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Auto-definição

Este é um trecho do livro “The Transsexual Empire”, de Janice Raymond — que pode ser baixado no formato mobi aqui —, publicado em 1979. Apesar de ainda não usar os termos da moda (“trans*” e “transgênero”) o texto é ainda muito atual e merece ser lido com atenção.

Uma das questões mais constrangedoras que transsexuais, e, em particular, “feministas lésbicas” transsexualmente construídas, fazem é a questão da auto-definição — o que é ser mulher, o que é ser feminista lésbica? Mas, é claro, eles colocam a questão em seus próprios termos, e nós é que temos que respondê-la. Os homens sempre fizeram estas grandes questões, e esta questão, no verdadeiro sentido fálico, é imposta a nós. Quantas estudantes mulheres escrevendo sobre um tema feminista fraco como “As Mulheres Deveriam Ser Motoristas de Caminhão, Engenheiras ou Operadoras de Escavadeiras?” e coisa do tipo têm escrito nas margens de seu trabalho um rabisco de um professor homem: “Mas quais as reais diferencas entre homens e mulheres?”

Os homens, claro, têm definido as supostas diferenças que vêm mantendo as mulheres longe de tais trabalhos e profissões, e as feministas têm gasto muita energia demonstrando como estas diferenças, se realmente existem, são primeiramente o resultado da socialização. Contudo, há diferenças, e algumas feministas se deram conta que essas diferenças são importantes pois brotam da socialização, da biologia, ou de toda a nossa história como mulher existindo em uma sociedade patriarcal. O ponto é, entretanto, que a origem dessas diferenças provavelmente não é a questão importante, e provavelmente nunca saberemos a resposta completa a ela. Ainda assim somos obrigadas a tentar respondê-la de novo e de novo [1].

Transsexuais, e “feministas lésbicas” transsexualmente construídas, nos obrigam novamente a responder estas questões antigas reelaborando-as de um jeito novo. E assim feministas debatem e se dividem porque continuamos focando nas questões do patriarcado sobre o que é ser mulher e o que é ser uma feminista lésbica.

É importante que nós percebamos que estas podem muito bem ser “não-questões” e que a única resposta que podemos dar a elas é que nós sabemos quem somos. Nós sabemos que somos mulheres que nasceram com cromossomos e anatomia feminina, e que sendo ou não socializadas para sermos a chamada “mulher normal”, o patriacado tem nos tratado e vai nos tratar como mulheres. Transsexuais não têm tido esta mesma história.

Nenhum homem pode ter essa história de vida de ter nascido e ter sido situado nessa cultura como uma mulher. Ele pode sim ter tido em sua história a vontade de ser uma mulher ou de agir como uma mulher, mas essa experiência de gênero é a de um transsexual, não a de uma mulher. Cirurgias podem dar os órgãos femininos internos e externos artificiais, mas não podem lhe conceder a história de ter nascido uma mulher nesta sociedade.

Mas e as pessoas que nasceram com órgãos sexuais ambíguos ou com anomalias cromossômicas que os põem na situação de serem biologicamente interssexuais? É preciso notar que praticamente todos eles são alterados cirurgicamente para se tornarem machos ou fêmeas anatomicamente e são criados de acordo com a identidade e o papel de gênero social que acompanha seus corpos. Pessoas cuja ambiguidade sexual é descoberta mais tarde são alteradas conforme têm sido seu gênero de criação (masculino ou feminino) até aquele momento. Então, aqueles que foram alterados logo depois do nascimento têm a história de praticamente terem nascido como homens ou mulheres, e aqueles alterados tardiamente têm seu corpo cirurgicamente conformado à sua história. Quando e se submetem às mudanças cirúrgicas, eles não se transformam no sexo oposto depois de uma longa história atuando e sendo tratados de forma diferente.

Ainda que a literatura popular a respeito do transsexualismo dê a entender que a Natureza tenha cometido erros em relação aos transsexuais, na realidade é a sociedade que cometeu erros, produzindo condições que criam a divisão transsexual entre corpo/mente.

