O Conceito de Gênero: um novo “coração de mãe” nas pesquisas sobre a mulher?

— Grupo Em Canto
— GT: Mulher e Política
— Trabalho apresentado no XIII Encontro Anual da ANPOCS
— Caxambu, outubro de 1989

Introdução

A idéia de elaborarmos este texto partiu da observação de que de uns tempos para cá, a palavra “gênero” passou a ser utilizada de forma bastante frequente nos textos, trabalhos, pesquisas e discursos elaborados sobre as mulheres no Brasil.

Alia-se a isto o fato de que alguns grupos de estudos e pesquisas sobre a mulher tenham começado a se definir como grupos de estudos de relações de gênero e a própria tentativa de troca de nome deste grupo da ANPOCS de “Mulher e Política” para “Relações de dominação de gênero” [1]. Alguns cursos universitários também têm optado pelo termo, como por exemplo o de Mireva Suarez na UnB e o curso promovido pelo núcleo da USP.

A partir desta constatação nos interessava saber se este termo era apenas mais uma “moda” ou se realmente ele constituia uma nova categoria de análise que estava sendo usada nas pesquisas referentes à “mulher”. E, em caso afirmativo, que modalidade ele introduziu na análise?

Tomamos como base para nosso trabalho, de um lado alguns textos teóricos que discutem a noção de gênero e de outro, procuramos analisar uma parte da produção realizada hoje no Brasil sobre a chamada “questão da mulher”, a fim de verificar sua emergência ou não. Para isto nos reportamos aos textos veiculados, nos três últimos encontros da ANPOCS, no grupo “Mulher e Política” [2]. Temos claro que nossa escolha não esgota a produção sobre o tema, mas como teríamos que realizar um corte, optamos por este grupo por entender que já há alguns anos é um espaço assegurado a discussão de temas ligados de uma forma ou outra a problemática feminista. Assim como pensamos que uma reflexão sobre a produção do próprio grupo seria enriquecedora tanto para o grupo quanto para nós mesmas.

Este artigo se subdivide em duas partes. Na primeira, fazemos uma revisão teórica sobre a forma como o conceito de gênero foi desenvolvido por várias disciplinas: linguística, literatura, psicologia, psicanálise, sociologia e antropologia. Na segunda parte examinamos a produção que algumas pesquisadoras brasileiras vem desenvolvendo no grupo de “Mulher e Política”.

Um primeiro levantamento dos textos a serem analisados nos deixou claro que a temática gênero é bem recente nos estudos sobre mulher no Brasil, nos dando a impressão que, até o momento, salvo algumas exceções, ela é mais verbalizada do que utilizada concreta explicitamente como categoria de análise.

O conceito de gênero

Várias são as disciplinas que elaboraram o conceito de gênero. Num primeiro momento vamos repassar a maneira como este conceito vem sendo desenvolvido tanto pela linguística e literatura quanto pela psicologia e psicanálise. Num segundo momento, mostrar como as Ciências Sociais vão incorporar esse conceito e como irá ocorrer um desdobramento da categoria de “papéis sexuais” em “gênero”.

O gênero na linguística e na literatura

As analistas da linguagem apontam para a determinação arbitrária dos gêneros nos diferentes idiomas. Esta arbitrariedade da cultura no que tange a língua tem servido como contraponto a determinação arbitrária do gênero tal como sugere Marta Lamas: “Esta arbitrariedade en la asignación de genero a las cosas que se pone em evidencia muy facilmente, por ejemplo cuando el género atribuido cambia dependiendo de la lengua que se trate. En alemán el sol es femenino, “la sol” y la luna masculino, “el luna” (P. 185)”.

Muitas línguas têm, além do feminino e do masculino, a categoria do neutro, que define comumente fenômenos da natureza (chove, neva, etc.), mas que em algumas línguas como o alemão são usados indiscriminadamente para objetos.

Junto com esta discussão sobre a arbitrariedade da língua, onde se impõe o masculino, linguistas feministas têm proposto como forma de “guerrilha da linguagem” que se feminilize sistematicamente a linguagem e a escrita, usando por exemplo o feminino plural quando há uma mulher presente.

Já na crítica literária, segundo o trabalho de Ana Vicentini (1988), pode-se observar duas correntes diferentes que tratam a questão do gênero, uma anglo-americana e outra francesa. A primeira é mais preocupada com o conteúdo da produção literária das mulheres, analisando-se as mulheres escrevem ou não suas experiências ou se apenas reproduzem a escrita que tem características masculinas. As francesas, por outro lado, tendo uma grande influência psicanalítica, estão mais preocupadas com o simbólico da produção feminina e propõe uma escrita mais vinculada a especificidade do feminino [3].

Para as teóricas da “escritura feminina”, o uso da categoria gênero remete a questão da produção do discurso. Para Luce Irigaray, por exemplo, o gênero masculino é tomado como o gênero universal e é nesta dominação sobre o feminino que encontra-se o problema central da dominação de um gênero sobre outro: “L’inconscient est partiellement l’enterrement en tui par l’homme de l’autre genre et de l’ombre de son gente, les deux” (1981).

A contribuição da análise literária e linguística não tem ainda grande influência nos estudos que tratam da questão do gênero nas Ciências Sociais no Brasil.

O gênero na psicologia e na psicanálise

A contribuição da psicologia para o conceito de gênero se inicia bem antes que os estudos sobre mulher se tornassem uma área de conhecimento. O trabalho de Stoller “Sex and Gender”, de 1968, ainda é a principal referência para a constituição do conceito de gênero. No entanto, é só no final da década de 70 que o conceito vai ser usado por teóricas feministas americanas como Rubin (1975) e Chodorov (1978).

O livro recente da psicanalista argentina Di-Bletcham (1988) traz uma importante resenha dos estudos sobre o gênero na psicologia e na psicanálise. O conceito de gênero na psicologia é definido pela distinção entre o sexo biológico e o sexo social, construído única e exclusivamente pelo simbólico: “Sobre o substantivo gênero se agrupam todos os aspectos psicológicos, sociais e culturais da feminilidade/masculinidade, reservando-se sexo para os componentes biológicos anatômicos e para designar o intercâmbio sexual propriamente.” (P. 33)

No trabalho pioneiro de Stoller, o gênero enquanto categoria psicológica se compõe de três elementos: atribuição de gênero, núcleo de identidade de gênero e papel de gênero [4]. Nesta concepção, o “papel das forças biológicas será o de reforçar ou perturbar uma identidade de gênero já estruturado pelo intercâmbio humano”.

A discussão das áreas psi sobre a construção da identidade de gênero também parece que ainda não foi incorporado pelas pesquisadoras que utilizam o termo gênero no Brasil. Uma das poucas referências à psicanálise é o gênero no texto da Bete Lobo (1988) [e] sugere a eliminação da utilização da categoria:

“A inquestionável importância da contribuição psicanalítica para a construção do conceito de gênero encontra seus limites na redução deste processo ao espaço das experiências individuais; da família, do inconsciente, enquanto que os espaços da experiência coletiva não são problematizados a partir de análises das relações de gênero e tampouco se desenvolve o instrumental teórico que torne possível esse tipo de abordagem” (P. 4)

Nós pensamos que a contribuição da psicanálise é central para a constituição da categoria gênero pelas Ciências Sociais, pois é pelo desvendar dos mecanismos de construção individual de identidade de gênero que é possível compreender os mecanismos das relações sociais de gênero, uma vez que não é possível pensar o indivíduo sem remetê-lo ao social. Aponta nesse sentido o artigo de Grosz-Ngate (1989) que traz a relação entre a construção do gênero e a noção de pessoa: “Gender construction implicate a society’s notion of the ‘person’ since gender is linked to aspects of personhood. Notions of the person as synonymous with the individual, i.e., an autonomous juridical entity equal to other such entities.” (P. 169)

Dos papéis sexuais ao gênero na antropologia

Apesar da questão do gênero já ter sido trabalhada por outras áreas, é com a antropologia que o conceito é levado para o campo dos estudos sobre a mulher.

Dentro deste campo, ao pensar a categoria gênero, há uma confusão inicial com “papéis sexuais”. Afinal o que distingue uma categoria da outra, se ambas se referem a comportamentos designados a indivíduos do mesmo sexo sendo elaborados enquanto construções culturais?

O termo de “papéis sexuais” surge com a antropologia [5]. Para a construção desse conceito foi essencial o estudo comparativo de culturas, porque pôde mostrar que comportamentos considerados masculinos ou femininos vão variar de uma cultura para outra. Na década de 70, as antropólogas feministas vão se reapropriar deste conceito e fazer a crítica ao viés androcêntrico da maior parte dos estudos antropológicos sobre a mulher deste período. A esta análise vai se juntar a discussão sobre a origem e a universalidade ou não da opressão feminina [6]. Originalmente, os papéis sexuais vão ser a base da justificativa para a divisão sexual do trabalho.

A noção de gênero é prefigurada a partir desses estudos, uma vez que a feminilidade e a masculinidade passam a ser consideradas como não contingentes ao sexo, mas ditados pela cultura. O que a noção de gênero irá precisar e ampliar em relação ao conceito de papel sexual é a ideia de assimetria e hierarquia nas relações entre homens e mulheres, incorporando a dimensão das relações de poder.

A introdução da noção de gênero nos estudos sobre a mulher liga-se com a preocupação em desnaturalizar e de substancializar a noção de feminino e masculino contida em categorias como “a mulher” ou a análise que vinculava os papéis sexuais ao seu substrato biológico.

Mas dizer que o gênero é construído social e culturalmente remete à questão das condições e das formas da produção social desta noção e, principalmente, das esferas sociais que prioritariamente se colocam como “configuradoras e configuradas pelas noções culturais de gênero e sexualidade” (Ortner e Whitehead:1981). Gayle Rubin (1975) considera que é a nível do parentesco e do casamento que as culturas constroem as noções de gênero. Retomando a idéia de Levi-Strauss da “troca de mulheres”, formulada pelo antropólogo francês como a gênese do social, Rubin encontra aí a chave para a constituição das relações de gênero. Nestas relações, as mulheres ocupariam o papel de bens transacionados, sendo desenvolvidas desta forma não só dos direitos sobre si mesmas como sobre os homens. Rubin usa o conceito de “economia política do sexo” para definir o campo da análise dos laços entre as transações de casamento e as relações políticas e econômicas, campo segundo ela fundamental para entender a produção social das identidades de gênero (Ortner e Whitehead, p. 11).

Ortner e Whitehead, seguindo o mesmo caminho de tentar encontrar aquelas esferas sociais que se colocariam como “particularmente críticas” na configuração das noções de gênero, apontam para um sentido diverso do de Rubin. Para elas, são as estruturas de prestígio, ou seja, as posições de status que ocupam o lugar central na construção das noções de gênero em uma ou outra sociedade. São essas estruturas que definem o significado da identidade de gênero nas relações de parentesco e casamento. Em primeiro lugar, o sistema de gênero é considerado como estruturas de prestígio, ao lado de outras estruturas (níveis sociais, geração, etc). Além disso, a noção de gênero contamina outras estruturas de prestígio, o que Strathern (1981) chama de “mútua metaforização” entre as categorias de gênero e sistemas de prestígio mais amplos. Mas, ao contrário da simetria na análise das relações entre homens e mulheres, proposta pelo uso de noções como a orientação pública masculina, ou a orientação doméstica feminina, a esfera das relações de prestígio masculina que define as relações entre os sexos.

O gênero na produção do grupo “Mulher e Política”

Ao procurarmos analisar a produção dos três últimos anos (1986/87/88) do Grupo Mulher e Política da ANPOCS, algumas questões começaram a ficar mais claras. Uma primeira questão é a constatação de que a discussão sobre “gênero”, ou a utilização deste como categoria de análise é uma questão bastante recente.

1986

No ano de 1986, ainda que se aborde a outras questões, a tônica dos trabalhos é a discussão sobre a participação política da mulher. Discute-se a dificuldade para que esta participação se dê de forma mais efetiva, bem como a necessidade de torná-la visível através de uma outra leitura dos acontecimentos.

Apenas o trabalho de Eleonora Menecucci de Oliveira, “Da recusa ao confinamento doméstico a reinvenção de novos espaços de cidadania — algumas reflexões teóricas”, se refere a palavra gênero, ainda que sua análise não esteja centrada na discussão e utilização desta categoria. Neste paper, a autora, tendo por base a pesquisa de campo realizada com as mulheres do grupo sexualidade e saúde da favela Beira Rio, busca pensar as diferenças de suas intervenções políticas e sociais a partir do conhecimento que estas tiveram do próprio corpo. Ao definir os elementos teóricos com os quais se trabalha (reapropriação do corpo, relações de poder, reinvenção de espaços de ação política, inferiorização dos motivos da ação política como representação de desejos e vontades, autonomia e Estado e drama social), a autora faz referência a discussão da autonomia, que passaria “necessariamente pelo desocultamento das relações de gênero na sociedade, uma vez que, considerada como resultado de uma prática social, esta problemática permite desvendar a opressão da mulher do ponto de vista da hierarquia do poder entre os sexos” (p. 68).

Ao discutir a noção de drama social, a autora retoma uma discussão do gênero. Para ela, esta categoria ajudaria a “chegar à compreensão de alguns elementos estruturais que determinam as relações de gênero na favela Beira Rio” (p. 70).

1987

O ano de 1987 já traz algumas alterações no que se refere à utilização e incorporação do gênero como categoria de análise.

Os trabalhos apresentados têm como eixo, por um lado, a reconstituição e/ou o repensar da participação política das mulheres nas mais diferentes esferas (movimentos de mulheres, feministas, partidos, centros comunitários, etc.) na sua construção enquanto sujeito político. Por outro lado, vamos ter vários textos que, trabalhando também com problemáticas diversas, se referem mais diretamente à categoria gênero.

Anette Goldberd, em seu texto “Gênero Mulher — identidade de esquerda: o feminismo das brasileiras no exílio”, aponta como objetivo central de seu trabalho ilustrar duas ideias: “A primeira delas é a de que a consciência de uma identidade de gênero por parte de certas mulheres em determinado momento de suas trajetórias, isto é, a percepção que adquirem quanto ao fato de que os sexos feminino e masculino constituem categorias além de biológicas, socialmente construídas e de que, por conseguinte, elas compartilham com outras mulheres uma série de experiências, problemas e dificuldades específicas e são vítimas de discriminações semelhantes, pode desembocar em distintas orientações” (p. 1).

Lúcia Avelar, em seu trabalho “A participação política da mulher e a ideologia do conservadorismo político feminino — subsídios para novas pesquisas” aponta, em diferentes momentos do texto, para a necessidade de se pensar a diferença de classe e gênero nas diversas formas de participação, bem como o embricamento dessas duas categorias. Para a autora, seria necessário um estudo da participação política das mulheres utilizando como categoria explicativa o gênero: “Ao que tudo indica, existem munros próprios e particulares da ação política feminina, o que significa dizer que há diferenças de gênero na participação que merecem um instrumental teórico e analítico que as considerem” (p. 22)

Um outro texto que aponta para a necessidade de se pensar o gênero é o de Albertina de Oliveira Costa, Carmem Barroso e Cynthia Sarti, “Estudos sobre mulher: militância e pesquisa”. Neste título, que na verdade engloba três textos, um de cada uma das autoras, algumas preocupações mais gerais a respeito da pesquisa sobre a mulher se colocam.

Albertina de Oliveira Costa, em “Baseado e pau-de-arara: memórias do feminismo nos trópicos”, através de entrevistas com participantes do primeiro grupo de mulheres que se reuniram em São Paulo em 1972 para pensar sua condição, composto em sua maioria por intelectuais de esquerda, reconstitui as relações entre as instituições de saber reconhecido e o movimento social. Para a autora, “Foi o movimento social das mulheres que forneceu as bases de legitimação para a construção de uma problemática científica concernente a mulher e posteriormente ao gênero, ou seja, relações sociais entre os sexos. O emergir de uma nova área de estudos têm no feminismo seu parâmetro simbólico” (p. 1).

Concordamos com a afirmação de que a constituição deste campo de estudo sobre a mulher vai sendo construído em paralelo e em estreita relação à construção do próprio movimento social, mas, no nosso entender esta construção de uma problemática do gênero propriamente dito, como a preocupação explícita de se pensar esta relação é bastante recente nos estudos realizados no Brasil. Ela vai ser também um divisor de águas entre uma visão que propõe e defende a criação de um campo específico de estudo sobre a mulher e a que entende ser necessário integrá-la nas Ciências Sociais como um todo.

Carmen Barroso, em seu texto “O descompasso na expansão do Ensino e da Pesquisa”, faz referência a participação dos grupos de mulheres com a “subordinação do gênero” ou a “hierarquia do gênero”, bem como uma tendência (já na década de 80) à institucionalização dos estudos sobre a mulher.

Já Cynthia Sarti em “Pesquisa e feminismo: armadilha em campo confinado”, procura analisar os pontos de tensão existentes na relação entre pesquisa e militância. Para a autora, a preocupação com a mulher no Brasil nasceria a partir do problema de articular classe e gênero, sendo que num primeiro momento a ênfase era à noção de classe, em detrimento da de gênero como categoria explicativa. Com a abertura política nos anos 80 e a volta da exiladas, o movimento de mulheres conquista maior espaço e também a corrente feminista. Nesse período “desenvolveu-se a linha de pesquisas voltadas para o ‘especificamente’ feminino, e ganha espaço o discurso propriamente feminista, para quem o que conta são as relações de gênero” (p. 2).

