Por que John Stoltenberg Chama Andrea Dworkin de “trans aliada”?

Tradução livre do original em inglês no blog Radical Pro Feminist.

Andrea Dworkin e John Stoltenberg. Crédito da foto: ProFeministMen

Parte I: Introdução

Em reconhecimento ao décimo quinto aniversário da morte da grande Andrea Dworkin, seu parceiro John Stoltenberg, escreveu recentemente um artigo publicado da edição online do Boston Review. Você pode lê-lo aqui.

Aprecio e entendo completamente de onde o raciocínio de John vem; compartilho suas preocupações a respeito de qualquer ideologia ou ação que vise gerar preconceito, discriminação intrapessoal ou sistêmica, ou que replique qualquer encarnação de supremacia social. Como John, acredito que Andrea teria se oposto apaixonadamente a isso. Diferente de John, Andrea teria feito isso em qualquer lugar em que encontrasse esse tipo de coisa.

Acho tanto o título quanto o conteúdo desse novo artigo de Stoltenberg problemáticos em alguns aspectos. Stoltenberg aplica a Andrea um rótulo com a intenção de silenciar alguns sentimentos. Sua empatia pelos oprimidos é notória. Mas não existem declarações públicas dela que especificamente apóiem a pauta trans. Ela não era “anti-homem” e não acredito que ela seria “anti-trans”, muito menos deveria ser rotulada como tal. Mas não se pode atribuir afeição à ausência. Não se deve pegar termos de uma batalha que não era a dela e colá-los em alguém tão calejada quanto ela. Sei que John entende que rotular alguém incorretamente não é legal [1]. Chamo a atenção de John para que ele aponte com cuidado a posição dela e não se aproprie de algo que ela escreveu em um momento que seu trabalho teórico tinha problemas, reconhecidos por ela mesma. (Mais sobre isso adiante.)

Além disso, não vejo seu artigo apontando onde Andrea era ou não trans aliada. O artigo é sobre ideias e valores: dele, dela, e sua interpretação de termos que algumas feministas radicais às vezes usam. O artigo de John borra distinções, especialmente as de Andrea. Ainda mais grave, esse artigo ofusca os termos em que o trabalho público de Andrea exige para mobilizar ações em direção à mudança feminista revolucionária. Desses dois modos, sinto que ele exagera um bocado, desrespeitando-a no processo. Stoltenberg disse que foi ingênuo ao aprovar o título sugerido para seu artigo de 2014, “Andrea Dworkin Was Not Transphobic” [2]. Por quanto tempo a ingenuidade deve ser armazenada nesse seu arsenal defensivo? Somente uma grande quantidade de privilégio permite que esse prazo nunca expire. E tem mais: Andrea pediu postumamente para ser colocada em meio a uma batalha política polêmica que não escolheu?

Leitores, isso piora.

Parte II: Mulheres reais

John identifica usos de frases “mulheres de verdade” como uma afronta moral ao que Andrea trabalha e dava valor. Ao mesmo tempo, ele se recusa a evidenciar uma preocupação, um pesadelo muito evidente para ela na vida dentro do patriarcado que, eu acredito, a maior parte do feminismo radical coloca centralmente em sua teoria e ativismo: a mulheridade não é escolhida, é imposta. Ela tem um corpo; e o corpo é de uma fêmea. Andrea descreveu graficamente a violência contra ela, contra seu corpo, seu corpo de fêmea. Perceber essa conexão (e como uma pessoa não perceberia?) não torna a Dworkin, ou qualquer outra pessoa suportando e testemunhando as mesmas atrocidades, um essencialista de sexo. Como eu irei ilustrar, é o tema mais central, abordado em dúzias de discursos e artigos, e em todos os livros dela. Eu a vi falar muitas vezes, eu li os livros dela. Isso foi o que eu ouvi:

É contra o corpo feminino que a supremacia masculina de modo flagrante e sistematicamente se expressa na ordem de manter a dominância masculina de maneira natural, criada por deus, eterna, e inevitável. É contra o corpo feminino que a força patriarcal é lançada: brutalmente, sadicamente, quebrando ossos e matando. Através de todo o trabalho dela, Andrea abordou isso explicitamente: a violência contra os seios das mulheres, seus úteros, suas vaginas. O que eu ouço mais profundamente, mais ferozmente, na oposição raivosa das feministas radicais contra os elementos do essencialismo das políticas trans, em parte, é isso: Vocês estão fazendo esse entendimento parecer louco e imoral. E de forma amplamente literal. John não está ajudando. O patriarcado faz o tratamento dos homens para com as mulheres — para Andrea, para as feministas radicais, os teimosos seres humanos com a forma de fêmea — intimamente opressivo. As palavras dela expressam esse ponto muito melhor que as minhas.

Os atos de violência retratados na pornografia são atos reais cometido contra mulheres reais e meninas reais. (Letters from a War Zone, p. 11)

A realidade material das mulheres é determinada por sua característica sexual, a capacidade reprodutiva. O homem pega um corpo que não é dele, o reivindica, planta a dita semente, e colhe os seus frutos — ele coloniza o corpo feminino, rouba seus recursos naturais, o controla, usa, esgota aos seus desejos, nega a sua liberdade e sua auto-determinação para que ele continue a lucrar com esse corpo…(War zone, p. 118)

… Eu também aprendi muito sobre o poder masculino com [mulheres], quando eu me importei o bastante com as mulheres a ponto de entender que o poder masculino era um tema ao qual minha própria vida havia me levado. Eu conheço o poder masculino de dentro para fora, com o conhecimento que ganhei através desse corpo feminino. (War Zone, p 64)

Agora, essa repulsa é literal e linear: direcionada especialmente contra as genitais dela, e também os seios, e também a boca dela recentemente percebida como um órgão sexual. É um ódio esmagador (goose-stepping é uma expressão difícil de traduzir, alguma sugestão?) contra bucetas. A mulher não possui dimensão humana, nem significado humano. (Intercourse, p.9)

O que é incrível e inaceitável para mim é que apontar isso em voz alta é controverso, a não ser para o homem — então ainda é inaceitável enquanto é esperado e normal. John, muitas feministas radicais, e qualquer um que é familiarizado com ela sabe disso: Andrea valorizava a nomeação das condições da maneira que ela as enxergava, de maneira clara. Palavras educadas ou pisar em ovos eram repugnantes para ela. Ela odiava que palavras fossem colocadas em sua boca ou tiradas de contexto. Ainda assim, a representação dela feita por John retira o fato mais incisivo sobre isso: Materialmente, o diagrama de Venn consiste em um círculo.

Eu descobri de maneira perturbadora, através da última década e meia, que um pré-requisito para operar aceitavelmente em espaços queer liberais dominados por brancos, acadêmicos e variados, é especificamente o silenciamento de Andrea Dworkin, e de feministas radicais e lésbicas em geral. Esses são os locais onde eu cada vez mais evitei por causa do meu desdém pela ideologia que prevalece e as práticas anti-feministas.

Você não pode ler Dworkin racionalmente e terminar negando que a visão de mundo e a experiência dela funde-se com a experiência de milhões de mulheres, isso é compreendido: masculino significa homem, homens são macho; feminino significa mulher, mulheres são fêmeas. Ela não fugiu timidamente de dizer isso em círculos acadêmicos ou sociais. Ela não satisfez teoristas ocidentais que valorizam a diversidade sexual mais que a libertação das mulheres, que pensam que multiplicando os gêneros nós iremos chegar a uma nova forma de liberdade. Não há tal cobrança pela metamorfose metastática. Quando ela estava viva, Andrea nunca articulou uma hierarquia na qual mulheres oprimiam mulheres trans. Mulheres fêmeas eram, para ela, uma classe de (leia-se: reais) mulheres: “mulher”, não modificada por nenhum prefixo.

Recitar descaradamente essas quatro passagens acima não será tolerado em muitos espaços influenciados pelos essenciais especuladores liberais das teorias de sexo e gênero. Enquanto os Estudos das Mulheres foi modificado para Estudos de Gênero, as perspectivas feministas radicais foram marcadas como uma violação à política anti-discriminatória, sendo base para demissão. Aquelas feministas radicais corajosas que insistiram em nomear a realidade que elas e Andrea experimentaram, estão perdendo suas reputações, suas carreiras, e suas seguranças. De maneira alarmante, estão sofrendo doxxing, impedidas de falar, ameaças e aterrorizadas. Sobre isso, até agora, John permanece em silêncio.

Parte III: Transsexuais

Nesse artigo de Stoltenberg, em outros que ele publicou após a morte de Andrea, ele ressuscita o capítulo nove da seção quatro de seu primeiro livro feminista, o Woman Hating (1974). Do capítulo “Androgyny: Androgyny, Fucking, and Community”, a passagem que vem antes da citada no artigo de John.

Transsexualidade pode ser definida como uma formação particular da nossa multissexualidade geral que foi incapaz de se desenvolver naturalmente por conta de condições sociais adversas. (P. 186)

Seguindo sua discussão sobre transsexualidade, Dworkin prossegue discutindo travestismo no contexto de uma sociedade eroticamente repressiva:

O travestismo é fazer uso de figurinos que violam os imperativos de gênero. O travestismo geralmente é um ato sexualmente carregado: a violação pública e visível do papel sexual é erótica, excitante, perigosa. É um tipo de desobediência civil erótica, e este é precisamente o seu valor. O uso desses figurinos é parte da estratégia e do processo de destruição dos papéis sexuais. Vemos, por exemplo, que quando as mulheres rejeitam o papel feminino, elas adotam roupas “masculinas”. Com a dissolução dos papéis sexuais, o conteúdo erótico particular ao travestismo igualmente se dissolve. (P. 187)

Nesse capítulo, ela escreve de forma acrítica sobre contatos interpessoais estigmatizados ou abusivos que existem em uma sociedade eroticamente repressiva. O trecho a seguir é da introdução desta seção:

Homossexualidade, transsexualidade, incesto e bestialidade são tidas como “perversões” dessa “natureza humana” que presumimos saber tanto a respeito. Elas persistem independente das imensas forças dirigidas contra elas — leis discriminatórias e práticas sociais, ostracismo, perseguição ativa pelo estado ou por outros órgãos da cultura — como embaraços inexplicáveis, como exemplos odiosos de “imoralidade” e/ou “desajustamento”. (P. 174)

Na conclusão, ela acrescenta: “Devemos nos recusar a nos submeter aos medos inculcados pelos tabus sexuais” (P. 192). Em 1989, em uma entrevista, Dworkin aponta que nesse momento teorizava a partir de conhecimento pouco e não integrado; teoria essa que ela abandonou e criticou posteriormente [5].