Enquanto as pessoas interssexo nascem com anomalias cromossômicas ou hormonais, as quais podem ser relacionadas a certas disfunções biológicas, o transsexualismo não é um problema desta ordem. A linguagem da “Natureza comete erros” só serve para confundir e distorcer o assunto, tirando o foco do sistema social, que é ativamente opressivo. Essa linguagem é bem sucedida em culpar uma “Natureza” amorfa que é feita para parecer opressiva e é convenientemente passível de dirigir controle/manipulação através de instrumentos como hormônios e cirurgias.

Ao falar da importância da história para a auto-definição, duas questões devem ser feitas. Uma pessoa deve querer mudar sua história pessoal e social e, em caso positivo, como essa pessoa deve mudar essa história de forma mais honesta e integral possível? Em resposta à primeira questão, qualquer um que tenha vivido em uma sociedade patriarcal precisa mudar sua história pessoal e social a fim de ter um caráter próprio. Devemos ser agentes de mudança de nossa própria história. Mulheres que são feministas obviamente querem mudar partes de sua história enquanto mulheres nesta sociedade; alguns homens que estão honestamente lidando com questões feministas querem mudar suas histórias enquanto homens; e transsexuais desejam mudar suas histórias ao quererem ser mulheres. Ao sublinhar a importância da história enquanto fêmeas para a auto-definição do sexo feminino, não estou defendendo uma visão estática desta história.

O que é mais importante, no entanto, é como alguém muda sua história pessoal da forma mais honesta e integral possível se essa pessoa quer romper com a opressão dos papéis sexuais. Homens não-transsexuais que desejam lutar contra o sexismo devem assumir uma identidade de mulher e/ou de feminista lésbica enquanto mantém sua anatomia masculina intacta? Por que homens castrados deveriam tomar para si estas identidades e serem aplaudidos ao fazerem isso? Em que medida negros devem aceitar brancos que passaram por mudanças medicalizadas de cor de pele e, no processo, afirmaram que não apenas têm corpo de negro, mas alma de negro?

Um transsexual pode se auto-definir como “feminista lésbica” só porque ele quer, ou esta auto-definição em particular procede de certas condições próprias da biologia e da história do sexo feminino? As mulheres adotam estas auto-definições de feministas e/ou de lésbicas porque esta definição realmente procede não apenas do fato de ter nascido com cromossomos XX, mas também de toda uma história do que ter nascido com estes cromossomos significa nesta sociedade.

Os transsexuais seriam mais honestos se lidassem com sua forma específica de agonia de gênero que os inclina a quererem uma operação transsexualizante. Essa agonia de gênero provêm do fato de ter nascido com cromossomos XY e querer ter nascido XX, e da história de vida particular que produz este tipo de aflição. O lugar para lidar com este problema, no entanto, não é na comunidade de mulheres. O lugar para confrontar e resolver isto é entre os próprios transsexuais.

As pessoas devem poder fazer escolhas em relação a quem querem ser. Mas devem poder fazer qualquer tipo de escolha?

Uma pessoa branca deve tentar se tornar negra, por exemplo? Essa é uma questão moral, que trata basicamente da validade de tal escolha, não da possibilidade dela ser feita.

Uma pessoa deve poder fazer escolhas que camuflam para os outros certas facetas de nossa existência que os outros têm direito de saber — escolhas que se alimentam das energias dos outros, e reforçam a opressão?

Jill Johnston comenta que “muitas mulheres estão dedicadas a trabalhar pelo ‘homem reconstruído'” [2]. Isso normalmente significa mulheres gentil ou fortemente estimulando seus homens a comportamentos e ações andróginas.

