmo período de tempo. Serviços genéricos de “tamanho único” de grandes prestadores de serviço não especializados também têm levado a preferência em comissões no lugar de serviços especializados e exclusivos para mulheres que as usuárias preferem.

Poucas mulheres estão fora do armário para serem citadas aqui mas fala por si só que as mulheres por trás do WAPOW (Women Analysing Policy on Women, “Mulheres Analisando Políticas voltadas a Mulheres” na sigla em inglês) mantenham-se todas anônimas. O WAPOW submeteu um estudo para o Inquérito para a Igualdade Trans de 2015, mas como todos os outros grupos feministas críticos de gênero, elas não foram convidadas para apresentar suas evidências em nenhuma conferência. Tais grupos são repudiados como “feministas de araque” pela chefe do comitê, Maria Miller.

Em um encontro recente do WPUK em Birmingham, Karen Ingala-Smith (chefe de um refúgio independente para mulheres chamado Nia) compartilhou como ela nunca falou publicamente sobre a questão trans por medo de que seu trabalho de caridade, e as mulheres que ela apoia, se tornem alvos.

Neste exemplo anônimo (à esquerda) a apresentadora mulher sugere aos seus colegas que também incluam visões críticas de gênero [em suas ementas] para que os estudantes saibam a respeito do que é o debate. A resposta foi de que eles só deveriam apresentar o ponto de vista transgênero. O exemplo ao centro mostra uma mulher que foi denunciada ao seu empregador (BBC) por postar um “artigo transfóbico”. O exemplo à direita mostra uma mulher sendo denunciada na universidade onde trabalha por pedir explicações sobre sexo biológico.

Negação da realidade biológica das mulheres é uma das estratégias dos transativistas.
Negação da realidade biológica das mulheres é uma das estratégias dos transativistas.

A acadêmica e filósofa social Heather Brunskell Evans foi a porta-voz eleita pelo Partido pela Igualdade das Mulheres (WEP, na sigla em inglês) para falar sobre políticas sobre violência contra mulheres e meninas. Como consequência por ter expressão sua opinião no programa Moral Maze da BBC Radio 4 em 15 de novembro de 2017, algumas reclamações foram feitas por um ou mais membros do partido WEP.

Interrogada por Michael Burke, ela questionou que se adultos de bom senso não confirmam as afirmações de uma criança de sete anos de que ela é, por exemplo, um astronauta, por que transativistas querem que pais “reafirmem” cada criança que sugere estar “no corpo errado”. Ela também disse que “Uma sociedade genuinamente progressista permitiria aos meninos e meninas ser qualquer coisa que quiserem, então estou absolutamente feliz se garotos quiserem usar vestidos… Mas o problema é quando decidimos que a criança, genuína e internamente, em algum sentido, não é um garoto, mas uma garota, e aí que mora o perigo. Então, acredito que não há nada de errado se um menino quiser usar vestidos.

Depois de uma audiência disciplinar, o Comitê Executivo do WEP atendeu às reclamações e, em 20 de Fevereiro de 2018, ela foi suspensa do cargo para o qual foi eleita.

No final de novembro de 2017, uma reclamação foi feita à universidade empregadora de uma professora sênior de Humanidades a respeito de suposta transfobia no Twitter. Ela recebeu uma carta informando que estava sob investigação formal por transfobia, o que podia levar a procedimentos disciplinares. A questão foi levada às últimas instâncias da Universidade pelo Diretor de Recursos Humanos. A reclamação foi feita por um estudante de uma outra escola e disciplina. Ela foi acusada de transfobia porque retuitou o link para um blog que “trocava o gênero” de um artista performático de gênero fluido. Alegaram que isso era evidência de que ela poderia errar o gênero de algum estudante e que suas visões políticas poderiam dar uma impressão injusta a respeito dos estudantes transgêneros. A reclamação dizia que “se a Dra. X mantiver essas opiniões, não deveriam permitir que ela continue ensinando na universidade”. Depois de dois meses de processo investigativo ela foi considerada não-transfóbica. Entretanto, o estresse experienciado por causa da investigação foi imenso e resultou que ela teve que pôr de lado vários compromissos acadêmicos, em detrimento de sua reputação profissional. Alguns colegas de fato se aproximaram dela para perguntar se estava gravemente doente. Um deles admitiu que pensou que ela tivesse sido diagnosticada com câncer.

Todos esses casos são lembretes incisivos para as mulheres de que as suas reputações pessoais e profissionais são vulneráveis a ataques se elas se engajarem publicamente no debate sobre identidade de gênero. Isso cria um clima de medo e silêncio e, como tal, muito poucas mulheres podem falar contra essa forma de discriminação e ataque ou se engajar em debate público. As poucas mulheres que decidem falar o fazem sobre um custo alto pessoal e sofrem backlash [2] inevitável por fazê-lo.

6.0 Silenciamento através da vergonha e da exposição pública

A exposição pública de mulheres como “terfs” agora é comum. Algumas mulheres têm sido “expostas” nas mídias sociais se identificadas como alguém com opiniões críticas de gênero. Existem listas públicas com nome de usuário de mulheres identificadas como “terfs” no Twitter. A lista de bloqueio do Twitter Terfblocker.com atualmente contém 2638 nomes. O critério para caso você seja colocada nessa lista não é claro. Meu próprio nome de usuário (@asknic) está nessa lista a despeito de eu nunca ter postado um único tweet transfóbico. Meu “crime” é simplesmente que me oponho publicamente às mudanças da GRA 2004 e que escrevo artigos fundamentados em evidência que promovem um entendimento e consciência maiores das preocupações das mulheres nesta área.

O Terfoutlabour publicou uma lista de mulheres membros do Partido Trabalhista que publicamente apoiaram a campanha de financiamento coletivo feita para bancar uma futura objeção legal contra a política do Partido Trabalhista de incluir pessoas auto identificadas como mulheres trans na All Women Shortlist. O
Ato da Igualdade de 2010 dispõe em lei como o All Women Shortlist tem por objetivo o aumento da representação política das mulheres e é restrita somente a membros da categoria protegida por lei do sexo feminino. Pessoas auto identificadas como mulheres trans mantém seu status legal de [pertencentes ao] sexo masculino a menos que recebam o certificado de reconhecimento de gênero para mudar seu status legal para o sexo feminino. Entretanto a política do partido trabalhista tem sido a de permitir legalmente que trans do sexo masculino (sem o certificado) tenham acesso à All Women Shortlist. Essa política está atualmente sob revisão do partido depois de reclamações de que isso não é permitido sob a lei atual. Todavia os três ativistas que criaram esse site para expôr os nomes dessas mulheres alegam que aquelas que apoiam a campanha de financiamento coletivo “intimidam, vitimizam e assediam mulheres trans do Partido Trabalhista”. Um exemplo de carta é dado para que se possa reportar mulheres específicas para “qualquer oficial do partido que você ache que deva ser notificado desse flagrante preconceito”.

Transativistas expõem dados pessoais de mulheres que resistem ao seu assédio online.
Transativistas expõem dados pessoais de mulheres que resistem ao seu assédio online.

Há também contas no Twitter cujo único propósito é “expôr” mulheres.

7.0 Silenciamento através da rejeição das opiniões das mulheres

Impedir mulheres de falar em eventos universitários é comum, indo desde feministas radicais bem conhecidas como Julie Bindel e Germaine Greer até a apresentadora do Women’s Hour Jeni Murray. Isso agora está sendo ampliado até campanhas de grupos de base de mulheres comuns que desejam falar sobre o impacto das leis transgêneros sobre as mulheres. Acontece tanto no Reino Unido quanto em escala global.

7.1 Grupos de mulheres estão sendo impedidos de falar

O Fair Play For Women foi convidado a falar em um evento público sediado pelos departamentos de Política e Sociologia da Universidade de Oxford. Porém, depois de anunciado, os organizadores decidiram cancelar o evento por causa de reclamações de transativistas. Fair Play For Women também foi recentemente convidado pela equipe da BBC a falar sobre a importância de relatos precisos e equilibrados a respeito do debate trans e porque é tudo tão controverso. O evento aconteceu, mas o pessoal da BBC teve a precaução de não anunciar a lista de convidados antes para o caso de acontecerem protestos ou reclamações de transativistas.

Um encontro organizado pelo grupo “We Need to Talk UK tour” estava originalmente marcado para acontecer no clube de futebol Millwall. Porém, depois que o local foi anunciado, o MillWall cancelou dizendo “Nunca vimos algo assim, se referindo aos apelos e reclamações. Em vez disso, o evento foi presidido pelo parlamentar conservador David Davis na Câmara dos Comuns, que disse, em resposta à enxurrada de reclamações, “eu nunca vi algo assim em 13 anos sendo parlamentar”.

O Woman’s Place (WPUK) também organizou encontros abertos por todo o Reino Unido para discutir as implicações das mudanças na lei de reconhecimento de gênero. A política do WPUK é de só divulgar o nome do local logo antes do evento apenas para quem possui ingresso. A prática visa evitar que transativistas tentem intimidar os locais onde acontecem os eventos, de modo a levarem ao cancelamento ou fazer em protestos para perturbar o encontro.

Transativistas ameaçam impedir encontro de mulheres.
Transativistas ameaçam impedir encontro de mulheres.

7.2 Mulheres comuns estão sendo banidas de fóruns online

Agora é comum que mulheres sejam removidas ou tem os seus comentários deletados de grupos de Facebook se postar em algo considerado “terf”. Seguem abaixo alguns comentários que tenho recebido de mulheres comuns a respeito de suas experiências:

‘Uma mulher artista amiga minha foi “convidada a se retirar” de um grande grupo de mulheres artistas da Escócia por dizer que mulheres têm vaginas — ela não é nem feminista ou politicamente ativa.’

‘Foi em um grupo de aleitamento materno. Tomei uma bordoada e tanto. Eles também também tentaram me “expor” no Mumsnet, mas pegaram a pessoa errada. Foi muito ruim, eu tive que desativar o Facebook por um tempo porque acabei recebendo algumas mensagens me dizendo que alguns membros estavam tentando levantar meus dados. Ainda estou abalada, porque era um ótimo grupo até então.’

‘Do grupo Worldschooling — por discordar num tópico sobre qual era o melhor lugar para levar uma criança de 7 anos para ter acesso a tratamentos hormonais.’

‘Do grupo Science-aware Natural Parenting — não fui oficialmente kickada, mas saí depois que muitos outros foram, e quando ficou claro que dizer que “garotos têm pênis” infringe a regra deles de “não usar linguagem transfóbica”.’

‘Não fui banida mas levei uma advertência de um dos administradores no Nerds With Vaginas que minhas opiniões eram “perigosamente próximas de transfobia”. Ela ficou bem puta que muitos membros gostaram do meu post sobre um garoto transgênero que queria processar sua escola por fazê-lo usar a enfermaria para se trocar. Perguntei se ele tinha considerado os sentimentos das meninas adolescentes.’

‘Fui banida do Science-aware Natural Parenting por perguntar o que as pessoas pensavam a respeito do documentário sobre crianças trans de Louis Theroux. Eu sabia muito pouco a respeito de gênero naquela época, mas o objetivo do grupo é que haja conhecimento baseado em evidência, e eu estava perguntando que evidências haviam para a transição de crianças. E quando continuei questionando, me disseram que eu era uma terf transfóbica, e fui banida do rupo sem nenhuma apelação. Foi uma membra regular do grupo por dois ou três anos, e descobrir tudo isso foi realmente muito entristecedor na época.’

Me relataram muitos outros grupos onde mulheres têm sido banidas por postarem visões críticas de gênero ou questões, comentários ou artigos a respeito da biologia das mulheres. Esses grupos incluem o Alternativa Left Women, Dismantling Misogyny, So you want to raise a feminist, How to raise a feminist, Cardiff Feminist Network, Cardiff Feminist Women, Anarcho Feminism 101, Gender Neutral Parenting, Slings and other things off topic, o fórum do Partido Trabalhista, ecologistas científicos… E devem haver muitos outros.

Transativistas exigem que pessoas do sexo masculino possam fazer parte de grupos de escotismo restrito a meninas.
Transativistas exigem que pessoas do sexo masculino possam fazer parte de grupos de escotismo restrito a meninas.

Este [acima] é um exemplo de uma guia de escotismo para meninas (Girl Guiding) que estava preocupada com a segurança em relação ao risco de gravidez e assédio sexual. A política trans para garotas escoteiras é a de permitir que garotos que se identificam como meninas compartilhem a mesma tenda que as meninas, sem o consentimento informado de seus pais. Ela foi reportada e banida do fórum do Facebook por levantar essas preocupações.