Mais uma vez, gostaríamos de registrar aqui que a preocupação com a questão das relações de gênero não estava presente de forma clara na formulação do movimento feminista em suas primeiras décadas, e nem tampouco nas pesquisas realizadas sobre o tema mulher. Não se pensava as relações de gênero, se pensava “um dos gêneros”, o feminino, isoladamente. [7]

Um dos textos apresentados no ano de 87 se propõe a refletir sobre os movimentos sociais utilizando o gênero como categoria central de análise. É o de Elizabeth Souza Lobo “Homem e mulher: imagens das Ciências Sociais”. Para ela, gênero seria “o conjunto de representações sociais construídos a partir das condições biológicas das diferenças entre os sexos” (p. 10) e “o interesse em problematizar a constituição dos movimentos a partir de uma problemática de gêneros reside justamente no fato de que sob este ângulo se coloca a questão das relações entre os sujeitos e as práticas sociais. A dinâmica dos movimentos não só rompe com as formas institucionais de reivindicação, mas rompe também com as formas internas de constituição dos grupos em ação na sociedade, estabelecendo novas relações entre indivíduos, grupos e sociedades” (p. 3). a participação das mulheres questionaria então A hierarquia de gênero em vários campos: na família, ao nível do discurso e nos espaços de políticas tradicionais.

1988

É significativo que, no ano de 1988, o tema que reúne os trabalhos do grupo no encontro seja “relações de gênero”. Dos 12 trabalhos apresentados, 6 deles citam o termo gênero. Esse aspecto, do nosso ponto de vista, por si só já explicita uma mudança na trajetória dos estudos sobre a mulher para as relações de gênero. Neste ano, não somente cresce a produção sobre o gênero, como também se aprofunda sua discussão.

No texto de Lourdes Bandeira e Deise Siqueira que trata da relação das mulheres com o tempo socialmente construído e analisa as mudanças no sentido de identidade feminina com a entrada das mulheres no mercado de trabalho, a palavra gênero aparece uma vez, subentendendo que gênero é o gênero feminino:

“Assim, o modêlo de referência grupal no caso do gênero, assenta-se primordialmente na construção de uma representação por uma subjetividade coletiva — as mulheres —, quanto pelo imaginário social, na produção e na reprodução (tempos específicos: ativo x passivo).”

O texto de Maria Filomena Gregori “Violência contra a mulher: a atuação feminista e as vítimas” analiss a questão da violência contra a mulher sob o ponto de vista das relações de gênero, apesar desse talo apenas uma só vez. Ela aplica o conceito na análise como referência para interpretar as relações de violência, mas não usa a categoria como “analisador” para questão. Trabalha a violência contra mulher como um jogo relacional no qual homens e mulheres reproduzem papéis atribuídos aos gêneros. Outra contribuição importante deste trabalho para compreensão dos papéis de gênero é a inserção de categorias do universo mediterrâneo na configuração dos gêneros em algumas regiões brasileiras.

No artigo intitulado “Divisão sexual do trabalho e relação de gênero: anotações sobre o tema”, de Magda de Almeida Neves, a autora, a partir da revisão de um conjunto de trabalhos, elabora os conceitos de divisão sexual do trabalho e relações de gênero. esses estudos como situa A autora se orienta pela perspectiva apontada nos grupos “Sex and Class Group”, na Inglaterra e “Groupe sur la division sociale et sexuelle du travail”, na França, procurando articular a relação família/trabalho, produção/reprodução, relações de sexo/relações de classe e centrando sua análise nas relações sociais entre os sexos.

O que o estudo de alguns desses trabalhos mostra, de acordo com a autora, é que “a divisão sexual do trabalho contém um elemento importante que precisa se tornar visível, qual seja, das relações de gênero”. Essas relações não se caracterizam, para a autora, como “complementares mas sim como de dominação e de poder dos homens em relação às mulheres, relações essas que são construídas socialmente e culturalmente” (p. 20).

O conceito de gênero defendido pela autora apoia-se no desenvolvido por Scott. Esta, de acordo com a autora, critica o uso do termo “como simplesmente sinônimo de mulher, pois para ela implica muito mais, uma vez que as informações sobre mulheres necessariamente envolvem informações sobre os homens”. Para Scott, esta forma de definir o conceito de gênero recusa a separação de esferas e o coloca na perspectiva das relações sociais entre os sexos, uma vez que “o mundo da mulher faz parte do mundo do homem”. Scott chamaria ainda a atenção, segundo ela, para “as representações de poder que estas relações envolvem”. Nesta mesma linha de pensamento, Paola Tabet, conforme aimda a autora, “contesta o caráter natural, esta ideia de complementariedade e reciprocidade na divisão do trabalho”. Sua tese seria de que a divisão do trabalho não é neutra, mas orientada e assimétrica, mesmo nas sociedades pretendidas igualitárias. Tratar-se-ia, neste caso, de uma relação que “não se caracteriza nem pela reciprocidade nem pela complementaridade mas sim pela dominação, e se manifesta objetivamente e constantemente na repartição das tarefas, refletindo as relações de classe entre os dois sexos”. Nestes termos, a autora articula as relações de classe/sexo com as relações de gênero.

O artigo de Elizabeth Lobo, “Os usos do gênero”, se propõe a discutir o gênero como categoria analítica, assim como a pertinência de um campo de estudo sobre a mulher.

A autora situa a construção do gênero como categoria analítica nos impasses dos estudos feministas, centrados, de um lado, na idéia de patriarcado e de outro, na análise marxista da divisão sexual do trabalho.

Esses impasses e seus questionamentos levam “as pesquisadoras feministas a teorizarem o gênero através de incursões antropologia estrutural e na psicanálise, para analisarem justamente o significado social de masculinidade e feminilidade”. Desse modo, o eixo de reflexão nas pesquisas feministas, de acordo com autora, se desloca para a busca dos significados das representações do feminino e do masculino, para “as construções culturais e históricas das relações de gênero” (p. 3).

Nas palavras da autora, “o inventário e a arqueologia deste significados desconstrói o gênero”, ao mesmo tempo que “atualiza uma outra questão: a da relação de gênero como relação de poder” (p. 3)

Citando Joan Scott, a autora encontra as seguintes definições para gênero:

  1. “O gênero como elemento constitutivo das relações sociais baseadas nas diferenças perceptíveis entre os sexos”;
  2. “O gênero como forma básica de representar as relações de poder em que as representações dominantes são apresentados como naturais e inquestionáveis” (p. 3 e 4).

Bete Lobo discute ainda a questão da constituição de um campo de estudos sobre o gênero x estudos sobre mulheres. Para ela, “na medida em que as pesquisas feministas trouxeram uma contribuição à construção do gênero como relação social histórica que implica em relações de poder e que atravessa tecido social, este não pode ser um campo à parte no contexto das relações sociais”. Fundamentando-se ainda em Scott, ela defende a incorporação dos estudos de gênero a outras áreas interdisciplinares, criticando os “guetos teóricos” ou os “estudos sobre mulheres” como disciplina autônoma. O conceito de gênero neste sentido seria pertinente, uma vez que não se apresenta identificado com o tema das mulheres, mas as relações entre os gêneros enquanto relações de poder que perpassam o tecido social e constituem os poderes na sociedade.

Mas a preocupação em trazer a discussão sobre a questão do gênero não se limita ao grupo de “Mulher e Política”. O trabalho de Cynthia Sarty, apresentado no grupo de Família e A, também 1988, intitulado “Reciprocidade e Hierarquia — relações de gênero na periferia de São Paulo” traz uma contribuição fundamental para a questão do gênero.

Sua formulação é da questão do gênero como relacional e hierárquica:

“Encontrei, neste bairro, relações de gênero bastante tradicionais, o velho modelo da autoridade masculina, das relações hierárquicas onde o homem tem precedência sobre a mulher… Minha ideia foi relativizar o significado da subordinação feminina a partir da vivência e das referências culturais próprias a estas mulheres”.

Em torno do gênero

Nos estudos sobre a mulher no Brasil, parece haver uma linha evolutiva que vai da “condição feminina” as “relações de gênero” passando pelos “papéis sexuais”. Num rápido olhar sobre a utilização desses conceitos, se pode observar que os primeiros estudos, ao falar da condição feminina, isolavam a mulher de seu contexto relacional. Estudos que parecem muito influenciados pela própria prática do movimento feminista da “não mixidade”, onde se “procurava dar voz às mulheres”, “fazer emergir a mulher de seu papel de oprimida” [8].

O momento onde começa aparecer o conceito de gênero é um momento onde aparece junto a preocupação em relativizar este isolamento da condição feminina. Um dos primeiros textos publicados no Brasil que tem como preocupação recuperar um pouco da sua trajetória e que, de alguma maneira, abre caminho na perspectiva de uma reflexão sobre a assimetria das relações homem/mulher é o texto de Bruna Franchetto, Maria Laura Cavalcanti e Maria Luiza Heilborn “Antropologia e Feminismo” (1982).

A partir da análise dos textos da ANPOCS, é em 87 que esta preocupação começa a tomar corpo, através da utilização do termo “gênero”. Em 88, uso da categoria gênero passa a ser um dos elementos definidores dos estudos sobre mulher no Brasil. Coisa que se evidencia pela realização de um grupo de trabalho sobre “Representação e a questão do gênero” na Associação Brasileira de Antropologia e em uma das sessões do encontro comemorativo dos 10 anos do grupo “Mulher e Força de Trabalho”. O uso da categoria gênero se torna um divisor de águas entre as pesquisadoras da área. A tendência de 88 se reafirma claramente em 89, com inúmeros trabalhos que estão sendo apresentados na ANPOCS, tanto no grupo de “Mulher e Política” quanto “Mulher e Força de Trabalho”, assim como nos vários encontros e seminários que tratam da questão da mulher.

O levantamento dos textos analisados nos deixou claro que a discussão sobre o gênero é bem recente nos estudos sobre a mulher no Brasil, deixando a impressão que até o momento, salvo algumas exceções, ela é mais verbalizada do que utilizada concreta e explicitamente como categoria de análise.

Esse uso crescente do conceito de gênero nos últimos anos revela uma preocupação em relativizar o isolamento e a naturalização da “condição feminina” presente nos estudos anteriores. No entanto, a análise dos trabalhos apresentados deixa a impressão que, mesmo quando as relações são colocadas em termos de gênero, o uso deste conceito ainda aparece impregnado dos enfoques anteriores, ou seja, gênero é usado em vários momentos como sinônimo de “papéis sexuais”, ou de “mulher” (universal e no singular). Na verdade, parece ter acontecido uma incorporação e uma generalização do uso do conceito, sem a contrapartida do desenvolvimento de um estudo mais analítico sobre o uso e o seu significado (uma tentativa Neste sentido é o texto de Bete Lobo). Não é gratuito o fato de que os textos que servem como referência teórica para pensar a questão não foram traduzidos nem publicados no Brasil (um dos textos é a coletânea Mulher, Cultura e Sociedade, cuja tradução brasileira está incompleta). Na verdade, parece haver um vácuo entre um primeiro momento em que esta discussão chega no Brasil e passa num primeiro momento a ser assumida pelo uso sistemático do conceito de gênero, e num segundo momento incorpora a polêmica sobre se os estudos sobre o gênero devem se constituir numa área a parte ou não. Esse descompasso entre o número de trabalhos e de estudiosas da questão da mulher que hoje adotam o conceito de gênero e a escassa produção teórica é um dos motivos que levam à perda de referências no uso do conceito, e que acaba confundindo muitas vezes com o próprio enfoque que o conceito de gênero procura rever.

Pode-se constatar que os estudos apresentados desde 87 no grupo de “Mulher e Política” da ANPOCS usam como fonte teórica principal as pesquisas na área de história social de Joan Scott e Michelle Perrot, entre outras (sendo que esta última não chega a utilizar o conceito de gênero). Esta referência, no entanto, aparece como implícita mas é pouco elaborada no sentido de trabalhar a dimensão toda que envolve a categoria gênero.

Mesmo tendo surgido a partir de fontes ligadas a diferentes áreas de conhecimento, a adoção do conceito de gênero nos estudos sobre a mulher veio no sentido de construir uma categoria que desse conta das novas questões colocadas neste campo de estudo. Essas questões estavam ligadas à crítica dos enfoques tradicionais que, ao mesmo tempo, naturalização e congelavam a “condição feminina”. Na introdução ao Sexual Meanings, Ortner e Whitehead definiam as noções ligadas ao que é gênero como “produtos de processos sociais e culturais” assumindo a visão radical de sexo e gênero como “construções culturais”. Esta noção implica em duas outras premissas que define mais precisamente o significado do gênero. De um lado, a ideia de que as identidades de gênero constroem-se de forma relacional, ou seja, pelo contraste permanente com o outro. De outro lado, como decorrência, a ideia de que, pelo fato das relações entre homens e mulheres, e as representações que fazem dessas relações, não serem estanques mas dinâmicas, o gênero é também mutável e conjuntural. A aceitação dessas duas premissas não só coloca o limite na utilização do conceito de gênero como substituto da ideia de “condição feminina” como põe em questão a noção de “feminino” como algo substancializável, ou que possa existir por si só.

A partir daí, uma segunda questão se coloca, ligada à definição de quais são as fontes fundamentais para a constituição do gênero. Constatamos que, por trás das diferentes visões sobre se as noções culturais de gênero são construídas ao nível do parentesco e da família partir da noção central de “troca de mulheres” (Rubin:1985), ou se o sistema de gênero é um “sistema de prestígio” (conforme Ortner e Whitehead:1981), encontra-se uma única noção comum: a de hierarquia. Consideramos que a noção de hierarquia é uma chave central para se compreender o sentido da noção de gênero.

O conceito de gênero: um novo “coração de mãe” nos estudos sobre a mulher?

A resposta final é esta interrogação ainda não está formulada. Por um lado, porque o contato mais aprofundado com o tema nos remeteu para sua amplitude e complexidade e, por outro, pelos limites colocados num trabalho deste tipo. Mas, podemos afirmar que gênero é um “coração de mãe” por ser um conceito gerado e utilizado nas mais diversas áreas de conhecimento e que oferece a possibilidade de uma prática tão falada e pouco exercida: a interdisciplinaridade. O risco que se corre com um “coração de mãe” é nele se incorporar tudo e todos sem critérios. Para que isso não ocorra, é necessário que se desenvolva e amplie o debate teórico.


Notas

[1] O Núcleo de Estudos da Mulher e Relações Sociais de Gênero da USP e o Instituto de Estudos Interdisciplinares sobre Relações Sociais de Gênero em São Paulo São dois grupos já reconhecidos. Em Florianópolis, ainda estamos discutindo se nosso Núcleo de Estudos da UFSC deve se denominar “da mulher” ou de “relações de gênero”.

[2] Também faremos algumas referências a estudos discutidos em outros grupos que tratam da questão. Fizemos também uma análise das pesquisas financiadas nos primeiros concursos da Fundação Carlos Chagas (78/80/82). Constatamos que alguns buscam resgatar a visibilidade da mulher na História Brasileira, e outros já trabalhavam com noções de representações e imagens da mulher, apontando para uma das dimensões que o conceito de gênero remete, sem no entanto trabalhar com a categoria.

[3] As principais autores que defendem a escritura feminina são Helene Cixous e Annie LeClerc.

[4] Resumindo estas categorias:

  1. Atribuição de gênero — primeiro critério que vai determinar o núcleo e o assinalamento que médicos e familiares dão à criança ao nascer.
  2. Núcleo de identidade de gênero — é o sentimento mais primitivo, consciente e inconsciente, de posse de um sexo e não de outro.
  3. Papel de gênero — conjunto de prescrições e proscrições para uma determinada conduta, pois a criança aprende a discriminar as relações de gênero que correspondem aos comportamentos aprovados e também aprende a empregar tal etiquetação para si mesma, e seu processo será reforçado ou desaprovado por seus pais.

[5] Maiakovski, que trata a sexualidade, Murdock, que traz comparações transculturais e Margaret Mead, no seu estudo clássico sobre os povos da Melanésia.

[6] Ver, entre outros, Rosaldo e Lamphere (1979).

[7] Isso pode ser constatado em algumas teses sobre o feminismo no Brasil, como a de Heloísa Fontes — “Do palco aos bastidores”, Unicamp, 1986; Sônia Miguel — “Feminismo: um olhar para dentro”, UFSC, 1988; Miriam Grossi — “Discours sur les femmes battues: representations de la violence sur le femmes au Rio Grande do Sul, Paris, 1988.

[8] A este respeito, ver o interessante artigo de Strathern (1987) sobre a relação de sua produção acadêmica vinculada ao movimento feminista.


Bibliografia

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GRUPO EM CANTO

O Grupo Em Canto é formado por quatro pesquisadores que moram no Canto da Lagoa da Conceição em Florianópolis: Marilda Gonçalves da Silva, Miriam Pillar Grossi, Sônia Malheiros Miguel e Sônia Weidner Maluf.

O crime de ódio mais antigo do mundo

Como a misoginia está sendo usada para sufocar o debate das mulheres sobre sexo e gênero

Traduzido do site da campanha Fairplay For Women, grupo apartidário que visa defender mulheres e meninas das possíveis vulnerabilidades legais que as novas leis de identidade de gênero podem criar ao remover proteções específicas ao sexo feminino.

Este relatório discute a forma como a voz de algumas mulheres tem sido calada dentro do debate político e social sobre sexo e identidade de gênero. As mulheres têm uma contribuição importante e legítima a fazer, mas essa censura está impedindo um debate justo e livre. O objetivo deste relatório não é apontar as questões e preocupações das mulheres, mas o de destacar como e porque as mulheres têm sido excluídas. Isso é conseguido através da demonização das mulheres com visões críticas de gênero através do uso difundido de ofensas misóginas e acusações de transfobia. Esse relatório descreve as formas como mulheres estão sendo vítimas de abuso, hostilidade e ações criminosas motivado por ódio e preconceito no que diz respeito às suas opiniões sobre sexo e gênero. As consequências disso são que as visões das mulheres não estão sendo representadas com justiça por conta de silenciamento baseado em ódio, por causa de medo, vergonha e rejeição.