Uma vez que conseguiu embasar e integrar a teoria, de Pornography: Men Possessing Women (1981) até Heartbreak (2002), ela jamais cita novamente questões centrais ou periféricas nos termos que John mais utiliza: não existe qualquer chamado à multiplicidade de gêneros; a importância da multissexualidade desaparece; o foco em papéis sexuais fictícios e estáticos se tornou cada vez mais fraco; os libertadores dos tabus sexuais se revelaram predadores; ela nega que a androginia seja a salvação. Ela se despede disso tudo sem remorsos.

A transsexualidade também desaparece da obra de Dworkin, com exceção de duas menções na portaria antipornografia escrita em parceria com MacKinnon: “O uso de homens, crianças e transsexuais no lugar de mulheres…” e, “qualquer homem, criança ou transsexual que alegar ter sofrido danos causados pela pornografia nos mesmos termos em que as mulheres sofrem…[5]” Sobre isso, John diz: “Quero apenas pontuar que Andrea entendia de forma profunda que uma pessoa poderia ser subjugada como uma mulher sem ter sido registrada como fêmea ao nascer…”

“Subjugada como uma mulher”. Não enquanto mulher. A portaria trouxe à consciência o fato de que a pornografia pode tratar todo mundo mal, da mesma forma que, mais frequente e mais centralmente, a pornografia faz com as mulheres. Uma menina, uma mulher: do nascimento à morte. Era claro para Andrea e Catherine, nesse mecanismo legal radical para acabar com a discriminação baseada no sexo, que elas não igualavam a condição de ser transsexual com ser mulher ou homem. Para os propósitos de sua portaria, refletindo a vida como elas a conheciam, “mulher” eram, como elas, uma classe política e sexual oprimida.

Parte IV: Responsabilização

Eu chamo o John à parar de inferir que o radicalismo dela é resumido na seção pré-feminista de Woman Hating e um capítulo colonialista em seu segundo livro, Our Blood(1976), na qual ela desembaraça a filosofia prevalente de gênero, e, de maneira alarmante, postula Columbus como um héroi radical. (p 97, 110). Eu acredito que o radicalismo dela, a missão dela, é encontrada em outros lugar. Da introdução de Woman Hating:

Esse livro é uma ação, uma ação política onde a revolução é o objetivo. Não há outro propósito. Não é uma sabedoria genial, ou merda acadêmica, ou ideias gravadas em granito ou destinadas à imortalidade. É uma parte de um processo e seu contexto é a mudança. (p. 17)

Se John está a referenciar o trabalho da Andrea, ele precisa parar de silenciar ela no que significava mais para ela. Ao não fazer isso é apropriar-se indevidamente em nome do pro feminismo radical. Nós sabemos que ele é familiarizado com a prática. Do artigo do John: “Após a morte da Andrea em 2005, eu fiquei cada vez mais preocupado que ela e a política radical que eu aprendi com ela estavam sendo apropriadas indevidamente por alguns…” Eu chamo o John para que ele resolutamente se responsabilize.

Após a sua morte, tem sido triste ver o grau de diferença em que se move a óbita da trajetória política do John. Eu já fiquei enraivecido em ver as maneiras em que ele apagou a trajetória da Andrea. Essa é a minha visão sobre os respectivos trabalhos. No diagrama de Venn, o círculo dele é aquele em várias cores; o dela é totalmente eclipsado.

O que segue em alguns trabalhos do John.[6] Eu acredito que é nisso que está a sua paixão — em discussões de gênero como essa:

Pense em uma roda de cores. E não pense em uma roda com as cores segmentadas por linhas como se fosse uma roda de carroça; pense em uma onde as cores se mesclam e borram entre elas como se fossem um arco-íris circular infinito que é o espectro visível:

Figura 1: Espectro cromático

Isso vale para qualquer indivíduo, o que pensamos sobre sexo e gênero é na verdade mais como um ponto qualquer numa roda de cores (ao contrário de um ponto qualquer em um contínuo linear com dois fins, no qual cada um representa dois pólos de um binário).

Leitores, isso não é coisa dela.

Parte V: Conclusão

Talvez Andrea não tenha estabelecido uma posição pública de um modo ou outro nessas batalhas por conta da época em que ela escrevia. Consciente da empatia e compaixão dela pelos oprimidos, simplesmente não há qualquer evidência dela sendo trans aliada da forma como tenho visto o termo ser usado [7]. Digo isso sem qualquer satisfação ou escárnio. Estou atestando um fato. Como ponto de comparação razoável: se, quarenta anos atrás, um heterossexual escrevesse afirmativamente sobre a comunidade lésbica, bi e gay e não tivesse se posicionado mais desde então sobre as dificuldades dessa comunidade de sobreviver numa sociedade ultrajantemente homofóbica, deveria ele ser considerado um aliado? Espero que todos concluamos que a resposta deva ser “não”. Aqui, John é o aliado; Andrea era a pesquisadora.

O que as pessoas — trans, queer ou quem quer que seja — podem fazer para honrar a memória de Andrea é ler todos os livros dela e lutar pelo fim da supremacia masculina racista em todas as suas manifestações, na teoria e na prática.

As visões de Andrea estão melhor exprimidas em seus próprios termos em seu próprio trabalho. Não que não possam ser discutido e debatidos. Não que não possamos imaginar que posições ela tomaria a respeito de um dado assunto. Não consigo contar quantas vezes me peguei me perguntando: O que Dworkin faria? Infelizmentes, desde sua morte, pessoas que se identificam das mais variadas formas possíveis, abraçando as mais várias ideologias, com diferentes pautas políticas, metaforicamente forçando o braço na tentativa de encaixá-la firmemente em um lado ou outro desse intenso debate trans. Ela deve ser defendida, mas não de formas indefensáveis. Andrea Dworkin lutou duramente o bastante no campo de batalha. Que ela descanse, com todas as honrarias, em poder e paz.


Notas

[1] John assume que “transsexual” e “transgênero” são termos sinônimos. Muitos de nós no Ocidente sabemos que isso é falso. Por exemplo, existem pessoas não brancas e indígenas que rejeitam a autoridade, as pautas e as apropriações racistas do pacote de políticas sexuais e de gênero do queer. Existem apoiadores do feminismo radical que são trans que não se identificam como transgêneros por razões políticas. O termo “trans” no título do artigo de John, na verdade, é comumente usado pela comunidade LGBTQIA como um termo guarda-chuva para incluir tanto pessoas que se identificam como transsexuais quanto aquelas que não. Às vezes, “trans” é sinônimo de “queer”. Se ele não sabia disso, deveria, antes de identificar Andrea como “trans aliada”. Ele, como homem gay, não está em posição de fazer essa afirmação. Sua falta de responsabilidade, se não de conhecimento, da existência de apoiadores trans do feminismo radical revela aliança com apenas algumas letras do acrônimo. Vide nota 7.

[2] Depois de escrever esse post, achei um artigo arquivado de John entitulado “Andrea Dworkin Was Not Transphobic” (2014). Eu lembrava de tê-lo lido quando me dei conta de que não o podia mais encontrar. Assim que encontrei, fiquei cativado pelos comentários. Eles casam tão bem com essa discussão que quero linká-los aqui, com destaque especial para os comentários de Morag e Lil Z.

[3] Os espaços onde atuei social e academicamente têm sido majoritariamente liderados ou dominados por teorizações anglófonas ou ocidentais. Quando nós que somos brancos falamos de feminismo ou políticas queer, geralmente significa um ponto de vista específico. Estou a par das comunidades, perspectivas e pautas antirracistas. Análises dos desafios complexos, não apenas no sentido da colonização ocidental e anglófona na cultura e no pensamento, estão além do escopo desse material sobre Andrea Dworkin e John Stoltenberg, e o uso dele dos escritos dela são a respeito de sexo e não sobre raça.

[4] Dworkin explica essa afirmação Without Apology: Andrea Dworkin’s Art and Politics (1998), de Cindy Jenefsky. Página 139, Nota 1 (fonte britânica). Cindy Jenefsky escreve:

Um minha entrevista com Dworkin em 1989, ela indica que não concorda mais com algumas sugestões propostas no fim do livro. “Acho que tem um monte de coisas realmente erradas no último capítulo de Woman Hating”, diz Dworkin. Quando perguntada especificamente sobre suas discussões sobre incesto, ela apontou diversos fatores que a influenciaram nessa parte da escrita. Primeiro, na época em que ela escreveu o livro, ela estava cuidando de uma criança que tinha sofrido abuso incestuoso, e ainda que ela tivesse falado com a polícia da Holanda sobre a prevalência do incesto lá, ela conta que havia uma lacuna entre sua análise intelectual e experiência prática da questão. Foi apenas com a escrita de Woman Hating e com as respostas que recebeu a ele que sua experiência subjetiva — não apenas sobre incesto, mas sobre violência doméstica e prnografia também — foi validada pela experiência de outras pessoas, e foi quando ela começou a entender o incesto como uma forma de abuso sexual. Ela também fez referência ao fato de ter sido influenciada por “anos de leitura de Freud e tentativas de fazer aquilo tudo fazer sentido de forma abstrata”, especialmente em razão da falta de informação disponível publicamente sobre a predominância do abuso sexual. Finalmente, Dworkin também destaca que ainda que feministas e pornógrafos estivessem se movendo em direções diferentes na época em que Woman Hating foi escrito, eles ainda compartilhavam das mesmas raízes da contra-cultura e do movimento de liberação sexual. Dworkin, em entrevista à autora, 1989.

[5] Sobre a portaria, veja Pornography: Men Possessing Women, edição comemorativa de dez anos (1989), nova introdução, P. XXXIII. Ver também a portaria de Massachusetts (1992).

[6] “The Sex/Gender Binary: Essentialism” (2015).

[7] “Becoming an Ally to Queer and Trans People of Color (QTPOC)“. Ver também o primeiro parágrafo em “11 Ways To Be A Trans* Ally, According To Transgender People Themselves” (2015). Que meu privilégio branco masculino sirva para chamar todos à honestidade e integridade.

O Movimento de Mulheres da Coréia do Sul: “Nós não somos flores, somos uma fogueira”

Jen Izaakson e Tae Kyung Kim contam sobre o crescimento do Feminismo Radical inspirando as mulheres por toda a Coréia do Sul. Traduzido do original publicado no site Feminist Current.

Crédito da imagem: Ryu Hyo-lim/ Yeonhap via AP

No último outono, Jen Izaakson viajou para a Coreia do Sul para documentar o crescimento do Feminismo Radical como parte de um grupo de estudos da Cambridge University, após ganhar um fundo de pesquisa, e entrevistou 40 feministas. Ela escreveu este artigo junto a Tae Kyung Kim, uma Feminista Radical coreana de Seoul, que atualmente vive e estuda em Berlim.