7.3 Mulheres lésbicas têm sido silenciadas e sua sexualidade está sendo redefinida

Mulheres lésbicas são um grupo particularmente vulnerável uma vez que são alvo tanto de crimes de ódio homofóbicos quanto misóginos. O conceito de identidade de gênero bate de frente com o sexo biológico como marcador de diferença quando alguém é homem/macho ou mulher/fêmea, redefinindo os conceitos existentes de duas categorias protegidas dentro do Ato da Igualdade; a saber sexo e orientação sexual. Se um homem heterossexual (sexualmente atraído por mulheres) se identifica como uma mulher (sexualmente atraída por mulheres), sua orientação sexual é definida como sendo homossexual. Assim, agora temos pessoas nascidas homens com pênis e testículos dentro das possibilidades de relacionamento para mulheres lésbicas. Lésbicas que manifestam sua preferência por mulheres lésbicas são condenadas como transfóbics por fazê-lo. A teoria transgênero questiona todo o conceito de atração pelo mesmo sexo e é considerada por alguns como homofóbica. Dessa forma, alguns países (como o Irã), onde a homossexualidade é punível com a morte, já têm uma política de transições financiadas pelo estado para transicionar homossexuais para o gênero oposto. Isso efetivamente converte a orientação de uma pessoa gay para heterosexual e é claramente usado como método de conversão. Esses casos destacam o conflito inerente entre as bases teóricas da identidade de gênero (baseada em gênero) e a sexualidade (baseada em sexo). Mais informações a respeito disso podem ser encontradas na página da Lesbian Rights Alliance (LRA) aqui.

Esses exemplos mostram o banimento de uma mulher lésbica que descreveu sua sexualidade como apenas atraída por outras mulheres. Ela foi banida por transfobia e trans-misoginia. Isso é comumente referido como “teto de algodão” (o algodão se refere ao algodão da calcinha das mulheres lésbicas, através do qual homens que se dizem lésbicos esperam poder passar). Muitos outros exemplos de mulheres lésbicas sendo denunciados por suas preferências sexuais podem ser encontrados aqui.

Necessidades específicas de mulheres são rotuladas como "essencialismo biológico" por transativistas.
Necessidades específicas de mulheres são rotuladas como “essencialismo biológico” por transativistas.

Isso se combina com a pressão social para que mulheres lésbicas que se vestem ou se apresentam de uma maneira mais “masculina” transicionem e se tornem homens trans heterossexuais. Isso é particularmente evidente entre a geração mais nova que está rejeitando a identidade lésbica em favor de uma identidade de homem trans ou não-binário. 70% de todas as adolescentes atendidas no serviço especializado em gênero do NHS (Serviço Nacional de Saúde, na sigla em inglês) são meninas lésbicas. A comunidade jovem lésbica é agora virtualmente não existente e a falta de modelos e exemplos de lésbicas para essas criança é pior do que nunca.

A comunidade lésbica está sendo cooptada duplamente, tanto na diminuição da representação quanto na redefinição do lesbianismo para incluir sexo com pênis na vagina. Infelizmente, a mudança de prioridades das organizações LGBT em direção aos projetos transgênero significam que o suporte a comunidade lésbica é ausente em um tempo em que elas mais precisam de ajuda. Mulheres lésbicas que falam dessa discriminação e da homofobia que sofrem estão agora sendo silenciadas e desacreditadas com base em transfobia. Não se está aqui em igualdade de condições. É irônico que, talvez a época em que a sociedade mais considera e mais aceita os direitos dos homossexuais, é a mesma época em que alguns setores da comunidade gay estão sendo severamente marginalizados.

7.4 As vozes das mulheres estão sendo desacreditadas

Mesmo quando as opiniões das mulheres conseguem ser ouvidas elas estão desacreditadas e desconsideradas. O exemplo mais recente tem sido as reações a publicação do pacote de recursos para escolas Transgender Trend.

Organizações transgênero atualmente provém para escolas treinamento e aconselhamento em assuntos do tipo, mas eles promovem somente a afirmação (de gênero) e o modelo de transição social. Em contraste, o guia do Transgender Trend é baseado na proteção do bem-estar dos direitos de todas as crianças, e é voltado para a criação de uma escola saudável para todos, incluindo crianças não conformadas ao gênero e àqueles que se identificam como transgêneros. Esse dia está alinhado com a abordagem “ponderada” dos Serviços de Desenvolvimento voltados à Identidade de Gênero (GIDS, na sigla em inglês) do NHS, especializado em apoiar crianças nas questões de gênero, e tem sido recomendado aos pais pelos chefes do serviço. Mesmo assim, os ataques venenosos de ódio direcionados ao guia e sua autora principal têm sido terríveis, ainda que esperados. É normal agora que qualquer um falando fora da ortodoxia trans seja ridicularizado e difamado.

Na imagem, transativistas assediam até mesmo seus aliados, caso fujam de sua narrativa.
Na imagem, transativistas assediam até mesmo seus aliados, caso fujam de sua narrativa.

Stonewall sugere que o guia seja destruído. Outro tweet sugere que ele deva ser arquivado. O ativista transgênero Guiliana o associa ao Minha Luta, de Hitler. A natureza extremista dessa campanha de difamação tem como intenção silenciar o debate e acabar com a reputação da autora do relatório.

Transativistas incentivam hormonização e sexualização precoce.
Transativistas incentivam hormonização e sexualização precoce.

O trans ativista Shon Faye chama o Transgender Trend de uma organização anti-trans da linha de frente, e que o guia encoraja a terapia de conversão e transfobia institucional.

Um contraste extremo com um tweet anterior de Shon Faye, que resume seu próprio guia para escolas infantis na frase “chupe pau, coloque peitos logo”.

8.0 Conclusão

Através do uso de exemplos reais, este relatório mostra como algumas mulheres estão sendo injustamente visadas e assediadas com base em suas opiniões. Incidentes de ódio e crimes são motivados por misoginia e também homofobia. O resultado é que as vozes de algumas mulheres estão sendo silenciadas através de medo, vergonha e rejeição no atual debate a respeito de sexo e gênero. Isso significa que as leis podem ser mudadas sem que sua opinião seja considerada, a despeito de as mulheres serem uma parte importante no debate e com interesses em jogo que podem ser impactados com qualquer uma dessas mudanças. É crucial que essa forma de ódio misógino seja reconhecido pelo que é, e que não seja tolerado. Isso é essencial para assegurar um debate justo e livre a respeito de sexo e gênero por setores mais amplos da sociedade.


Notas

[1] Maior incidente violento na história do esporte britânico, o chamado Desastre de Hillsborough começou no estádio homônimo como uma briga entre torcedores do Liverpool e do Nottingham Forest. Noventa e seis pessoas morreram e mais de setecentas ficaram feridas durante a confusão, ocorrida em abril de 1986.

[2] Backlash é o termo que descreve uma reação contrária a algum evento, pessoa ou coisa que tenha ganhado notoriedade. Significa literalmente “contra-ataque”, e foi popularizado na teoria feminista com o livro Backlash: o Contra-Ataque na guerra não declarada às mulheres de Susan Faludi (1991).

Sou uma mulher atribulada. E trago questionamentos.

O que está acontecendo?

Como as nossas organizações de Esquerda e comunidade de resistência se tornaram um lugar de medo e ameaças para tantas mulheres? Por que feministas comprometidas de longa data estão temendo pelos seus empregos, suas organizações, seu serviços centrados em mulheres? Como chegamos ao ponto de lésbicas não poderem definir sua sexualidade como “atração por pessoas do mesmo sexo” sem serem rotuladas de exclusionárias? Por que nossas meninas estão tendo que rejeitar o rótulo de “mulher” para poderem fugir das normas da feminilidade compulsória, e fugir de estarem infinitamente disponíveis ao olhar, atenção e regulação masculina? Por que há muito mais garotas trans-identificadas do que lésbicas? Por que estamos apoiando que mulheres jovens amputem seus seios saudáveis? Cadê a proteção da sociedade à fertilidade futura das garotas, uma vez que lhes dão testosterona na puberdade? Onde o nosso feminismo deu tão errado?

Essas perguntas me assombram, e também à vasta maioria das mulheres. Somos as mulheres que lutaram pela nossa libertação, que organizamos abrigos e centros de apoio para mulheres vítimas de estupro e violência, que demos boas vindas às pessoas trans nas nossas vidas sociais e nos nossos movimentos, que defendiam os seus direitos e estávamos a disposição quando eles sofriam abuso.

Mas o que vemos agora é um movimento pelos direitos dos homens venenoso que encontrou o jeito perfeito de enfraquecer, atacar e silenciar aquelas feministas incômodas que ainda insistem que as palavras “mulher” e “homem” significam o que o dicionário diz que elas significam — humana adulta do sexo feminino, e humano adulto do sexo masculino. E que apontam que isso é importante porque os últimos exploram as primeiras, e se nós não pudermos nomear a nós mesmas e aos nossos opressores, não podemos articular uma posição em uma sociedade patriarcal, muito menos nos organizar para acabar com ela. O “jeito perfeito” é nos dizer que eles são a gente, que os nossos limites são exclusionários, que nossa análise a respeito do sexismo, do patriarcado e da misoginia é preconceituosa, que homens que estão insatisfeitos em seus papéis nessa sociedade não têm de fazer nada para destruir a masculinidade compulsória. Em vez disso, eles têm o absoluto direito de se identificar como nós, e não só isso, mas são, na verdade, muito mais oprimidos que nós, afinal “nasceram no corpo errado”, um conceito desumano que contradiz todo o pensamento progressista a respeito de uma visão positiva sobre o corpo.

Além disso, se nós mulheres, nós feministas, nós mulheres da esquerda, que passamos a vida defendendo a abolição dos papéis de gênero, que lutamos com unhas e dentes pelos nossos amigos e parceiros homens, nossos filhos e irmãos, para que fossem libertos das restrições da masculinidade, se ousarmos questionar esse Admirável Mundo Novo, seremos caçadas, linchadas, caladas e excomungadas dos nossos movimentos sociais. Então, segundo eles, é melhor a gente se calar.

Bem, nós ainda não estamos mortas, e algumas ainda resistem.


Tradução do texto: LIVERPOOL RESISTERS. “I am a troubled woman. I have some questions.“. Agosto de 2018.

A pornografia como autoridade sexual: como a terapia sexual promove a pornificação da sexualidade

Traduzido de: TYLER, Meagan. “Pornography as Sexual Authority: How Sex Therapy Promotes the Pornification of Sexuality”. In: Big Porn Inc.: Exposing the Harms of the Global Pornography Industry. Melbourne: Spinifex Press, 2012.

A pornografia se infiltra cada vez mais em vários aspectos de nossas vidas. Frequentemente quando discutimos essa “pornificação” (Paul, 2005), trazemos exemplos que todos podem ver e que são fáceis de se reconhecer: moda, arte, propaganda, programas de TV, filmes. Mas a pornografia também está se infiltrando em áreas que não são tão óbvios para a vida pública, para o dia a dia: desde as práticas empresariais de empresas globais (Davies and Wonke, 2000; Lane, 2000; Rich, 2001) até as práticas em nossas relações íntimas (Dines, 2010; Häggström-Nordin et al., 2005; Paul, 2005; Tydén and Rogala, 2003, 2004).

Esses processos públicos e privados de pornificação não apenas envolvem a crescente exposição e influência da indústria pornográfica como também a intensificação da sua legitimação. Uma das formas mais proeminentes nas quais a pornografia se apresenta como legitimação da área de terapia sexual. Hoje, na terapia sexual, a pornografia não é apenas considerada como uma parte aceitável da prática sexual, mas um modelo sexual ideal a ser seguido. É a pornografia sendo apresentada como a autoridade sexual suprema, e ela oferece sérios riscos à libertação das mulheres. A recomendação de consumo de pornografia pode ser encontrada em muitos livros de auto-ajuda sexual, mesmo aqueles escritos por terapeutas sexuais conhecidos e respeitados (ver por exemplo Heiman and LoPiccolo, 1992; Morrissey, 2005; Zillbergeld, 1993). A pornografia é mais frequentemente recomendada como uma ajuda para os casais. De acordo com os terapeutas Striar and Bartlik, que escreveram sobre o uso da “erotica” na terapia sexual, a pornografia deve ser vista como um modo de “adicionar diversidade a uma relação monogâmica” (Striar e Bartlik, 1999, p. 61). Eles afirmam, particularmente, que ela pode ser benéfica para “casais com fantasias sexuais incompatíveis” (p. 61).

Este é um dos meios mais comuns pelos quais a pornografia é introduzida como parte da terapia sexual. A pornografia é usada para “introduzir o/a cônjuge a uma nova experiência sexual, que ela ou ele poderiam, de outro modo, achar desagradável ou inaceitável” (p. 61). Em casos como este, a pornografia, sob o conselho dos terapeutas, é promovida como uma ferramenta para ser usada quando se quer convencer um/a cônjuge indisposta/o a participar de um ato sexual do qual ela/e não deseja tomar parte. A ideia de que as mulheres deveriam “experimentar” e performar atos sexuais que não desejam se tornou um modelo popular para o comportamento sexual feminino em relações heterossexuais desde a “revolução sexual” dos anos 60. É uma ideia frequentemente reforçada e legitimada através da terapia sexual (ver Jeffreys, 1990). As mulheres ainda são encorajadas por terapeutas a satisfazer sexualmente seus parceiros homens, ainda que não tenham desejo em fazê-lo, ou ainda que experimentem dor ou desconforto (Tyler, 2008).