1.0 Cenário político

O governo britânico anunciou sua intenção de reformar o Ato de Reconhecimento de Gênero de 2004 [GRA, na sigla em inglês]). Em outubro de 2007, Theresa May disse publicamente: “Temos planos de reformar o Ato de Reconhecimento de Gênero, simplificando e desmedicalizando o processo de mudança de gênero, porque ser trans não é uma doença e não deveria ser tratado como tal”. A Secretaria do Governo para Igualdade está atualmente rascunhando um documento de consulta pública a ser publicado em algum momento este ano. Esse documento vai informar a Ministra de Mulheres e Igualdades (atualmente Amber Rudd), que vai trazer ao governo propostas na forma de um projeto de lei para o parlamento.

O governo do Partido Nacional Escocês completou sua própria consulta pública com planos de usar seus poderes constituídos para implementar um processo de auto declaração na Escócia. Ela também propõe a introdução de um sistema legal de mudança de gênero para crianças e o aumento do reconhecimento de identidades não-binárias. Estamos atualmente esperando os resultados dessa consulta serem publicados e o projeto de lei a ser apresentado no parlamento escocês.

Partidos oposicionistas também expuseram suas intenções de reformar as leis de reconhecimento de gênero com o manifesto do Partido Trabalhista de 2017, afirmando: “Um governo Trabalhista irá reformar o Ato de Reconhecimento de Gênero e o Ato da Igualdade de 2010 para assegurar que protejam as pessoas Trans mudando as características protegidas [por lei] ‘atribuição de gênero’ para ‘identidade de gênero’ e remover outros termos desatualizados como ‘transsexual’”. Jeremy Corbyn também indicou seu apoio à auto identificação de gênero, evidenciado por essa afirmação feita no programa de Andrew Marr da BBC em janeiro deste ano: “A posição do partido é que se você se auto identifica como uma mulher, então será tratada como uma mulher”.

O manifesto dos Democratas Liberais afirma: “Apoiaremos uma atualização do GRA para que seja mais inclusiva removendo a exigência de um diagnóstico para disforia de gênero”. A líder do Plaid Cymru [partido de centro-esquerda do País de Gales], Leanne Wood, afirmou publicamente: “Acredito que mulheres trans são mulheres” ainda que não tenha firmado nenhum manifesto assumindo esse compromisso.

A questão dos direitos dos transgêneros é, então, uma área de debate político legítima e ativa na qual todos os envolvidos têm o direito de se envolverem e se espera isso deles. Há também um debate mais amplo e necessário a respeito das definições e do uso de certas palavras (sexo, gênero, macho, fêmea, mulher, homem, gay, hétero etc).

2.0 Mulheres também têm interesses em jogo nesse debate

As mudanças propostas nas leis de reconhecimento de gênero significam que o processo de mudar o sexo legal de alguém de masculino para feminino (e vice-versa) será feito de forma mais rápida e fácil. Atualmente, a pessoa deve prover evidência médica a uma Banca de Reconhecimento de Gênero antes de receber um Certificado de Reconhecimento de Gênero (GRC, na sigla em inglês). Uma vez que um GRC completo é atribuído a um requerente, o gênero da pessoa muda para o gênero requerido, de modo que um requerente que nasceu homem poderia, pela lei, e para todos os efeitos, se tornar uma mulher. Eles podem obter uma certidão de nascimento substituta com sua designação sexual pretendida. Mudar os critérios pelos quais uma pessoa nascida homem pode se tornar legalmente mulher vai potencialmente impactar mulheres legalmente fêmeas em virtude de seu nascimento como tal. Desse modo, mulheres também têm interesses em jogo nesse debate além da comunidade transgênero, e têm um papel legítimo a cumprir em qualquer debate ou tomada de decisão.

Se mudar a designação sexual legal de alguém se tornar nada mais que um processo de auto identificação (por exemplo, assinando um formulário), então isso significa efetivamente que qualquer homem pode se capaz de se declarar mulher. Uma vez que crimes violentos e sexuais são majoritariamente cometidos por homens, e mulheres são as vítimas desses crimes, qualquer mudança na lei e na cultura que aumenta a possibilidade de homens acessarem espaços e serviços destinados exclusivamente a mulheres deve ser considerad nos termos de seus impactos na segurança, dignidade e privacidade das mulheres. As mulheres têm algumas importantes preocupações e questões sobre isso, que incluem:

  • Como as mulheres prisioneiras serão mantidas em segurança se qualquer prisioneiro homem pode mudar seu sexo legal (sem qualquer exigência de cirurgia ou tratamento médico) e ser realocado a uma prisão feminina?
  • Se tanto nascidos homens e nascidas mulheres podem ser legalmente reconhecidos como mulheres, como a discriminação sexual que as mulheres sofrem baseada em sua biologia poderia ser registrada, monitorada e diminuída?
  • Como as mudanças legais afetarão os direitos e a disposição de uma organização de invocar as isenções legais para um único sexo, a fim de manter espaços exclusivamente para mulheres apenas para nascidas mulheres?
  • Com o súbito e rápido crescimento do número de crianças sendo encaminhadas a serviços de especialistas em gênero (a maioria meninas adolescentes), cujo tratamento pode resultar em intervenções médicas pelo resto da vida e esterilidade, como pais e profissionais podem garantir que essas crianças estejam a salvo, na ausência de pesquisas de longo prazo baseadas em evidências?
  • Como o aumento observado de transições de jovens mulheres lésbicas em homens transgêneros héteros pode impactar a comunidade lésbica? Como o aumento observado de homens héteros se identificando como mulheres trans lésbicas impacta a comunidade lésbica?

O objetivo deste documento não é responder essas questões, mas meramente mostrar a ampla gama de tópicos slegítimos que impactam e preocupam mulheres, e porque a qualquer mulher deve ser permitida a participação livre nesse debate público e político.

3.0 O silenciamento direcionado a mulheres

Há evidências claras de que mulheres que fazem perguntas ou demonstram suas preocupações estão sendo especificamente alvo de silenciamento. Seus motivos e visões são injustamente denunciados como transfóbicos e inspirados em ódio. Isso impacta diretamente essas mulheres, mas também induz um clima de medo e vergonha para impedir que outras mulheres falem ou aprendam mais sobre as questões que também as impactam. Também significa que as vozes de algumas poucas mulheres que conseguem ser ouvidas sejam repudiadas ou desacreditadas. A demonização e a marginalização do papel de um grupo na sociedade é uma tática bem conhecida. É explorada pelos opressores e não deve ser tolerada numa sociedade democrática onde o princípio da liberdade de expressão é encorajado e valorizado. Alguns exemplos bem conhecidos incluem a demonização dos judeus por Hitler, a difamação racista de imigrantes, e o desastre de Hillsborough provocado pelos torcedores do Liverpool em uma briga de torcida [1].

Mais especificamente, a estratégia misógina de tornar mulheres em alvos para silenciá-las e controlá-las é uma tática bastante antiga. A queima de bruxas, os assassinatos por honra, a culpabilização de vítimas de estupro, e a desmoralização das mães solteiras são apenas alguns exemplos. A Sociedade Fawcett recentemente tornou público seu apoio para que a misoginia seja considerada um crime de ódio juntamente com racismo, transfobia, homofobia etc. A misoginia é comum em todo lugar e não é um fenômeno novo, e tem todas as características identificáveis de ser motivada por ódio e preconceito.

A transformação de mulheres que se engajam no debate sobre identidade de gênero em alvo motivada por ódio é claramente evidente. Isso pode ser visto através do uso de termos ofensivos sexistas para demonizar esse grupo de mulheres e normalizar a violência contra elas. Isso facilita o controle das mulheres pelo medo, vergonha e rejeição. Mulheres estão sendo silenciadas pelo medo de violência na vida real ou de danos em suas carreiras e reputações. Mulheres têm sido silenciadas através da vergonha de terem seus nomes expostos publicamente e suas opiniões rotuladas como cheias de ódio e transfóbicas. Mulheres têm sido silenciadas por rejeição, tendo suas opiniões desacreditadas ou censuradas. Todos esses três métodos serão agora discutidos e ilustrados com exemplos.

4.0 O uso de termos ofensivos sexistas para demonizar e normalizar a violência contra mulheres

O termo TERF é agora comumente usado como uma ofensa sexista para rotular como transfóbicas e preconceituosas mulheres que falam a respeito desses assuntos, que então devem ser afastadas e ignoradas. Ainda que tenha sido originalmente definido por seus oponentes como um acrônimo de Feministas Radicais Trans Exclusionárias, ele é agora usado para descrever literalmente qualquer mulher que faça perguntas ou levante suas preocupações no debate sobre transgêneros. Essa palavra não é reservada apenas para as mulheres mais ousadas e provocadoras, mas para qualquer mulher comum. Qualquer mulher.

Há clara evidência de que “terf” agora aparece como insulto, ameaça e incitações, e sua designação como um insulto é discutida por experts em linguística como Deborah Cameron. “Terf” agora é usado em um tipo de discurso que tem claras similaridades com discursos de ódio direcionados a outros grupos. “Terf” aparece com frequência nos mesmos tweets junto com outras palavras das quais não se divida de seu caráter enquanto ofensas sexistas, como “cadela” e “puta” [cunt]. Outras palavras que também aparecem incluem “nojenta”, “feia”, “escória” e mais um grupo de palavras que implicam em sujeira (“fedor”, “ranço”, “lixo”, “imundície”) — que também são um tema bem explorado nos discursos racista e antisemita. Da mesma forma, o insulto sexista feminazi é também frequentemente usado.

Na imagem, transativistas ofendem mulheres com insultos e as ameaçam de violência.
Na imagem, transativistas ofendem mulheres com insultos e as ameaçam de violência.

Ofensas e ameaças de transativistas direcionadas a mulheres que questionam suas ideias.
Ofensas e ameaças de transativistas direcionadas a mulheres que questionam suas ideias.

Feministas têm há anos alertado contra a retórica violenta vinculada à palavra “terf” e tem-se escrito frequentemente sobre seu uso como um termo sexista de ódio; Megan Murphy, Clare Heuchen, Rebecca Reilly-Cooper, Sarah Ditum. Piadas e ameaças envolvendo vioência contra mulheres, muitas vezes indistinguíveis, são agora comuns na internet. Emblemas vendidos na Etsy misturam a libertação dos trans com violência contra mulheres. Mulheres não abordam os assuntos sexo e gênero a partir de uma posição de poder — o sexo biológico tem sido usado, por centenas e centenas de anos, para oprimir mulheres.

O transativista do sexo masculino Katherine Drevis ameaça mulheres de violência abertamente.
O transativista do sexo masculino Katherine Drevis ameaça mulheres de violência abertamente.

Mais ameaças e violência contra mulheres sendo trivializada.
Mais ameaças e violência contra mulheres sendo trivializada.

Mulheres podem ser rotuladas como transfóbicas odiosas por expressarem quase qualquer tipo de opinião ligada à biologia das mulheres. Por exemplo, Nimko Ali foi condenada por transativistas como transfóbica por conta de suas opiniões enquanto sobrevivente e ativista contra a mutilação genital feminina.

Negar a realidade biológica do dimorfismo sexual da espécie humana é hábito comum de transativistas.
Negar a realidade biológica do dimorfismo sexual da espécie humana é hábito comum de transativistas.

Outras mulheres são condenadas por apontarem que mulheres têm necessidades específicas, proteções e experiências que carecem de provisões legais de serviços e espaços apenas para mulheres.

Debater racionalmente não é uma especialidade dos transativistas.
Debater racionalmente não é uma especialidade dos transativistas.

Há literalmente centenas de exemplos de posts em mídias sociais usando a palavra “terf” e outras do tipo para desmerecer e ameaçar mulheres. Esses exemplos são catalogados em uma porção de sites como Terf is a slur, Transcriticalhate, Anti-female receipts, The new basklash.

5.0 Silenciando mulheres através do medo

As mulheres estão sendo controladas através do medo das consequências de suas discussões a respeito do conceito de identidade de gênero e por levantarem questionamentos e preocupações. A violência física, intimidação e danos à reputação e carreira dispensados àquelas que falam a respeito as deixam com medo de continuarem falando. Isso também funciona como um aviso a outras mulheres, que temem que o mesmo ocorra a elas. Para algumas mulheres com famílias e outros compromissos, o custo pessoal a si mesmas e aos que delas dependem é simplesmente alto demais para se colocar em jogo.

5.1 Mulheres temem ameaças de violência real

Pesquisas têm mostrado uma ligação clara entre desumanização de grupos sociais e a perpetração de violência contra eles. É óbvio que a desumanização das mulheres ao ponto de serem consideradas alvos legítimos de violência aumenta o risco de violência física contra elas. Quando a sociedade aceita ou não questiona essa retórica de “soque uma terf”, então as testemunhas disso se tornam cúmplices. Essa incitação ao ódio às mulheres consideradas “terfs” (incluindo mulheres que simplesmente se associam ou querem ouvir o que “terfs” têm a dizer) fez com que uma mulher apanhasse.

Em 13 de setembro de 2017, uma mulher de 60 anos chamada Maria MacLachlan levou um soco e foi atirada ao chão por manifestantes que aguardavam para ver uma palestra chamada “O que é Gênero” sobre mudanças na lei de reconhecimento de gênero. O incidente no Speaker’s Corner de Londres foi filmado e o transativista Tara Flik Wood foi preso pela polícia. O julgamento está agendado para abril. Wood postou nas mídias sociais pouco antes: “Quero foder com algumas terfs”.

Transativista compara mulheres que fazem perguntas demais a facistas.
Transativista compara mulheres que fazem perguntas demais a facistas.

Em novembro de 2017, Helen Steel interveio para que se parasse o bullying direcionado a duas mulheres que estavam distribuindo panfletos sobre a reforma do GRA na Feira de Livros Anarquista que foram cercadas e ameaçadas por transativistas. Meia hora depois, ela foi cercada por durante uma hora por um grupo de cerca de trinta transativistas que gritavam ofensas misóginas como “terf feia”, “escória terf fodida”, “cadela”, “fascista” entre outros.

Em março de 2018, Paula Lamont foi violentamente e verbalmente assediada e intimidada por um grupo de pessoas gritando “Terf Terf Terf” e “Tirem-na daqui, ela é uma Terf”. A polícia interferiu. Acredita-se que o ataque está relacionado a terem-na reconhecido por ter participado de um encontro sobre as mudanças planejadas para a GRA feito pelo A Woman’s Place UK (WPUK) em Londres em 27 de fevereiro. Paula disse: “O que mais me entristece sobre esse incidente é que, da grande turba que me cercou e presenciou um ataque completamente unilateral e não provocado, ninguém se sentiu inclinado a interferir. Foi um exemplo chocante de mentalidade de manada. Em nenhum momento eu disse ou fiz qualquer coisa que pudesse ser interpretado como agressivo ou ofensivo”. Esse incidente alarmante não destaca apenas como mulheres individuais agora correm riscos pessoais para conseguirem acesso a informação a respeito de mudanças que vão impactá-las. Ele também mostra como outras pessoas também estão assustadas demais ou simplesmente não estão dispostas a interferir e apoiarem o direito das mulheres de participarem do debate. A filmagem desse incidente pode ser vista aqui.

Pichações incentivam a violência contra mulheres que questionam a ideologia trans.
Pichações incentivam a violência contra mulheres que questionam a ideologia trans.

Há também muitos casos de violência acontecendo fora do Reino Unido. Aproximadamente trinta transativistas vandalizam, destruíram livros e assediaram feministas na abertura da Biblioteca das Mulheres de Vancouver, administrada por trabalho voluntário. Em suas paredes foram pichadas as palavras “FORA TERFS”. Apesar das alegações dos manifestantes de que a biblioteca era “exclusionária de trans e trabalhadoras sexuais”, ela não é nada disso, e o site da biblioteca afirma: “Nós saudamos todas as mulheres, independente de credo, classe, gênero, raça, sexualidade”. Os manifestantes exigiam que vinte livros fossem banidos da biblioteca.

Mulheres que participavam de um evento do WPUK em Edimburgo foram assediadas por manifestantes. Eles fizeram barulho durante todas as palestras, incluindo gritar enquanto mulheres contavam suas experiências com a violência masculina. Eles estavam mascarados e filmavam as participantes. Depois, atacaram o local. Transativistas também enviaram mensagens diretas individualmente para as mulheres que acompanhavam o WPUK nas mídias sociais, em uma clara tentativa de intimidar futuras participantes.

Transativista tenta impedir discussão a respeito do "A Woman's Place UK"
Transativista tenta impedir discussão a respeito do “A Woman’s Place UK”

5.2 Mulheres têm medo de danos à sua reputação profissional

O medo de serem rotuladas como “terfs” significa que muitas profissionais estão impedidas de falar sobre o assunto abertamente em público ou no trabalho. Isso é particularmente comum entre mulheres que trabalham na academia ou em serviços em favor das mulheres. Há uma thread muito esclarecedora no Mumsnet onde mulheres postam sobre como temem que suas reputações profissionais sejam prejudicadas e suas ambições de carreira, ameaçadas. Inúmeras envolvidas no setor de apoio às mulheres têm sido silenciadas temendo que o serviço social voltado a mulheres que realizam possa ser impactado de modo prejudicial. Esses temores incluem que os serviços prestados nessas casas de apoio virem alvo de transativistas ou tenham seu financiamento cortado. O medo pelo corte de verbas está dentro do contexto que vai de 2010 a 2015, quando autoridades locais que financiavam serviços de combate à violência contra a mulher como abrigos e aconselhamento foram cortados em média em 30%, apesar de a violência contra mulher ter sido um crime que aumentou neste mesmo período de tempo. Serviços genéricos de “tamanho único” de grandes prestadores de serviço não especializados também têm levado a preferência em comissões no lugar de serviços especializados e exclusivos para mulheres que as usuárias preferem.