As notícias do crescimento do movimento feminista na Coreia do Sul chegaram à mídia ocidental, mas as raízes deste levante radical ainda estão escondidas. A mídia convencional do ocidente costuma mostrar os aspectos do feminismo sul coreano que espelham nossas próprias conquistas, deixando as realizações das mulheres sul coreanas e os aspectos mais radicais do movimento menos visíveis. Em setembro, mais de 40 Feministas Radicais da Coreia do Sul foram entrevistadas como parte de uma pesquisa acadêmica. Os resultados dessa pesquisa estão resumidos neste artigo. Devido ao curto espaço deste texto, muitas informações não foram abordadas, mas tentamos incluir o material que melhor esclarece como o movimento surgiu, seu contexto histórico; e quais as práticas, estratégias e formações políticas constituem o Feminismo Radical na Coreia do Sul.

A violência masculina politiza e radicaliza

Em 2016, o infame “Assassinato de Gangnam” provocou uma onda de protestos entre as mulheres. Um homem de 34 anos chamado Kim Sung-min esfaqueou uma mulher de 23 anos (cujo nome permanece em sigilo) até a morte dentro de um banheiro para ambos os sexos em um bar de karaokê. Kim Sung-min esperou dentro do banheiro, permitindo que vários homens entrassem e saíssem, até que uma mulher entrou. No julgamento, ele explicou: “Fiz isso porque as mulheres sempre me ignoraram”. Esta é uma explicação similar àquela oferecida por outros “incels” (“celibatários involuntários”) que cometeram assassinatos violentos, mas na Coreia do Sul as autoridades explicitamente negaram a motivação misógina, mesmo com o testemunho de Sung-min.

Em resposta ao assassinato, as mulheres encheram as ruas do lado de fora da Gangnam Station e na região de Seocho-dong em protesto. Muitas dessas mulheres não se consideravam feministas nessa época, mas a natureza do assassinato e a motivação misógina ajudaram a politizá-las.

Em 2018, o “molka” (o ato de filmar secretamente mulheres em banheiros e vestiários, ou de filmar embaixo de suas saias em lugares públicos) já havia se tornado um problema generalizado na Coreia. Entrevistadas me contaram que isso acontece em parte porque os homens coreanos não são confidentes o bastante para assediar mulheres diretamente na rua, então suas tentativas para acessar mulheres sexualmente são feitas de modo mais sub reptício. Apesar de existirem leis contra este tipo de voyeurismo na Coreia do Sul, a polícia dificilmente aplica essas leis. A situação chegou a um ponto crítico quando uma estudante foi acusada de fotografar um modelo nu em sua escola de arte. De acordo com as mulheres entrevistadas, o homem rotineiramente saía despido da sala de aula, de modo que as estudantes eram forçadas a ver seus genitais. Por fim, uma estudante tirou uma foto do homem na sala de aula e a publicou na internet para condenar seu comportamento. Ela foi autuada, julgada, presa e forçada a se desculpar com o homem, que disse que as fotos dele mostrando seus genitais em público lhe haviam causado “dano psicológico”. A mulher foi inicialmente multada com o valor equivalente a 18,000 euros, mas o modelo insistiu na corte que a mulher fosse enviada para a prisão, e ela permaneceu lá por 10 meses.

Considerando que os homens usam câmeras escondidas com impunidade quase total, este incidente provocou uma onda de protestos contra a prática do molka. Centenas de milhares de (principalmente) jovens mulheres se uniram, indignadas que as leis a respeito do voyeurismo fossem usadas contra mulheres e não homens. Até o momento, 360,000 mulheres participaram em protestos contra câmeras escondidas. Essas manifestações consistem em procissões fortemente estruturadas, músicas políticas impressas em flyers e distribuídas entre as multidões e discursos cheios de vida, que frequentemente começam com os cantos, e então as manifestantes se juntam e alcançam crescendos que parecem com gritos de guerra. Em alguns protestos, mulheres sobem ao palco para ter seus cabelos cortados bem curtos, em outras, suas coleções de maquiagem são ritualisticamente jogadas no lixo.

A necessidade da organização exclusiva de mulheres

Por trás dos eventos reais, que foram o Assassinato de Gangnam Station e os protestos contra o molka, havia um cenário virtual central. A partir de 2015, uma guerra verbal se desenvolveu na internet entre os homens e as mulheres. Uma grande disputa aconteceu quando o MERS (Síndrome Respiratória do Oriente Médio) chegou na Coreia do Sul. No DC Inside Gallery, um popular fórum de internet com milhões de usuários em todo o país, usuários do sexo masculino começaram a fazer postagens dizendo que a Paciente Zero era uma mulher sul coreana, alegando que ela foi prostituída no Oriente Médio e voltou infectada para a Coreia do Sul. Outros homens se juntaram, escrevendo comentários como “as mulheres coreanas deviam morrer”, “as mulheres coreanas gastam dinheiro em futilidades” e “as mulheres coreanas são burras e espalham esse vírus”. Em resposta, mulheres começaram suas próprias postagens no fórum, discutindo essa misoginia escancarada. Eventualmente descobriu-se que, na verdade, a MERS foi levada para o país por um homem, e as mulheres encheram as postagens masculinas de comentários, se sentindo vingadas. Mas a misoginia não foi esquecida.

Como resposta, as mulheres criaram a Megalia, parecida com o Reddit, mas livre de misoginia. A Megalia se tornou um espaço de construção de companheirismo entre mulheres, centrado em amizade e humor afiado. Tornou-se comum que as mulheres chamassem umas às outras de “vulvas” no site, dizendo coisas como “Muito bem, você é a buceta mais forte” ou “Que ideia brilhante! Você é uma bucetão!”. No entanto, a Megalia tinha usuários do sexo masculino, e muitos dos administradores do site eram homens gays. Primeiramente esses homens eram fortes simpatizantes da experiência das mulheres com a misoginia, mas assim que as postagens começaram a discutir a misoginia de homens gays e a cultura gay (como o drag), os comentários das mulheres começaram a ser removidos.

A moderação pesada do discurso das mulheres não é uma surpresa para muitas feministas no Facebook, Mumsnet ou no Twitter. As mulheres perceberam que para ter um debate livre e justo a respeito da realidade de suas vidas e da misoginia pela qual passavam, precisavam de um espaço moderado por elas mesmas, sem administradores homens. Essa experiência mostrou a necessidade da organização exclusiva de mulheres. Mulheres começaram a deixar a Megalia em massa, e em Janeiro de 2016, milhares já haviam se inscrito em um fórum online chamado Womad, descrito pelas minhas entrevistadas como um espaço “feminista radical lésbico”.

A espantosa prevalência da lesbiandade entre as feministas sul coreanas é um dos aspectos mais marcantes e significativos. Todas as feministas com quem eu falei para as mais de 40 entrevistas se identificaram como lésbicas.

Na Coréia do Sul, o Feminismo Radical e o Feminismo Lésbico são fortemente ligados, gerando o movimento “4비”/“4B” (a pronúncia de 4비 soa para o ouvido anglófono como algo próximo a “4B” [1]). O 4B se baseia em 4 regras que orientam esse movimento feminista radical e agem como um guia que as mulheres podem adotar para destruir o patriarcado e viver vidas mais seguras e livres dos homens. Os princípios são, a grosso modo; não se casar com homens, não namorar com homens, não fazer sexo com homens e não engravidar. O movimento 4B tem hoje um número estimado de 50.000 seguidoras.

Um estudo de 2016 revelou que 50 por cento da população feminina da Coréia do Sul não vê o casamento como necessário — as mulheres perceberam que o casamento é um contrato leonino, o que levou o governo a agir. Em resposta às preocupações a respeito do aumento da idade média da população e o declínio das taxas de natalidade, o governo sul coreano encomendou várias novelas para promover uma visão idílica do amor romântico heterossexual. Vários reality shows — Heart Signal; We Got Married; Same Bed, Different Dreams e The Return of Superman — foram encomendados para encorajar o casamento e a reprodução. Essas séries tendem a seguir uma narrativa em progresso, na qual os casais heterossexuais expressam primeiro o desejo de um bebê, depois a concepção, a gestação e o nascimento, cada passo documentado e apresentado sob uma luz positiva.

Tire o espartilho

Entre 2015-2016 e 2017-2018, as mulheres sul-coreanas gastaram 53,5 bilhões a menos de wons [R$ 243,5 milhões] sul coreanos em produtos de beleza e cirurgias estéticas, optando por investir esse dinheiro em carros, escolhendo a independência à objetificação. Parte dessa rejeição cultural das práticas de beleza femininas foi estimulada pelo movimento 4B e também pelo “Tire o Espartilho”. Inspiradas por Beleza e Misoginia, o livro de Sheila Jeffreys (traduzido para o coreano como Espartilho: Beleza e Misoginia), o movimento descreve a remoção do “espartilho” moderno: práticas de beleza como depilação, maquiagem, sapatos de salto, cirurgias estéticas, cabelos longos, dietas restritivas etc. A Coreia do Sul tem uma indústria de cirurgia estética gigantesca, sendo que a cirurgia mais comum para as mulheres é o procedimento de duplicação de pálpebra — uma operação que altera as pálpebras para que pareçam mais “ocidentais”. Sendo semelhante ao clareamento de pele, esta prática voltada ao lucro é fundada em uma idéia racista e pode levar à infecções pós-operatórias, perda das pálpebras, problemas de visão e até mesmo cegueira.

Crédito da foto: XYFreeWorld

Muitas entrevistadas se referiram ao movimento como um ponto de partida da sua jornada para o Feminismo Radical, dizendo “tirei meu espartilho no último janeiro”, ou “já estou sem espartilho há dois anos”. Para as mulheres sul coreanas, o termo “backlash” está ligado a “Tirar o Espartilho” — ele não faz referência a um backlash de fora, contra o feminismo (como no Ocidente), mas é um backlash pessoal, em que uma mulher se volta para a feminilidade. Uma mulher me disse “minha melhor amiga e eu tiramos nossos espartilhos em 2017, mas desde então ela teve um backlash e voltou a usar maquiagem por causa da pressão familiar”.

Outros slogans predominantes no movimento tendem a girar em torno do poder e determinação das mulheres. Um grupo de entrevistadas assinou um cartão pra mim com alguns deles, escrevendo “Nos encontramos no topo”, “Seja ambiciosa”, e “Nós somos a coragem umas das outras”. Eu reconheci esses slogans rapidamente porque eles costumam aparecer nos perfis das feministas nas mídias sociais. Uma recorrente e proeminente chamada à ação é “Se não eu, quem? Se não agora, quando?”. Este slogan foi parafraseado, emprestado de Hilel, o Ancião (Pirkei Avot 1:14), uma figura babilônica famosa na história judia.