Por exemplo, em “Becoming Orgasmic”, um manual de auto-ajuda sexual largamente recomendado para mulheres, os terapeutas Heiman e LoPiccolo encorajam as mulheres a tentar sexo anal (uma prática sexual cada vez mais presente na pornografia) caso o parceiro, homem, esteja interessado na prática. O conselho dos terapeutas é: “Se houver algum desconforto, tente novamente em algum outro momento” (Heiman and LoPiccolo, 1992, p. 187). A premissa central é de que a dor e o desconforto das mulheres não é uma razão aceitável para descontinuar a prática, mas na verdade, uma razão para que as mulheres passem por mais “treinamento”, “formatação” e coerção. Em vez de compreender que o uso da pornografia como estratégia coerciva é prejudicial, os sexólogos exaltam as virtudes da pornografia, afirmando por exemplo que ela é útil para “dar ao usuário permissão para emular tal comportamento” (Striar e Bartlik, 1999, p.61). É exatamente o tipo de comportamento que se espera que mulheres imitem da pornografia que expõe ainda mais a forma com que a promoção e legitimação da pornografia na terapia sexual prejudica a libertação das mulheres. Mesmo o material pornográfico “mais respeitável” que é recomendado por terapeutas sexuais, práticas sadomasoquistas e atos como dupla penetração, ou DP como ela é conhecida na indústria pornô, podem ser facilmente encontrados.

Peguemos como exemplo o Sinclair Intimacy Institute, gerenciado por um “conhecido e respeitado sexólogo, Dr. Mark Schoen”(Black, 2006, p. 117). O instituto é constituído majoritariamente por uma loja que vende pornografia recomendada por terapeutas. No site do instituto, clientes são assegurados que a pornografia disponibilizada ali foi aprovada e selecionada por terapeutas que escolhem apenas “produções sexualmente positivas de alta qualidade” (Sinclair Intimacy Institute, 2007). Entre a lista de “produções sexualmente positivas” estão títulos pornográficos conhecidos como “O diabo na carne de Miss Jones”, “Jenna Loves Pain” (Jenna adora Dor) e “Garganta Profunda”. A escolha de Garganta Profunda é particularmente reveladora, dada a quantidade de publicidade em volta das circunstâncias de sua produção. Linda Marchiano (Linda Lovelace, na época da filmagem) detalhou em seu livro Ordel o abuso extensivo que sofreu nas mãos de seu marido e cafetão, explicando como ela era forçada, às vezes sob a mira de uma arma, a atuar em pornografia (Lovelace, 1980). Ela uma vez afirmou que “toda vez que alguém assiste aquele filme, a pessoa está me vendo ser estuprada” (quotada em Dworkin, 1981). Um filme assim ser rotulado como “sexualmente positivo” por terapeutas deveria ser a causa de uma grande preocupação. Mas Garganta Profunda não é um caso isolado. Tanto o diabo na carne de Miss Jones quanto Jenna Loves Pain receberam comentários elogiosos na proeminente revista da indústria pornográfica, Adult Video News. Os editores da Adult Video News (AVN) deram a Miss Jones uma recomendação estrelada, dizendo que “O sexo é universalmente bom e genuinamente agitado, lancinante, com dupla penetração e chicotadas na cena final…” (Pike-Johnson, 2005b, n.p.).

Tenha em mente que esses são os títulos com comportamento recomendados para que os casais assistam e emulem. Como se o título não fosse problemático o bastante, Jenna Loves Pain também recebeu um endosso caloroso da AVN. Seus leitores foram informados que o filme continha não apenas um sadomasoquismo moderado, mas que ela eleva os padrões do que é possível em filmes de BDSM” (Ramone, 2005b, n.p.). Para ser clara, estamos falando de filmes de fetiche que incluem atos de bondagem, disciplina e sadomasoquismo (BDSM) e infelizmente os terapeutas esperam que as mulheres imitem esse comportamento. Striar e Bartlike, por exemplo, informam seus colegas terapeutas que acessórios para facilitar as fantasias de dominação e submissão sexual como “chicotes, coleiras e vendas” (1999, p. 61) devem ser recomendados aos clientes e podem ser facilmente encontrados em sex shops. A promoção da dominação, submissão e outras práticas sadomasoquistas pode ser encontrada mesmo em vídeos de “educação sexual”aprovados por terapeutas. O Sinclair Intimacy Institute produz e distribui alguns dos mais conhecidos títulos do gênero de educação sexual. De acordo com a Dra Judy Seifer, uma das terapeutas do instituto envolvida na produção da série Better Sex (Sexo Melhor), os casais devem usar os vídeos “como livros didáticos. Pare a fita, congele a imagem, como se estivesse relendo um capítulo” (Quotada em Eberwein, 1999, p. 193). Este “livro didático”, no entanto, contém muitas, se não todas, as convenções heterossexuais da pornografia mainstream (Eberwein, 1999), incluindo temática BDSM.

A promoção do sadomasoquismo em vídeos de educação sexual é particularmente óbvia nos Kits de Better Sex do instituto, que incluem vídeos e brinquedos sexuais. Um dos kits se chama “Smart Maid” (Empregadinha Esperta). Consumidores em potencial são informados pelo website que “Se fantasiar e ser sexy para o seu parceiro faz parte de uma relação saudável…” (Sinclair Intimacy Institute, 2007b). O uso de fantasias, no entanto, é esperado unicamente das mulheres: o kit não oferece roupas masculinas. Neste caso em particular espera-se que as mulheres se vistam com uma “fantasia de empregada francesa”. O excitamento sexual advindo da servitude feminina que os homens devem experimentar é ainda destacado pelos detalhes que acompanham a caixa: “A seu dispor! Fantasias sexy e divertidas se realizarão quando ela usar esta fantasia transparente de empregadinha” (Sinclair Intimacy Institute, 2007b). Temáticas de dominação e submissão são também óbvias no kit “Tie Me Up, Tie Me Down” (Me amarre, me amarre), que inclui “algemas japonesas para mãos e pés” e uma venda de couro. A fotografia que acompanha o kit, não surpreendentemente, é a de uma mulher vestida com as assim chamadas “roupas educativas de BDSM” (Sinclair Intimacy Institute, 2007c). A promoção da pornografia na terapia sexual, no entanto, só explica em partes como ela tem sido, cada vez mais, colocada como uma autoridade em assuntos sexuais. Como consequência da legitimação que os terapeutas sexuais deram à pornografia ao longo dos anos – colocando-a como um modelo ideal no qual o sexo heterossexual deve se basear – estrelas pornô tem sido cada vez mais apontadas como “especialistas sexuais”.

Por exemplo, na coleção de 1999 “Sex Tips: Advice from women experts around the world” (Dicas sexuais: conselho de mulheres especialistas do mundo todo) editada pela terapeuta australiana Jo-Anne Baker, estrelas pornô, sadomasoquistas e mulheres prostituídas aparecem ao lado de outros terapeutas como “especialistas” (Baker, 1999). Ainda na intenção de manter essa tendência, muitas revistas masculinas do Reino Unido e EUA deram uma turbinada em suas seções de conselhos sexuais, apresentando estrelas do pornô em vez de terapeutas sexuais (Attwood, 2005, p. 85, mediabistro.com, 2007a, 2007b). Algumas estrelas pornô e mulheres prostituídas até começaram a lançar livros com seus conselhos sexuais. Títulos recentes incluem: “How to have a XXX Sex Life” (Como ter uma vida sexual pornográfica) (Anderson and Berman, 2004), que é baseado em conselhos de mulheres que foram contratadas pela produtora pornográfica Vivid dos EUA; “Sex Secrets of Escorts: Tips from a Pro) (Segredos sexuais de acompanhantes: Dicas de uma profissional) (Monet, 2005), escrito por Veronica Monet, uma ex prostituta e estrela pornô; e “How to Tell a Naked Man What to Do: Sex advice from a woman who knows” (Como dizer a um homem pelado o que fazer: conselhos sexuais de uma mulher que manja) (Royalle, 2004), de Candida Royalle, uma ex estrela pornô de alto nível, que se tornou pornógrafa. Em vez de competir com conselhos sexuais oferecidos por terapeutas com treinamento médio, os conselhos sexuais dados nesses livros frequentemente se baseia em ideias “médicas” sobre o sexo, e além disso, frequentemente reforça essas ideias se apoiando em exemplos de pornografia e prostituição.

A pornografia e a prostituição são promovidas nesses textos como a principal autoridade sexual no sexo, e lá, a erotização da submissão e degradação da mulher são temas recorrentes. Todos os livros de conselhos sexuais escritos por estrelas pornô afirmam que estar envolvida em prostituição e pornografia faz de você uma autoridade sexual, em particular, do sexo bom, do sexo que deve ser imitado. Na mesma linha dessas afirmações estão seções que oferecem dicas e sugestões para as mulheres sobre como melhorar suas próprias vidas sexuais, baseadas em experiências de mulheres prostituídas ou da indústria pornográfica. Como Monet coloca: “Você aprenderá técnicas sexuais que são a base dos serviços sexuais pagos” (Monet, 2005, p. 8). Isto é um grande problema para mulheres, considerando que essas dicas sexuais são baseadas num sistema que envolve um desequilíbrio inerente de poder, um sistema em que na maior parte, homens são os compradores e mulheres são produto (Barry, 1995, Jeffreys, 1997). É um sistema em que as mulheres são pagas para satisfazer sexualmente homens, sem a menor consideração pelo prazer das mulheres (Barry, 1995). Um sistema no qual mulheres são frequentemente abusadas fisicamente, sofrem de dissociação e frequentemente de transtorno de estresse pós traumático (Farley, 2003). É um sistema no qual a desigualdade das mulheres é fixada (Jeffreys, 1997). E ainda assim este é o modelo oferecido para que as mulheres imitem em suas vidas sexuais. Existem pessoas, incluindo os autores destes textos pro-pornografia, que tentam argumentar que na verdade a prostituição e a pornografia são liberadoras e podem acomodar e promover o prazer feminino e a igualdade (ver por exemplo McElroy, 1995; Monet, 2005; Royalle, 2006; Strossen, 1995).

Mas o conselho oferecido nestes textos com frequência mostra o quanto estes argumentos são enganosos. São frequentes as mensagens nos textos das estrelas pornô que imitam a literatura de terapia sexual, reiterando a importância de tentar algo novo para agradar o parceiro ou questionando certas inibições. Um exemplo disso vem do livro da Royalle: “Como dizer a um homem pelado o que fazer”. Ela afirma: “Nunca ache que você tem que fazer uma coisa que não quer fazer. No entanto, é sempre bom estar aberta e pelo menos dar uma chance a novas experiências. Pergunte a si própria qual é exatamente o motivo de você não querer assistir filmes pornográficos…” (2004, p.65). Royalle então explica para as mulheres que, uma vez que tenham concordado em assistir pornografia, provavelmente se depararão com algo que não querem assistir: “Talvez ele queira ver um filme ~sujo~ e você queira um filme mais leve… É simples: Se revezem! E não assista o filme de má vontade” (Royalle, 2004, p. 70). De fato, a suposição de que a princípio as mulheres não vão querer participar dos atos sexuais que são recomendados é evidente na maioria deste tipo de material de conselho sexual. Por exemplo, Monet aconselha as mulheres a “Se dar a chance de ultrapassar seu constrangimento inicial ou mesmo seus sentimentos de desprezo” (Monet, 2005, p.130). Os autores de “Como ter uma vida sexual pornográfica” também oferecem conselhos a respeito de “se libertar da culpa e das inibições” (Anderson e Berman, 2004, p.10). A sugestão, é claro, é de que esses sentimentos de desprezo ou incômodo a respeito de reencenar atos de prostituição ou imitar a pornografia são, de certo modo, infundados.

As mulheres não tem o direito de sentir deste modo e precisam trabalhar na superação de suas “inibições”. A pornografia é a ferramenta sugerida para ajudar as mulheres a aprender a ter reações sexuais mais “apropriadas e positivas”. Em “Como ter uma vida sexual pornográfica” só autores encorajam as mulheres a copiar os diálogos diretamente dos filmes pornô. Eles são francos em informar sobre o apelo sexual que envolve a degradação, explicando que: “quando a maioria das pessoas pensa em ‘falar sacanagem’ elas pensam em usar palavras sujas, até linguagem degradante para que as coisas esquentem. Quando funciona, funciona bem” (Anderson e Berman, 2004, p.49, ênfase da autora). Para exemplos práticos, os leitores são direcionados a assistir o filme pornô “Swoosh” porque o linguajar é mais vulgar, com diálogos como “É isso que você quer, sua put@ imunda?” ou “Aguente, vagabunda” (Anderson e Berman, 2004, p.49). Em uma outra intersecção entre a pornografia e a terapia sexual, um conselho parecido a respeito de “falar sacanagem” é dado pela famosa sexóloga australiana Gabrielle Morrissey em seu popular livro de auto-ajuda sexual, Urge: Hot secrets for great sex (Urgência: Grandes segredos para um ótimo sexo) (2005). Morrissey afirma que falar sacanagem serve à intenção de “esquentar o clima”, e pra apoiar essa afirmação ela apresenta um cenário em que um homem diz a sua parceira sexual: “Traga sua bucet@ molhada aqui, eu quero te f0der muito bem…” (Morrissey, 2005, p.442).