Mulheres que aceitam estas “feministas lésbicas” transexualmente construídas dizem que estes homens são realmente “reconstruídos” no mais básico sentido que as mulheres podem esperar — isto é, eles pagaram com suas bolas para lutar contra o sexismo. Em última análise, porém, o “homem reconstruído” se torna a “mulher reconstruída” que obviamente se considera um igual e uma semelhante às mulheres genéticas em termos de “mulheridade”. Um transsexual expressou abertamente que ele sentia que homens transsexuais cirurgicamente construídos como mulheres ultrapassaram as mulheres genéticas.

Mulheres genéticas não podem possuir esta coragem muito especial, brilho, sensibilidade e compaixão — e visão geral — derivada da experiência transsexual. Livre das amarras da menstruação e da maternidade, mulheres transsexuais são obviamente muito superiores às genéticas em muitos sentidos.

Mulheres genéticas estão se tornando obsoletas, o que é óbvio, e o futuro pertence às mulheres transsexuais. Nós sabemos disso, e talvez algumas de vocês suspeitem disso. Tudo o que vocês têm é sua “habilidade” de ter filhos, e num mundo onde haverá 6 bilhões chorando por comida no ano 2000, essa é uma qualidade negativa. [3]

Em última análise, as mulheres devem se perguntar se “feministas lésbicas” transsexualmente construídas são nossas semelhantes. Eles são iguais a nós? Questões sobre igualdade geralmente se centram em igualdade proporcional, como “salário igual para trabalho igual”, ou “direitos iguais de saúde”. Não me refiro a igualdade nesse sentido. Em vez disso, uso o termo igualdade para dizer: “como em qualidade, natureza ou status” e “capaz de satisfazer as exigências de uma dada situação ou de uma dada tarefa”. Nestes sentidos, transsexuais não são iguais a mulheres e não são nossas semelhantes. Eles não são nem iguais às mulheres nem nossos semelhantes. Eles não são iguais nem em “qualidade, natureza ou status” nem são “capazes de satisfazer as exigências de uma situação” de mulheres que passaram sua vida toda vivendo como mulheres.

Jill Johnson escreveu sobre feministas lésbicas: “A essência da nova definição política é o agrupamento de semelhantes. Mulheres e homens não são semelhantes e muitas pessoas duvidam seriamente se já fomos ou se algum dia poderemos ser” [4]. Transsexuais não são nossos semelhantes em virtude de suas histórias.

É talvez nossa desconfiança do homem como agressor biológico que continua nos trazendo de volta à necessidade política do poder pelo agrupamento de semelhantes. Apesar de ainda estarmos virtualmente impotentes, é só por constantemente aderirmos a este difícil princípio de poder inerente em semelhantes naturais (os homens afinal têm demonstrado bem o sucesso deste princípio) que as mulheres vão eventualmente atingir uma existência autônoma [5].

Os transsexuais não demonstram o tipo comum de agressão fálica. Em vez disso, eles violam os espaços das mulheres tomando para si os órgãos femininos artificiais. A “feminista lésbica” transsexualmente construída se torna um agressor psicológico e social da mesma forma.

“Feministas lésbicas” transsexualmente construídas desafiam as mulheres a preservar uma existência autônoma. Sua existência dentro das comunidades de mulheres basicamente atesta a ética que diz que mulheres são incapazes de viverem sem homens — ou sem o “homem reconstruído”. A forma que as feministas acessam e encaram esse desafio afetará o futuro de nosso movimento genuíno, nossa auto-definição e nosso poder de existência.

No final das contas, “feministas lésbicas” transsexualmente construídas seguem a mesma tradição das “lésbicas” construídas pelos homens nos pôsteres centrais da Playboy. De vez enquando, a Playboy e outras revistas semelhantes apresentam uma “Safo pictórica” [6]. Recentemente, os homens fotógrafos entraram no mercado editorial retratando pseudolésbicas em todos os tipos de posições, vestimentas e contextos que só poderiam ser fantasiados pela mente de um homem [7]. Em resumo, a maneira como as mulheres são retratadas nessas fotografias imitam as poses de homens manipulando mulheres. Os homens produzem o amor entre “lésbicas” da forma como querem que seja e de acordo com os seus próprios cânones de como eles acham que deveria ser.