Uma base histórica para a cultura centrada nas mulheres

Parte da razão pela qual o feminismo se desenvolveu da forma que ele é na Coréia do Sul é histórica e cultural. As mulheres com que eu falei explicaram que, historicamente, não existiu a mesma cultura de “cavalheirismo” (educação masculina e proteção social das mulheres) que existe no Ocidente, o que significa que existe muito menos fingimento a respeito da dominação masculina. No começo dos anos 1950, soldados que estavam lutando na guerra da Coréia faziam que as mulheres andassem antes deles sobre campos minados para checar por caminhos seguros e detonar as bombas com seus corpos. Não existe um arrependimento quanto à história desta prática. Eu perguntei “se o Titanic fosse coreano, teria havido uma política de mulheres e crianças primeiro, determinando quem entraria nos botes salva vidas?” A pergunta foi recebida com gargalhadas e negativas. Uma das entrevistadas via a ausência de cavalheirismo como menos gentileza dos homens, nos termos em que o patriarcado se desenrola. Ao mesmo tempo, as mulheres estão bem menos suscetíveis ao casamento porque os homens são muito mais claros, mesmo antes do casamento, a respeito de quão desiguais as coisas serão. Não é que os homens coreanos se comportem contra as mulheres de modo mais opressor que aqueles no Ocidente, é só que eles são muito mais abertos ao se comportar assim. Dado que a opressão masculina está menos escondida, algumas entrevistadas argumentaram que isso permitiu às mulheres que detectassem as armadilhas do casamento e da domesticação mais facilmente. É muito mais claro o que significa optar por se casar.

Outra entrevistada explicou que, historicamente, esperou-se das mulheres que trabalhassem na lavoura, muitas vezes trabalhando mais que os homens, de modo que eles foram vistos menos como provedores de riqueza material do que eles costumam ser vistos em outros lugares. As mulheres trabalhavam fora assim como faziam o trabalho doméstico. O benefício econômico de ter um marido, mesmo um que tivesse um emprego, era muito menor que o de outras sociedades em que tradicionalmente as mulheres eram proibidas de trabalhar, ou que tinham acesso limitado ao mercado de trabalho. Historicamente, na Coréia do Sul, existiu um estrito sistema de classes, e as mulheres não tinham a oportunidade de se casar com outras classes, de modo que pudessem acessar uma maior riqueza material, como as mulheres de outros países tiveram a chance. Com a falta dessa vantagem havia ainda menos motivo para as mulheres aspirarem a se casar. Essas condições históricas combinadas produziram um conjunto particular de políticas sexuais na Coréia do Sul, que significa que é comum para as mulheres rejeitar o casamento, já que existem benefícios mais claros que o cálculo de custo.

Outra razão pela qual existiu espaço para o Feminismo Radical prosperar é porque existe literalmente espaço para que isso aconteça. Universidades femininas foram criadas por todo o país durante o último século, e a maioria das cidades possui várias instituições exclusivas para mulheres (algumas possuem professores homens, e às vezes estudantes homens de outras universidades podem se inscrever em cursos por determinado tempo no campus, mas existem toques de recolher noturnos e todos os homens são obrigados a sair do local). Nos prédios da união estudantil, professores e estudantes do sexo masculino estão proibidos de entrar. São zonas exclusivas para mulheres, 24 horas por dia.

Em algumas universidades femininas, masculinistas (MRAs) protestaram segurando placas com dizeres como “Mulheres, abandonem suas bolsas de marca!”. Aparentemente o feminismo se desenvolveu tão longe dos homens na Coréia do Sul que alguns deles não sabem exatamente o que é que as feministas exigem, já que, ironicamente, os MRAs esperam que as mulheres parem de gastar dinheiro em itens caros de feminilidade. Enquanto isso, o Feminismo Radical organiza boicotes contra empresas e produtos que façam propagandas misóginas, encoraja mulheres a comerem apenas em restaurantes cujas donas são mulheres, beber em bares de mulheres e comprar em lojas de mulheres, assim o dinheiro das mulheres retorna aos bolsos femininos.

Enquanto as universidades femininas emergiram de um contexto cristão que considerava impróprio que mulheres solteiras estivessem junto de homens, elas proporcionaram um terreno fértil para que o feminismo florescesse. Muitos desses campi estão cercados por ruas que apenas as mulheres frequentam, com lojas e cafés quase que exclusivamente cheios de mulheres. Como resultado desta norma cultural, a maioria das cidade tem pelo menos um ou vários bares exclusivos para mulheres. (A Coréia do Sul não é refém da política da auto-identidade, então isso significa que os espaços são genuinamente exclusivos para mulheres)

A marginalização inspira a organização política

O movimento 4B e as idéias do Feminismo Radical se espalharam pela Coréia do Sul durante a metade da última década, tomando diferentes vilas e cidades, apesar de suas diferenças culturais e políticas.

Daegu, a quarta maior cidade do país, existe em forte contraste com sua capital, Seoul. Daegu é sem dúvidas a cidade mais conservadora da Coréia do Sul, e apenas 3 a cada 7 pessoas no local são mulheres, devido a abortos para seleção sexual. Em Daegu, os filhos são tão desejados que se uma família tem duas filhas seguidas, a segunda filha frequentemente receberá um nome com um significado do tipo “Desejando um filho” ou “Por favor, que o próximo seja menino”. Como para cada 3 mulheres existem 4 homens, a política sexual segue a regra. As mulheres que vivem em Daegu me explicaram que, enquanto as mulheres de Seoul podem chamar a polícia para denunciar um caso de violência doméstica, as mulheres de Daegu temem que a polícia ficará do lado do agressor e perpetrará ainda mais violência contra elas.

Apesar disso, as mulheres de Daegu são firmes. Elas contaram sobre como se recusam a usar maquiagem, apesar de que isso certamente resultará em falta de emprego. A cidade é mais pobre que sua vizinha, Busan, e que Seoul ao norte, mas ainda assim as feministas de Daegu abordaram o problema do desemprego gerado pela recusa à feminilidade se organizando. Elas formaram “cartéis” femininos, reunindo recursos, vivendo juntas em moradias baratas e conjuntamente fazendo campanha nas ruas para alcançar outras mulheres. Esses “cartéis” me foram descritos como grupos organizados, mas com estruturas abertas e flexíveis, focadas em divulgação. Isso contrasta com o que vemos no Ocidente, onde o Feminismo Radical tende a florescer através de pequenos grupos de amigas/namoradas, funcionando em conjunto como uma rede privada, em vez de se organizar primariamente em torno de alianças políticas e se engajar em recrutamento e campanhas públicas.

A Coréia do Sul tem a mais alta disparidade salarial de todos os países da OCDE (os 37 países mais ricos do mundo, de acordo com o PIB), com mulheres ganhando em média um terço a menos que os homens. Enquanto as feministas do Ocidente que tem empregos, propriedades, famílias apoiadoras e que não encaram discriminação direta por recusar práticas de feminilidade dirão que não podem ser abertamente radicais devido à precariedade financeira ou medo de represálias, as mulheres em Daegu — cuja renda é precária e que vivem numa cultura muito mais masculinamente centrada, persistem [2]. A experiência de conhecer feministas em Daegu enfatizou que insegurança social e econômica não precisa prejudicar nossa disposição de falar sobre questões feministas. É possível que o status econômico mais elevado das Feministas Radicais no Ocidente – que tem mais a perder (carreiras, respeitabilidade, status, dinheiro) é o que impulsiona seu anonimato online e seu silêncio na vida pública.

Na Coréia do Sul, as leis atuais permitem que uma mulher aborte apenas se ela tiver consentimento de um parente homem ou de seu namorado/marido/parceiro. Se a mulher conseguir abortar sem a permissão do homem (abortando em outro país ou tendo um amigo que finja ser o namorado, por exemplo) ela corre o risco de ser julgada e condenada ou multada em até U$ 2.000. As feministas lutaram bravamente para mudar essa lei e, em abril, a Corte Constitucional da Coréia do Sul julgou que a lei que criminalizava o aborto era inconstitucional. A Corte deu ao Parlamento até o fim de 2020 para implementar a nova lei, uma vitória óbvia para o movimento.

Em fevereiro, o Partido das Mulheres foi criado, chegando a 8.000 membras em março — um número que agora cresceu para 10.000. O Partido visa representar os interesses de todas as gerações, e por isso tem 5 líderes, cada uma de uma década diferente: uma adolescente, uma mulher nos seus 20, 30, 40 e 50 anos. Embora o partido tenha conseguido mais de 200.000 votos, elas não conseguiram nenhum cargo. No entanto, o Partido das Mulheres conta com grande apoio, particularmente de mulheres jovens que, ao contrário do ocidente, são as maiores divulgadoras do Feminismo Radical. Teoricamente, estima-se que ao redor de 60 mil moças poderiam ter votado no Partido das Mulheres, se elas não fossem menores de 18 anos.

Mudar a linguagem muda a cultura

Em resposta às recentes vitórias feministas, os masculinistas da Coréia do Sul que se opõem ao movimento feminista mudaram de tática e começaram a afirmar que na verdade desejam “igualdade”, em vez da “violenta” exclusão e preconceito que eles dizem que o Feminismo Radical exige. A adoção da retórica liberal é notavelmente semelhante àquela dos transativistas ocidentais que se opõem à priorização de mulheres no feminismo. Os homens da Coréia do Sul são relativamente organizados e às vezes fazem ações. Jae-gi, um homem que criou um site para MRAs, pulou de uma ponte para demonstrar a difícil situação dos homens devido ao feminismo, e por acidente foi empalado analmente por um galho subaquático e morreu. Desde então, Jae-gi se tornou um verbo que significa suicídio masculino, e as feministas dizem aos masculinistas “vá se Jae-gir!!”, que significa basicamente “foda-se, morra!”.

Pode parecer rude, mas esse é um exemplo de “espelhamento”, uma tática em que as mulheres empregam reversões linguísticas e jogos de palavra à língua coreana. A criação de verbos como “Jae-gi” é uma resposta direta ao abuso verbal e físico por qual as mulheres passam, tanto na internet quanto na vida real, pelas mãos dos homens.

Com mais de 1 milhão de palavras, o coreano tem mais que o dobro do vocabulário que da língua inglesa. As regras gramaticais do coreano facilitam a criação de novas palavras e expõem o quanto a língua é usada para reprimir as mulheres. A palavra “pais” em coreano é ‘부모님’(bu-mo-nim) — “bu” [1] significa “pai” e “mo” significa “mãe”, colocando o pai na frente porque o homem é considerado mais importante. Em vez disso as feministas coreanas começaram a usar o termo ‘모부님’(mo-bu-nim), mudando a ordem para que “mãe” venha primeiro. A palavra “carrinho de bebê”, em coreano, é ‘유모차’(yu-mo-cha) — “yu” significa criança, “mo” significa mãe” e “cha” significa “cadeira de rodas”, o que sugere que o cuidado infantil é reservado às mães. As feministas mudaram a palavra para “유아차” (yu-ah-cha) — “yu-ah” significa “criancinha”, então a palavra “mãe” foi removida e agora a palavra significa “carrinho de criança” (similar ao termo “carrinho de bebê”). Ajustes como este são possíveis em várias palavras, permitindo que seus significados sejam alterados.