Não fica claro se Morrissey acredita que essa prática excita homens, mulheres, ou ambos, mas ela reconhece que em contextos não sexuais as mulheres consideram essas frases muito ofensivas. Ela comenta que: “Um mulher no quarto pode achar excitante que o homem grite ‘Car@lho, você é uma put@ imunda!’, mas se ele dissesse algo parecido na cozinha, provavelmente receberia um safanão…” Depois ela explica: “Tom, intenção e contexto são tudo” (p. 424). O contexto é importante porque, de acordo com terapeutas sexuais e pornógrafos, a degradação feminina é aceitável desde que seja sexual. Enquanto Morrissey afirma que as mulheres não devem ser abusadas ou ofendidas verbalmente na cozinha, o quarto é colocado como a fronteira final do respeito e da igualdade. O que nos leva novamente ao problema de basear o aconselhamento sexual num modelo de sexualidade que não é a respeito do prazer sexual da mulher, mas sim de sua subordinação sexual. Quando a terapia sexual deu legitimidade à pornografia, os processos de pornificação parecem ter se alimentado ao ponto em que estrelas pornô agora são vistas e aceitas como importantes terapeutas sexuais. Enquanto a pornografia e a terapia sexual continuarem mutuamente reforçando a compreensão de como deve ser o sexo, será necessário que as mulheres se coloquem fora desse modelo e reivindiquem uma sexualidade que é baseada em igualdade e respeito, que fundamentalmente rejeite a pornografia como autoridade sexual. E ao mesmo tempo em que é as dificuldades de desafiar este modelo crescem, cresce também a necessidade e importância de tentarmos.


Referências

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Feminismo indefinido

Tradução livre de: THOMPSON, Denise. Radical Feminism Today. Londres: SAGE, 2001. p. 53-58.

O lugar óbvio de se procurar por definições é, claro, um dicionário, e dicionários feministas existem. Mas eles não são muito mais úteis para esclarecer o significado de feminismo que qualquer outro texto. Por seu propósito ser dar uma visão geral o mais abrangente possível, seu principal critério de seleção é qualquer coisa chamada de ‘feminista’. Como consequência, eles tendem a reproduzir os conflitos e contradições sem resolvê-los. As entradas sob o termo feminismo são tão díspares que são de pouca ajuda ao se buscar um sentido coerente do que o feminismo é.

Geralmente essa é uma estratégia deliberada por parte dos compiladores uma vez que seu objetivo é incluir a maior gama possível a respeito do que as mulheres têm a dizer sobre cada tópico designado por um termo. Mas a palavra feminista tem um status diferente de todas as outras entradas. Quando aparece no título ela provê por definição o foco para todo o resto. Assim, o lugar a se procurar pela definição de ‘feminismo’ neste dicionário é a declaração dos objetivos e intenções das compiladoras. Cheris Kramarae e Paula Treichler, por exemplo, inicialmente os declararam largamente em termos de ‘mulheres’, por exemplo ‘documentando palavras, definições, e conceitualizações que ilustram as contribuições linguísticas das mulheres’ (Kramarae e Treichler, 1985:1). Entretanto, elas estão conscientes de que para os propósitos de um dicionário feminista, referências a mulheres somente não eram suficientes. Elas disseram que chamaram o livro de dicionário feminista em vez de dicionário das mulheres porque estavam particularmente interessadas no que tem sido dito ’em oposição à definição, difamação, e ignorância masculina a respeito das mulheres e suas vidas’’ (p. 12). Em outras palavras, elas estavam cientes de que a necessidade de se focar em mulheres vem das condições da supremacia masculina, ainda que, no interesse da diversidade, a consciência não apareça claramente e indubitavelmente sob a entrada ‘feminismo’ no texto propriamente dito.

Usualmente, porém, essa abordagem pluralista significa que o feminismo acaba por ser definido apenas em termos de mulheres. As editoras de uma obra panorâmica do feminismo australiano disseram que ‘sequer tentaram impôr uma definição singular de feminismo … por causa da diversidade, e do constante movimento, no terreno feminista’. Elas, no entanto, oferecem uma definição de feminismo nos termos de uma preocupação com a opressão das mulheres e com como mudar isso em relação à cidadania das mulheres e a sua participação na vida social (Caine et al., 1998: x). Maggie Humm, também, definiu o feminismo em grande parte em termos de mulheres — ‘direitos iguais para as mulheres’, ’em geral, o feminismo é a ideologia da libertação das mulheres, a teoria do ponto de vista da mulher’, etc. (Humm, 1989). O feminismo também é caracterizado em termos de mulheres no Prefácio: ‘a teoria feminista é fundamentalmente sobre a experiência das mulheres’ (p. xi). Sob o título ‘Dominação’, ela reconhece que ‘Uma parte distinta da teoria feminista contemporânea é sua análise da dominação masculina e toda a teoria feminista é feita de modo a mostrar como a dominação masculina sobre as mulheres pode ser encerrada’’ (p. 55); e há uma entrada para ‘dominação masculina’. Mas essa consciência não é incluída na definição de feminismo.

Sei de apenas um texto que explicitamente aponta a questão de se definir o feminismo. Karen Offen (1988) apresenta o feminismo nos termos da dominação masculina como uma questão crucial das políticas feministas. O feminismo seria ‘uma análise crítica do privilégio masculino e da subordinação das mulheres dentro de qualquer sociedade dada’, e ‘um desafio político à autoridade e à hierarquia masculina em seu mais profundo sentido’’ (pp. 151, 152). Mas sua principal preocupação era porque a palavra ‘feminismo’ tão frequentemente evoca antagonismo. Ela sugere que foi a ênfase individualista que alienou muitas mulheres (e homens), porque desconsiderava a experiência tradicional das mulheres e as diferenças das mulheres em relação aos homens. Ela argumenta que a solução seria reconhecer o importante papel ‘relacional’ que o feminismo desempenhou historicamente. ‘Feminismo relacional’, ela diz, ‘enfatiza os direitos das mulheres enquanto mulheres (definidos principalmente por suas capacidades férteis e nutridoras) em relação aos homens. Ele insiste nas contribuições distintas das mulheres nesses papéis na sociedade de forma ampla e faz reivindicações na comunidade com base nessas contribuições’’ (p. 136 — ênfase da autora). Ela reconhece que argumentos em favor da ‘diferenciação das mulheres e complementariedade dos sexos’ têm sido constantemente apropriados ‘para novamente sancionar o privilégio masculino’ (p. 154). Mas ela acredita que um feminismo que valoriza as capacidades tradicionais das mulheres para amparo e relacionamento terão mais apelo para as mulheres do que um que se baseie somente nos conceitos abstratos (e definidos por homens) de direitos individuais e autonomia pessoal.

Porém, enquanto ela está certa de que há muito o que se valorizar nas capacidades tradicionais das mulheres, ela entende erroneamente a origem do antagonismo relativo ao feminismo. O feminismo irrita, não porque seja muito abstrato e individualista, mas porque identifica a dominação masculina. O problema do feminismo com os papéis tradicionais femininos não é que as mulheres de fato os desempenhem, mas que eles asseguram a subserviência das mulheres aos homens. O problema não é que mulheres sejam nutridoras e cuidadosas (caso sejam), mas que se requeira que as mulheres nutram homens sem reciprocidade. É a perspectiva de as mulheres se recusarem servir aos homens que é tão alienante, para os homens porque irão perder seu reconhecimento não recíproco às mulheres do status ‘humano’, e para as mulheres porque perderão seu único acesso à intimidade e ao status ‘humano’ permitido dentro das condições da supremacia masculina. Mas Offen não reconhece que é a própria oposição do feminismo à supremacia masculina, uma oposição que ela mesma não achou problemática, a origem do antagonismo.

Muito frequentemente os textos feministas se equivocam na questão da dominação masculina, até mesmo, curiosamente, onde ela é explicitamente nomeada. Sandra Harding, por exemplo, reconhece claramente a existência da dominação masculina, uma vez que define ‘sexo/gênero’ como ‘um sistema de dominação masculina tornado possível através do controle masculino do trabalho produtivo e reprodutivo das mulheres’ (Harding, 1983: 311). “Dominação masculina” é sinônimo a ‘sistema sexo/gênero’ ao longo do artigo. Ela nos diz que é provavelmente imprudente ‘assumir que qualquer coisa que conheçamos como sistema sexo/gênero seja um aspecto universal da vida social humana’’, e então restringe o escopo de sua generalização à ‘vasta maioria de culturas às quais temos acesso histórico’’ (p. 323 n. 10 — ênfase da autora). Assim quaisquer culturas (hipotéticas) que não sejam dominadas por homens, ao que parece, não teriam o ‘sistema sexo/gênero’. Mas se a dominação masculina é a característica comum e invariável do ‘sistema sexo/gênero’, por que há a necessidade de se substituir ‘sistema sexo/gênero’ por ‘dominação masculina’? Dado o quão prevalente é a evasão em se nomear a dominação masculina, essa substituição não é inocente. Muitas vezes ela funciona como uma negação eufemística das relações de poder desafiadas pelo feminismo. Porque ela deveria aparecer em um texto que, ao contrário, identifica claramente as relações de poder, é intrigante.

Enquanto a maioria dos textos auto-identificados feministas que falham em reconhecer a dominação masculina como o principal antagonismo do feminismo o faz implicitamente ou por omissão, há alguns textos que explicitamente argumentam contra isso. Por exemplo, há o argumento de Judith Butler contra o que ela caracteriza como ‘a noção de que a opressão das mulheres tem uma forma singular discernível na estrutura universal ou hegemônica do patriarcado ou da dominação masculina’’. Ela continua dizendo:

A noção de um patriarcado universal tem sido amplamente criticada nos últimos anos por sua falha em considerar as atuações da opressão de gênero nos contextos culturais onde ela existe. Onde esses vários contextos foram consultados dentro dessas teorias, têm sido para encontrar ‘exemplos’ ou ‘ilustrações’ de um princípio universal que é assumido desde o princípio. Essa forma de teorização feminista tem sido objeto de crítica por seu esforço em colonizar e apropriar culturas não-ocidentais para apoiar noções altamente ocidentais de opressão, [e] porque tendem também a construir um ‘Terceiro Mundo’ ou até mesmo um oriente no qual a opressão de gênero é sutilmente explicada como sintomática de um barbarismo essencial, não-ocidental. A urgência do feminismo em estabelecer um status universal para o patriarcado no sentido de fortalecer a aparência das próprias demandas do feminismo de ser representativo ocasionalmente tem motivado um atalho para uma universalidade categorial ou fictícia da estrutura de dominação, feita para produzir uma experiência comum de subjugação das mulheres. (Butler, 1990:3–4)

Esse único parágrafo compromete toda a crítica de Butler no texto. A escassez do argumento indica tanto a crença de Butler na natureza auto-evidente da crítica, e seu desprezo pela ‘forma de teorização feminista’ que ela está rejeitando. Nenhuma evidência ou exemplos de ‘universalidade fictícia’ são dados, logo a acusação é impossível de se avaliar nessa instância em particular. Não nos é dito onde ‘a noção de patriarcado universal aparece’, nem onde ela foi criticada. Não podemos então decidir por nós mesmos se há ou não alguma forma de teorização feminista que ‘coloniza e apropria culturas não-ocidentais’ e as constrói como ‘bárbaras’, nem de que formas elas devem ser.

Seu argumento é uma instância da acusação de ‘falso universalismo’, e funciona da mesma maneira que todas as acusações do tipo contra a teoria feminista funcionam, ou seja, negando a dominação masculina. Ela caracteriza o ‘patriarcado’ como uma ‘noção altamente ocidental’. Ela insiste que ele não é apropriado quando aplicado às ‘atuações da opressão de gênero’ e ‘experiência de subjugação das mulheres’ em culturas diferentes das ‘ocidentais’, negando assim que o conceito de ‘patriarcado’ é relevante para culturas outras que não do ‘ocidente’. No entanto, ela reconhece que a ‘opressão de gênero’ e ‘subjugação das mulheres’ existe em culturas outras que não do ‘ocidente’. Mas se a subjugação das mulheres não é resultado da dominação masculina, de onde ela vem? Parece que o ‘universalismo’ só é falso quando o que está sendo ‘universalizado’ é a dominação masculina. Não há problema, ao que parece, em ver a opressão das mulheres como ‘universal’ no sentido de que ela existe em outras culturas que não o ‘ocidente’. O que é proibido sob o risco de ser acusado de ‘falso universalismo’ é nomear o inimigo.