Poucas mulheres estão fora do armário para serem citadas aqui mas fala por si só que as mulheres por trás do WAPOW (Women Analysing Policy on Women, “Mulheres Analisando Políticas voltadas a Mulheres” na sigla em inglês) mantenham-se todas anônimas. O WAPOW submeteu um estudo para o Inquérito para a Igualdade Trans de 2015, mas como todos os outros grupos feministas críticos de gênero, elas não foram convidadas para apresentar suas evidências em nenhuma conferência. Tais grupos são repudiados como “feministas de araque” pela chefe do comitê, Maria Miller.

Em um encontro recente do WPUK em Birmingham, Karen Ingala-Smith (chefe de um refúgio independente para mulheres chamado Nia) compartilhou como ela nunca falou publicamente sobre a questão trans por medo de que seu trabalho de caridade, e as mulheres que ela apoia, se tornem alvos.

Neste exemplo anônimo (à esquerda) a apresentadora mulher sugere aos seus colegas que também incluam visões críticas de gênero [em suas ementas] para que os estudantes saibam a respeito do que é o debate. A resposta foi de que eles só deveriam apresentar o ponto de vista transgênero. O exemplo ao centro mostra uma mulher que foi denunciada ao seu empregador (BBC) por postar um “artigo transfóbico”. O exemplo à direita mostra uma mulher sendo denunciada na universidade onde trabalha por pedir explicações sobre sexo biológico.

Negação da realidade biológica das mulheres é uma das estratégias dos transativistas.
Negação da realidade biológica das mulheres é uma das estratégias dos transativistas.

A acadêmica e filósofa social Heather Brunskell Evans foi a porta-voz eleita pelo Partido pela Igualdade das Mulheres (WEP, na sigla em inglês) para falar sobre políticas sobre violência contra mulheres e meninas. Como consequência por ter expressão sua opinião no programa Moral Maze da BBC Radio 4 em 15 de novembro de 2017, algumas reclamações foram feitas por um ou mais membros do partido WEP.

Interrogada por Michael Burke, ela questionou que se adultos de bom senso não confirmam as afirmações de uma criança de sete anos de que ela é, por exemplo, um astronauta, por que transativistas querem que pais “reafirmem” cada criança que sugere estar “no corpo errado”. Ela também disse que “Uma sociedade genuinamente progressista permitiria aos meninos e meninas ser qualquer coisa que quiserem, então estou absolutamente feliz se garotos quiserem usar vestidos… Mas o problema é quando decidimos que a criança, genuína e internamente, em algum sentido, não é um garoto, mas uma garota, e aí que mora o perigo. Então, acredito que não há nada de errado se um menino quiser usar vestidos.

Depois de uma audiência disciplinar, o Comitê Executivo do WEP atendeu às reclamações e, em 20 de Fevereiro de 2018, ela foi suspensa do cargo para o qual foi eleita.

No final de novembro de 2017, uma reclamação foi feita à universidade empregadora de uma professora sênior de Humanidades a respeito de suposta transfobia no Twitter. Ela recebeu uma carta informando que estava sob investigação formal por transfobia, o que podia levar a procedimentos disciplinares. A questão foi levada às últimas instâncias da Universidade pelo Diretor de Recursos Humanos. A reclamação foi feita por um estudante de uma outra escola e disciplina. Ela foi acusada de transfobia porque retuitou o link para um blog que “trocava o gênero” de um artista performático de gênero fluido. Alegaram que isso era evidência de que ela poderia errar o gênero de algum estudante e que suas visões políticas poderiam dar uma impressão injusta a respeito dos estudantes transgêneros. A reclamação dizia que “se a Dra. X mantiver essas opiniões, não deveriam permitir que ela continue ensinando na universidade”. Depois de dois meses de processo investigativo ela foi considerada não-transfóbica. Entretanto, o estresse experienciado por causa da investigação foi imenso e resultou que ela teve que pôr de lado vários compromissos acadêmicos, em detrimento de sua reputação profissional. Alguns colegas de fato se aproximaram dela para perguntar se estava gravemente doente. Um deles admitiu que pensou que ela tivesse sido diagnosticada com câncer.

Todos esses casos são lembretes incisivos para as mulheres de que as suas reputações pessoais e profissionais são vulneráveis a ataques se elas se engajarem publicamente no debate sobre identidade de gênero. Isso cria um clima de medo e silêncio e, como tal, muito poucas mulheres podem falar contra essa forma de discriminação e ataque ou se engajar em debate público. As poucas mulheres que decidem falar o fazem sobre um custo alto pessoal e sofrem backlash [2] inevitável por fazê-lo.

6.0 Silenciamento através da vergonha e da exposição pública

A exposição pública de mulheres como “terfs” agora é comum. Algumas mulheres têm sido “expostas” nas mídias sociais se identificadas como alguém com opiniões críticas de gênero. Existem listas públicas com nome de usuário de mulheres identificadas como “terfs” no Twitter. A lista de bloqueio do Twitter Terfblocker.com atualmente contém 2638 nomes. O critério para caso você seja colocada nessa lista não é claro. Meu próprio nome de usuário (@asknic) está nessa lista a despeito de eu nunca ter postado um único tweet transfóbico. Meu “crime” é simplesmente que me oponho publicamente às mudanças da GRA 2004 e que escrevo artigos fundamentados em evidência que promovem um entendimento e consciência maiores das preocupações das mulheres nesta área.

O Terfoutlabour publicou uma lista de mulheres membros do Partido Trabalhista que publicamente apoiaram a campanha de financiamento coletivo feita para bancar uma futura objeção legal contra a política do Partido Trabalhista de incluir pessoas auto identificadas como mulheres trans na All Women Shortlist. O
Ato da Igualdade de 2010 dispõe em lei como o All Women Shortlist tem por objetivo o aumento da representação política das mulheres e é restrita somente a membros da categoria protegida por lei do sexo feminino. Pessoas auto identificadas como mulheres trans mantém seu status legal de [pertencentes ao] sexo masculino a menos que recebam o certificado de reconhecimento de gênero para mudar seu status legal para o sexo feminino. Entretanto a política do partido trabalhista tem sido a de permitir legalmente que trans do sexo masculino (sem o certificado) tenham acesso à All Women Shortlist. Essa política está atualmente sob revisão do partido depois de reclamações de que isso não é permitido sob a lei atual. Todavia os três ativistas que criaram esse site para expôr os nomes dessas mulheres alegam que aquelas que apoiam a campanha de financiamento coletivo “intimidam, vitimizam e assediam mulheres trans do Partido Trabalhista”. Um exemplo de carta é dado para que se possa reportar mulheres específicas para “qualquer oficial do partido que você ache que deva ser notificado desse flagrante preconceito”.

Transativistas expõem dados pessoais de mulheres que resistem ao seu assédio online.
Transativistas expõem dados pessoais de mulheres que resistem ao seu assédio online.

Há também contas no Twitter cujo único propósito é “expôr” mulheres.

7.0 Silenciamento através da rejeição das opiniões das mulheres

Impedir mulheres de falar em eventos universitários é comum, indo desde feministas radicais bem conhecidas como Julie Bindel e Germaine Greer até a apresentadora do Women’s Hour Jeni Murray. Isso agora está sendo ampliado até campanhas de grupos de base de mulheres comuns que desejam falar sobre o impacto das leis transgêneros sobre as mulheres. Acontece tanto no Reino Unido quanto em escala global.

7.1 Grupos de mulheres estão sendo impedidos de falar

O Fair Play For Women foi convidado a falar em um evento público sediado pelos departamentos de Política e Sociologia da Universidade de Oxford. Porém, depois de anunciado, os organizadores decidiram cancelar o evento por causa de reclamações de transativistas. Fair Play For Women também foi recentemente convidado pela equipe da BBC a falar sobre a importância de relatos precisos e equilibrados a respeito do debate trans e porque é tudo tão controverso. O evento aconteceu, mas o pessoal da BBC teve a precaução de não anunciar a lista de convidados antes para o caso de acontecerem protestos ou reclamações de transativistas.

Um encontro organizado pelo grupo “We Need to Talk UK tour” estava originalmente marcado para acontecer no clube de futebol Millwall. Porém, depois que o local foi anunciado, o MillWall cancelou dizendo “Nunca vimos algo assim, se referindo aos apelos e reclamações. Em vez disso, o evento foi presidido pelo parlamentar conservador David Davis na Câmara dos Comuns, que disse, em resposta à enxurrada de reclamações, “eu nunca vi algo assim em 13 anos sendo parlamentar”.

O Woman’s Place (WPUK) também organizou encontros abertos por todo o Reino Unido para discutir as implicações das mudanças na lei de reconhecimento de gênero. A política do WPUK é de só divulgar o nome do local logo antes do evento apenas para quem possui ingresso. A prática visa evitar que transativistas tentem intimidar os locais onde acontecem os eventos, de modo a levarem ao cancelamento ou fazer em protestos para perturbar o encontro.

Transativistas ameaçam impedir encontro de mulheres.
Transativistas ameaçam impedir encontro de mulheres.

7.2 Mulheres comuns estão sendo banidas de fóruns online

Agora é comum que mulheres sejam removidas ou tem os seus comentários deletados de grupos de Facebook se postar em algo considerado “terf”. Seguem abaixo alguns comentários que tenho recebido de mulheres comuns a respeito de suas experiências:

‘Uma mulher artista amiga minha foi “convidada a se retirar” de um grande grupo de mulheres artistas da Escócia por dizer que mulheres têm vaginas — ela não é nem feminista ou politicamente ativa.’

‘Foi em um grupo de aleitamento materno. Tomei uma bordoada e tanto. Eles também também tentaram me “expor” no Mumsnet, mas pegaram a pessoa errada. Foi muito ruim, eu tive que desativar o Facebook por um tempo porque acabei recebendo algumas mensagens me dizendo que alguns membros estavam tentando levantar meus dados. Ainda estou abalada, porque era um ótimo grupo até então.’

‘Do grupo Worldschooling — por discordar num tópico sobre qual era o melhor lugar para levar uma criança de 7 anos para ter acesso a tratamentos hormonais.’

‘Do grupo Science-aware Natural Parenting — não fui oficialmente kickada, mas saí depois que muitos outros foram, e quando ficou claro que dizer que “garotos têm pênis” infringe a regra deles de “não usar linguagem transfóbica”.’

‘Não fui banida mas levei uma advertência de um dos administradores no Nerds With Vaginas que minhas opiniões eram “perigosamente próximas de transfobia”. Ela ficou bem puta que muitos membros gostaram do meu post sobre um garoto transgênero que queria processar sua escola por fazê-lo usar a enfermaria para se trocar. Perguntei se ele tinha considerado os sentimentos das meninas adolescentes.’

‘Fui banida do Science-aware Natural Parenting por perguntar o que as pessoas pensavam a respeito do documentário sobre crianças trans de Louis Theroux. Eu sabia muito pouco a respeito de gênero naquela época, mas o objetivo do grupo é que haja conhecimento baseado em evidência, e eu estava perguntando que evidências haviam para a transição de crianças. E quando continuei questionando, me disseram que eu era uma terf transfóbica, e fui banida do rupo sem nenhuma apelação. Foi uma membra regular do grupo por dois ou três anos, e descobrir tudo isso foi realmente muito entristecedor na época.’

Me relataram muitos outros grupos onde mulheres têm sido banidas por postarem visões críticas de gênero ou questões, comentários ou artigos a respeito da biologia das mulheres. Esses grupos incluem o Alternativa Left Women, Dismantling Misogyny, So you want to raise a feminist, How to raise a feminist, Cardiff Feminist Network, Cardiff Feminist Women, Anarcho Feminism 101, Gender Neutral Parenting, Slings and other things off topic, o fórum do Partido Trabalhista, ecologistas científicos… E devem haver muitos outros.

Transativistas exigem que pessoas do sexo masculino possam fazer parte de grupos de escotismo restrito a meninas.
Transativistas exigem que pessoas do sexo masculino possam fazer parte de grupos de escotismo restrito a meninas.

Este [acima] é um exemplo de uma guia de escotismo para meninas (Girl Guiding) que estava preocupada com a segurança em relação ao risco de gravidez e assédio sexual. A política trans para garotas escoteiras é a de permitir que garotos que se identificam como meninas compartilhem a mesma tenda que as meninas, sem o consentimento informado de seus pais. Ela foi reportada e banida do fórum do Facebook por levantar essas preocupações.

7.3 Mulheres lésbicas têm sido silenciadas e sua sexualidade está sendo redefinida

Mulheres lésbicas são um grupo particularmente vulnerável uma vez que são alvo tanto de crimes de ódio homofóbicos quanto misóginos. O conceito de identidade de gênero bate de frente com o sexo biológico como marcador de diferença quando alguém é homem/macho ou mulher/fêmea, redefinindo os conceitos existentes de duas categorias protegidas dentro do Ato da Igualdade; a saber sexo e orientação sexual. Se um homem heterossexual (sexualmente atraído por mulheres) se identifica como uma mulher (sexualmente atraída por mulheres), sua orientação sexual é definida como sendo homossexual. Assim, agora temos pessoas nascidas homens com pênis e testículos dentro das possibilidades de relacionamento para mulheres lésbicas. Lésbicas que manifestam sua preferência por mulheres lésbicas são condenadas como transfóbics por fazê-lo. A teoria transgênero questiona todo o conceito de atração pelo mesmo sexo e é considerada por alguns como homofóbica. Dessa forma, alguns países (como o Irã), onde a homossexualidade é punível com a morte, já têm uma política de transições financiadas pelo estado para transicionar homossexuais para o gênero oposto. Isso efetivamente converte a orientação de uma pessoa gay para heterosexual e é claramente usado como método de conversão. Esses casos destacam o conflito inerente entre as bases teóricas da identidade de gênero (baseada em gênero) e a sexualidade (baseada em sexo). Mais informações a respeito disso podem ser encontradas na página da Lesbian Rights Alliance (LRA) aqui.

Esses exemplos mostram o banimento de uma mulher lésbica que descreveu sua sexualidade como apenas atraída por outras mulheres. Ela foi banida por transfobia e trans-misoginia. Isso é comumente referido como “teto de algodão” (o algodão se refere ao algodão da calcinha das mulheres lésbicas, através do qual homens que se dizem lésbicos esperam poder passar). Muitos outros exemplos de mulheres lésbicas sendo denunciados por suas preferências sexuais podem ser encontrados aqui.

Necessidades específicas de mulheres são rotuladas como "essencialismo biológico" por transativistas.
Necessidades específicas de mulheres são rotuladas como “essencialismo biológico” por transativistas.

Isso se combina com a pressão social para que mulheres lésbicas que se vestem ou se apresentam de uma maneira mais “masculina” transicionem e se tornem homens trans heterossexuais. Isso é particularmente evidente entre a geração mais nova que está rejeitando a identidade lésbica em favor de uma identidade de homem trans ou não-binário. 70% de todas as adolescentes atendidas no serviço especializado em gênero do NHS (Serviço Nacional de Saúde, na sigla em inglês) são meninas lésbicas. A comunidade jovem lésbica é agora virtualmente não existente e a falta de modelos e exemplos de lésbicas para essas criança é pior do que nunca.

A comunidade lésbica está sendo cooptada duplamente, tanto na diminuição da representação quanto na redefinição do lesbianismo para incluir sexo com pênis na vagina. Infelizmente, a mudança de prioridades das organizações LGBT em direção aos projetos transgênero significam que o suporte a comunidade lésbica é ausente em um tempo em que elas mais precisam de ajuda. Mulheres lésbicas que falam dessa discriminação e da homofobia que sofrem estão agora sendo silenciadas e desacreditadas com base em transfobia. Não se está aqui em igualdade de condições. É irônico que, talvez a época em que a sociedade mais considera e mais aceita os direitos dos homossexuais, é a mesma época em que alguns setores da comunidade gay estão sendo severamente marginalizados.

7.4 As vozes das mulheres estão sendo desacreditadas

Mesmo quando as opiniões das mulheres conseguem ser ouvidas elas estão desacreditadas e desconsideradas. O exemplo mais recente tem sido as reações a publicação do pacote de recursos para escolas Transgender Trend.

Organizações transgênero atualmente provém para escolas treinamento e aconselhamento em assuntos do tipo, mas eles promovem somente a afirmação (de gênero) e o modelo de transição social. Em contraste, o guia do Transgender Trend é baseado na proteção do bem-estar dos direitos de todas as crianças, e é voltado para a criação de uma escola saudável para todos, incluindo crianças não conformadas ao gênero e àqueles que se identificam como transgêneros. Esse dia está alinhado com a abordagem “ponderada” dos Serviços de Desenvolvimento voltados à Identidade de Gênero (GIDS, na sigla em inglês) do NHS, especializado em apoiar crianças nas questões de gênero, e tem sido recomendado aos pais pelos chefes do serviço. Mesmo assim, os ataques venenosos de ódio direcionados ao guia e sua autora principal têm sido terríveis, ainda que esperados. É normal agora que qualquer um falando fora da ortodoxia trans seja ridicularizado e difamado.

Na imagem, transativistas assediam até mesmo seus aliados, caso fujam de sua narrativa.
Na imagem, transativistas assediam até mesmo seus aliados, caso fujam de sua narrativa.

Stonewall sugere que o guia seja destruído. Outro tweet sugere que ele deva ser arquivado. O ativista transgênero Guiliana o associa ao Minha Luta, de Hitler. A natureza extremista dessa campanha de difamação tem como intenção silenciar o debate e acabar com a reputação da autora do relatório.

Transativistas incentivam hormonização e sexualização precoce.
Transativistas incentivam hormonização e sexualização precoce.

O trans ativista Shon Faye chama o Transgender Trend de uma organização anti-trans da linha de frente, e que o guia encoraja a terapia de conversão e transfobia institucional.

Um contraste extremo com um tweet anterior de Shon Faye, que resume seu próprio guia para escolas infantis na frase “chupe pau, coloque peitos logo”.