O termo “6.9” (literalmente o número 6,9) é outro exemplo de como as mulheres “espelharam” e responderam a uma cultura que valoriza as mulheres de acordo com o tamanho de seus corpos. 6.9 se refere ao tamanho médio (em centímetros) do pênis de um homem coreano. Usar o termo nas mídias sociais respondendo às discussões com os homens é um modo de envergonhá-los, assim como as mulheres se envergonham quando os homens discutem o tamanho de seus seios ou outras partes de seus corpos, além de servir para diminuir o poder que eles acreditam que possuem devido a seus pênis.

Infelizmente também existem adições misóginas novas à língua, graças às comunidades online como o ILBE, onde homens podem trocar fotos de familiares nuas para ganhar curtidas e capital social. Os usuários criaram expressões como “As mulheres deveriam apanhar a cada três dias, como o peixe seco, para que se tornem mais gostosas” e “Ponha uma lâmpada na vagina e a quebre”, que entraram recentemente para o vernáculo popular.

Esses tipos de expressão são considerados banais na Coréia do Sul, de modo que as feministas coreanas desenvolveram uma nova linguagem como resposta, redefinindo termos misóginos.

Feministas Radicais estrategicamente redefiniram o termo “feminina” para que signifique mulher forte, poderosa e ambiciosa. Elas também redefiniram “masculino”, para que signifique inveja, magreza, infantilidade e o desejo de se emperiquitar. O “espelhamento” faz com que as pessoas se lembrem de quantos termos misóginos elas usam diariamente, sem sequer notar, mas também gera uma forte negação reativa a respeito das expressões sádicas usadas contra as mulheres através do humor. Com “feminilidade” redefinida, as mulheres coreanas buscam características como força e excelência, concentrando-se no autodesenvolvimento para alcançar suas próprias ambições. O espelhamento é uma maneira pela qual as mulheres usam a linguagem para tirar o controle dos homens.

Um modelo para o ocidente

O movimento feminista sul-coreano se desenvolveu a partir de condições particularmente misóginas, comparadas com o ocidente, em conjunto com melhores oportunidades para organização política, criando uma situação em que a ação radical era tanto necessária quanto viável. Essas circunstâncias únicas e contraditórias produziram condições sociais em que a ação radical das mulheres era tão possível quanto urgente.

O movimento feminista sul-coreano não está em total acordo interno, mas o que o diferencia do ocidente é que suas diferenças são discutidas — não apenas online, mas na vida real — e o debate direto não é considerado uma força destrutiva que deve ser evitada a todo custo, mas algo aceito e parte necessária da política. Por causa da presença desse movimento verdadeiramente próspero existe um maior senso de comunidade e cooperação.

As mulheres do Ocidente podem aprender muito com suas irmãs coreanas: sua habilidade para se organizar coletivamente, seu foco crucial em política, sua inventividade e engenhosidade e, talvez o mais significativo, sua prática de levar a política às ruas.


Notas

[1] Nota da revisora: apesar de, na romanização do Hangul (o alfabeto silábico coreano), o símbolo “ㅂ” normalmente ser grafado como equivalente ao “B”, a pronúncia de “비” (bi) é um pouco mais complicada: faz-se um bico com a boca como se fosse pronunciar um B, mas na verdade faz-se um P soprado, quase um F.

[2] Nota das tradutoras: Finalmente um texto longo e bastante esclarecedor sobre as práticas do movimento de libertação das mulheres sul coreanas! Nós já havíamos ouvido falar do assunto há um tempo, mas não havíamos visto nenhum material tão pessoal. Parece-nos muito específico da Coreia do Sul que o movimento tenha um caráter identitário tão forte e mesmo assim se mantenha inabalado. Para nós, é questionável essa possibilidade de se recusar práticas de feminilidade sem sofrer represálias no Ocidente (ou em lugares sob influência do chamado Ocidente, como o Brasil): a possibilidade das mulheres perderem suas posições, empregos ou prestígio por se posicionarem ou atestarem o óbvio evidencia o quão frágeis são essas conquistas e liberdades. Uma vez que a pressão do masculinismo se faz sentir, mais mulheres têm se posicionado. Quanto mais próximas de posições de poder e independência, menor a possibilidade de sofrer os danos do contra-ataque — vide o caso de J.K. Rowling.


Tae Kyung Kim é uma estudante da Universidade de Mulheres de Sungshin. Siga-a no Instagram ou faça contato por email: dohsmath@gmail.com.

Jen Izaakson é uma candidata ao doutorado do CRMEP. Siga-a no Instagram ou faça contato por email: jenizaakson@gmail.com.

A contraditória relação entre o aborto e as mulheres da Direita [RESUMO]

Adaptado de: DWORKIN, Andrea. “Abortion”. In: Right-Wing Women. Nova York: Perigee Books, 1983. P. 71-105.


Andrea Dworkin, autora de Right-Wing Women.

Antes do aborto ser legalizado nos EUA, as estatísticas sobre ele eram criadas em cima das evidências que haviam disponíveis: depoimentos de mulheres e médicos, casos que deram errado e resultaram em atendimentos de emergência ou mortes. O perfil da mulher que abortava ilegalmente era: casada e com filhos, demonstrando que a ligação entre aborto e imoralidade sexual é falsa.

Essas mulheres permanecem em silêncio sobre o assunto e se dissociam das outras que realizaram o procedimento, se vendo como exceções, mulheres respeitáveis que tiveram que recorrer a isso em um momento de desespero. Admitir ter feito aborto seria como admitir sofrer violação e estar em uma posição vulnerável.

Há também o medo de ter feito algo imperdoavelmente errado, uma vez que qualquer coisa tem mais valor que a própria vida delas. Esse medo de ter cometido assassinato existe porque homens assumem em suas oposições ao aborto que se mulheres tivessem tido essa escolha, poderiam tê-los abortado. Coloca-se uma responsabilidade imaginária na mulher por vidas adultas já existentes a partir do óvulo fertilizado porque não é aceitável que mulheres afirmem possuírem existências separadas dos homens. Mulheres, aqui, não têm direito a um corpo fora dos domínios dos homens.

O medo e o silêncio acompanham uma experiência que só mulheres têm, e que são os seus maridos que as colocam nessa situação: o abortista termina o trabalho que o marido começou. O aborto é considerado um ato egoísta e de rebelião, sendo a mulher punida pela culpa de dispôr de seu útero conforme lhe convém e um modo estranho de dizer não.

As mulheres não podem ser responsabilizadas por gravidezes indesejadas porque não são elas que controlam as condições em que são engravidadas. O direito sexual do homem sobre sua esposa é garantido na lei, de modo que o estado define o uso sexual do corpo da mulher. Mesmo quando o estupro dentro do casamento é proibido por lei, o homem dispõe de outros meios para garantir a coerção sexual.

O casamento é a prova irrefutável da posição de desigualdade das mulheres. A lei é um instrumento da religião, que garante o direito do homem sobre o corpo da mulher abençoado por deus. Entretanto, a pressão para a submissão vem de várias fontes. A gravidez é uma consequência dessa submissão, e as mulheres vivem em um contexto de sexo forçado. O repúdio das mulheres ao estupro e sua vontade de liberdade são interpretados como aversão ao sexo.

O sexo forçado, geralmente a penetração, é um problema central na vida de toda mulher. Elas serão avaliadas pelos homens de acordo com a sua relação com a penetração, e tudo nela deve ser um sinal de sua aceitação dessa situação. O coerção que as mulhers sofrem dentro do casamento seria considerada coerção estatal caso elas não fossem mulheres, mas essa coerção é disfarçada por uma montanha de propaganda que busca fazer as mulheres se conformarem com a feminilidade.

A feminilidade é a aceitação do sexo nos termos dos homens e pode ser definida como submissão ritualizada. A propaganda da feminilidade, em tempos de resistência feminista, prega que o sexo pode ser bom se as mulheres o fizerem direito, e dentro da esfera da dominação dos homens. As regras da feminilidade quebram o espírito das mulheres e as treinam para desejar e depender dos homens. As mulheres são submetidas aos homens através da ignorância a respeito do sexo, vendo-se como buracos. Se elas soubessem o propósito deles para elas, repudiariam tudo, uma vez que o uso que eles fazem delas nada tem a ver com a mulher enquanto indivíduo.

Apesar da propaganda, a feminilidade precisa ser imposta à força. A força (e o sexo forçado) é o que mantem o vínculo sexual dos homens às mulheres, e se ela não fosse necessária, não seria tão disseminada. A violência física, o abuso de meninas, a manutenção das mulheres em estado de pobreza e dependência econômica, e a propaganda da feminilidade são o que permitem a manutenção da dominação.

É impossível falar de sexualidade feminina fora do contexto de sexo forçado; independente dos gostos ou experiências individuais de cada mulher, todas elas vivem nesse contexto. A força usada no sexo é tornada ela mesma “sexy”, romantizada e naturalizada. A coerção sexual é o que molda as mulheres à submissão e viola os limites de seu corpo. É pela penetração que os homens asseguram sua dominação e o direito ao uso do corpo das mulheres: a centralidade da penetração não tem nada a ver com reprodução ou prazer, mas acaba se tornando um sinônimo de sexo porque é uma das mais emblemáticas expressões da dominação masculina. É pelo intercurso sexual que a mulher é moldada.

O estupro e o sexo marital são formas opostas de expressão sexual apenas quando as mulheres são vistas como propriedade sexual, quando a propriedade de um homem é violadas por outro. É somente quando a mulher é reconhecida como um ser humano que o estupro é reconhecido como tal. Se o estado regula o uso da força sexual contra as mulheres, é o estado quem distingue o sexo “normal” do estupro. O consentimento se torna a aquiescência passiva, e esta a participação padrão das mulheres no sexo. E se as mulheres consentem com o que é feito a elas, não há como sinalizar, provar ou mesmo sugerir estupro. É o sexo forçado no casamento que valida todas as outras formas de uso da força sexual contra as mulheres.

Existe a crença de que os homens usam a força porque são homens, e também a crença de que as mulheres respondem sexualmente à violência infligida a elas. Existe toda a sexualização da violência e a crença de que a mulher casada é a mais protegida de todas: se está certo usar a força contra a mulher casada, contra que mulher isso será errado? A definição da mulher no contexto de dominação é feita nos termos de sua função, que é ser fodida. Se ela desperta desejo em um homem, é porque ela já é adulta o suficiente e, presumivelmente, já é uma mulher. Uma vez que uma mulher é fodida, ela cumpriu a sua função enquanto mulher e pode ser legitimamente fodida.