Localizar a causa da subordinação das mulheres na dominação masculina não é ‘universalizar’ uma noção peculiar do ‘ocidente’ e aplicá-la a ‘outras culturas’. Identificar a dominação das mulheres pelos homens (e de alguns homens sobre outros homens) não é afirmar que há somente uma forma singular de dominação masculina. Mesmo no ‘ocidente’, ela tem a multiplicidade de diferentes formas. Onde quer que os interesses dos homens prevaleçam às custas das mulheres, e os interesses de alguns homens prevaleçam sobre os de outros homens, a dominação masculina existe, seja que forma tome. Enquanto algumas vezes ela é violenta e descaradamente desumanizadora, ela também é multifacetada e pervasiva na vida cotidiana. Ela toma diferentes formas em diferentes culturas sob diferentes condições históricas, contanto que a existência ‘humana’ continue a ser definida nos termos dos homens, e que a existência ‘humana’ de alguns homens exista às custas de outros homens, ela continua sendo dominação masculina, em todas as suas ‘infinitas variedades e monótonas similaridades’ (Fraser and Nicholson, 1990:35).1

Essa relutância entre muitas das que se identificam como feministas em nomear e identificar a dominação masculina requer explicação. Uma razão reiterada com frequência é a relutância em se caracterizar as mulheres como ‘vítimas’. Focar na dominação masculina, assim se argumenta, faz dos homens mais poderosos do que realmente são, e só faz as mulheres se sentirem acuadas e indefesas. Insistir na extenção do poder masculino, vê-lo como amplamente pervasivo, vê-lo a todo momento nos violando, invadindo nossas vidas, penetrando nos recôncavos profundos da nossa psique, enraizado nos nossos atos mais íntimos, é retratar as mulheres como nada mais que vítimas passivas e indefesas dos homens, ou assim se diz.

Esse tipo de argumento é comum nos círculos ‘feministas acadêmicos’. Lois McNay, por exemplo, diz que a ‘tendência de se considerar mulheres como vítimas impotentes e inocentes das estruturais sociais patriarcais … impede muitos tipos de análises feministas’ (McNay, 1992: 63, 66). Ela diz que isso falha em ‘considerar o potencial da criatividade das mulheres e sua agência sob restrições sociais’. Isso também é opressivo a algumas mulheres porque não reconhece ‘que gênero não é a única influência determinante na vida das mulheres’, e porque ‘toma as experiências das mulheres brancas como norma e as generaliza’. Ela não dá nenhum exemplo de obra feminista que supostamente exiba tais características porque, ela diz, isso é ‘bem documentado’’ (pp. 63–-4). Ela ainda diz também que há ‘indubitavelmente … estruturas de dominação, em particular construções de gênero, que asseguram a posição subordinada geral das mulheres na sociedade’ (pp. 66-7). Ela não percebe as contradições em se rejeitar ‘estruturas patriarcais sociais’ em conjunto à ‘vítimas impotentes e inocentes’ por um lado, e se aceitar ‘estruturas de dominação de gênero’ e ‘subordinação geral’ das mulheres por outro. Não está claro que tipo de distinção está sendo desenhada aqui.

Argumentos como esse cometem o mesmo erro que supostamente encontram em outros lugares. Eles interpretam as referências à dominação masculina em termos de ser algo monolítico e inevitável. Mas a exposição feminista da vitimização das mulheres tem a intenção de combatê-la, não de mantê-la. Se ela não pode ser nomeada, não pode ser enfrentada. E o projeto das mulheres de criarmos para nós mesmas formas não exclusivas e não opressivas de ser humanas é evidência suficiente de que o feminismo não define as mulheres como somente vítimas. Esse tipo de objeção falha em levar em conta o senso de poder, triunfo ou alívio que vem com uma visão de mundo clara. Falha em levar em conta a necessidade imperiosa que temos de ver o quão ruins realmente estão as coisas, e o senso de libertação que vem com esse conhecimento. Ignora a necessidade política de se saber contra o que estamos lutando, se estamos dispostas a fazer algo. Aqueles com medo de confinar as mulheres à vitimização perpétua parecem ter esquecido (ou nunca tiveram conhecimento) do alívio de se ouvir a respeito de uma opressão como opressão, em vez de uma falha meramente pessoal e idiossincrática. É toda uma libertação em si mesma dar-se conta de que a culpa recai, não sobre as falhas próprias de alguém, mas em uma realidade onde é possível dizer ‘não’. Esse é um passo vital no processo de se desembaraçar de condições opressoras. Todas nós provavelmente chegamos a um ponto de ruptura, um ponto em que já é o bastante e a angústia supera o alívio. Mas a angústia não é aliviada ao se recusar ver a dominação masculina quando ela é manifestadamente presente, ao se chamá-la de algo menos horrendo (como ‘gênero’), ou ao se retratar mulheres como poderosas quando elas não o são. Reconhecer as amarras ao qual se está sujeita é parte intrínseca de se ter consciência da própria agência moral sob opressão (Hoagland, 1988). Agência moral requer uma habilidade de se decidir não apenas o escopo mas os limites da responsabilidade de alguém, a medida em que alguém é ou não responsável, quando se pode agir, quando não se pode.

Assim, nomear a dominação masculina não é retratar as mulheres como nada além de vítimas. As mulheres também podem ser colaboradoras, podem abraçar os significados da supremacia masculina e valorizá-los como seus e os defender vigorosamente. O sistema oferece benefícios e vantagens limitadas, mas não por isso insignificantes. Ele atrai e seduz enquanto oprime. As mulheres também podem ser resistentes corajosas e perspicazes. Há um sentido no qual o desafio do feminismo à dominação masculina não é em nada ‘sobre’ as mulheres. Se refere ao sistema social que certamente opera em detrimento das mulheres, mas ao qual qualquer um pode ser cúmplice e contra o qual qualquer um pode resistir. Mas é importante esclarecer que as mulheres são as suas principais vítimas. Evitar nomear a vitimização é uma falha em se nomear a opressão. Pela mesma lógica, também não poderíamos nomear qualquer uma das grandes opressões na história. Deveríamos evitar falar sobre o Holocausto ou sobre colonialismo? Essas grandes maldades produziram incontáveis milhões de vítimas inocentes e impotentes. Por que essas vítimas podem ser nomeadas assim, mas não as mulheres vítimas da supremacia masculina? Como podemos saber o tamanho do dano feito às mulheres se estivermos proibidas de nomear esse dano? À medida em que o ‘feminismo acadêmico’ suprime qualquer referência às mulheres enquanto vítimas, ele está em conluio com a dominação.


Nota

1. Essas autoras utilizam a expressão ‘opressão das mulheres’, e não ‘patriarcado’ ou ‘dominação masculina’.

Ainda sobre escracho

Texto publicado originalmente no blog More Radical With Age. Traduzido com permissão da autora.


A irmandade é poderosa. Ela mata. Majoritariamente irmãs.
– Ti-Grace Atkinson

Fui lembrada desse ensaio hoje, publicado pela primeira vez em 1976. A autora, escrevendo do meio da Segunda Onda do ativismo feminista, descreve em detalhes desoladores o dano psicológico a longo prazo infligido nas mulheres no coração daquele movimento, pelas relações que deveriam justamente nutri-las, ampará-las e libertá-las. Na primeira vez que encontrei esse ensaio, enquanto estudante da graduação com um vago interesse na história da Segunda Onda mas sem nenhuma experiência direta própria em ativismo feminista, li-o com uma certa fascinação perplexa e desconectada, incapaz de compreender como mulheres podiam fazer isso umas com as outras, ou o que poderia explicar essas dinâmicas devastadoras. Hoje, tendo testemunhado a última rodada brutal e implacável de racha direcionado a uma amada amiga minha, e tendo sido alvo disso ontem mesmo, a familiaridade disso tudo torna esse texto quase doloroso demais para ser lido de novo.

Há um certo pequeno conforto a se tirar da percepção de que nada disso é novo: que minha geração não é unicamente não-saudável ou disfuncional, que não somos incomumente incapazes de demonstrar solidariedade e irmandade umas pelas outras, que essas feministas fenomenais, intrépidas e destemidas cujos escritos e ativismo eu admiro tanto sofreram muito das mesmas tristezas que eu sofro, e iriam empatizar com minha dor. Mas isso é acompanhado da tristeza real de que quase quarenta anos depois que o artigo de Joreen foi publicado, fizemos tão pouco progresso. Estamos repetindo os mesmos erros de nossas ancestrais. Outra geração de mulheres brilhantes, comprometidas e apaixonadas está se desgastando. Sendo morta pelo poder da irmandade.

Todas as tendências que Joreen descreve ainda existem. Ainda rachamos mulheres pela frente, e também pelas costas. Ainda ostracizamos. Ainda denunciamos. Ainda damos falsos relatórios sobre as coisas horríveis que outras mulheres disseram ou fizeram. Ainda interpretamos umas às outras impiedosamente. Ainda temos expectativas ridículas e não-razoáveis umas das outras e usamos isso para justificar a raiva e o abuso onde eles não se justificam. Ainda julgamos umas às outras como culpadas por associação, e vemos amizades e relacionamentos como origem de mácula. Ainda nos juntamos para rachar mulheres como nós, usando-as como escudos para desviar a atenção de nós mesmas. Ainda sussurramos nosso apoio ao alvo da vez via canais fechados, mas não falamos nada publicamente, por medo de ser a próxima da fila. Ainda mascaramos a brutalidade disso tudo atrás do véu da “crítica legítima”.

Claro que agora temos todo um conjunto de novas vias através das quais expressamos essas tendências. Nós blogamos. Reblogamos. Twittamos. Subtweetamos. Storifycamos. Printamos. Chamamos atenção. Nós nos aglomeramos. Mobilizamos nossos seguidores. Parodiamos. Fazemos doxxing. Essa coisa de racha se tornou algo muito mais em tempo real, e muito mais inescapável. Se você está envolvida no feminismo online nos últimos dois anos, você quase que certamente já experienciou essa onda de pânico, o pavor doentio e o pulso acelerado, quando seu telefone explode e suas notificações se exaurem, mensagem atrás de mensagem aparecendo para te dizer que ser humano abominável você é. (Desenvolvemos um novo verbo irregular para descrever o que tipicamente acontece no fim dessas aglomerações: eu dou um tempo do Twitter; você desativa a conta por auto-cuidado; ela esperneia.)

Como Joreen, fico preocupada de lavar nossa roupa suja em público — me deixa triste pensar nos homens rindo de nós enquanto assistem a nós nos despedaçando. Somos todas bem versadas nesses estereótipos sexistas de brigas de mulher e mulheres barraqueiras e “vocês não acham que as mulheres são seus piores inimigos?”, e nós sabemos que cada um desses rachas públicos age de acordo com, e reforça esses estereótipos. Mas quero reiterar o ponto que Joreen apontou em 1976 — nada disso é peculiar ao feminismo. Nada disso é específico das políticas ou das relações das mulheres, e ainda que as pessoas pensem que é, é porque aceitaram esses estereótipos sexistas, e aprenderam a desconsiderar os conflitos entre mulheres como sendo brigas histéricas, enquanto tomam os conflitos entre os homens como sendo indicativos de discordâncias políticas substanciosas sérias. Muitas dessas tendências são exacerbadas pelo fato de que somos mulheres — nossa socialização feminina geralmente não nos prepara para passar pelos conflitos e discordâncias de forma leve, e nossa marginalização política significa que podemos ser inexperientes em organização política comparadas aos homens. (Por outro lado, quando brigamos umas com as outras, nações não entram em guerra). Mas as questões psicológicas e estruturais que causam essas fraturas políticas estão presentes não apenas na política feminista, mas nas políticas de esquerda e progressista em geral.

Em nível individual, o que se encontra na esquerda são pessoas que tendem a ser movidas pelos princípios e convicções, e que têm forte comprometimento moral sustentando suas posturas políticas. Então os tipos de mulheres que são levadas ao feminismo são os tipos de mulheres que têm princípios políticos firmes e fortes a que elas são apaixonadamente comprometidas, e que não raro fazem parte de sua identidade e auto-percepção. Por esse motivo, elas geralmente não estão dispostas a desviar desses princípios para se comprometerem com aqueles com quem elas discordam. Uma vez que princípios políticos são uma questão de convicção moral e identidade pessoal, muitas feministas, e esquerdistas em geral, preferem se afastar do movimento a se desfazerem de seus princípios mesmo que minimamente para cooperarem com pessoas cujos princípios são marginalmente diferentes dos seus. Essa convicção — junto com um bocado de narcisismo em pequenas diferenças — resulta em um deslize inevitável em direção a políticas puristas, onde os indivíduos se tornam mais preocupados em manter suas mãos limpas e suas almas livres de poluição a realmente efetuarem uma mudança real no mundo com que dizem se importar. E uma vez que sua doutrina se tornou mais uma questão de salvação pessoal que teoria política, se torna fácil ver aquelas com quem você discorda não apenas como equivocadas, mas como perversas, más, perigosas. Denúncias e ostracismo são justificados, porque as incrédulas são uma ameaça à pureza da doutrina e à própria identidade, e devem ser impedidas.