“Feministas lésbicas” transsexualmente construídas fazem parte dessa tradição de propaganda pseudolésbica. Ambas a pseudolésbica da Playboy e a pseudolésbica transsexual espalham a imagem “correta” (leia-se, “definida pelos homens”) da lésbica, que é filtrada para a consciência do público através da mídia como sendo verdadeira. Mutilando a verdadeira auto-definição de lésbica, os homens moldam sua imagem/realidade de acordo com a sua própria. Como Lisa Buck comentou, o transsexualismo é o verdadeiro “o Verbo se fez carne!” [8].

“Feministas lésbicas” transsexualmente construídas tentam funcionar como criadores da imagem das feministas lésbicas — não apenas para o público em geral, mas também para a comunidade das mulheres. Seus disfarces de lésbicas são filtrados na consciência das mulheres através da mídia feminista como sendo “a coisa real”. A tragédia final de tal paródia é que a realidade e a auto-definição de feministas lésbicas se torna mutilada nas próprias mulheres. Feministas lésbicas que aceitam “feministas lésbicas” socialmente construídas como seus outros eus estão mutilando sua própria realidade.

As várias “raças” de mulheres que a ciência médica consegue criar são infinitas. Há mulheres que estão hormonalmente dependentes em doses contínuas de terapias de reposição de estrogênio. Tais terapias supostamente irão garantir à elas uma nova vida de feminilidade eterna [9]. Há mulheres histerectomizadas, purificadas de seus órgãos “potencialmente letais” por motivos “profiláticos” [10]. Finalmente, há a “she-male” — o homem transsexual cirurgicamente construído como mulher. E o desdobramento dessa “raça” é a “feminista lésbica” transsexualmente construída.

Todos estes eventos apontam para o papel particularmente instrumental que a medicina tem desempenhado no controle das mulheres desviantes. O “Império Transsexual” é um última análise um império médico, baseado no modelo médico patriarcal. Este modelo médico forneceu um “dossel sagrado” de legitimações para o tratamento e a cirurgia transsexualizante. Em nome da terapia, este modelo medicalizou questões morais e éticas da opressão dos papéis sexuais, apagando assim seu significado mais profundo.


[1] Um paralelo com a questão do aborto, que pode ser notado neste contexto. A questão-chave, perguntada pelos homens há séculos, é “quando a vida começa?” Esta questão é feita pelos homens em seus termos e em seus territórios, e é essencialmente irrespondível. As mulheres têm se torturado tentando respondê-la e, dessa forma, não fazemos e nem mesmo desenvolvemos nossas próprias questões sobre o assunto.

[2] Jill Johnson, Lesbian Nation: The Feminist Solution (Nova York: Simon & Schuster, 1973), p. 180.

[3] Angela Douglas, Letter, Sister, Agosto-Setembro de 1977, p. 7.

[4] Johnston, Lesbian Nation, p. 178.

[5] Ibid., p. 279.

[6] Vide, por exemplo, o portifólio do fotógrafo J. Frederick Smith, “com deslumbrantes retratos inspirados por poemas da Grécia Antiga sobre o amor entre mulheres”, na Playboy de outubro de 1975, pp. 126-35.

[7] Um fotógrafo que é particularmente obcecado por “capturar” mulheres em poses pseudolésbicas é David Hamilton. Ele é o criador dos seguintes livros de fotografia: Dreams of a Young Girl, texto de Alain Robbe-Grillet (Nova York: William Morrow and Co., 1971). Sisters, texto de Alain Robbe-Grillet (Nova York: William Morrow and Co., 1971). Este livro tem uma seção pictórica ultrajante entitulada “Charms of the Harem” [Charmes do Harém]. Hamilton’s Movies — Bilitis (Zug, Suíça: Swan Productions AG, 1977).