8.0 Conclusão

Através do uso de exemplos reais, este relatório mostra como algumas mulheres estão sendo injustamente visadas e assediadas com base em suas opiniões. Incidentes de ódio e crimes são motivados por misoginia e também homofobia. O resultado é que as vozes de algumas mulheres estão sendo silenciadas através de medo, vergonha e rejeição no atual debate a respeito de sexo e gênero. Isso significa que as leis podem ser mudadas sem que sua opinião seja considerada, a despeito de as mulheres serem uma parte importante no debate e com interesses em jogo que podem ser impactados com qualquer uma dessas mudanças. É crucial que essa forma de ódio misógino seja reconhecido pelo que é, e que não seja tolerado. Isso é essencial para assegurar um debate justo e livre a respeito de sexo e gênero por setores mais amplos da sociedade.


Notas

[1] Maior incidente violento na história do esporte britânico, o chamado Desastre de Hillsborough começou no estádio homônimo como uma briga entre torcedores do Liverpool e do Nottingham Forest. Noventa e seis pessoas morreram e mais de setecentas ficaram feridas durante a confusão, ocorrida em abril de 1986.

[2] Backlash é o termo que descreve uma reação contrária a algum evento, pessoa ou coisa que tenha ganhado notoriedade. Significa literalmente “contra-ataque”, e foi popularizado na teoria feminista com o livro Backlash: o Contra-Ataque na guerra não declarada às mulheres de Susan Faludi (1991).

Sou uma mulher atribulada. E trago questionamentos.

O que está acontecendo?

Como as nossas organizações de Esquerda e comunidade de resistência se tornaram um lugar de medo e ameaças para tantas mulheres? Por que feministas comprometidas de longa data estão temendo pelos seus empregos, suas organizações, seu serviços centrados em mulheres? Como chegamos ao ponto de lésbicas não poderem definir sua sexualidade como “atração por pessoas do mesmo sexo” sem serem rotuladas de exclusionárias? Por que nossas meninas estão tendo que rejeitar o rótulo de “mulher” para poderem fugir das normas da feminilidade compulsória, e fugir de estarem infinitamente disponíveis ao olhar, atenção e regulação masculina? Por que há muito mais garotas trans-identificadas do que lésbicas? Por que estamos apoiando que mulheres jovens amputem seus seios saudáveis? Cadê a proteção da sociedade à fertilidade futura das garotas, uma vez que lhes dão testosterona na puberdade? Onde o nosso feminismo deu tão errado?

Essas perguntas me assombram, e também à vasta maioria das mulheres. Somos as mulheres que lutaram pela nossa libertação, que organizamos abrigos e centros de apoio para mulheres vítimas de estupro e violência, que demos boas vindas às pessoas trans nas nossas vidas sociais e nos nossos movimentos, que defendiam os seus direitos e estávamos a disposição quando eles sofriam abuso.

Mas o que vemos agora é um movimento pelos direitos dos homens venenoso que encontrou o jeito perfeito de enfraquecer, atacar e silenciar aquelas feministas incômodas que ainda insistem que as palavras “mulher” e “homem” significam o que o dicionário diz que elas significam — humana adulta do sexo feminino, e humano adulto do sexo masculino. E que apontam que isso é importante porque os últimos exploram as primeiras, e se nós não pudermos nomear a nós mesmas e aos nossos opressores, não podemos articular uma posição em uma sociedade patriarcal, muito menos nos organizar para acabar com ela. O “jeito perfeito” é nos dizer que eles são a gente, que os nossos limites são exclusionários, que nossa análise a respeito do sexismo, do patriarcado e da misoginia é preconceituosa, que homens que estão insatisfeitos em seus papéis nessa sociedade não têm de fazer nada para destruir a masculinidade compulsória. Em vez disso, eles têm o absoluto direito de se identificar como nós, e não só isso, mas são, na verdade, muito mais oprimidos que nós, afinal “nasceram no corpo errado”, um conceito desumano que contradiz todo o pensamento progressista a respeito de uma visão positiva sobre o corpo.

Além disso, se nós mulheres, nós feministas, nós mulheres da esquerda, que passamos a vida defendendo a abolição dos papéis de gênero, que lutamos com unhas e dentes pelos nossos amigos e parceiros homens, nossos filhos e irmãos, para que fossem libertos das restrições da masculinidade, se ousarmos questionar esse Admirável Mundo Novo, seremos caçadas, linchadas, caladas e excomungadas dos nossos movimentos sociais. Então, segundo eles, é melhor a gente se calar.

Bem, nós ainda não estamos mortas, e algumas ainda resistem.


Tradução do texto: LIVERPOOL RESISTERS. “I am a troubled woman. I have some questions.“. Agosto de 2018.

Masculinismo de esquerda

A batalha no campo ideológico é uma batalha pela posse dos significados. Uma vez com poder para nomear e conceituar — e a infraestrutura necessária para fazer esses nomes e conceitos circularem por aí —, é possível fazer um baita estrago na mente das pessoas. Quando um dos lados da batalha (são muitos, não apenas dois) fraqueja na hora de captar as distorções desses nomes e conceitos, a chance de se fazer a famosa cagada é bem alta. Uma galera que tem deixado bastante a desejar nesse sentido é a tal da esquerda. Fragmentada (pra variar) e sem um projeto político coletivo realmente significativo, esse grupo de pessoas autoidentificadas com os valores desse lado do espectro político grita palavras de ordem e frases feitas que não faz a menor ideia de onde vieram. Na primeira oportunidade, prova a eficácia da Lei de Godwin na internet com acusações rasas de “fascismo”.

Um ato comum desse povo da esquerda é comparar feministas radicais com a direita. A Lila já fez um texto que vale muito ser lido sobre isso, mas as ideias aqui meio que se completam [1]. Na mesma linha de raciocínio que a minha, ela destaca que, não é porque dois grupos apontam para o mesmo problema que eles enxergam as suas implicações de modo igual. Pelo contrário: afirmar esse tipo de coisa é atestado de desconhecimento completo das discussões que acontecem sobre assuntos onde qualquer um dos lados do espectro político têm interesses comuns. É de um simplismo que, se não estivéssemos tão acostumadas com o simplismo com que a esquerda costuma tratar “a questão da mulher”, já tínhamos desistido e/ou botado fogo na porra toda. Se dois grupos apontam para um problema, ainda que com visões tão díspares, isso só prova que o problema existe e que existe consenso, pelo menos, a respeito dessa existência. Tem gente que é canalha, mas canalha não é sinônimo de burro.

Quando a esquerda aponta para o movimento das mulheres e, conforme seus próprios critérios difusos, tenta determinar qual o modo correto de se fazer feminismo, é possível identificar aí pelo menos dois problemas. O primeiro deles é o problema óbvio de sentar no próprio rabo e fazer de conta que eles, a esquerda, sabe jogar o jogo político, algo que os últimos anos têm mostrado que não é verdade. O segundo problema é o de assumir a priori um caráter “identitário” para o feminismo, como se a luta do movimento das mulheres fosse contra “estereótipos” e “discriminações”, exatamente igual a qualquer outra luta de “minorias” que não possua a mesma prioridade que a tão sonhada e prometida revolução dos trabalhadores. Fato é que a esquerda nunca deu muito espaço para as mulheres para além da copa e da cozinha; elas é que tiveram de tomá-lo para si dentro desses movimentos mistos, isso quando não vencidas pelo cansaço.

Todo esse prelúdio foi só para preparar o terreno para o que quero abordar a seguir, o grande motivador para eu ter tirado a poeira do blog: o famigerado vídeo do MamãeFalei na oficina de masturbação feminina [2].

Houve todo um cuidado por parte das organizadoras do evento de deixar claro que se tratava de um evento para mulheres. Mulheres mesmo, as fêmeas da espécie humana. O problema é que relacionar “fêmea humana” ao termo “mulher” é hoje um pecado conceitual. Carreiras políticas e profissionais de mulheres estão sob constante risco de desmoronarem por conta do uso de uma palavra “errada”, mais até que as carreiras políticas e profissionais de homens abusadores, mesmo quando esses abusos acontecem dentro dos ambientes da própria esquerda. Seja por um medo legítimo de desenhar sem querer um alvo nas costas ou por uma crença legítima de que a mulheridade é uma essência a ser sentida a nível cerebral e manifestada no vestuário da seção feminina da Pernambucanas, essas mulheres abriram mão dos termos (e, consequentemente, dos espaços) que a nós nos são caros em nome da “inclusão” (de quê? de quem?), e não souberam peitar um babaca vestido de cachorro-quente cor-de-rosa.

O resultado é que um evento de mulheres voltado a educação sexual é dissolvido em poucos segundos pelo simples fato de o troll profissional que é o MamãeFalei dizer que é uma mulher. A autodeclaração nesse sentido é soberana, e nenhuma das presentes conseguiu questioná-lo quando ele pediu um critério objetivo que pudesse justificar sua exclusão do evento. Ter pinto numa oficina sobre masturbação feminina, aparentemente, não era um deles. Mulheres, e o ser/estar num corpo fêmea, com tudo o que isso acarreta, não são mais uma prioridade no movimento das mulheres, porque algumas pessoas que não são mulheres podem alegar que o são. Pela própria lógica das ideias antifeministas que se infiltraram no movimento através da livre possibilidade de se cruzar essa linha definidora, é impossível questioná-las e estabelecer limites. Não se pode usar certas palavras, porque qualquer escorregada no correto uso da novilíngua masculinista de esquerda pode levar ao temido “essencialismo”, seja lá o que queiram dizer com isso.

Não é a primeira vez que esse tipo de coisa acontece, e não vai ser a última. Não apenas porque casos assim abundam na história recente dessa “insurgência feminista” que vemos acontecer na internet nos últimos anos — vide o caso do Encontro das Mulheres Estudantes poucos anos atrás, onde um sujeito barbado emprestou uma saia, trocou de nome e insistiu para participar de um evento exclusivo de mulheres; vide, também, o caso do ato do último 8 de março no Rio (8MRJ), onde mulheres foram ameaçadas de violência por homens com escolhas peculiares de vestimenta apenas por não se submeterem à ideia de que 2 + 2 = 5; ou ainda a última Caminhada das Lésbicas e Bissexuais de São Paulo, onde um grandalhão de vestido e batom disse em visível tom de ameaça que pintos são vaginas com formatos diferentes e que quando mulheres não os aceitam em suas relações lésbicas, isso o deixa triste e é errado. As histórias da Primeira e Segunda Ondas feministas são cheia de exemplos didáticos de problemas que até hoje as mulheres enfrentam em militância mista.

Quando as mulheres deixam essas infiltrações masculinas/masculinistas acontecerem, seja porque esses homens são seus aliados, seus maridos, seus “iguais” (no caso do transativismo), ou seus companheiros de luta, o movimento das mulheres enfraquece. O MamãeFalei estava lá sob o pretexto frouxo de “meus impostos, dinheiro público, tenho direito de estar aqui” [3] — obvious troll is obvious —, mas seu ato provou o ponto das feministas radicais: basta um homem alegar que é mulher, e as mulheres aceitarem essa redefinição (acreditando ou não na pessoa que faz essa autoafirmação), para um espaço de mulheres deixar de existir.

Nosso problema principal enquanto movimento político — e, principalmente, como movimento de massa supostamente politicamente engajado e ligado em rede — é não saber fazer política. Quando não tercerizamos essa política a quem “entende”, a quem tem “acesso”, a quem “já está lá dentro e é nosso aliado” (homens), interpretamos mal a frase da Carol Hanisch e atribuímos a vontades individuais de mulheres específicas o rótulo de “pauta feminista”, tomando como certo tudo o que temos hoje. Ignoramos a história e os feitos do movimento das mulheres. Não fazemos a mais remota ideia de como foi que conseguimos, em menos de cinquenta anos, ir de um estado onde tínhamos os mesmos direitos e autonomia de uma criança a poder trabalhar fora e sair de casa sozinha tarde da noite, apesar da possibilidade de assédio e violência. Precisamos tomar não só a palavra e os espaços, mas criar os nossos próprios, e resistir às tentativas de invasão que, certamente, vêm. Não porque temos um direito adquirido e legitimado pelo nosso “local de fala”, mas porque é urgente que o façamos. Precisamos do feminismo , e não só depois que acontecer a tão esperada revolução do proletariado.


[1] Na mesma época em que a Lila estava escrevendo o texto dela, eu também estava rascunhando esse aqui. Acabei me enrolando porque obviamente sou muito mais incompetente nesse negócio de escrever que ela.

[2] Aqui é a deixa para você, querido e dissonante leitor de esquerda, incluir sua comparação rasa de mim com militantes de direita. Vai que é tua, campeão!

[3] A assembleia legislativa da cidade dele garanto que não invadiu pra saber o que fazem com seus impostos.

A pornografia como autoridade sexual: como a terapia sexual promove a pornificação da sexualidade

Traduzido de: TYLER, Meagan. “Pornography as Sexual Authority: How Sex Therapy Promotes the Pornification of Sexuality”. In: Big Porn Inc.: Exposing the Harms of the Global Pornography Industry. Melbourne: Spinifex Press, 2012.

A pornografia se infiltra cada vez mais em vários aspectos de nossas vidas. Frequentemente quando discutimos essa “pornificação” (Paul, 2005), trazemos exemplos que todos podem ver e que são fáceis de se reconhecer: moda, arte, propaganda, programas de TV, filmes. Mas a pornografia também está se infiltrando em áreas que não são tão óbvios para a vida pública, para o dia a dia: desde as práticas empresariais de empresas globais (Davies and Wonke, 2000; Lane, 2000; Rich, 2001) até as práticas em nossas relações íntimas (Dines, 2010; Häggström-Nordin et al., 2005; Paul, 2005; Tydén and Rogala, 2003, 2004).

Esses processos públicos e privados de pornificação não apenas envolvem a crescente exposição e influência da indústria pornográfica como também a intensificação da sua legitimação. Uma das formas mais proeminentes nas quais a pornografia se apresenta como legitimação da área de terapia sexual. Hoje, na terapia sexual, a pornografia não é apenas considerada como uma parte aceitável da prática sexual, mas um modelo sexual ideal a ser seguido. É a pornografia sendo apresentada como a autoridade sexual suprema, e ela oferece sérios riscos à libertação das mulheres. A recomendação de consumo de pornografia pode ser encontrada em muitos livros de auto-ajuda sexual, mesmo aqueles escritos por terapeutas sexuais conhecidos e respeitados (ver por exemplo Heiman and LoPiccolo, 1992; Morrissey, 2005; Zillbergeld, 1993). A pornografia é mais frequentemente recomendada como uma ajuda para os casais. De acordo com os terapeutas Striar and Bartlik, que escreveram sobre o uso da “erotica” na terapia sexual, a pornografia deve ser vista como um modo de “adicionar diversidade a uma relação monogâmica” (Striar e Bartlik, 1999, p. 61). Eles afirmam, particularmente, que ela pode ser benéfica para “casais com fantasias sexuais incompatíveis” (p. 61).

Este é um dos meios mais comuns pelos quais a pornografia é introduzida como parte da terapia sexual. A pornografia é usada para “introduzir o/a cônjuge a uma nova experiência sexual, que ela ou ele poderiam, de outro modo, achar desagradável ou inaceitável” (p. 61). Em casos como este, a pornografia, sob o conselho dos terapeutas, é promovida como uma ferramenta para ser usada quando se quer convencer um/a cônjuge indisposta/o a participar de um ato sexual do qual ela/e não deseja tomar parte. A ideia de que as mulheres deveriam “experimentar” e performar atos sexuais que não desejam se tornou um modelo popular para o comportamento sexual feminino em relações heterossexuais desde a “revolução sexual” dos anos 60. É uma ideia frequentemente reforçada e legitimada através da terapia sexual (ver Jeffreys, 1990). As mulheres ainda são encorajadas por terapeutas a satisfazer sexualmente seus parceiros homens, ainda que não tenham desejo em fazê-lo, ou ainda que experimentem dor ou desconforto (Tyler, 2008).

Por exemplo, em “Becoming Orgasmic”, um manual de auto-ajuda sexual largamente recomendado para mulheres, os terapeutas Heiman e LoPiccolo encorajam as mulheres a tentar sexo anal (uma prática sexual cada vez mais presente na pornografia) caso o parceiro, homem, esteja interessado na prática. O conselho dos terapeutas é: “Se houver algum desconforto, tente novamente em algum outro momento” (Heiman and LoPiccolo, 1992, p. 187). A premissa central é de que a dor e o desconforto das mulheres não é uma razão aceitável para descontinuar a prática, mas na verdade, uma razão para que as mulheres passem por mais “treinamento”, “formatação” e coerção. Em vez de compreender que o uso da pornografia como estratégia coerciva é prejudicial, os sexólogos exaltam as virtudes da pornografia, afirmando por exemplo que ela é útil para “dar ao usuário permissão para emular tal comportamento” (Striar e Bartlik, 1999, p.61). É exatamente o tipo de comportamento que se espera que mulheres imitem da pornografia que expõe ainda mais a forma com que a promoção e legitimação da pornografia na terapia sexual prejudica a libertação das mulheres. Mesmo o material pornográfico “mais respeitável” que é recomendado por terapeutas sexuais, práticas sadomasoquistas e atos como dupla penetração, ou DP como ela é conhecida na indústria pornô, podem ser facilmente encontrados.