Isso combina mais com características estruturais de uma situação em que esquerdistas se encontram — ou seja, o fato de que o sistema é tão completamente injusto, os problemas são tão aparentemente intransponíveis e a mudança que se quer fazer no mundo parece tão profundamente impossível de se realizar que um tipo de desespero e desânimo se abate. A vitória é tão intangível e além do alcance dos esquerdistas, dado que a mudança desejada é nada mais que a completa transformação do panorama político e social. Como feministas, queremos acabar com a violência masculina contra as mulheres, eliminar a exploração do trabalho feminino, e abolir as normas opressivas de gênero. Esses objetivos estão muito longe do nosso alcance, e as vitórias em geral parecem poucas e distantes umas das outras, então não há muita oportunidade para comemorar, ou o sentimento de satisfação e gratidão de uma batalha ganha. Mas enquanto não podemos vencer a guerra contra o patriarcado, estamos a uma distância razoável de vencer a batalha contra nossas amigas. E independente de ganharmos ou não essas batalhas, nós certamente temos algum tipo de resposta; enquanto o patriarcado permanece imóvel diante da nossa fúria, brigar com uma irmã a respeito de alguma discordância pequena é garantia de se conseguir algum tipo de reação. Não surpreende então que desferir socos em nossa irmã seja uma opção mais gratificante e atraente que continuar a bater desesperada e desapercebidamente em nosso inimigo mútuo.

Então, o resultado é que aqueles à esquerda são frequentemente levados a brigar e se rachar, em vez de trabalhar juntos para tentar derrotar seu inimigo comum. E incorporada a essa política progressista está uma justificativa ostensiva de se selecionar um alvo, na forma de um profundo comprometimento com a igualdade e um inerente desprezo pelo poder e pela autoridade. Um dos aspectos mais característicos das ideologias políticas de esquerda é um comprometimento com a igual distribuição de poder e o desmantelamento de hierarquias estabelecidas, e o feminismo não é diferente nesse aspecto — desafiar o poder dos homens sobre as mulheres, assim como desafiar as dinâmicas de poder de raça e classe dentro do nosso próprio movimento, é essencial ao ativismo feminista. Mas uma implicação desse igualitarismo e rejeição de hierarquia é a suspeita insidiosa de qualquer pessoa que obtenha status ou sucesso fora do movimento. Qualquer pessoa na esquerda que consiga alcançar alguma influência política se torna instantaneamente um alvo válido para racha, pois sua influência (ou “plataforma”) é vista como um tipo de privilégio que o movimento se dedica a desmantelar. Para as mulheres, isso é exacerbado pelos estereótipos sexistas a respeito da mulher poderosa: ela é insolente, uma castradora, ela não é feminina nem fodível.

O desfecho disso tudo é que qualquer mulher que demonstre ter algum talento, ambição e determinação e que tenta conseguir algum poder e influência no que ainda é um mundo de homens pode estar desenhando em suas próprias costas um alvo. Ela é um objeto perfeito para se rachar, porque fez o que outras mulheres não conseguiram, e arrumou para si um lugarzinho nesse ambiente dominado por homens. Nada mais pode explicar porque tanta virulência feminista é direcionada ao punhado de mulheres de poder e influência na mídia e na academia, e não aos homens que detém a estrutura de poder e privilégio. Não importa que ela use seu poder para ajudar outras mulheres a avançarem. Não importa que ela tenha noção de que a sorte e o privilégio ajudaram-na a chegar ao sucesso. A mulher com poder e influência é perfeita para se rachar, e será acusada de atropelar os outros em seu caminho em direção ao topo, independente de isso ser ou não verdade. E ao fazer isso, estamos implicitamente dizendo às mulheres que não é feminista ser bem sucedida, ter poder e influência, mesmo que você possa usar esse poder e influência para avançar causas feministas. A coisa mais feminista que você pode fazer é sentar-se e calar a boca. Mas a consequência disso não é uma ruptura do poder estabelecido. A consequência disso é que homens continuam tendo esse poder.

Não tenho nenhuma solução para isso. Acho que esses aspectos explicam porque movimentos de esquerda em geral tendem a conflitos internos, fratura e dissolução, e são parte da razão do porquê a esquerda se despedaça em frangalhos, enquanto a direita apenas toca o barco e consolida seu poder. Também penso que enquanto feministas temos o direito de desafiar as relações de poder e hierarquias estabelecidas, e de manter nossas teorias e ativismo sob escrutínio e reflexão críticos. Mas quarenta anos depois de nossas ancestrais feministas escreverem pela primeira vez a respeito disso, estamos ainda nos despedaçando, e nosso inimigo comum se regozija enquanto isso. Mulheres inteligentes, gentis e compassivas estão se ferindo nessa guerra, e vamos perder nossas brilhantes e melhores vozes enquanto muito poucas mulheres têm estômago para esse infinito, implacável racha e assassinato de reputação daquelas do seu próprio lado.

Como Joreen, experienciei isso por tempo suficiente para que me prejudicasse psicologicamente, me ferisse enquanto pessoa e minasse minhas capacidades enquanto feminista. Independente de isso ser comum, eu não sei, mas fui alvo por vezes o suficiente no passado de modo que isso me dói menos quando é direcionado a mim pessoalmente; o que realmente me aflige agora, o que me faz verter lágrimas de raiva e frustração, é ver isso acontecendo com mulheres que amo. Não estou escrevendo isso para buscar simpatia e compaixão. Nem quero terminar esse texto com uma chamada banal e simplista por solidariedade e coesão em nosso movimento fraturado. Minha aposta é que ou você se atrai por esse tipo de idéia ou não se atrai; se não se atrai, nenhum montante de blogagem angustiada e desanimada vai te fazer mudar de idéia. Quero acreditar que apesar de nossas muitas diferenças e da multiplicidade de experiências que trazemos para a discussão, há comunalidade suficiente entre as mulheres para nos tornar um movimento de classe politicamente coeso capaz de trabalhar em conjunto e formar uma comunidade entre nós.

Se você não se sente assim a meu respeito, respeito seu direito de se organizar sem mim, e te desejo o melhor. De minha parte faço aqui as seguintes promessas:

  • Não participarei em rachas, não importa o quão pouco eu goste da mulher em questão, ou o quanto eu discorde de suas políticas
  • Assumirei que outras mulheres agem de boa fé e interpretarei suas posições de forma caridosa
  • Celebrarei quando uma mulher alcançar sucesso de qualquer tipo — e se eu realmente não conseguir comemorar, guardarei meu desapontamento para mim mesma
  • Colocarei o bem estar das mulheres e o progresso de nossos objetivos comuns acima da minha pureza pessoal

Imagino que esse post me tornará impopular. Que o meu racha comece!

Saindo do culto trans

Texto publicado originalmente no blog Purple Sage; traduzido com permissão da autora.

Quando saí do armário como lésbica, foi durante a época da inclusão, quando mais e mais letras foram adicionadasà sopa de letrinhas LGBTQ porque cada minoria sexual precisava de representação. Parecia óbvio que deveríamos incluir a todos — uma vez que nós mesmos sofríamos ostracismo e sabíamos o quão ruim era ser excluído. Queríamos justiça social, queríamos amor e respeito a todas as minorias. Não importa que outra letra fosse adicionada ao acrônimo “queer”, a incluíamos sem questionar. Conheci pessoas de todos os tipos durante minha época na universidade — homens gays, lésbicas, bissexuais, transexuais, assexuais, pessoas de gênero fluído, etc. Eu acreditava que estávamos trabalhando juntos e ganhando aceitação das pessoas hétero. Durante esse tempo também comecei a aprender sobre o feminismo. A princípio, as várias blogueiras feministas que eu estava lendo não pareciam divergir muito entre si. Mas nos últimos anos, um grande golfo começou a nos dividir. Os assuntos que nos separavam era a indústria do sexo e as políticas transgêneras. Nunca comprei a idéia de que a prostituição era um trabalho que precisava ser sindicalizado — eu era capaz de ver prontamente que se tratava de violência. Mas comprei a idéia da transgeneridade por um bom tempo. Eu acreditava, como éramos ensinados a acreditar, que as pessoas trangêneras eram apenas outra minoria sexual que, como os gays e as lésbicas, precisavam lutar contra a discriminação. Eu queria muito ajudar qualquer grupo minoritário a superar a opressão. Fui ensinada que as pessoas transgêneras tinham nascido no corpo errado e precisavam modificar seus corpos para que correspondessem à imagem interna que tinham de si mesmos. Sou uma pessoa de mente aberta e não tinha nenhum problema em acreditar nisso. Mas um monte de irmãs feministas não estavam abertas a essa idéia. Comecei a entrar em brigas com outras feministas. Queria que elas enxergassem que estavam sendo violentas com uma minoria perseguida, e que isso não era compatível com o feminismo. Eu era contra as “TERFs”. Fui ensinada que estava fazendo a coisa certa.

Foi impossível não fazer pesquisas sobre a transgeneridade porque foi impossível conter as muitas perguntas que continuavam surgindo e eram difíceis de responder. Feministas me desafiavam em discussões perguntando “O que é uma mulher?”. Descobri que não conseguiria responder essa questão. Li livros sobre transgeneridade e finalmente me decidi que “mulher” era uma categoria social, mas isso nunca foi fácil de explicar. Entrei em brigas amargas em comentários de tópicos. Chamei outras mulheres de transfóbicas. Isso me fazia sentir muito, muito mal. Nós mulheres deveríamos estar trabalhando juntas e em vez disso estávamos nos rasgando umas às outras em pedaços. Achei que as coisas que o feminismo radical falava eram exageradas. Não parecia possível que mulheres trans estivessem tentando invadir os espaços das mulheres para nos machucar porque pensei que eram apenas outra minoria sexual perseguida, como os gays e as lésbicas. Pensei que eram apenas mulheres que aconteceu de nascerem com as partes erradas. Qualquer ataque a qualquer uma das letras do acrônimo GLBTQ parecia um ataque a mim, porque eu estava naquele acrônimo também. Achei que todas as pessoas representadas sob o guarda-chuva queer eram iguais — pessoas inocentes enfrentando discriminação.

Transativistas estão constantemente à procura de qualquer coisa que possam condenar como transfóbica. A princípio eram coisas óbvias. Pessoas trans têm direito à emprego, moradia e cuidados médicos, e não deveriam ser vítimas de violência. Claro! Mas as coisas que eram condenadas como transfóbicas comecaram a ficar menos óbvias. Chamar alguém pelo pronome errado se tornou fóbico também. E então, não colocar pessoas trans no centro de todas as conversas se tornou fóbico. Daí, falar sobre biologia e anatomia também se tornou fóbico. Eu era contra as “TERFs” até que um dia li no Twitter que insinuar que mulheres menstruam é transfóbico, e percebi — segundo esse princípio, sou uma TERF. Eu sei que mulheres menstruam e que quem menstrua é mulher, e isso é suficiente para ser uma TERF. A coisa toda começou a degringolar aí. Se todo mundo que tem consciência de que mulheres menstruam são TERF, então todo mundo é TERF. Tudo mundo no mundo inteiro. Isso não faz sentido, uma vez que a maioria das pessoas não é feminista radical.

Sabendo que qualquer uma pode ser chamada de TERF por qualquer coisinha, e que não precisa sequer ser feminista radical para ser caluniada dessa maneira, me fez levar o acrônimo muito menos a sério. Comecei a ficar cada vez mais curiosa pelo que as então chamadas TERFs estavam falando. Os transativistas dizem que as feministas radicais sentem ódio pelas pessoas trans, mas toda vez que eu lia um post de blog de uma feminista radical ele era bem fundamentado, claramente explicado, baseado em fatos, destacava nuances e era compassivo. Nunca encontrei de fato a tal fobia que os escritos das feministas radicais supostamente deveriam conter. O que muitas feministas radicais estão dizendo na verdade é que não concordam com as políticas transgêneras porque as políticas transgêneras em geral são prejudiciais às mulheres, mas elas não desejam que nenhum mal aconteça a quem é transgênero. Elas estão apenas se preocupando com as mulheres, o que é algo que as feministas sempre fizeram.