[8] Lisa Buck (notas não publicadas a respeito do transsexualismo, outubro de 1977), p. 3.

[9] Um exemplo deste tipo de literatura é o livro Feminine Forever, de Robert Wilson (Nova York: M. Evans, 1966). Esse livro vendeu 100.000 cópias em seu primeiro ano, e foi citado na Look e na Vogue.

[10] Vide Deborah Lamed, “The Greening of the Womb”, New Times, 12 de dezembro de 1974. pp. 35-39

O mais íntimo dos espaços das mulheres — seus corpos

Jeffreys, Sheila. Gender Hurts: a feminist analysis of the politics of transgenderism. Abingdon, Oxon: Routledge, 2014. Traduzido com permissão da autora.

O mais importante espaço para as mulheres são seus corpos. A invasão masculina e a ocupação dos corpos das mulheres foram identificadas pelas feministas como o fundamento da subordinação das mulheres. Os homens têm, historicamente, vendido e trocado mulheres como propriedades no casamento e na prostituição de modo que seus corpos possam ser usados para sexo e reprodução (Lerner, 1987). A tentativa de tirar o controle de seus corpos por parte de homens individualmente e por parte de leis patriarcais e instituições têm sido talvez o mais importante ímpeto subjacente para a atividade feminista, porque sem esse controle mulheres não têm chance alguma de acessar qualquer outra forma de liberdade. O aborto tem sido a chave do ativismo feminista, de modo que uma mulher que não consegue controlar sua reprodução se torna um mero veículo aos propósitos alheios. Similarmente, o direito de uma mulher de definir sua própria sexualidade, de apenas ela mesma selecionar parceiros sexuais, de escolher o celibato, ou de escolher se relacionar sexualmente com pessoas cuidadosamente escolhidas, tem sido entendido como algo central ao direito das mulheres à autonomia. Talvez não seja surpreendente, então, que transgêneros de constituição masculina, alinhados à geração de homens que tem buscado controlar os corpos das mulheres, considerem que este seja um espaço importante de se ocupar.

O direito à autonomia sexual das mulheres é diretamente contraditório às tentativas de alguns ativistas transgêneros de forçar mulheres a disponibilizarem suas vaginas para uso sexual dos pênis desses homens. Em um extraordinário exemplo do que a cientista política Carole Pateman chama de direito masculino de acesso, alguns ativistas transgêneros estão agora procurando instilar culpa em lésbicas de modo a permitir acesso de pênis em seus corpos (Pateman, 1988). Isso está ocorrendo através de uma campanha para destruir o que esses ativistas transgêneros chamam de “teto de algodão” [no original, “cotton ceiling”], um termo que é baseado no entendimento feminista de que mulheres na vida pública encaram um “teto de vidro” que proíbe seu acesso aos santuários masculinos. O “teto de algodão”, um termo inventado pelo ator pornô transgênero Drew Deveaux, abrange as calcinhas das mulheres, que criam uma barreira contra a penetração por parte de pênis de transgêneros de constituição física masculina (Garmon, 2012). A idéia de que a relutância das mulheres e das lésbicas em servir estes pênis é um problema a ser abordado seriamente e superado conseguiu tanta aceitabilidade que a organização de caráter masculinista Planned Parenthood ajudou a fazer um workshop sobre o “teto de algodão” em sua conferência em Toronto chamada “Prazeres e Possibilidades” em 2011. Esse workshop era exclusivo para transgêneros de constituição física masculina, um espaço do qual as mulheres eram excluídas, e no qual esses homens poderiam discutir táticas para acessar os corpos das lésbicas ou de mulheres em geral que forem resistentes aos seus encantos (Planned Parenthood, 2011).