No que diz respeito à gravidez, se é possível forçar uma mulher a conceber dentro do casamento, e se a força é a norma, não existe diferença para a gravidez fruto de estupro ou incesto. O estupro só será considerado enquanto tal para os homens se o emprego da força for monstruosamente brutal. Se a função da mulher é ser fodida, se ela estiver grávida é porque ela já foi fodida. Ser fodida não viola a sua integridade de mulher, porque ser fodida é o que significa a integridade da mulher sob o sistema de dominação. O reconhecimento de alguns casos de estupro se dá pela vontade do homem de não reconhecer os frutos do estupro de outro homem — essas exceções existem para protegê-los. O aborto só é tolerado quando ele protege os homens.

O problema da revolução sexual é que ela esteve o tempo inteiro nas mãos dos homens. A ideia central era de que o sexo era bom. No caso das meninas, significava que elas queriam ser fodidas. A filosofia da revolução sexual vem de antes dos anos 1960 e se manifestou na esquerda de várias formas. Segundo esse pessoal, se fazia guerra porque se odiava o sexo/amor. Os homens que resistiram à convocação para a guerra deixaram seus cabelos crescer e foram comparados a covardes, a garotas. Por causa disso, muitas delas acreditaram que eles eram seus aliados.

As jovens mulheres eram idealistas e, como não corriam o risco de serem convocadas para a guerra, tinham no homem negro a sua figura para demonstração de empatia. Estupro era visto como uma arma racista para prejudicar homens negros. Essas jovens eram idealistas porque acreditavam que a paz e o amor prometidos eram para elas também. Elas não queriam a mesma vida que as suas mães tinham e aceitavam as ideias de amor livre e liberdade sexual dos homens porque isso as tornava diferentes das suas mães.

O radicalismo sexual dessa época era definido em termos masculinos: número de parceiros, frequência do sexo, variedade sexual (sexo grupal), disposição de se engajar em atos sexuais. Supostamente deveria valer para ambos os sexos. O estupro era comum e o lesbianismo jamais aceito em seus próprios termos. A homossexualidade masculina era tolerada, mas desprezada porque o homem heterossexual não toleraria ser fodido como mulher. O sonho das mulheres nessa utopia era a transcendência sexual, o sonho de ser menos mulher em um mundo menos masculino, uma erotização da igualdade fraterna.

A contradição das mulheres dessa época era buscar a liberação sexual justamente através do ato que mais reifica a dominação. A contracultura ficou cada vez mais agressiva e dominada pelos homens, enquanto que as mulheres se viram obrigadas a serem objetificadas e comercializadas em pornografia e tráfico, ou serem socialmente segregadas nos papéis tradicionalmente femininos. A liberação sexual não funcionou para as mulheres, e sua consequência acabou sendo a de libertar os homens para fazer uso das mulheres fora das restrições burguesas. Ao interagirem sexualmente com uma maior variedade de homens, as mulheres descobriram que sua individualidade era irrelevante diante da prática sexual masculina generalizada.

A ideologia do movimento de liberação sexual dos anos 1960 assumia que todo mundo queria fazer sexo o tempo todo, e não levava em conta o estado subordinado das mulheres. Segundo eles, a aversão das mulheres ao sexo era resultado e prova da repressão sexual. Havia a crença generalizada de que as mulheres não recusariam sexo se não fossem reprimidas, nem os homens precisariam fazer uso da força. O estupro era negado por razões políticas se o estuprador era negro e a mulher não. Por outro lado, se um estupro racial era fabricado, jamais era ignorado como falso. Quando uma mulher negra era estuprada por um branco, o reconhecimento do estupro enquanto tal dependia das alianças políticas de negros e brancos naquele território social específico. A mulher negra estuprada por um homem negro carregava o fardo de não poder prejudicar sua própria raça, não chamando atenção para a brutalidade cometida contra ela.

Em momento algum a ideologia da liberação sexual problematizou o estupro ou lutou pelo fim da subordinação social e sexual das mulheres aos homens: sequer reconheceu esses problemas. As mulheres eram punidas por qualquer tipo de limites que quisessem estabelecer em suas relações.

A gravidez era um problema e um real obstáculo às demandas masculinas por sexo, e tornava as mulheres relutantes e preocupadas. Nessa época a pílula não era tão fácil de se conseguir e nenhum outro método era mais seguro ou acessível. Por mais que as mulheres tolerassem ou gostassem do sexo em que participavam, para elas as consequências eram dolorosas e sangrentas, enquanto que os homens perdiam apenas talvez dinheiro. As formas de convencer as mulheres a cooperarem era tratar a possibilidade da gravidez como “natural” ou prometer uma criação comunal das crianças. Ao invés das punições tradicionais, a mulher que engravidava era frequentemente abandonada. A liberdade para os homens era foder, e a foda terminava para os homens quando a foda acabava. O fato da gravidez era um poderoso antiafrodisíaco, e a visão das mulheres abandonadas tornou-as um pouco mais preocupadas.

Foi justamente a realidade da gravidez que fez do aborto uma prioridade política alta para os homens nos anos 1960. A descriminalização do aborto tornaria as mulheres totalmente acessíveis, e foi por isso que se tornou uma prioridade da esquerda na época. E foi aí que as mulheres que viviam políticas radicais na contracultura se voltaram ao feminismo.

Feministas apontaram que mulheres eram excluídas de grupos políticos simplesmente porque o cara com quem elas estavam saindo no momento não estava mais afim, ou ainda que em certos contextos as mulheres eram excluídas ou classificadas como puritanas porque não estavam dispostas a serem estupradas. Houve o reconhecimento de que os camaradas eram na verdade exploradores cínicos como qualquer outro explorador. Conversando, as mulheres descobriram que suas experiências eram idênticas, indo do sexo forçado à humilhação e ao abandono. Os homens queriam as mulheres para foder, não como companheiras de revolução.

Por conta disso, as mulheres resolveram formar seu movimento autônomo, que tinha como premissa central a ideia de que a liberdade das mulheres não é possível sem que ela tenha o controle absoluto sobre seu corpo, tanto no sexo quanto na reprodução. Isso incluía não apenas o direito ao aborto, mas também o direito de dizer não ao sexo. Para os homens, as feministas eram as estraga-prazeres, e desde então eles tem trabalhado para frear os avanços do movimento. O direito ao aborto era uma parte intrínseca e essencial aos homens na revolução sexual, a liberdade das mulheres não tinha a menor importância.

As feministas lutaram a batalha pela descriminalização do aborto praticamente sozinhas nos EUA. A partir de 1973, a indiferença masculina se transformou em hostilidade, uma vez que o direito ao aborto conseguido naquele ano não levou as mulheres a abrirem as pernas. Ideias a respeito de traumas sofridos no útero e psicologia fetal floresceram na esquerda sem qualquer influência de pastores de direita; posteriormente, a direita iria defender a proteção de óvulos fertilizados como se fossem pessoas. O argumento do aborto como arma genocida contra negros e outras etnias ganhou tração política, mesmo diante do fato de que são as mulheres negras e latinas as que mais morrem em abortos ilegais. Alguns pacifistas da esquerda comparavam o aborto com armas nucleares.

O fim da fodinha fácil mudou as prioridades na esquerda. Havia ressentimento entre os homens pelo fato de as mulheres terem se retirado da revolução sexual: se uma mulher não servia para foder, ela não existia. A esquerda trabalhou deliberadamente contra o direito ao aborto, seja se posicionando ativamente, seja ignorando completamente o assunto. Esses homens envelheceram e agora queriam ter os seus bebês. A gravidez compulsória era a única forma de assegurar que eles pudessem tê-los.

As mães das garotas dos anos 1960 pareciam sexualmente conservadoras e diziam que suas filhas iriam se machucar, mas não diziam como nem porquê. Para essas mulheres, o sexo era uma obrigação do casamento. Elas ensinavam suas filhas a respeitarem os homens enquanto classe e, ao mesmo tempo, a não fazer sexo com eles. Essas jovens não entendiam a ambiguidade dessa mensagem: as mulheres tentavam proteger suas filhas dos homens tentando direcioná-las para um único homem bom, ensinando-as a navegar pelo sistema de dominação masculina. Não havia vocabulário para explicar essa ambivalência do sexo — aceitável em alguns contextos como o casamento, mas não em outros. O silêncio a respeito do assunto por parte dessas mães era um jeito de evitar que suas filhas descobrissem que tipo de vida elas viviam.

Uma característica essencial da dominação masculina é manter as mulheres distraídas e ocupadas com os detalhes dela, impedindo-as de conversarem a respeito da natureza da força que as domina. Essas mães foram incapazes de deter a esperança e o entusiasmo trazidos pela liberação sexual — elas não podiam conversar e contar o que sabiam sobre a natureza e a qualidade da sexualidade masculina, dentro de sua própria experiência no casamento. O que essas mães sabiam sobre a promiscuidade é que o que um homem é capaz de fazer, dez também são. Suas filhas não sabiam o que os homens poderiam fazer com elas, mas elas não tinham nenhuma outra alternativa a oferecer. O repúdio que essas mães tinham do sexo não era visto como tendo uma causa objetiva.

As mulheres da direita cresceram em movimento político. O que elas têm a dizer a respeito do aborto está relacionado ao que elas sabem a respeito do sexo, e elas sabem algumas coisas horríveis a respeito. Elas viram os homens se utilizarem cinicamente do aborto para tornarem as mulheres mais acessíveis. Depois que o aborto foi legalizado, elas viram um movimento social em direção à ampliação do acesso sexual às mulheres sob os termos da dominação masculina expresso na pornografia — e relacionam as duas coisas. Elas acreditam que o que a direita tem a oferecer é um pouco menos cruel.

As mulheres da direita acreditam que a promiscuidade generaliza, enquanto que o casamento contém, a força destruidora dos homens — um de cada vez. Elas continuam silenciosas a respeito da natureza do sexo dentro do casamento tradicional, mas o que elas falam se baseia em experiência real. As mulheres da direita também acreditam que a gravidez é a única consequência do sexo que torna os homens responsáveis pelos seus atos sobre elas, e é por isso que se opõem ao aborto e aos anticoncepcionais. Sem a inevitabilidade da gravidez, se ampliariam as crueldades que os homens poderiam fazer às mulheres.

As mulheres da direita enxergam o cinismo dos homens da esquerda, e sabem que as posições políticas deles são sempre congruentes com o sexo que eles querem. Elas também sabem que as mulheres podem se foder querendo ou não nas mãos deles, e fazem o melhor acordo de que são capazes dentro de suas possibilidades. A gravidez é uma arma de sobrevivência dessas mulheres. Ela confirma, assim, o que aprendeu a respeito de sua própria natureza enquanto mulher: que ela merece ser punida, e que a punição por fazer sexo é o aborto ilegal. Elas se sentem envergonhadas porque é mesmo vergonha o que se sente quando se é usada para sexo. Uma vez que a vergonha confirma a sua culpa, o aborto ilegal é um sofrimento merecido.