Peguemos como exemplo o Sinclair Intimacy Institute, gerenciado por um “conhecido e respeitado sexólogo, Dr. Mark Schoen”(Black, 2006, p. 117). O instituto é constituído majoritariamente por uma loja que vende pornografia recomendada por terapeutas. No site do instituto, clientes são assegurados que a pornografia disponibilizada ali foi aprovada e selecionada por terapeutas que escolhem apenas “produções sexualmente positivas de alta qualidade” (Sinclair Intimacy Institute, 2007). Entre a lista de “produções sexualmente positivas” estão títulos pornográficos conhecidos como “O diabo na carne de Miss Jones”, “Jenna Loves Pain” (Jenna adora Dor) e “Garganta Profunda”. A escolha de Garganta Profunda é particularmente reveladora, dada a quantidade de publicidade em volta das circunstâncias de sua produção. Linda Marchiano (Linda Lovelace, na época da filmagem) detalhou em seu livro Ordel o abuso extensivo que sofreu nas mãos de seu marido e cafetão, explicando como ela era forçada, às vezes sob a mira de uma arma, a atuar em pornografia (Lovelace, 1980). Ela uma vez afirmou que “toda vez que alguém assiste aquele filme, a pessoa está me vendo ser estuprada” (quotada em Dworkin, 1981). Um filme assim ser rotulado como “sexualmente positivo” por terapeutas deveria ser a causa de uma grande preocupação. Mas Garganta Profunda não é um caso isolado. Tanto o diabo na carne de Miss Jones quanto Jenna Loves Pain receberam comentários elogiosos na proeminente revista da indústria pornográfica, Adult Video News. Os editores da Adult Video News (AVN) deram a Miss Jones uma recomendação estrelada, dizendo que “O sexo é universalmente bom e genuinamente agitado, lancinante, com dupla penetração e chicotadas na cena final…” (Pike-Johnson, 2005b, n.p.).

Tenha em mente que esses são os títulos com comportamento recomendados para que os casais assistam e emulem. Como se o título não fosse problemático o bastante, Jenna Loves Pain também recebeu um endosso caloroso da AVN. Seus leitores foram informados que o filme continha não apenas um sadomasoquismo moderado, mas que ela eleva os padrões do que é possível em filmes de BDSM” (Ramone, 2005b, n.p.). Para ser clara, estamos falando de filmes de fetiche que incluem atos de bondagem, disciplina e sadomasoquismo (BDSM) e infelizmente os terapeutas esperam que as mulheres imitem esse comportamento. Striar e Bartlike, por exemplo, informam seus colegas terapeutas que acessórios para facilitar as fantasias de dominação e submissão sexual como “chicotes, coleiras e vendas” (1999, p. 61) devem ser recomendados aos clientes e podem ser facilmente encontrados em sex shops. A promoção da dominação, submissão e outras práticas sadomasoquistas pode ser encontrada mesmo em vídeos de “educação sexual”aprovados por terapeutas. O Sinclair Intimacy Institute produz e distribui alguns dos mais conhecidos títulos do gênero de educação sexual. De acordo com a Dra Judy Seifer, uma das terapeutas do instituto envolvida na produção da série Better Sex (Sexo Melhor), os casais devem usar os vídeos “como livros didáticos. Pare a fita, congele a imagem, como se estivesse relendo um capítulo” (Quotada em Eberwein, 1999, p. 193). Este “livro didático”, no entanto, contém muitas, se não todas, as convenções heterossexuais da pornografia mainstream (Eberwein, 1999), incluindo temática BDSM.

A promoção do sadomasoquismo em vídeos de educação sexual é particularmente óbvia nos Kits de Better Sex do instituto, que incluem vídeos e brinquedos sexuais. Um dos kits se chama “Smart Maid” (Empregadinha Esperta). Consumidores em potencial são informados pelo website que “Se fantasiar e ser sexy para o seu parceiro faz parte de uma relação saudável…” (Sinclair Intimacy Institute, 2007b). O uso de fantasias, no entanto, é esperado unicamente das mulheres: o kit não oferece roupas masculinas. Neste caso em particular espera-se que as mulheres se vistam com uma “fantasia de empregada francesa”. O excitamento sexual advindo da servitude feminina que os homens devem experimentar é ainda destacado pelos detalhes que acompanham a caixa: “A seu dispor! Fantasias sexy e divertidas se realizarão quando ela usar esta fantasia transparente de empregadinha” (Sinclair Intimacy Institute, 2007b). Temáticas de dominação e submissão são também óbvias no kit “Tie Me Up, Tie Me Down” (Me amarre, me amarre), que inclui “algemas japonesas para mãos e pés” e uma venda de couro. A fotografia que acompanha o kit, não surpreendentemente, é a de uma mulher vestida com as assim chamadas “roupas educativas de BDSM” (Sinclair Intimacy Institute, 2007c). A promoção da pornografia na terapia sexual, no entanto, só explica em partes como ela tem sido, cada vez mais, colocada como uma autoridade em assuntos sexuais. Como consequência da legitimação que os terapeutas sexuais deram à pornografia ao longo dos anos – colocando-a como um modelo ideal no qual o sexo heterossexual deve se basear – estrelas pornô tem sido cada vez mais apontadas como “especialistas sexuais”.

Por exemplo, na coleção de 1999 “Sex Tips: Advice from women experts around the world” (Dicas sexuais: conselho de mulheres especialistas do mundo todo) editada pela terapeuta australiana Jo-Anne Baker, estrelas pornô, sadomasoquistas e mulheres prostituídas aparecem ao lado de outros terapeutas como “especialistas” (Baker, 1999). Ainda na intenção de manter essa tendência, muitas revistas masculinas do Reino Unido e EUA deram uma turbinada em suas seções de conselhos sexuais, apresentando estrelas do pornô em vez de terapeutas sexuais (Attwood, 2005, p. 85, mediabistro.com, 2007a, 2007b). Algumas estrelas pornô e mulheres prostituídas até começaram a lançar livros com seus conselhos sexuais. Títulos recentes incluem: “How to have a XXX Sex Life” (Como ter uma vida sexual pornográfica) (Anderson and Berman, 2004), que é baseado em conselhos de mulheres que foram contratadas pela produtora pornográfica Vivid dos EUA; “Sex Secrets of Escorts: Tips from a Pro) (Segredos sexuais de acompanhantes: Dicas de uma profissional) (Monet, 2005), escrito por Veronica Monet, uma ex prostituta e estrela pornô; e “How to Tell a Naked Man What to Do: Sex advice from a woman who knows” (Como dizer a um homem pelado o que fazer: conselhos sexuais de uma mulher que manja) (Royalle, 2004), de Candida Royalle, uma ex estrela pornô de alto nível, que se tornou pornógrafa. Em vez de competir com conselhos sexuais oferecidos por terapeutas com treinamento médio, os conselhos sexuais dados nesses livros frequentemente se baseia em ideias “médicas” sobre o sexo, e além disso, frequentemente reforça essas ideias se apoiando em exemplos de pornografia e prostituição.

A pornografia e a prostituição são promovidas nesses textos como a principal autoridade sexual no sexo, e lá, a erotização da submissão e degradação da mulher são temas recorrentes. Todos os livros de conselhos sexuais escritos por estrelas pornô afirmam que estar envolvida em prostituição e pornografia faz de você uma autoridade sexual, em particular, do sexo bom, do sexo que deve ser imitado. Na mesma linha dessas afirmações estão seções que oferecem dicas e sugestões para as mulheres sobre como melhorar suas próprias vidas sexuais, baseadas em experiências de mulheres prostituídas ou da indústria pornográfica. Como Monet coloca: “Você aprenderá técnicas sexuais que são a base dos serviços sexuais pagos” (Monet, 2005, p. 8). Isto é um grande problema para mulheres, considerando que essas dicas sexuais são baseadas num sistema que envolve um desequilíbrio inerente de poder, um sistema em que na maior parte, homens são os compradores e mulheres são produto (Barry, 1995, Jeffreys, 1997). É um sistema em que as mulheres são pagas para satisfazer sexualmente homens, sem a menor consideração pelo prazer das mulheres (Barry, 1995). Um sistema no qual mulheres são frequentemente abusadas fisicamente, sofrem de dissociação e frequentemente de transtorno de estresse pós traumático (Farley, 2003). É um sistema no qual a desigualdade das mulheres é fixada (Jeffreys, 1997). E ainda assim este é o modelo oferecido para que as mulheres imitem em suas vidas sexuais. Existem pessoas, incluindo os autores destes textos pro-pornografia, que tentam argumentar que na verdade a prostituição e a pornografia são liberadoras e podem acomodar e promover o prazer feminino e a igualdade (ver por exemplo McElroy, 1995; Monet, 2005; Royalle, 2006; Strossen, 1995).

Mas o conselho oferecido nestes textos com frequência mostra o quanto estes argumentos são enganosos. São frequentes as mensagens nos textos das estrelas pornô que imitam a literatura de terapia sexual, reiterando a importância de tentar algo novo para agradar o parceiro ou questionando certas inibições. Um exemplo disso vem do livro da Royalle: “Como dizer a um homem pelado o que fazer”. Ela afirma: “Nunca ache que você tem que fazer uma coisa que não quer fazer. No entanto, é sempre bom estar aberta e pelo menos dar uma chance a novas experiências. Pergunte a si própria qual é exatamente o motivo de você não querer assistir filmes pornográficos…” (2004, p.65). Royalle então explica para as mulheres que, uma vez que tenham concordado em assistir pornografia, provavelmente se depararão com algo que não querem assistir: “Talvez ele queira ver um filme ~sujo~ e você queira um filme mais leve… É simples: Se revezem! E não assista o filme de má vontade” (Royalle, 2004, p. 70). De fato, a suposição de que a princípio as mulheres não vão querer participar dos atos sexuais que são recomendados é evidente na maioria deste tipo de material de conselho sexual. Por exemplo, Monet aconselha as mulheres a “Se dar a chance de ultrapassar seu constrangimento inicial ou mesmo seus sentimentos de desprezo” (Monet, 2005, p.130). Os autores de “Como ter uma vida sexual pornográfica” também oferecem conselhos a respeito de “se libertar da culpa e das inibições” (Anderson e Berman, 2004, p.10). A sugestão, é claro, é de que esses sentimentos de desprezo ou incômodo a respeito de reencenar atos de prostituição ou imitar a pornografia são, de certo modo, infundados.

As mulheres não tem o direito de sentir deste modo e precisam trabalhar na superação de suas “inibições”. A pornografia é a ferramenta sugerida para ajudar as mulheres a aprender a ter reações sexuais mais “apropriadas e positivas”. Em “Como ter uma vida sexual pornográfica” só autores encorajam as mulheres a copiar os diálogos diretamente dos filmes pornô. Eles são francos em informar sobre o apelo sexual que envolve a degradação, explicando que: “quando a maioria das pessoas pensa em ‘falar sacanagem’ elas pensam em usar palavras sujas, até linguagem degradante para que as coisas esquentem. Quando funciona, funciona bem” (Anderson e Berman, 2004, p.49, ênfase da autora). Para exemplos práticos, os leitores são direcionados a assistir o filme pornô “Swoosh” porque o linguajar é mais vulgar, com diálogos como “É isso que você quer, sua put@ imunda?” ou “Aguente, vagabunda” (Anderson e Berman, 2004, p.49). Em uma outra intersecção entre a pornografia e a terapia sexual, um conselho parecido a respeito de “falar sacanagem” é dado pela famosa sexóloga australiana Gabrielle Morrissey em seu popular livro de auto-ajuda sexual, Urge: Hot secrets for great sex (Urgência: Grandes segredos para um ótimo sexo) (2005). Morrissey afirma que falar sacanagem serve à intenção de “esquentar o clima”, e pra apoiar essa afirmação ela apresenta um cenário em que um homem diz a sua parceira sexual: “Traga sua bucet@ molhada aqui, eu quero te f0der muito bem…” (Morrissey, 2005, p.442).

Não fica claro se Morrissey acredita que essa prática excita homens, mulheres, ou ambos, mas ela reconhece que em contextos não sexuais as mulheres consideram essas frases muito ofensivas. Ela comenta que: “Um mulher no quarto pode achar excitante que o homem grite ‘Car@lho, você é uma put@ imunda!’, mas se ele dissesse algo parecido na cozinha, provavelmente receberia um safanão…” Depois ela explica: “Tom, intenção e contexto são tudo” (p. 424). O contexto é importante porque, de acordo com terapeutas sexuais e pornógrafos, a degradação feminina é aceitável desde que seja sexual. Enquanto Morrissey afirma que as mulheres não devem ser abusadas ou ofendidas verbalmente na cozinha, o quarto é colocado como a fronteira final do respeito e da igualdade. O que nos leva novamente ao problema de basear o aconselhamento sexual num modelo de sexualidade que não é a respeito do prazer sexual da mulher, mas sim de sua subordinação sexual. Quando a terapia sexual deu legitimidade à pornografia, os processos de pornificação parecem ter se alimentado ao ponto em que estrelas pornô agora são vistas e aceitas como importantes terapeutas sexuais. Enquanto a pornografia e a terapia sexual continuarem mutuamente reforçando a compreensão de como deve ser o sexo, será necessário que as mulheres se coloquem fora desse modelo e reivindiquem uma sexualidade que é baseada em igualdade e respeito, que fundamentalmente rejeite a pornografia como autoridade sexual. E ao mesmo tempo em que é as dificuldades de desafiar este modelo crescem, cresce também a necessidade e importância de tentarmos.


Referências

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Zillbergeld, Bernie (1993) The New Male Sexuality. Bantam Books, New York.

PSOL, manifeste-se também sobre a misoginia!

Queremos que o PSOL se manifeste por seus outros membros também!!

Esta pessoa, Luiza Coppieters, é afiliada ao PSOL e está lançando sua pré-candidatura pelo partido. É uma pessoa que aparentemente está ligada ao feminismo e diz lutar contra a cultura de estupro.

Na semana retrasada nos deparamos com essa pessoa interagindo no perfil de uma mulher religiosa, comentando “imagino ela com cabelo batidinho, umas tattos, com essa carinha, beijando meu umbigo” e que ela devia “ter pegada e fazer o diabo na cama”:

Luiza Coppieters

Luiza Coppieters

Como alguém afiliado ao partido e que diz lutar pela causa feminista pode assediar outra mulher abertamente na internet?

E quando o Tomazine mandou mensagens a uma moça falando de suas genitais, mas apenas o Renato se manifestou? A ala feminina do partido não merece o mesmo respeito que a ala LGBT?

Hailey Kaas, outra pessoa filiada ao PSOL, militante da LSR, também é aparentemente ligada ao feminismo e diz lutar contra a cultura de estupro.

Com enorme choque e surpresa nos deparamos com a divulgação de um post de apologia ao incesto em sua página pessoal. Esta é a página. E este é o post de apologia — caso o link saia do ar: http://imgur.com/fqlwkaI.

Aos que não falam inglês, uma tradução livre:

“Um modo de introduzir seu filho ao sexo é o seguinte: esfregue seu pau entre as bandas da bunda dele. É um jeito bom de coçar a bunda dele e deixá-lo excitado o bastante pra te implorar por mais. Depois disso você pode usar os apelos dele como um momento de ensinamento pra finalmente enfiar o pau no cu dele.
Eu sempre amei fazer isso!”

Estes comportamentos são aceitáveis para o PSOL? Como ficam as mulheres do partido, sabendo que seus membros são capazes de assediar mulheres na internet? E que outro membro divulga material de conteúdo incestuoso? O partido está de acordo? Vocês vão se pronunciar?

A denúncia de uma pessoa transgênero contra uma mulher lésbica será mais importante que nossa denúncia contra o que está mostrado nesse texto?

Vejamos.

Feminismo indefinido

Tradução livre de: THOMPSON, Denise. Radical Feminism Today. Londres: SAGE, 2001. p. 53-58.

O lugar óbvio de se procurar por definições é, claro, um dicionário, e dicionários feministas existem. Mas eles não são muito mais úteis para esclarecer o significado de feminismo que qualquer outro texto. Por seu propósito ser dar uma visão geral o mais abrangente possível, seu principal critério de seleção é qualquer coisa chamada de ‘feminista’. Como consequência, eles tendem a reproduzir os conflitos e contradições sem resolvê-los. As entradas sob o termo feminismo são tão díspares que são de pouca ajuda ao se buscar um sentido coerente do que o feminismo é.

Geralmente essa é uma estratégia deliberada por parte dos compiladores uma vez que seu objetivo é incluir a maior gama possível a respeito do que as mulheres têm a dizer sobre cada tópico designado por um termo. Mas a palavra feminista tem um status diferente de todas as outras entradas. Quando aparece no título ela provê por definição o foco para todo o resto. Assim, o lugar a se procurar pela definição de ‘feminismo’ neste dicionário é a declaração dos objetivos e intenções das compiladoras. Cheris Kramarae e Paula Treichler, por exemplo, inicialmente os declararam largamente em termos de ‘mulheres’, por exemplo ‘documentando palavras, definições, e conceitualizações que ilustram as contribuições linguísticas das mulheres’ (Kramarae e Treichler, 1985:1). Entretanto, elas estão conscientes de que para os propósitos de um dicionário feminista, referências a mulheres somente não eram suficientes. Elas disseram que chamaram o livro de dicionário feminista em vez de dicionário das mulheres porque estavam particularmente interessadas no que tem sido dito ’em oposição à definição, difamação, e ignorância masculina a respeito das mulheres e suas vidas’’ (p. 12). Em outras palavras, elas estavam cientes de que a necessidade de se focar em mulheres vem das condições da supremacia masculina, ainda que, no interesse da diversidade, a consciência não apareça claramente e indubitavelmente sob a entrada ‘feminismo’ no texto propriamente dito.

Usualmente, porém, essa abordagem pluralista significa que o feminismo acaba por ser definido apenas em termos de mulheres. As editoras de uma obra panorâmica do feminismo australiano disseram que ‘sequer tentaram impôr uma definição singular de feminismo … por causa da diversidade, e do constante movimento, no terreno feminista’. Elas, no entanto, oferecem uma definição de feminismo nos termos de uma preocupação com a opressão das mulheres e com como mudar isso em relação à cidadania das mulheres e a sua participação na vida social (Caine et al., 1998: x). Maggie Humm, também, definiu o feminismo em grande parte em termos de mulheres — ‘direitos iguais para as mulheres’, ’em geral, o feminismo é a ideologia da libertação das mulheres, a teoria do ponto de vista da mulher’, etc. (Humm, 1989). O feminismo também é caracterizado em termos de mulheres no Prefácio: ‘a teoria feminista é fundamentalmente sobre a experiência das mulheres’ (p. xi). Sob o título ‘Dominação’, ela reconhece que ‘Uma parte distinta da teoria feminista contemporânea é sua análise da dominação masculina e toda a teoria feminista é feita de modo a mostrar como a dominação masculina sobre as mulheres pode ser encerrada’’ (p. 55); e há uma entrada para ‘dominação masculina’. Mas essa consciência não é incluída na definição de feminismo.