O workshop foi chamado de “Superando o Teto de Algodão: Quebrando as Barreiras Sexuais para Mulheres Trans Queer”, e era conduzido pelo ativista transgênero Morgan Page (Page, 2011). A descrição do workshop diz:

[O workshop] “Superando o Teto de Algodão” vai explorar as barreiras que as mulheres trans queer encaram dentro das amplas comunidades queer de mulheres através de discussões em grupo e da criação de representações visuais práticas dessas barreiras. Os participantes trabalharão juntos para identificar barreiras, traçar estratégias para superá-las e construir uma comunidade. (Page, 2011)

A campanha se baseia em instilar culpa, de modo que as mulheres são acusadas de “transfobia” ou “transmisoginia” em uma tentativa de induzi-las a admitir pênis não-desejados em seus corpos. Na campanha do teto de algodão, o direito à autonomia sexual das mulheres é redefinido como uma forma de discriminação contra pessoas de constituição física masculina, a qual deve se fazer oposição zelosa. Os transgêneros de constituição física masculina que fazem campanha para conseguir acesso aos corpos das mulheres desse modo chamam seus pênis de “lady sticks” [varinha de mulher[. A origem desse termo é um tanto informativa: É comumente usado em pornografia transgênera, onde homens com pênis são prostituídos para o prazer sexual de consumidores homens. Um site pornô transgênero, Shemale Models Tube, assim descreveu um dos transgêneros de constituição física masculina em um vídeo pornô: “Senhora Meat é uma garota safada que ama ter seu lady stick chupado o dia todo” (Shemale Models Tube, n.d.). É, portanto, irracional esperar que lésbicas e feministas suspendam sua descrença de modo a facilitar as vidas de fantasias sexuais desses homens com pênis. As demandas básicas das mulheres de terem o direito de definir suas próprias sexualidades e de escolher a quem vão amar são muito importantes.


Referências
LERNER, Gerda. The Creation of Patriarchy. Nova York: Oxford University Press, 1987.
PARTEMAN, Carole. The Sexual Contract. Cambridge, UK: Polity Press, 1988.
GARMON, Savannah. Requiem for a dialogue. 27 de janeiro de 2012. Disponível em: link — Acesso em 25 de julho de 2012.
PLANNED PARENTHOOD. Pleasures and Possibilities. 2011. Disponível em: link — Acesso em 25 de julho de 2012.
PAGE, Morgan. Overcoming the Cotton Ceiling. 2011. Disponível em: link — Acesso em: 25 de julho de 2012.
SHEMALE MODELS TUBE. Thick Black T-Girl. Sem data. Disponível em: link — Acesso em 17 de março de 2013.

Lesbianismo político é política identitária

Traduzido com permissão da autora. Original em: Revolutionary Combustion

Uma política identitária, de forma geral, justifica o ato de se assumir uma identidade com o propósito de estabelecer um posicionamento político. No caso do “lesbianismo político”, ser lésbica reduz-se a uma identidade social que expressa aos outros uma ideologia política, não necessariamente descrevendo o comportamento sexual privado de uma mulher. Como em qualquer identidade a existência da “lésbica política” demanda um reconhecimento externo. Se outras pessoas não sabem ou não leem essa mulher como “lésbica política”, isso não acarretará em qualquer influência social à mesma. Logo, ser “lésbica política” funciona essencialmente como performance social.

Primeiramente, como uma mulher se faz saber “lésbica política” aos outros? Pela própria designação, pelas práticas, pela aparência, ou algum tipo de combinação de tudo isso? Se é apenas pela designação, então realmente não passa de um rótulo, uma expressão performática [I]. Acho que as próprias mulheres que se autoidentificam como “lésbicas políticas” concordariam que é necessário mais que isso. Se “lesbianismo político” diz respeito às atividades sexuais unicamente, então a identidade permaneceria completamente confidencial. Se ninguém fica sabendo de que maneira essas mulheres fazem sexo, suas práticas possivelmente não afetarão extensivamente sua atmosfera política; a proclamação de si mesma enquanto “lésbica política” é necessária à influência social e relevância política do título, então as práticas sexuais podem ser necessárias, mas também seriam insuficientes como definição do termo. No final das contas, a aparência poderia ser o método mais eficaz de se atestar que a definição de uma mulher sobre si mesma enquanto “lésbica política” fosse transmitida ao público de maneira concisa. Ainda assim, “lesbianismo político” não é uma tendência fashion e não prescreve um conjunto particular de acessórios ou cores para a visibilidade do grupo [II]. Eu li tantas definições do que é uma “lésbica política” quanto pude encontrar; não há um consenso sobre seu significado.