Aborto, sendo ilegal, fica fora do campo de visão das mulheres de direita. Tira da visão delas a opção de escolher não ser uma mãe, a opção de não conformidade ao casamento. As mulheres rebeldes devem fazê-lo em segredo, sem causar confusão em outras mulheres. Sendo ilegal, o aborto coloca a vida e a morte nas mãos de Deus, o homem superior e juiz absoluto. Nenhuma mulher deve ser obrigada a encarar o aborto, até que aconteça com ela. Mulheres que realizam o procedimento e recusam a maternidade, segundo as mulheres da direita, merecem morrer. As mulheres da direita seriam, portanto, mártires, sobreviventes e preocupadas individualmente com a sua própria sobrevivência.

Não existe medida melhor para se calcular o que o sexo forçado faz às mulheres. O estupro destrói a autoestima e a vontade de sobreviver enquanto ser humano autodeterminado. O treino da feminilidade sobre as meninas e o uso sexual das mulheres no casamento significa a aniquilação de qualquer vontade de liberdade nelas. Seu senso de personalidade está tão danificado que ela prefere correr o risco de morrer a dizer não a um homem que vai fodê-la de qualquer modo, com a benção de Deus e do Estado, até que a morte os separe.

A Promessa da Extrema-Direita para as Mulheres [RESUMO]

Adaptado de: DWORKIN, Andrea. “The Promise of the Ultra-Right”. In: Right-Wing Women. Nova York: Perigee Books, 1983. P. 13-35.


Andrea Dworkin, autora de Right-Wing Women.

Socialmente, as ações de homens e mulheres são valoradas de forma diferente, sempre colocando mulheres em posições subjugadas. Elas são vistas, portanto, como “biologicamente conservadoras”. A ideia de que mulheres têm filhos porque por definição mulheres podem ter filhos, tomada como fato, pensa o ato de ter filhos (e as obrigações que vêm com isso) como instintivo e inerente às mulheres. Se o estado atual de coisas é supostamente mais seguro para as mulheres terem filhos, então isso seria melhor que os potenciais perigos da mudança.

Segundo os homens que filosofaram sobre o assunto, o imperativo biológico devido ao potencial reprodutivo das mulheres se traduz em mentes estreitas, vidas sem muito significado e, por conseguinte, puritanismo. Resultado dessa ideia: mulheres obrigadas a terem filhos, com exceção de alguns curtos intervalos onde os homens ficam meio desorientados — o exemplo dado no texto é o que resulta do sexo depois de certas revoluções.

Mulheres de todo o espectro político apoiaram conflitos onde seus filhos acabam mortos. Essa contradição mostra como a realidade das mulheres vai contra as teorias criadas sobre elas. Mas as mulheres enquanto classe acabam aderindo a normas e tradições de seu contexto social; se rebelar ao credo dos homens em volta delas é perigoso. A aquiescência das mulheres se dá em razão de conseguir alguma proteção da violência masculina para si mesmas.

Às vezes, essa conformidade é militante: provando sua fidelidade a estes princípios, ela pode encarnar a puta feliz ou a puritana fervorosa. Isso raramente a salva, contudo. Mas reconhecer essas traições dos homens pode ser o prego no caixão dessa mulher: confrontar a violência pode levar a mais violência. A luta é sempre contra “algo pior” que sempre tem a possibilidade de ocorrer, e a maioria das mulheres não tem condições de se dar ao luxo de reconhecer que não existe nível suficiente de lealdade aos homens.

Geralmente, as mães criam suas filhas para se conformarem aos valores ideológicos dos homens à sua volta, independente de orientação política. A maioria das meninas não quer a vida da mãe, mas às vezes acaba se conformando dada a violência masculina à volta dela. Mesmo quando se rebela, a filha acaba reproduzindo os padrões de sua mãe, e assim os homens acabam conseguindo atar mulheres em seu lugar de subjugação através de culpa e ressentimento.

Os homens sempre criam “tipos” de mulheres para odiarem e fazerem piadas internas. A caricatura da “mulher burguesa”, megera vaidosa que abusa da paciência do marido bondoso, por exemplo, está na boca de todos eles independente de classe social. Falar mal desse espantalho de mulher é instantaneamente gratificante aos homens. Outros tipos desses são a mãe judia castradora, a mulher negra matriarca raivosa, a lésbica que na verdade é frustrada porque queria ser um homem etc.

A maior piada entre os homens e a maior ofensa a uma mulher é reduzi-la ao seu sexo: a mulher é uma boceta, é um útero, e todo o resto do seu corpo (principalmente o que o caracteriza como humano) é cortado fora como inútil. A obcenidade favorita entre os homens é esse ser desmembrado.

Toda mulher, independente de sua condição, luta contra isso com todos os recursos de que dispõe, e eles são muito poucos. Por causa disso, elas sempre se agarram com todas as forças às próprias estruturas de poder que as degradam. É uma fidelidade cravada no auto-ódio, e é isso que define a própria feminilidade no contexto da dominação masculina.

O medo que Marilyn Monroe tinha de atuar a paralisava, independente de ela se saber capaz disso. No entanto, a atuação da atriz se dá dentro das espectativas dos homens que controlam os processos do audiovisual. O medo de Marilyn Monroe poderia estar ligado ao fato de ela mesma não estar convencida do papel de mulher que deram para que ela representasse. A morte de Monroe provocou nos homens que fizeram uso sexual dela ou de suas imagens o questionamento de que talvez ela não gostasse de todas as coisas que eles faziam a ela — é daí que viriam, talvez, os rumores de que ela poderia não ter se matado. A ilusão dela enquanto mulher ideal era encantadora demais para esses caras.

Mulheres morrem sozinhas e solitárias, sorrindo até o momento final, tentando encarnar a fantasia masculina que se coloca sobre elas. Talvez se elas fossem a mulher perfeita — esposa perfeita, puta perfeita, mãe perfeita —, talvez não sofressem tanto. Elas morrem não insatisfeitas com o que fizeram com elas, mas por não terem conseguido encarnar o papel imposto a elas pelos homens. Sua própria sobrevivência depende disso.

A sobrevivência das mulheres, portanto, é prometida em troca de sua conformidade com as correntes que as prendem. Elas não podem fazer nada que as destaque individualmente, que chame atenção predatória sobre si. Elas acabam esperando que essa atenção masculina destruidora caia sobre outra mulher, menos hábil em se conformar, que não elaa.

As histórias de violência sobre as mulheres são dispensadas e ridicularizadas como se fossem nada até mesmo por aqueles que dizem se importar. Para reconhecer a realidade e a validade das queixas das mulheres é preciso antes reconhecer a existência daquela pessoa. Nem homens nem mulheres acreditam da existência das mulheres enquanto seres dignos. Se as mulheres negam a validade de sua própria experiência vivida, elas não têm como reagir.

Para buscarem seu próprio valor, as mulheres acabam se aliando aos homens e aos seus valores. E se os homens demandam obediência delas, elas irão valorar sua própria existência enquanto servas deles, e não irão reconhecer o roubo da sua dignidade realizados por eles.

A direita nos EUA atua sobre as mulheres através da propagação do medo de que a violência masculina é imprevisível e incontrolável. Sua promessa se baseia na restrição dessa violência oferencendo:

  • Forma: os homens moldam as mulheres através da ignorância, do não cultivo de suas capacidades físicas e intelectuais.
  • Abrigo: a direita promete proteger as mulheres através da crença de que uma mulher sem um homem (ou sem uma família, um lar) está completamente à mercê dos perigos da vida.
  • Segurança: em um mundo indubitavelmente violento com mulheres, a direita promete que, se a mulher se comportar direito nenhum mal cairá sobre ela.
  • Regras: ignorantes em um mundo construído por homens, mulheres devem seguir regras para bem viver; a direita promete a elas um bom comportamento da parte dos homens, mas sem nenhuma garantia.
  • Amor: o conceito de amor é crucial na aliança das mulheres; uma mulher será amada (e recompensada com a proteção do homem ou de deus, sendo Jesus o único homem a quem ela pode se submeter sem medo de ser violada) se for obediente em cumprir suas funções de mulher (maternidade e servitude sexual).

Jesus jamais é enxergado como um filho perfeito, ele é apenas uma outra encarnação do deus-pai. E as mulheres passam a vida tentando agradar esse homem ideal, sofrendo com seu próprio apagamento no processo. Jesus é o modelo de homem perfeito que as mulheres devem projetar sobre todos os outros, e através do qual as mulheres perdoam as faltas e abusos deles. As mulheres também são levadas a creditar ao próprio espírito santo qualquer lampejo seu de inventividade intelectual.

O casamento é a esfera onde, com a força da religião, as mulheres devem tolerar a servidão e levantar as barreiras de sua resistência. O desejo de servir Cristo leva as mulheres à conformidade e a realizarem as vontades de seus maridos. E a autoridade paterna sobre os filhos é o que justifica algum grau de violência física dentro da família e da vida doméstica.

Essa tentativa de se tornar perfeita aos olhos dos homens e de deus pode levar as mulheres a se verem e agirem como “one of the boys“. Assim, mulheres acabam lutando contra seus próprios interesses na tentativa de alcançar suas ambições individuais. Porém, eventualmente elas acabam descobrindo que são também mulheres e não têm acesso aos altos escalões. Mas é através da manipulação dessa habilidade desenvolvida nas mulheres de respeitarem aqueles que as usam que muitas dessas advogadas do antifeminismo conseguem converter outras mulheres à direita.

As mulheres da direita temem as lésbicas. A fantasia que elas criam entorno das lésbicas é que elas são estupradoras e abusadoras de crianças, independente da falta de qualquer evidência para embasar isso. O abuso cometido pelos homens acaba normalizado por ser heterossexual, enquanto que o desejo homossexual das mulheres é visto como monstruoso.

O aborto para as mulheres da direita, uma vez que elas abdicam de seu próprio valor, valorando mais um óvulo fertilizado que uma mulher adulta, é equivalente ao assassinato de crianças. Os fatos sobre o aborto — realizado principalmente por mulheres mais velhas com filhos, e que a ilegalidade do procedimento leva muitas à morte — não as convencem. O aborto seriam então um ato de mulheres cruéis e sem deus, o exato oposto delas mesmas. O reconhecimento do direito ao aborto seria, portanto, o reconhecimento da desigualdade de condições da mulher que é obrigada a parir um filho indesejado. Reconhecer que mulheres não queiram parir filhos indesejados é devastador para essas mulheres.

A direita americana é um movimento social e político quase que controlado totalmente por homens, mas contruído sobre a ignorância e os medos das mulheres, ambos consequências da dominação dos homens. Os sentimentos conflitantes, resultados dessa experiência de dominação, acabam projetados em outros, em estrangeiros, nos diferentes, não não-cristãos. Isso pode resultar em nacionalismo, racismo, homofobia e desprezo por aquelas mulheres que não tiveram tanta sorte — grávidas na adolescência, mulheres prostituídas etc.