Quando eu brigava com as chamadas “TERFs” online, elas me mandavam artigos de jornal sobre mulheres trans que cometeram crimes contra mulheres. Eu ignorava isso no começo, pensando que eram histórias exageradas ou que eram casos isolados. Mas com o tempo, os casos isolados começaram a se acumular. Começaram a formar um padrão. Depois de um tempo eu simplesmente não poderia negar que mulheres trans podiam ser violentas com mulheres, da mesma forma que os homens são. Então, lendo as palavras das próprias mulheres trans, no Twitter ou em outras redes sociais, uma coisa se mostrou muito clara: mulheres trans se comportam exatamente como homens. Algumas delas não fazem qualquer tentativa de se comportar da forma que as mulheres se comportam ou de sequer tentar entendê-las, e são abertamente hostis à elas.

O fato de que algumas “mulheres trans” são homens violentos e misóginos que tentam se misturar entre outras mulheres realmente destrói a teoria do “sexo cerebral” e a de “nascido no corpo errado”. Estes homens claramente não são mulheres. Não faz qualquer sentido que tais homens tentem convencer a todos de que são mulheres. A única explicação possível para homens violentos e misóginos alegarem que são mulheres é para que possam entrar nos espaços das mulheres para nos perseguir e conseguir mimos e atenção. É óbvio que seu real objetivo é se infiltrar quando se olha pro ativismo deles. Eles não fazem qualquer tentativa de criar espaços para mulheres trans, ou de defender que elas tenham abrigos, empregos e moradia. Tudo o que tentam fazer é entrar nos espaços exclusivos para mulheres. E estão de fato conseguindo muita atenção da mídia, dos profissionais de medicina, e dos ativistas de gênero.

Tenho visto pessoas entrarem na ideologia trans e perderem a cabeça completamente. Cruzei com pessoas que realmente acreditavam que sexo biológico não existe e que não podiam ter acesso a cuidados médicos a menos que um doutor validasse sua identidade de gênero. Imagine, estar em um país rico com sistema de saúde disponível, e recusá-lo só porque o médico quer tratar seu corpo físico baseado em sua real biologia, em vez de tratá-lo baseado em seus sentimentos? O quão ridículo e absurdo é dizer que você não tem assistência médica quando na realidade tem, e quando há pessoas em países pobres que realmente não têm? Cruzei com homens que serviram no exército, tiveram carreiras fantásticas nas Exatas, foram pais de muitos filhos, e então decidiram que eram mulheres durante esse tempo todo. O quê?! E tenho visto lésbicas que fazem ativismo lésbico, participam da comunidade lésbica, fazem casamentos lésbicos, e de repente dizem que eram homens o tempo todo. Muito disso é puro nonsense, mas se você questionar será chamada de TERF e dirão que você está oprimindo pessoas. É como o criacionismo: inventam falsas evidências que não se sustentam quando verificadas, dizem que a ciência é intolerante com suas crenças, dizem que são perseguidos quando não conseguem forçar suas crenças a outras pessoas, e tentam silenciar e destruir os incréus. Transativismo é um culto religioso.

O efeito que o transativismo tem causado no feminismo é como o de um cavalo de Tróia. Ele entrou silenciosamente ao longo dos anos e então explodiu nos anos 2010, e agora as feministas estão divididas e brigando entre si. Gastamos metade do tempo discutindo se mulheres trans são mulheres e se tal pedacinho do feminismo é “transfóbico”, e isso significa que não estamos mais lutando pela libertação das mulheres. O feminismo deveria libertar as fêmeas humanas da opressão. Não deveríamos estar gastando tempo algum preocupadas com os sentimentos de gênero de homens abusivos. E o fato de que os transativistas geralmente são pró-prostituição deveria nos dizer alguma coisa. Essas pessoas estão lutando pelos direitos dos HOMENS. Agora que vi o que vi, voltei para o verdadeiro feminismo, aquele que luta por mulheres. Não estou mais confusa sobre o que é uma mulher. Uma mulher é uma fêmea humana adulta, como sempre foi. Aprendi algo muito importante: minhas irmãs sempre devem vir em primeiro lugar. Realmente sinto muito pela hostilidade que usei para me expressar com mulheres que têm noção de que mulheres trans são homens. Gostaria de voltar no tempo. Tenho usado uma tag em alguns posts chamada “auge trans”. Auge trans é o ponto em que os transativistas finalmente ficam tão ridículos que até mesmo seus antigos aliados não podem mais apoiá-los. Isso foi o que aconteceu comigo e sei que vai acontecer com mais gente.

Auto-definição

Este é um trecho do livro “The Transsexual Empire”, de Janice Raymond — que pode ser baixado no formato mobi aqui —, publicado em 1979. Apesar de ainda não usar os termos da moda (“trans*” e “transgênero”) o texto é ainda muito atual e merece ser lido com atenção.

Uma das questões mais constrangedoras que transsexuais, e, em particular, “feministas lésbicas” transsexualmente construídas, fazem é a questão da auto-definição — o que é ser mulher, o que é ser feminista lésbica? Mas, é claro, eles colocam a questão em seus próprios termos, e nós é que temos que respondê-la. Os homens sempre fizeram estas grandes questões, e esta questão, no verdadeiro sentido fálico, é imposta a nós. Quantas estudantes mulheres escrevendo sobre um tema feminista fraco como “As Mulheres Deveriam Ser Motoristas de Caminhão, Engenheiras ou Operadoras de Escavadeiras?” e coisa do tipo têm escrito nas margens de seu trabalho um rabisco de um professor homem: “Mas quais as reais diferencas entre homens e mulheres?”

Os homens, claro, têm definido as supostas diferenças que vêm mantendo as mulheres longe de tais trabalhos e profissões, e as feministas têm gasto muita energia demonstrando como estas diferenças, se realmente existem, são primeiramente o resultado da socialização. Contudo, há diferenças, e algumas feministas se deram conta que essas diferenças são importantes pois brotam da socialização, da biologia, ou de toda a nossa história como mulher existindo em uma sociedade patriarcal. O ponto é, entretanto, que a origem dessas diferenças provavelmente não é a questão importante, e provavelmente nunca saberemos a resposta completa a ela. Ainda assim somos obrigadas a tentar respondê-la de novo e de novo [1].

Transsexuais, e “feministas lésbicas” transsexualmente construídas, nos obrigam novamente a responder estas questões antigas reelaborando-as de um jeito novo. E assim feministas debatem e se dividem porque continuamos focando nas questões do patriarcado sobre o que é ser mulher e o que é ser uma feminista lésbica.

É importante que nós percebamos que estas podem muito bem ser “não-questões” e que a única resposta que podemos dar a elas é que nós sabemos quem somos. Nós sabemos que somos mulheres que nasceram com cromossomos e anatomia feminina, e que sendo ou não socializadas para sermos a chamada “mulher normal”, o patriacado tem nos tratado e vai nos tratar como mulheres. Transsexuais não têm tido esta mesma história.

Nenhum homem pode ter essa história de vida de ter nascido e ter sido situado nessa cultura como uma mulher. Ele pode sim ter tido em sua história a vontade de ser uma mulher ou de agir como uma mulher, mas essa experiência de gênero é a de um transsexual, não a de uma mulher. Cirurgias podem dar os órgãos femininos internos e externos artificiais, mas não podem lhe conceder a história de ter nascido uma mulher nesta sociedade.

Mas e as pessoas que nasceram com órgãos sexuais ambíguos ou com anomalias cromossômicas que os põem na situação de serem biologicamente interssexuais? É preciso notar que praticamente todos eles são alterados cirurgicamente para se tornarem machos ou fêmeas anatomicamente e são criados de acordo com a identidade e o papel de gênero social que acompanha seus corpos. Pessoas cuja ambiguidade sexual é descoberta mais tarde são alteradas conforme têm sido seu gênero de criação (masculino ou feminino) até aquele momento. Então, aqueles que foram alterados logo depois do nascimento têm a história de praticamente terem nascido como homens ou mulheres, e aqueles alterados tardiamente têm seu corpo cirurgicamente conformado à sua história. Quando e se submetem às mudanças cirúrgicas, eles não se transformam no sexo oposto depois de uma longa história atuando e sendo tratados de forma diferente.

Ainda que a literatura popular a respeito do transsexualismo dê a entender que a Natureza tenha cometido erros em relação aos transsexuais, na realidade é a sociedade que cometeu erros, produzindo condições que criam a divisão transsexual entre corpo/mente.

Enquanto as pessoas interssexo nascem com anomalias cromossômicas ou hormonais, as quais podem ser relacionadas a certas disfunções biológicas, o transsexualismo não é um problema desta ordem. A linguagem da “Natureza comete erros” só serve para confundir e distorcer o assunto, tirando o foco do sistema social, que é ativamente opressivo. Essa linguagem é bem sucedida em culpar uma “Natureza” amorfa que é feita para parecer opressiva e é convenientemente passível de dirigir controle/manipulação através de instrumentos como hormônios e cirurgias.

Ao falar da importância da história para a auto-definição, duas questões devem ser feitas. Uma pessoa deve querer mudar sua história pessoal e social e, em caso positivo, como essa pessoa deve mudar essa história de forma mais honesta e integral possível? Em resposta à primeira questão, qualquer um que tenha vivido em uma sociedade patriarcal precisa mudar sua história pessoal e social a fim de ter um caráter próprio. Devemos ser agentes de mudança de nossa própria história. Mulheres que são feministas obviamente querem mudar partes de sua história enquanto mulheres nesta sociedade; alguns homens que estão honestamente lidando com questões feministas querem mudar suas histórias enquanto homens; e transsexuais desejam mudar suas histórias ao quererem ser mulheres. Ao sublinhar a importância da história enquanto fêmeas para a auto-definição do sexo feminino, não estou defendendo uma visão estática desta história.

O que é mais importante, no entanto, é como alguém muda sua história pessoal da forma mais honesta e integral possível se essa pessoa quer romper com a opressão dos papéis sexuais. Homens não-transsexuais que desejam lutar contra o sexismo devem assumir uma identidade de mulher e/ou de feminista lésbica enquanto mantém sua anatomia masculina intacta? Por que homens castrados deveriam tomar para si estas identidades e serem aplaudidos ao fazerem isso? Em que medida negros devem aceitar brancos que passaram por mudanças medicalizadas de cor de pele e, no processo, afirmaram que não apenas têm corpo de negro, mas alma de negro?

Um transsexual pode se auto-definir como “feminista lésbica” só porque ele quer, ou esta auto-definição em particular procede de certas condições próprias da biologia e da história do sexo feminino? As mulheres adotam estas auto-definições de feministas e/ou de lésbicas porque esta definição realmente procede não apenas do fato de ter nascido com cromossomos XX, mas também de toda uma história do que ter nascido com estes cromossomos significa nesta sociedade.

Os transsexuais seriam mais honestos se lidassem com sua forma específica de agonia de gênero que os inclina a quererem uma operação transsexualizante. Essa agonia de gênero provêm do fato de ter nascido com cromossomos XY e querer ter nascido XX, e da história de vida particular que produz este tipo de aflição. O lugar para lidar com este problema, no entanto, não é na comunidade de mulheres. O lugar para confrontar e resolver isto é entre os próprios transsexuais.

As pessoas devem poder fazer escolhas em relação a quem querem ser. Mas devem poder fazer qualquer tipo de escolha?

Uma pessoa branca deve tentar se tornar negra, por exemplo? Essa é uma questão moral, que trata basicamente da validade de tal escolha, não da possibilidade dela ser feita.

Uma pessoa deve poder fazer escolhas que camuflam para os outros certas facetas de nossa existência que os outros têm direito de saber — escolhas que se alimentam das energias dos outros, e reforçam a opressão?

Jill Johnston comenta que “muitas mulheres estão dedicadas a trabalhar pelo ‘homem reconstruído'” [2]. Isso normalmente significa mulheres gentil ou fortemente estimulando seus homens a comportamentos e ações andróginas.

Mulheres que aceitam estas “feministas lésbicas” transexualmente construídas dizem que estes homens são realmente “reconstruídos” no mais básico sentido que as mulheres podem esperar — isto é, eles pagaram com suas bolas para lutar contra o sexismo. Em última análise, porém, o “homem reconstruído” se torna a “mulher reconstruída” que obviamente se considera um igual e uma semelhante às mulheres genéticas em termos de “mulheridade”. Um transsexual expressou abertamente que ele sentia que homens transsexuais cirurgicamente construídos como mulheres ultrapassaram as mulheres genéticas.

Mulheres genéticas não podem possuir esta coragem muito especial, brilho, sensibilidade e compaixão — e visão geral — derivada da experiência transsexual. Livre das amarras da menstruação e da maternidade, mulheres transsexuais são obviamente muito superiores às genéticas em muitos sentidos.