Em segundo lugar, a eficácia do “lesbianismo político” enquanto atitude política depende do mesmo tipo de base lógica que qualquer outra política identitária: espera-se que suas fieis voluntárias comportem-se de uma certa maneira que supostamente efetiva algum tipo de mudança social positiva. Eu costumo brincar sobre quais posições sexuais as “lésbicas políticas” consideram melhores para lutar contra o patriarcado, mas não é uma piada muito engraçada. Nós não podemos foder nosso rumo à liberação. Eu aprendi isso vendo a teoria queer. Na prática, ser uma lésbica – “política” ou não – não diminui, e na verdade potencializa, as experiências de discriminação e degradação social sofridas pelas mulheres. É indiscutivelmente sádico encorajar mulheres a deliberadamente se exporem à opressão com a finalidade de promover o avanço do status coletivo de outras mulheres.

De uma forma mais ampla, uma metodologia de performance social é uma fuga à confrontação das forças que se encontram imediatamente por trás da esfera pessoal de alguém. Ativismo político não é movimento de autoajuda; é a desconstrução material e intelectual de uma dinâmica de poder embasada numa luta de classes que dá origem à opressão. Como já disse em outra oportunidade, pessoas oprimidas não criam sua própria opressão através de “escolhas identitárias ruins”, tampouco as “escolhas sexuais ruins” das mulheres são a causa da opressão sexual que sofremos enquanto tal [III]. No entanto as teorias do “lesbianismo político” focam ostensivamente nas escolhas pessoais de mulheres privilegiadas o bastante para exercer controle sobre sua própria expressão sexual. Infelizmente, a maioria de mulheres no mundo não têm essa liberdade.

A sexualidade de uma mulher nunca deve estar a serviço de seu posicionamento político. Se você é lésbica, ótimo. Se você não é lésbica, quem se importa? Eu não. Eu não me importo com quem você transa, ou como você chama a si mesma; isso é problema seu. A sexualidade falocêntrica, comercialmente construída pode e deve ser criticada [IV]. Essa crítica, porém, não concede a qualquer feminista uma licença para prescrever certos tipos de comportamento sexual, identidade ou desejos, como mais “feministas” do que outros.

O patriarcado manipula a sexualidade feminina direcionada aos homens e à heteronormatividade. O “lesbianismo político” faz uma coisa parecida, ao contrário, da seguinte maneira: as teorias do “lesbianismo político” afirmam que a sexualidade é inteiramente construída socialmente. Esse paradigma torna mulheres que não são lésbicas – na designação ou práticas, tanto faz – como sendo macho-identificadas. De forma semelhante, a afirmação de que “qualquer mulher pode ser lésbica” postula o lesbianismo como uma forma de existência a qual as mulheres devam aspirar, uma forma de subjetividade feminista. Dessa maneira o “lesbianismo político” presume o lesbianismo como algo que se almeja, e não uma coisa neutra ou meramente casual.

Uma hierarquia é propriamente definida como “um sistema ou organização em que pessoas ou grupos são classificadas umas sobre as outras de acordo com um status ou autoridade” [V]. Portanto, é inevitável que se crie uma hierarquia quando uma forma de expressão sexual é vista como melhor, mais esclarecida, ou mais eficaz politicamente do que outra. Através do estabelecimento dessa hierarquia, querendo ou não é gerada uma pressão para que uma mulher altere sua identidade sexual. A sugestão do aspecto positivo da mudança é inerente à ideia de que o lesbianismo é (politicamente) uma forma superior ou preposta de ser.