Sei de apenas um texto que explicitamente aponta a questão de se definir o feminismo. Karen Offen (1988) apresenta o feminismo nos termos da dominação masculina como uma questão crucial das políticas feministas. O feminismo seria ‘uma análise crítica do privilégio masculino e da subordinação das mulheres dentro de qualquer sociedade dada’, e ‘um desafio político à autoridade e à hierarquia masculina em seu mais profundo sentido’’ (pp. 151, 152). Mas sua principal preocupação era porque a palavra ‘feminismo’ tão frequentemente evoca antagonismo. Ela sugere que foi a ênfase individualista que alienou muitas mulheres (e homens), porque desconsiderava a experiência tradicional das mulheres e as diferenças das mulheres em relação aos homens. Ela argumenta que a solução seria reconhecer o importante papel ‘relacional’ que o feminismo desempenhou historicamente. ‘Feminismo relacional’, ela diz, ‘enfatiza os direitos das mulheres enquanto mulheres (definidos principalmente por suas capacidades férteis e nutridoras) em relação aos homens. Ele insiste nas contribuições distintas das mulheres nesses papéis na sociedade de forma ampla e faz reivindicações na comunidade com base nessas contribuições’’ (p. 136 — ênfase da autora). Ela reconhece que argumentos em favor da ‘diferenciação das mulheres e complementariedade dos sexos’ têm sido constantemente apropriados ‘para novamente sancionar o privilégio masculino’ (p. 154). Mas ela acredita que um feminismo que valoriza as capacidades tradicionais das mulheres para amparo e relacionamento terão mais apelo para as mulheres do que um que se baseie somente nos conceitos abstratos (e definidos por homens) de direitos individuais e autonomia pessoal.

Porém, enquanto ela está certa de que há muito o que se valorizar nas capacidades tradicionais das mulheres, ela entende erroneamente a origem do antagonismo relativo ao feminismo. O feminismo irrita, não porque seja muito abstrato e individualista, mas porque identifica a dominação masculina. O problema do feminismo com os papéis tradicionais femininos não é que as mulheres de fato os desempenhem, mas que eles asseguram a subserviência das mulheres aos homens. O problema não é que mulheres sejam nutridoras e cuidadosas (caso sejam), mas que se requeira que as mulheres nutram homens sem reciprocidade. É a perspectiva de as mulheres se recusarem servir aos homens que é tão alienante, para os homens porque irão perder seu reconhecimento não recíproco às mulheres do status ‘humano’, e para as mulheres porque perderão seu único acesso à intimidade e ao status ‘humano’ permitido dentro das condições da supremacia masculina. Mas Offen não reconhece que é a própria oposição do feminismo à supremacia masculina, uma oposição que ela mesma não achou problemática, a origem do antagonismo.

Muito frequentemente os textos feministas se equivocam na questão da dominação masculina, até mesmo, curiosamente, onde ela é explicitamente nomeada. Sandra Harding, por exemplo, reconhece claramente a existência da dominação masculina, uma vez que define ‘sexo/gênero’ como ‘um sistema de dominação masculina tornado possível através do controle masculino do trabalho produtivo e reprodutivo das mulheres’ (Harding, 1983: 311). “Dominação masculina” é sinônimo a ‘sistema sexo/gênero’ ao longo do artigo. Ela nos diz que é provavelmente imprudente ‘assumir que qualquer coisa que conheçamos como sistema sexo/gênero seja um aspecto universal da vida social humana’’, e então restringe o escopo de sua generalização à ‘vasta maioria de culturas às quais temos acesso histórico’’ (p. 323 n. 10 — ênfase da autora). Assim quaisquer culturas (hipotéticas) que não sejam dominadas por homens, ao que parece, não teriam o ‘sistema sexo/gênero’. Mas se a dominação masculina é a característica comum e invariável do ‘sistema sexo/gênero’, por que há a necessidade de se substituir ‘sistema sexo/gênero’ por ‘dominação masculina’? Dado o quão prevalente é a evasão em se nomear a dominação masculina, essa substituição não é inocente. Muitas vezes ela funciona como uma negação eufemística das relações de poder desafiadas pelo feminismo. Porque ela deveria aparecer em um texto que, ao contrário, identifica claramente as relações de poder, é intrigante.

Enquanto a maioria dos textos auto-identificados feministas que falham em reconhecer a dominação masculina como o principal antagonismo do feminismo o faz implicitamente ou por omissão, há alguns textos que explicitamente argumentam contra isso. Por exemplo, há o argumento de Judith Butler contra o que ela caracteriza como ‘a noção de que a opressão das mulheres tem uma forma singular discernível na estrutura universal ou hegemônica do patriarcado ou da dominação masculina’’. Ela continua dizendo:

A noção de um patriarcado universal tem sido amplamente criticada nos últimos anos por sua falha em considerar as atuações da opressão de gênero nos contextos culturais onde ela existe. Onde esses vários contextos foram consultados dentro dessas teorias, têm sido para encontrar ‘exemplos’ ou ‘ilustrações’ de um princípio universal que é assumido desde o princípio. Essa forma de teorização feminista tem sido objeto de crítica por seu esforço em colonizar e apropriar culturas não-ocidentais para apoiar noções altamente ocidentais de opressão, [e] porque tendem também a construir um ‘Terceiro Mundo’ ou até mesmo um oriente no qual a opressão de gênero é sutilmente explicada como sintomática de um barbarismo essencial, não-ocidental. A urgência do feminismo em estabelecer um status universal para o patriarcado no sentido de fortalecer a aparência das próprias demandas do feminismo de ser representativo ocasionalmente tem motivado um atalho para uma universalidade categorial ou fictícia da estrutura de dominação, feita para produzir uma experiência comum de subjugação das mulheres. (Butler, 1990:3–4)

Esse único parágrafo compromete toda a crítica de Butler no texto. A escassez do argumento indica tanto a crença de Butler na natureza auto-evidente da crítica, e seu desprezo pela ‘forma de teorização feminista’ que ela está rejeitando. Nenhuma evidência ou exemplos de ‘universalidade fictícia’ são dados, logo a acusação é impossível de se avaliar nessa instância em particular. Não nos é dito onde ‘a noção de patriarcado universal aparece’, nem onde ela foi criticada. Não podemos então decidir por nós mesmos se há ou não alguma forma de teorização feminista que ‘coloniza e apropria culturas não-ocidentais’ e as constrói como ‘bárbaras’, nem de que formas elas devem ser.

Seu argumento é uma instância da acusação de ‘falso universalismo’, e funciona da mesma maneira que todas as acusações do tipo contra a teoria feminista funcionam, ou seja, negando a dominação masculina. Ela caracteriza o ‘patriarcado’ como uma ‘noção altamente ocidental’. Ela insiste que ele não é apropriado quando aplicado às ‘atuações da opressão de gênero’ e ‘experiência de subjugação das mulheres’ em culturas diferentes das ‘ocidentais’, negando assim que o conceito de ‘patriarcado’ é relevante para culturas outras que não do ‘ocidente’. No entanto, ela reconhece que a ‘opressão de gênero’ e ‘subjugação das mulheres’ existe em culturas outras que não do ‘ocidente’. Mas se a subjugação das mulheres não é resultado da dominação masculina, de onde ela vem? Parece que o ‘universalismo’ só é falso quando o que está sendo ‘universalizado’ é a dominação masculina. Não há problema, ao que parece, em ver a opressão das mulheres como ‘universal’ no sentido de que ela existe em outras culturas que não o ‘ocidente’. O que é proibido sob o risco de ser acusado de ‘falso universalismo’ é nomear o inimigo.

Localizar a causa da subordinação das mulheres na dominação masculina não é ‘universalizar’ uma noção peculiar do ‘ocidente’ e aplicá-la a ‘outras culturas’. Identificar a dominação das mulheres pelos homens (e de alguns homens sobre outros homens) não é afirmar que há somente uma forma singular de dominação masculina. Mesmo no ‘ocidente’, ela tem a multiplicidade de diferentes formas. Onde quer que os interesses dos homens prevaleçam às custas das mulheres, e os interesses de alguns homens prevaleçam sobre os de outros homens, a dominação masculina existe, seja que forma tome. Enquanto algumas vezes ela é violenta e descaradamente desumanizadora, ela também é multifacetada e pervasiva na vida cotidiana. Ela toma diferentes formas em diferentes culturas sob diferentes condições históricas, contanto que a existência ‘humana’ continue a ser definida nos termos dos homens, e que a existência ‘humana’ de alguns homens exista às custas de outros homens, ela continua sendo dominação masculina, em todas as suas ‘infinitas variedades e monótonas similaridades’ (Fraser and Nicholson, 1990:35).1

Essa relutância entre muitas das que se identificam como feministas em nomear e identificar a dominação masculina requer explicação. Uma razão reiterada com frequência é a relutância em se caracterizar as mulheres como ‘vítimas’. Focar na dominação masculina, assim se argumenta, faz dos homens mais poderosos do que realmente são, e só faz as mulheres se sentirem acuadas e indefesas. Insistir na extenção do poder masculino, vê-lo como amplamente pervasivo, vê-lo a todo momento nos violando, invadindo nossas vidas, penetrando nos recôncavos profundos da nossa psique, enraizado nos nossos atos mais íntimos, é retratar as mulheres como nada mais que vítimas passivas e indefesas dos homens, ou assim se diz.

Esse tipo de argumento é comum nos círculos ‘feministas acadêmicos’. Lois McNay, por exemplo, diz que a ‘tendência de se considerar mulheres como vítimas impotentes e inocentes das estruturais sociais patriarcais … impede muitos tipos de análises feministas’ (McNay, 1992: 63, 66). Ela diz que isso falha em ‘considerar o potencial da criatividade das mulheres e sua agência sob restrições sociais’. Isso também é opressivo a algumas mulheres porque não reconhece ‘que gênero não é a única influência determinante na vida das mulheres’, e porque ‘toma as experiências das mulheres brancas como norma e as generaliza’. Ela não dá nenhum exemplo de obra feminista que supostamente exiba tais características porque, ela diz, isso é ‘bem documentado’’ (pp. 63–-4). Ela ainda diz também que há ‘indubitavelmente … estruturas de dominação, em particular construções de gênero, que asseguram a posição subordinada geral das mulheres na sociedade’ (pp. 66-7). Ela não percebe as contradições em se rejeitar ‘estruturas patriarcais sociais’ em conjunto à ‘vítimas impotentes e inocentes’ por um lado, e se aceitar ‘estruturas de dominação de gênero’ e ‘subordinação geral’ das mulheres por outro. Não está claro que tipo de distinção está sendo desenhada aqui.

Argumentos como esse cometem o mesmo erro que supostamente encontram em outros lugares. Eles interpretam as referências à dominação masculina em termos de ser algo monolítico e inevitável. Mas a exposição feminista da vitimização das mulheres tem a intenção de combatê-la, não de mantê-la. Se ela não pode ser nomeada, não pode ser enfrentada. E o projeto das mulheres de criarmos para nós mesmas formas não exclusivas e não opressivas de ser humanas é evidência suficiente de que o feminismo não define as mulheres como somente vítimas. Esse tipo de objeção falha em levar em conta o senso de poder, triunfo ou alívio que vem com uma visão de mundo clara. Falha em levar em conta a necessidade imperiosa que temos de ver o quão ruins realmente estão as coisas, e o senso de libertação que vem com esse conhecimento. Ignora a necessidade política de se saber contra o que estamos lutando, se estamos dispostas a fazer algo. Aqueles com medo de confinar as mulheres à vitimização perpétua parecem ter esquecido (ou nunca tiveram conhecimento) do alívio de se ouvir a respeito de uma opressão como opressão, em vez de uma falha meramente pessoal e idiossincrática. É toda uma libertação em si mesma dar-se conta de que a culpa recai, não sobre as falhas próprias de alguém, mas em uma realidade onde é possível dizer ‘não’. Esse é um passo vital no processo de se desembaraçar de condições opressoras. Todas nós provavelmente chegamos a um ponto de ruptura, um ponto em que já é o bastante e a angústia supera o alívio. Mas a angústia não é aliviada ao se recusar ver a dominação masculina quando ela é manifestadamente presente, ao se chamá-la de algo menos horrendo (como ‘gênero’), ou ao se retratar mulheres como poderosas quando elas não o são. Reconhecer as amarras ao qual se está sujeita é parte intrínseca de se ter consciência da própria agência moral sob opressão (Hoagland, 1988). Agência moral requer uma habilidade de se decidir não apenas o escopo mas os limites da responsabilidade de alguém, a medida em que alguém é ou não responsável, quando se pode agir, quando não se pode.

Assim, nomear a dominação masculina não é retratar as mulheres como nada além de vítimas. As mulheres também podem ser colaboradoras, podem abraçar os significados da supremacia masculina e valorizá-los como seus e os defender vigorosamente. O sistema oferece benefícios e vantagens limitadas, mas não por isso insignificantes. Ele atrai e seduz enquanto oprime. As mulheres também podem ser resistentes corajosas e perspicazes. Há um sentido no qual o desafio do feminismo à dominação masculina não é em nada ‘sobre’ as mulheres. Se refere ao sistema social que certamente opera em detrimento das mulheres, mas ao qual qualquer um pode ser cúmplice e contra o qual qualquer um pode resistir. Mas é importante esclarecer que as mulheres são as suas principais vítimas. Evitar nomear a vitimização é uma falha em se nomear a opressão. Pela mesma lógica, também não poderíamos nomear qualquer uma das grandes opressões na história. Deveríamos evitar falar sobre o Holocausto ou sobre colonialismo? Essas grandes maldades produziram incontáveis milhões de vítimas inocentes e impotentes. Por que essas vítimas podem ser nomeadas assim, mas não as mulheres vítimas da supremacia masculina? Como podemos saber o tamanho do dano feito às mulheres se estivermos proibidas de nomear esse dano? À medida em que o ‘feminismo acadêmico’ suprime qualquer referência às mulheres enquanto vítimas, ele está em conluio com a dominação.


Nota

1. Essas autoras utilizam a expressão ‘opressão das mulheres’, e não ‘patriarcado’ ou ‘dominação masculina’.

Definições

O Feminismo é um modo de olhar para as mulheres. Mas trata-se de um modo específico — pode-se chamar de enviesado se quiser —, que necessariamente reconhece a situação de sujeição das mulheres.

Dá para dizer que, na verdade, essa é a característica primeira de qualquer feminismo: ele olha para as mulheres. Mas se engana quem acredita que o Feminismo se restrinja a isso; é preciso que haja uma ação política. Apesar de reconhecer a situação das mulheres, essa idéia primordial ainda não arranjou um meio de ação. Para ser Feminismo, o feminismo carece um vetor de ação. Ele não pode ser apenas o reconhecimento de um sistema de opressão/exploração, ele tem que necessariamente pensar na ação. Ou o faz, ou deixa de ser uma luta política.

Dentro desse reconhecimento de que as mulheres são um povo colonizado, existem várias formas de se olhar para o problema — sua origem —, e de tomar uma atitude para resolvê-lo —, seu destino. Tais formas vão justamente diferir na conclusão que chegaram ao elaborar a resposta para a pergunta “Qual é a origem da opressão das mulheres?”. Tal resposta vai interferir na construção de seus modos de ação e, assim, diferir um feminismo do outro.

As duas principais correntes do feminismo

Não se sabe de qualquer pesquisa de confiança que tenha conseguido auferir a orientação política das feministas, muito menos ainda no Brasil. No entanto, dado o modo como as discussões parecem se polarizar na internet, é possível concluir que há pelo menos dois tipos de feminismo. As duas correntes têm atritos constantes, e outras ideologias podem influenciar essa orientação em outras direções:

Feminismo Liberal

Os feminismos de orientação liberal tendem a achar que o problema está nas leis, e a solução para esses problemas faria uso de uma estatégia legalista, apoiada no Direito e na legislação. A situação das mulheres mudaria conforme fossem feitas mudanças nas leis. Apesar de estarem em um ambiente que as aprisiona, acreditam as liberais, as mulheres têm condições plenas de agência para mudar sua própria situação individual; “a porra da buceta é minha”. O feminismo liberal também acredita que não se pode enfrentar diretamente seu réu: é preciso seguir, ou mudar, as normas.

As suffragettes, que lutavam pelo direito do voto foram, principalmente, feministas liberais. A conquista do voto foi importante para a conquista dos direitos civis das mulheres pois fez com que o sistema legislativo reconhecesse por escrito que as elas eram iguais aos homens em valor e merecimento. A situação das mulheres, porém, mudou pouco, e a passos lentos, depois da conquista dos votos.

São parte do feminismo liberal feministas que acreditam que uma pornografia feminista é possível, e também as que crêem que é possível escolher voluntariamente a prostituição como profissão.

Feminismo Materialista/Radical

Os feminismos de orientação radical são aqueles que acreditam que o meio e as condições de vida das mulheres estão diretamente ligados à sua situação de opressão. Elas partem do princípio de que a principal característica que une as mulheres enquanto classe é sua condição de fêmea. Elas também acreditam que mesmo os símbolos estereotípicos que se referem a mulheres têm relação com o papel que desempenham na sociedade por causa de sua fisiologia. O feminismo radical/materialista não acredita que somente as leis estão erradas; tudo, da infraestrutura à superestrutura, está fundamentalmente errado.