Mulheres genéticas estão se tornando obsoletas, o que é óbvio, e o futuro pertence às mulheres transsexuais. Nós sabemos disso, e talvez algumas de vocês suspeitem disso. Tudo o que vocês têm é sua “habilidade” de ter filhos, e num mundo onde haverá 6 bilhões chorando por comida no ano 2000, essa é uma qualidade negativa. [3]

Em última análise, as mulheres devem se perguntar se “feministas lésbicas” transsexualmente construídas são nossas semelhantes. Eles são iguais a nós? Questões sobre igualdade geralmente se centram em igualdade proporcional, como “salário igual para trabalho igual”, ou “direitos iguais de saúde”. Não me refiro a igualdade nesse sentido. Em vez disso, uso o termo igualdade para dizer: “como em qualidade, natureza ou status” e “capaz de satisfazer as exigências de uma dada situação ou de uma dada tarefa”. Nestes sentidos, transsexuais não são iguais a mulheres e não são nossas semelhantes. Eles não são nem iguais às mulheres nem nossos semelhantes. Eles não são iguais nem em “qualidade, natureza ou status” nem são “capazes de satisfazer as exigências de uma situação” de mulheres que passaram sua vida toda vivendo como mulheres.

Jill Johnson escreveu sobre feministas lésbicas: “A essência da nova definição política é o agrupamento de semelhantes. Mulheres e homens não são semelhantes e muitas pessoas duvidam seriamente se já fomos ou se algum dia poderemos ser” [4]. Transsexuais não são nossos semelhantes em virtude de suas histórias.

É talvez nossa desconfiança do homem como agressor biológico que continua nos trazendo de volta à necessidade política do poder pelo agrupamento de semelhantes. Apesar de ainda estarmos virtualmente impotentes, é só por constantemente aderirmos a este difícil princípio de poder inerente em semelhantes naturais (os homens afinal têm demonstrado bem o sucesso deste princípio) que as mulheres vão eventualmente atingir uma existência autônoma [5].

Os transsexuais não demonstram o tipo comum de agressão fálica. Em vez disso, eles violam os espaços das mulheres tomando para si os órgãos femininos artificiais. A “feminista lésbica” transsexualmente construída se torna um agressor psicológico e social da mesma forma.

“Feministas lésbicas” transsexualmente construídas desafiam as mulheres a preservar uma existência autônoma. Sua existência dentro das comunidades de mulheres basicamente atesta a ética que diz que mulheres são incapazes de viverem sem homens — ou sem o “homem reconstruído”. A forma que as feministas acessam e encaram esse desafio afetará o futuro de nosso movimento genuíno, nossa auto-definição e nosso poder de existência.

No final das contas, “feministas lésbicas” transsexualmente construídas seguem a mesma tradição das “lésbicas” construídas pelos homens nos pôsteres centrais da Playboy. De vez enquando, a Playboy e outras revistas semelhantes apresentam uma “Safo pictórica” [6]. Recentemente, os homens fotógrafos entraram no mercado editorial retratando pseudolésbicas em todos os tipos de posições, vestimentas e contextos que só poderiam ser fantasiados pela mente de um homem [7]. Em resumo, a maneira como as mulheres são retratadas nessas fotografias imitam as poses de homens manipulando mulheres. Os homens produzem o amor entre “lésbicas” da forma como querem que seja e de acordo com os seus próprios cânones de como eles acham que deveria ser.

“Feministas lésbicas” transsexualmente construídas fazem parte dessa tradição de propaganda pseudolésbica. Ambas a pseudolésbica da Playboy e a pseudolésbica transsexual espalham a imagem “correta” (leia-se, “definida pelos homens”) da lésbica, que é filtrada para a consciência do público através da mídia como sendo verdadeira. Mutilando a verdadeira auto-definição de lésbica, os homens moldam sua imagem/realidade de acordo com a sua própria. Como Lisa Buck comentou, o transsexualismo é o verdadeiro “o Verbo se fez carne!” [8].

“Feministas lésbicas” transsexualmente construídas tentam funcionar como criadores da imagem das feministas lésbicas — não apenas para o público em geral, mas também para a comunidade das mulheres. Seus disfarces de lésbicas são filtrados na consciência das mulheres através da mídia feminista como sendo “a coisa real”. A tragédia final de tal paródia é que a realidade e a auto-definição de feministas lésbicas se torna mutilada nas próprias mulheres. Feministas lésbicas que aceitam “feministas lésbicas” socialmente construídas como seus outros eus estão mutilando sua própria realidade.

As várias “raças” de mulheres que a ciência médica consegue criar são infinitas. Há mulheres que estão hormonalmente dependentes em doses contínuas de terapias de reposição de estrogênio. Tais terapias supostamente irão garantir à elas uma nova vida de feminilidade eterna [9]. Há mulheres histerectomizadas, purificadas de seus órgãos “potencialmente letais” por motivos “profiláticos” [10]. Finalmente, há a “she-male” — o homem transsexual cirurgicamente construído como mulher. E o desdobramento dessa “raça” é a “feminista lésbica” transsexualmente construída.

Todos estes eventos apontam para o papel particularmente instrumental que a medicina tem desempenhado no controle das mulheres desviantes. O “Império Transsexual” é um última análise um império médico, baseado no modelo médico patriarcal. Este modelo médico forneceu um “dossel sagrado” de legitimações para o tratamento e a cirurgia transsexualizante. Em nome da terapia, este modelo medicalizou questões morais e éticas da opressão dos papéis sexuais, apagando assim seu significado mais profundo.


[1] Um paralelo com a questão do aborto, que pode ser notado neste contexto. A questão-chave, perguntada pelos homens há séculos, é “quando a vida começa?” Esta questão é feita pelos homens em seus termos e em seus territórios, e é essencialmente irrespondível. As mulheres têm se torturado tentando respondê-la e, dessa forma, não fazemos e nem mesmo desenvolvemos nossas próprias questões sobre o assunto.

[2] Jill Johnson, Lesbian Nation: The Feminist Solution (Nova York: Simon & Schuster, 1973), p. 180.

[3] Angela Douglas, Letter, Sister, Agosto-Setembro de 1977, p. 7.

[4] Johnston, Lesbian Nation, p. 178.

[5] Ibid., p. 279.

[6] Vide, por exemplo, o portifólio do fotógrafo J. Frederick Smith, “com deslumbrantes retratos inspirados por poemas da Grécia Antiga sobre o amor entre mulheres”, na Playboy de outubro de 1975, pp. 126-35.

[7] Um fotógrafo que é particularmente obcecado por “capturar” mulheres em poses pseudolésbicas é David Hamilton. Ele é o criador dos seguintes livros de fotografia: Dreams of a Young Girl, texto de Alain Robbe-Grillet (Nova York: William Morrow and Co., 1971). Sisters, texto de Alain Robbe-Grillet (Nova York: William Morrow and Co., 1971). Este livro tem uma seção pictórica ultrajante entitulada “Charms of the Harem” [Charmes do Harém]. Hamilton’s Movies — Bilitis (Zug, Suíça: Swan Productions AG, 1977).

[8] Lisa Buck (notas não publicadas a respeito do transsexualismo, outubro de 1977), p. 3.

[9] Um exemplo deste tipo de literatura é o livro Feminine Forever, de Robert Wilson (Nova York: M. Evans, 1966). Esse livro vendeu 100.000 cópias em seu primeiro ano, e foi citado na Look e na Vogue.

[10] Vide Deborah Lamed, “The Greening of the Womb”, New Times, 12 de dezembro de 1974. pp. 35-39

O mais íntimo dos espaços das mulheres — seus corpos

Jeffreys, Sheila. Gender Hurts: a feminist analysis of the politics of transgenderism. Abingdon, Oxon: Routledge, 2014. Traduzido com permissão da autora.

O mais importante espaço para as mulheres são seus corpos. A invasão masculina e a ocupação dos corpos das mulheres foram identificadas pelas feministas como o fundamento da subordinação das mulheres. Os homens têm, historicamente, vendido e trocado mulheres como propriedades no casamento e na prostituição de modo que seus corpos possam ser usados para sexo e reprodução (Lerner, 1987). A tentativa de tirar o controle de seus corpos por parte de homens individualmente e por parte de leis patriarcais e instituições têm sido talvez o mais importante ímpeto subjacente para a atividade feminista, porque sem esse controle mulheres não têm chance alguma de acessar qualquer outra forma de liberdade. O aborto tem sido a chave do ativismo feminista, de modo que uma mulher que não consegue controlar sua reprodução se torna um mero veículo aos propósitos alheios. Similarmente, o direito de uma mulher de definir sua própria sexualidade, de apenas ela mesma selecionar parceiros sexuais, de escolher o celibato, ou de escolher se relacionar sexualmente com pessoas cuidadosamente escolhidas, tem sido entendido como algo central ao direito das mulheres à autonomia. Talvez não seja surpreendente, então, que transgêneros de constituição masculina, alinhados à geração de homens que tem buscado controlar os corpos das mulheres, considerem que este seja um espaço importante de se ocupar.

O direito à autonomia sexual das mulheres é diretamente contraditório às tentativas de alguns ativistas transgêneros de forçar mulheres a disponibilizarem suas vaginas para uso sexual dos pênis desses homens. Em um extraordinário exemplo do que a cientista política Carole Pateman chama de direito masculino de acesso, alguns ativistas transgêneros estão agora procurando instilar culpa em lésbicas de modo a permitir acesso de pênis em seus corpos (Pateman, 1988). Isso está ocorrendo através de uma campanha para destruir o que esses ativistas transgêneros chamam de “teto de algodão” [no original, “cotton ceiling”], um termo que é baseado no entendimento feminista de que mulheres na vida pública encaram um “teto de vidro” que proíbe seu acesso aos santuários masculinos. O “teto de algodão”, um termo inventado pelo ator pornô transgênero Drew Deveaux, abrange as calcinhas das mulheres, que criam uma barreira contra a penetração por parte de pênis de transgêneros de constituição física masculina (Garmon, 2012). A idéia de que a relutância das mulheres e das lésbicas em servir estes pênis é um problema a ser abordado seriamente e superado conseguiu tanta aceitabilidade que a organização de caráter masculinista Planned Parenthood ajudou a fazer um workshop sobre o “teto de algodão” em sua conferência em Toronto chamada “Prazeres e Possibilidades” em 2011. Esse workshop era exclusivo para transgêneros de constituição física masculina, um espaço do qual as mulheres eram excluídas, e no qual esses homens poderiam discutir táticas para acessar os corpos das lésbicas ou de mulheres em geral que forem resistentes aos seus encantos (Planned Parenthood, 2011).

O workshop foi chamado de “Superando o Teto de Algodão: Quebrando as Barreiras Sexuais para Mulheres Trans Queer”, e era conduzido pelo ativista transgênero Morgan Page (Page, 2011). A descrição do workshop diz:

[O workshop] “Superando o Teto de Algodão” vai explorar as barreiras que as mulheres trans queer encaram dentro das amplas comunidades queer de mulheres através de discussões em grupo e da criação de representações visuais práticas dessas barreiras. Os participantes trabalharão juntos para identificar barreiras, traçar estratégias para superá-las e construir uma comunidade. (Page, 2011)

A campanha se baseia em instilar culpa, de modo que as mulheres são acusadas de “transfobia” ou “transmisoginia” em uma tentativa de induzi-las a admitir pênis não-desejados em seus corpos. Na campanha do teto de algodão, o direito à autonomia sexual das mulheres é redefinido como uma forma de discriminação contra pessoas de constituição física masculina, a qual deve se fazer oposição zelosa. Os transgêneros de constituição física masculina que fazem campanha para conseguir acesso aos corpos das mulheres desse modo chamam seus pênis de “lady sticks” [varinha de mulher[. A origem desse termo é um tanto informativa: É comumente usado em pornografia transgênera, onde homens com pênis são prostituídos para o prazer sexual de consumidores homens. Um site pornô transgênero, Shemale Models Tube, assim descreveu um dos transgêneros de constituição física masculina em um vídeo pornô: “Senhora Meat é uma garota safada que ama ter seu lady stick chupado o dia todo” (Shemale Models Tube, n.d.). É, portanto, irracional esperar que lésbicas e feministas suspendam sua descrença de modo a facilitar as vidas de fantasias sexuais desses homens com pênis. As demandas básicas das mulheres de terem o direito de definir suas próprias sexualidades e de escolher a quem vão amar são muito importantes.


Referências
LERNER, Gerda. The Creation of Patriarchy. Nova York: Oxford University Press, 1987.
PARTEMAN, Carole. The Sexual Contract. Cambridge, UK: Polity Press, 1988.
GARMON, Savannah. Requiem for a dialogue. 27 de janeiro de 2012. Disponível em: link — Acesso em 25 de julho de 2012.
PLANNED PARENTHOOD. Pleasures and Possibilities. 2011. Disponível em: link — Acesso em 25 de julho de 2012.
PAGE, Morgan. Overcoming the Cotton Ceiling. 2011. Disponível em: link — Acesso em: 25 de julho de 2012.
SHEMALE MODELS TUBE. Thick Black T-Girl. Sem data. Disponível em: link — Acesso em 17 de março de 2013.