Exaltar o lesbianismo pelo viés da política feminista projeta uma visão fantasiosa sobre mulheres que são lésbicas independentemente de seu posicionamento político, abstraindo a experiência de mulheres que amam mulheres à ideia de que todas as lésbicas são feministas [VI]. Isso não é justo com as lésbicas que suportam o peso das expectativas irreais dessa teoria “política”. É também uma avaliação demonstravelmente falsa sobre o lesbianismo no mundo real. Há inúmeros exemplos de lésbicas que priorizam homens ao invés de mulheres, que são abusivas com outras mulheres, ou que não veem mulheres como pessoas oprimidas. Eu realmente não sei se “lésbicas políticas” apreciam certas realidades muitas vezes desagradáveis da comunidade lésbica, tanto nos dias de hoje quanto historicamente. Além disso, em alguns lugares do mundo, atualmente já é possível às lésbicas viver quase que inteiramente assimiladas às normas sociais. Enquanto lésbica, casada no estado do Massachusetts, mal consigo lembrar quando foi a última vez que alguém se incomodou com minhas demonstrações públicas de afeto. Ninguém se importa que eu seja lésbica, isso claramente não é uma ameaça à heterossexualidade deles nem qualquer outro motivo de mágoa.

Investir uma identidade “lésbica” como posicionamento numa guerra política contra o patriarcado torna o desejo de algumas mulheres em tentativa de retaliação de outras. O clássico texto “Woman Identified Woman” afirma que “a lésbica é a raiva de todas as mulheres condensada a ponto de explosão” [VII]. Essa definição usa o termo “lésbica” como mensagem direcionada aos homens, um insulto. É o absoluto oposto de como eu me sinto sobre minha companheira lésbica. Adotar a identidade de “lésbica política” como reação ao patriarcado não é uma expressão de amor ou desejo, tampouco é sobre mulheres, afinal. É fundamentalmente sobre homens; utiliza uma identidade para “radicalmente” transgredir as normas sociais da heterossexualidade. Nós não podemos usar uma identidade social para efetivar a “liberação'” tanto quanto não podemos transitar nas normas de gênero [genderfuck] para sobressair à dinâmica de poder do patriarcado. Nós precisamos mudar o próprio sistema, e não nossos comportamentos individuais ou nossas identidades inerentes a esse sistema.

O “lesbianismo político” tem um longo e característico histórico feminista. Algumas teóricas continuam argumentando que esse assunto merece um lugar na pauta “feminista radical”. Mas esse apelo à tradição não me convence. Identidade enquanto performance social não é politicamente eficiente porque é uma abordagem individualista a um problema sistêmico. O “lesbianismo político” nos orienta a entender o lesbianismo a partir da perspectiva de um observador externo: é essencialmente uma identidade social através da qual nós devemos subverter o paradigma heterossexual dominante. Mulheres que apoiam o “lesbianismo político” enquanto uma ação política eficaz permitiram que as políticas identitárias infectassem sua ideologia.

Eu me identifico como uma lésbica anti-lesbianismo-político.


Notas:
[I] Veja “I Say It, Therefore It Is”: http://rootveg.wordpress.com/2013/10/24/i-say-it-therefore-it-is-so/
[II] http://en.wikipedia.org/wiki/Handkerchief_code
[III] http://liberationcollective.wordpress.com/2013/05/20/socialization-matters-why-identity-libertarianism-is-failed-politics/
[IV] Compulsory Heterosexuality and the Lesbian Experience, por Adrienne Rich: http://www.terry.uga.edu/~dawndba/4500compulsoryhet.htm
[V] Pesquise no Google por “hierarquia”
[VI] “Lesbian and feminist are not synonyms, expanded”: http://revolutionarycombustion.wordpress.com/2012/08/08/lesbian-and-feminist-are-not-synonyms-expanded/
[VII] Woman Identified Woman: http://library.duke.edu/rubenstein/scriptorium/wlm/womid/