Boa parte das feministas de Segunda Onda que fizeram parte dos movimentos pelos direitos civis, pacifistas e também dos movimentos operários é dessa linha. Elas buscavam mudar sua situação através de ações diretas, como por exemplo a construção de abrigos para mulheres vítimas de violência doméstica e ocupações. Apesar de comemorarem e até buscarem mudanças nas leis para alterar as condições, não têm muita esperança nelas.

São parte do feminismo radical todas aquelas que acreditam que o fato de termos um papel diverso do homem na reprodução sexuada é o que nos colocou nessa enrascada.

É possível trabalhar juntas?

O maior desafio quando se trata de ação política é a representatividade numérica. Quanto mais adeptos uma causa tem, mais chances de conseguir atingir os seus propósitos. No entanto, nem todos os que se aliam às mulheres pensam nos interesses delas; é preciso equilibrar essa balança.

Porém, independente da lente que se usa ao olhar para o mundo, todas as feministas precisam entender que toda mulher tem direito à auto-organização. E, principalmente, temos direito de ter e cultivar nossas próprias convicções. Também é preciso lembrar que não dá pra culpar alguém que não queira ser feminista: nós somos barulhentas, nós incomodamos, e por vezes nos colocamos em risco para tentar construir esse movimento.

Estenda a mão a quem quiser, mas evite apontar seu alvo para uma mulher. Precisamos aprender a respeitar as divergências ideológicas, e para isso é preciso aprender mais sobre nós mesmas, ler mais sobre o movimento das mulheres, sua história e suas lutas, e também levar em conta as convicções das outras mulheres, mesmo discordando. Temos que aprender com umas com as outras: estamos juntas nesse barco.

Ainda sobre escracho

Texto publicado originalmente no blog More Radical With Age. Traduzido com permissão da autora.


A irmandade é poderosa. Ela mata. Majoritariamente irmãs.
– Ti-Grace Atkinson

Fui lembrada desse ensaio hoje, publicado pela primeira vez em 1976. A autora, escrevendo do meio da Segunda Onda do ativismo feminista, descreve em detalhes desoladores o dano psicológico a longo prazo infligido nas mulheres no coração daquele movimento, pelas relações que deveriam justamente nutri-las, ampará-las e libertá-las. Na primeira vez que encontrei esse ensaio, enquanto estudante da graduação com um vago interesse na história da Segunda Onda mas sem nenhuma experiência direta própria em ativismo feminista, li-o com uma certa fascinação perplexa e desconectada, incapaz de compreender como mulheres podiam fazer isso umas com as outras, ou o que poderia explicar essas dinâmicas devastadoras. Hoje, tendo testemunhado a última rodada brutal e implacável de racha direcionado a uma amada amiga minha, e tendo sido alvo disso ontem mesmo, a familiaridade disso tudo torna esse texto quase doloroso demais para ser lido de novo.

Há um certo pequeno conforto a se tirar da percepção de que nada disso é novo: que minha geração não é unicamente não-saudável ou disfuncional, que não somos incomumente incapazes de demonstrar solidariedade e irmandade umas pelas outras, que essas feministas fenomenais, intrépidas e destemidas cujos escritos e ativismo eu admiro tanto sofreram muito das mesmas tristezas que eu sofro, e iriam empatizar com minha dor. Mas isso é acompanhado da tristeza real de que quase quarenta anos depois que o artigo de Joreen foi publicado, fizemos tão pouco progresso. Estamos repetindo os mesmos erros de nossas ancestrais. Outra geração de mulheres brilhantes, comprometidas e apaixonadas está se desgastando. Sendo morta pelo poder da irmandade.

Todas as tendências que Joreen descreve ainda existem. Ainda rachamos mulheres pela frente, e também pelas costas. Ainda ostracizamos. Ainda denunciamos. Ainda damos falsos relatórios sobre as coisas horríveis que outras mulheres disseram ou fizeram. Ainda interpretamos umas às outras impiedosamente. Ainda temos expectativas ridículas e não-razoáveis umas das outras e usamos isso para justificar a raiva e o abuso onde eles não se justificam. Ainda julgamos umas às outras como culpadas por associação, e vemos amizades e relacionamentos como origem de mácula. Ainda nos juntamos para rachar mulheres como nós, usando-as como escudos para desviar a atenção de nós mesmas. Ainda sussurramos nosso apoio ao alvo da vez via canais fechados, mas não falamos nada publicamente, por medo de ser a próxima da fila. Ainda mascaramos a brutalidade disso tudo atrás do véu da “crítica legítima”.

Claro que agora temos todo um conjunto de novas vias através das quais expressamos essas tendências. Nós blogamos. Reblogamos. Twittamos. Subtweetamos. Storifycamos. Printamos. Chamamos atenção. Nós nos aglomeramos. Mobilizamos nossos seguidores. Parodiamos. Fazemos doxxing. Essa coisa de racha se tornou algo muito mais em tempo real, e muito mais inescapável. Se você está envolvida no feminismo online nos últimos dois anos, você quase que certamente já experienciou essa onda de pânico, o pavor doentio e o pulso acelerado, quando seu telefone explode e suas notificações se exaurem, mensagem atrás de mensagem aparecendo para te dizer que ser humano abominável você é. (Desenvolvemos um novo verbo irregular para descrever o que tipicamente acontece no fim dessas aglomerações: eu dou um tempo do Twitter; você desativa a conta por auto-cuidado; ela esperneia.)

Como Joreen, fico preocupada de lavar nossa roupa suja em público — me deixa triste pensar nos homens rindo de nós enquanto assistem a nós nos despedaçando. Somos todas bem versadas nesses estereótipos sexistas de brigas de mulher e mulheres barraqueiras e “vocês não acham que as mulheres são seus piores inimigos?”, e nós sabemos que cada um desses rachas públicos age de acordo com, e reforça esses estereótipos. Mas quero reiterar o ponto que Joreen apontou em 1976 — nada disso é peculiar ao feminismo. Nada disso é específico das políticas ou das relações das mulheres, e ainda que as pessoas pensem que é, é porque aceitaram esses estereótipos sexistas, e aprenderam a desconsiderar os conflitos entre mulheres como sendo brigas histéricas, enquanto tomam os conflitos entre os homens como sendo indicativos de discordâncias políticas substanciosas sérias. Muitas dessas tendências são exacerbadas pelo fato de que somos mulheres — nossa socialização feminina geralmente não nos prepara para passar pelos conflitos e discordâncias de forma leve, e nossa marginalização política significa que podemos ser inexperientes em organização política comparadas aos homens. (Por outro lado, quando brigamos umas com as outras, nações não entram em guerra). Mas as questões psicológicas e estruturais que causam essas fraturas políticas estão presentes não apenas na política feminista, mas nas políticas de esquerda e progressista em geral.

Em nível individual, o que se encontra na esquerda são pessoas que tendem a ser movidas pelos princípios e convicções, e que têm forte comprometimento moral sustentando suas posturas políticas. Então os tipos de mulheres que são levadas ao feminismo são os tipos de mulheres que têm princípios políticos firmes e fortes a que elas são apaixonadamente comprometidas, e que não raro fazem parte de sua identidade e auto-percepção. Por esse motivo, elas geralmente não estão dispostas a desviar desses princípios para se comprometerem com aqueles com quem elas discordam. Uma vez que princípios políticos são uma questão de convicção moral e identidade pessoal, muitas feministas, e esquerdistas em geral, preferem se afastar do movimento a se desfazerem de seus princípios mesmo que minimamente para cooperarem com pessoas cujos princípios são marginalmente diferentes dos seus. Essa convicção — junto com um bocado de narcisismo em pequenas diferenças — resulta em um deslize inevitável em direção a políticas puristas, onde os indivíduos se tornam mais preocupados em manter suas mãos limpas e suas almas livres de poluição a realmente efetuarem uma mudança real no mundo com que dizem se importar. E uma vez que sua doutrina se tornou mais uma questão de salvação pessoal que teoria política, se torna fácil ver aquelas com quem você discorda não apenas como equivocadas, mas como perversas, más, perigosas. Denúncias e ostracismo são justificados, porque as incrédulas são uma ameaça à pureza da doutrina e à própria identidade, e devem ser impedidas.

Isso combina mais com características estruturais de uma situação em que esquerdistas se encontram — ou seja, o fato de que o sistema é tão completamente injusto, os problemas são tão aparentemente intransponíveis e a mudança que se quer fazer no mundo parece tão profundamente impossível de se realizar que um tipo de desespero e desânimo se abate. A vitória é tão intangível e além do alcance dos esquerdistas, dado que a mudança desejada é nada mais que a completa transformação do panorama político e social. Como feministas, queremos acabar com a violência masculina contra as mulheres, eliminar a exploração do trabalho feminino, e abolir as normas opressivas de gênero. Esses objetivos estão muito longe do nosso alcance, e as vitórias em geral parecem poucas e distantes umas das outras, então não há muita oportunidade para comemorar, ou o sentimento de satisfação e gratidão de uma batalha ganha. Mas enquanto não podemos vencer a guerra contra o patriarcado, estamos a uma distância razoável de vencer a batalha contra nossas amigas. E independente de ganharmos ou não essas batalhas, nós certamente temos algum tipo de resposta; enquanto o patriarcado permanece imóvel diante da nossa fúria, brigar com uma irmã a respeito de alguma discordância pequena é garantia de se conseguir algum tipo de reação. Não surpreende então que desferir socos em nossa irmã seja uma opção mais gratificante e atraente que continuar a bater desesperada e desapercebidamente em nosso inimigo mútuo.

Então, o resultado é que aqueles à esquerda são frequentemente levados a brigar e se rachar, em vez de trabalhar juntos para tentar derrotar seu inimigo comum. E incorporada a essa política progressista está uma justificativa ostensiva de se selecionar um alvo, na forma de um profundo comprometimento com a igualdade e um inerente desprezo pelo poder e pela autoridade. Um dos aspectos mais característicos das ideologias políticas de esquerda é um comprometimento com a igual distribuição de poder e o desmantelamento de hierarquias estabelecidas, e o feminismo não é diferente nesse aspecto — desafiar o poder dos homens sobre as mulheres, assim como desafiar as dinâmicas de poder de raça e classe dentro do nosso próprio movimento, é essencial ao ativismo feminista. Mas uma implicação desse igualitarismo e rejeição de hierarquia é a suspeita insidiosa de qualquer pessoa que obtenha status ou sucesso fora do movimento. Qualquer pessoa na esquerda que consiga alcançar alguma influência política se torna instantaneamente um alvo válido para racha, pois sua influência (ou “plataforma”) é vista como um tipo de privilégio que o movimento se dedica a desmantelar. Para as mulheres, isso é exacerbado pelos estereótipos sexistas a respeito da mulher poderosa: ela é insolente, uma castradora, ela não é feminina nem fodível.

O desfecho disso tudo é que qualquer mulher que demonstre ter algum talento, ambição e determinação e que tenta conseguir algum poder e influência no que ainda é um mundo de homens pode estar desenhando em suas próprias costas um alvo. Ela é um objeto perfeito para se rachar, porque fez o que outras mulheres não conseguiram, e arrumou para si um lugarzinho nesse ambiente dominado por homens. Nada mais pode explicar porque tanta virulência feminista é direcionada ao punhado de mulheres de poder e influência na mídia e na academia, e não aos homens que detém a estrutura de poder e privilégio. Não importa que ela use seu poder para ajudar outras mulheres a avançarem. Não importa que ela tenha noção de que a sorte e o privilégio ajudaram-na a chegar ao sucesso. A mulher com poder e influência é perfeita para se rachar, e será acusada de atropelar os outros em seu caminho em direção ao topo, independente de isso ser ou não verdade. E ao fazer isso, estamos implicitamente dizendo às mulheres que não é feminista ser bem sucedida, ter poder e influência, mesmo que você possa usar esse poder e influência para avançar causas feministas. A coisa mais feminista que você pode fazer é sentar-se e calar a boca. Mas a consequência disso não é uma ruptura do poder estabelecido. A consequência disso é que homens continuam tendo esse poder.

Não tenho nenhuma solução para isso. Acho que esses aspectos explicam porque movimentos de esquerda em geral tendem a conflitos internos, fratura e dissolução, e são parte da razão do porquê a esquerda se despedaça em frangalhos, enquanto a direita apenas toca o barco e consolida seu poder. Também penso que enquanto feministas temos o direito de desafiar as relações de poder e hierarquias estabelecidas, e de manter nossas teorias e ativismo sob escrutínio e reflexão críticos. Mas quarenta anos depois de nossas ancestrais feministas escreverem pela primeira vez a respeito disso, estamos ainda nos despedaçando, e nosso inimigo comum se regozija enquanto isso. Mulheres inteligentes, gentis e compassivas estão se ferindo nessa guerra, e vamos perder nossas brilhantes e melhores vozes enquanto muito poucas mulheres têm estômago para esse infinito, implacável racha e assassinato de reputação daquelas do seu próprio lado.

Como Joreen, experienciei isso por tempo suficiente para que me prejudicasse psicologicamente, me ferisse enquanto pessoa e minasse minhas capacidades enquanto feminista. Independente de isso ser comum, eu não sei, mas fui alvo por vezes o suficiente no passado de modo que isso me dói menos quando é direcionado a mim pessoalmente; o que realmente me aflige agora, o que me faz verter lágrimas de raiva e frustração, é ver isso acontecendo com mulheres que amo. Não estou escrevendo isso para buscar simpatia e compaixão. Nem quero terminar esse texto com uma chamada banal e simplista por solidariedade e coesão em nosso movimento fraturado. Minha aposta é que ou você se atrai por esse tipo de idéia ou não se atrai; se não se atrai, nenhum montante de blogagem angustiada e desanimada vai te fazer mudar de idéia. Quero acreditar que apesar de nossas muitas diferenças e da multiplicidade de experiências que trazemos para a discussão, há comunalidade suficiente entre as mulheres para nos tornar um movimento de classe politicamente coeso capaz de trabalhar em conjunto e formar uma comunidade entre nós.

Se você não se sente assim a meu respeito, respeito seu direito de se organizar sem mim, e te desejo o melhor. De minha parte faço aqui as seguintes promessas:

  • Não participarei em rachas, não importa o quão pouco eu goste da mulher em questão, ou o quanto eu discorde de suas políticas
  • Assumirei que outras mulheres agem de boa fé e interpretarei suas posições de forma caridosa
  • Celebrarei quando uma mulher alcançar sucesso de qualquer tipo — e se eu realmente não conseguir comemorar, guardarei meu desapontamento para mim mesma
  • Colocarei o bem estar das mulheres e o progresso de nossos objetivos comuns acima da minha pureza pessoal

Imagino que esse post me tornará impopular. Que o meu racha comece!

Resistência

O primeiro ato do movimento das mulheres não se pode precisar na história. Considere apenas que toda vez que duas ou mais mulheres reuniram-se em torno de suas necessidades enquanto classe, ali esteve o feminismo. Enquanto puderam abrir brechas onde quer que conseguissem dentro da escuridão ignorante onde os homens as mantiveram, ali esteve o feminismo. Enquanto resistiram da forma como puderam dentro de seu contexto, ali esteve o feminismo.

No entanto, a luta feminista tem sido reconhecida apenas pelos seus feitos nos últimos duzentos anos. Foi também nesses últimos duzentos anos que as mulheres que se dedicaram à ela nas mais diversas frentes foram chamadas por esse apelido — feministas —, um xingamento que passaram a usar com orgulho, recebido de jornalistas ingleses indignados com as atitudes daquelas mulheres. E por terem ganhado um nome apenas muito recentemente, diz-se que a luta das mulheres é também recente, que antes disso elas apenas agiam como gado, e que pouquíssimas foram as mulheres que se rebelaram e despontaram talentosas.

Há até mesmo quem diga que foram alguns homens — aqueles, tão generosas exceções — quem tão bondosamente abriram mão de seus privilégios em favor das mulheres. É uma coincidência muito grande que toda essa generosidade tenha começado a aparecer justamente quando as mulheres começaram a se alfabetizar em massa, e a dar voz às suas frustrações usando a mídia impressa. Uma coincidência realmente muito interessante se você parar para pensar, porque coincide com o período não muito distante daquele em que se queimavam mulheres por saber demais, mulheres que tinham a vida e a cura em suas mãos. E que logo depois foram atiradas aos montes às fábricas, ganhando metade do que um homem ganha e fazendo ainda mais trabalho.

Hoje, muito tempo depois do primeiro ato feminista, as mulheres estão sendo convencidas de que sua condição é um sentimento tão subjetivo e indefinível que é impossível afirmar com certeza o que é ser uma mulher, principalmente se você for de fato mulher. As mulheres estão sendo convencidas de que liberdade é o modelo de vida que os homens estabeleceram pra si enquanto exploravam a nós, e que é esse o modelo que devem buscar. As mulheres estão aprendendo Novilíngua. As mulheres já nem se reconhecem mais.

Se as mulheres que entregaram os pontos precisam de uma fuga tão flagrantemente falsa para ter um pouco da sensação de liberdade, é compreensível. Não é a primeira vez que as mulheres sofrem baixas desse tipo em sua história. E muito provavelmente não vai ser a última, enquanto esse movimento precisar existir. Ainda não temos de volta o direito de decidir sobre a vida, decidir quem pode e quem não pode nascer, mas já estivemos muito pior.

Mas essa é apenas uma fase. Já fomos (e somos) mortas, mutiladas, estupradas, prostituídas, vendidas, separadas. Isso vai passar. E nós vamos lutar para que no futuro as mulheres não precisem batalhar novamente pelas mesmas coisas que nós estamos batalhando agora. Para que elas sejam fortes onde hoje somos fracas. Para que elas não se deixem convencer por teorias tortas, promessas vazias e montes de nada. Para que elas tenham as estruturas necessárias para aguentarem o backlash — porque ele vem, ele sempre vem.

Vamos continuar gritando sob os escombros disso que chamamos de feminismo. Illegitimi non carborundum. As mulheres resistem.