Elas se apegam a esses ódios irracionais temendo danos aos seus, e projetando o medo em um “mal maior”. Uma vez não têm meios de externar essa raiva, acabam se tornando odiadoras obedientes e manipuláveis. Esse comprometimento com sua própria sobrevivência individual leva mulheres a não reconhecerem que estão jogando contra si mesmas. Com sorte, sua própria experiência da realidade pode levá-las a questionar sua posição inferior. Independente das crenças ideológicas de origem masculina que as mulheres possam adotar, essa é uma luta compartilhada por mulheres de todo o espectro político.

Sadomasoquismo: O Culto Erótico do Fascismo

Comentário da autora: Esse artigo foi escrito em 1984, quando eu [Sheila Jeffreys] fazia parte do grupo Lésbicas Contra o Sadomasoquismo em Londres. As feministas lésbicas na Grã-Bretanha sabiam dos desenvolvimentos do sadomasoquismo lésbico nos Estados Unidos, mas nenhum grupo havia se reunido no entorno deste assunto até que o novo London Lesbian and Gay Center concordou que sadomasoquistas deveriam ser aceitos lá. Os eventos dessa época são descritos no capítulo “A Pale Version of the Male” no livro The Lesbian Heresy. O artigo foi originalmente escrito para uso do próprio grupo, e também foi distribuído em forma de fotocópias para outras lésbicas interessadas. Ele não deve ser considerado uma afirmação definitiva das políticas do grupo, mas uma visão individual. Em 1986 ele foi publicado na Lesbian Ethics nos Estados Unidos.


Cartaz do filme The Night Porter (1974). Arte de Liliana Cavani.

Soube das ligações entre o sadomasoquismo e o fascismo em 1981, quando visitei Amsterdam vinda de Londres para participar de um festival de mulheres. Um tema importante do festival, senão o principal, era o sadomasoquismo. As mulheres do festival de Amsterdam demonstravam cenários sadomasoquistas, por exemplo, um homem transexualizado chicoteando uma mulher, ambos vestidos em roupa fetichisticamente “feminina” e couro negro. Um número considerável de mulheres no festival estava vestida de couro negro, e algumas usavam coleiras e guias enquanto eram conduzidas por outras mulheres. As oficinas que promoviam o sadomasoquismo argumentavam com base na liberdade pessoal para as minorias sexuais. Os seus promotores argumentavam que o sadomasoquismo era basicamente um assunto privado, ainda que os praticantes de sadomasoquismo tivessem que “sair do armário” por serem oprimidos por preconceito e discriminação contra as práticas sexuais de sua preferência.

Na mesma semana em que o festival aconteceu, o primeiro membro fascista do parlamento foi eleito em Amsterdam desde a guerra. Houveram brigas de rua naquele fim de semana nas quais fascistas celebraram batendo em membros da população imigrante de Amsterdam, e uma rede de contatos por telefone teve de ser operada para distribuir os antifascistas a diferentes partes da cidade para resistirem à violência racista. As feministas de Amsterdam que me contaram da violência e do triunfo eleitoral não viam nenhuma conexão entre o aumento do fascismo e a promoção do sadomasoquismo como uma prática sexual. Elas aceitavam que o sadomasoquismo era simplesmente uma questão pessoal. Eu não estava convencida. Uma importante estação policial de Amsterdam ficava na mesma rua do prédio onde aconteceu o festival, o Melkweg. Fora do prédio do festival havia um poster gigante de uma mulher nua com suas mãos amarradas às costas. A mulher escrava estava do lado oposto da estação policial. Ela não me parecia representar um símbolo de provocação. Parecia mais que o sadomasoquismo, a polícia, a crescente ameaça fascista, os meninos adolescentes que jogaram pedras em mim e em minha namorada por andarmos de mãos dadas na rua depois do festival, tinham muita coisa em comum. Qual era o fio que os ligava?

Berlim nos anos 1930

Existe um exemplo histórico da conexão entre sadomasoquismo e fascismo que ignoramos, e que nos prejudica. Antes de os nazistas dominarem na Alemanha em 1933, o sadomasoquismo estava florescendo e crescendo enquanto prática sexual, particularmente entre homens gays. Christopher Isherwood, um novelista britânico gay que viveu em Berlim naquela época, deixou um registro escrito dos flertes com o sadomasoquismo que estavam acontecendo não apenas entre os gays, mas também entre a juventude alienada e desempregada da Alemanha. Em um livro de 1962, Down There on a Visit, Isherwood discorreu sobre as conexões entre o sadomasoquismo e o crescente fascismo em suas descrições de um jovem alemão, Waldemar.

Tenho certeza que Waldemar instintivamente sente a relação entre as cruéis senhoras vestidas de botas que costumavam frequentar seu comércio fora da Kaufhaus des Westens e os jovens valentões em uniformes nazistas que estavam lá naqueles dias agredindo os judeus. Quando uma senhora dessas reconhecia um cliente promissor, ela costumava arrastá-lo, puxando-o para um táxi e o batia com um chicote. Os garotos da SA não fazem exatamente a mesma coisa com os seus fregueses — exceto que, nesse caso, o chicoteamento é fatal? Um não era uma espécie de ensaio psicológico para o outro? [1]

Martin Sherman usa o sadomasoquismo como um tema subjacente importante em sua poderosa peça chamada Bent. A peça abre com o personagem principal, Max, pegando e levando para casa consigo, presumivelmente para sexo a três com seu amante, um jovem homem vestido de couro que praticava sadomasoquismo. Na manhã seguinte, os oficiais da Gestapo chegam à procura do jovem alemão e cortam sua garganta. O ano é 1934. Max e seu amante estavam então foragidos. Depois que seu amante foi morto, Max acabou em um campo de concentração. Na cena mais comovente da peça, Max e um companheiro de cela, que estava no campo porque assinou uma petição que repelia o estatuto alemão contra a homossexualidade, interagem sexualmente apenas conversando, enquanto moviam pedras sob vigilância pesada. Max é incapaz de fazer sexo sem dor e inclui mordidas dolorosas nos mamilos durante a fantasia falada. Horst, o amante, reclama e relaciona o sadomasoquismo com o fascismo que os aprisionou.

Horst: …Você tentou me machucar. Você me conforta, e então me machuca. Já estou machucado o suficiente. Não quero mais sentir dor. Por que você não pode ser gentil?
Max: Eu sou gentil.
Horst: Não, você não é. Você é como eles. Você é como os guardas. Você é igual a Gestapo. Nós paramos de ser gentis. Eu observei, enquanto estávamos lá fora. As pessoas fazem dor e chamam de amor. Eu não quero ser assim. Não se faz amor para machucar. [2]

A peça relaciona o sadomasoquismo de Max à sua inabilidade de aceitar sua homossexualidade e realmente amar outro homem. Ao fim da peça, embora Horst seja morto, Max alcança algum tipo de triunfo moral e pessoal ao demonstrar que ele ama Horst, ao deliberadamente vestir o triângulo rosa dos homossexuais e caminhar em direção à cerca elétrica.

A tragédia da prática sadomasoquista nos anos 1930 em Berlim era que os cenários que os homens gays estavam encenando para seu desfrute sexual, complementados com os uniformes nazistas, eram apenas uma antecipação da grande violência que cairia sobre eles, vinda dos valentões fascistas, quando esses homens gays foram internados em campos de concentração. A experiência dos homens gays nesses campos é graficamente descrita no livro de Heinz Heger, The Men with the Pink Triangles. Um exemplo de tortura e morte de um prisioneiro gay é interessante pela forma com que esclarece como funciona a prática sadomasoquista.

O primeiro “jogo” que o sargento da SS e seus homens faziam era fazer cócegas em suas vítimas com penas de ganso, nas solas dos seus pés, entre suas pernas, nas axilas e em outras partes de seu corpo nu. A princípio, o prisioneiro se forçava a manter o silêncio, enquanto os seus olhos se contraíam de medo e tormento, olhando de um homem da SS para o outro. Até que ele não podia mais se conter e finalmente explodia em uma risada aguda que logo se transformava em um choro de dor, enquanto lágrimas escorriam de seu rosto, e seu corpo se retorcia contra as correntes…
Mas os homens depravados da SS estavam prontos para se divertir ainda mais com a pobre criatura. O chefe do bunker trouxe duas tigelas de metal, uma cheia de água fria e outra com água quente. “Agora nós vamos cozinhar seus ovos, sua abominação suja [filthy queer, no original], logo logo você vai estar quentinho”, disse o oficial do bunker alegremente, levantando a tigela de água quente entre a virilha da vítima de modo que suas bolas fossem mergulhadas nela…
“Ele é um fodido, não é?, que tenha o que tanto quer”, rosnou um dos homens da SS, pegando uma vassoura que ficava no canto e enfiando o seu cabo no ânus do homem… [3]

Eventualmente o homem foi morto ao ser atingido na cabeça por uma pá de madeira.

As descrições a seguir são de um capítulo de uma cartilha lésbica sobre como praticar sadomasoquismo com segurança.

Fisting ou fistfucking significa mover a mão inteira dentro ou para dentro para fora da vagina ou do reto de alguém. A introdutora começa colocando um ou dois dedos dentro de sua parceira, colocando um dedo de cada vez, e dentro de alguns minutos o movimento estimulatório entre eles aumenta, até que ela coloca toda a sua mão lá dentro, até que os dedos se curvem para preencher o espaço, formando um “punho”. Neste ponto, a inclinação usual da pessoa que está recebendo a ação é pedir “dá para colocar mais?”
A primeira coisa a se fazer antes de qualquer fisting é manter as unhas curtas e sem rebarbas. Suas unhas devem ser cortadas bem rentes, e então polidas com uma lixa ou lima, polindo tanto as laterais quanto das costas das mãos ao lado da palma. Também é importante utilizar um bom e espesso lubrificante que não se transforme em uma poça de água em cinco minutos, óleo é bom. Deve-se cobrir a mão de forma espessa com óleo sem passar do ponto em que encaixe muito facilmente… [etc]
O modo de se gotejar cera de uma vela de forma segura é deixar uma gota ou duas cair por vez, ao invés de deixar cera derretida acumular em volta da base do pavio e espirrar na pele de sua parceira tudo de uma vez… [etc.] [4]

Incluí as duas práticas acima porque elas se aproximam bastante de replicar os métodos de tortura usados nos exemplos da vida real dos campos de concentração. (Outras instruções incluem como cortar os seios de uma mulher com lâminas e como perfurar seus lábios vaginais.) Elas deixam claro que a prática sadomasoquista vem de nenhum lugar menos misterioso que a própria história da opressão bastante real que sofremos. Os cenários sadomasoquistas reencenam a tortura dos gays pelos fascistas bem como a tortura dos negros pelos brancos, dos judeus pelos nazistas, das mulheres pelos homens, dos escravos pelos senhores. Tais práticas podem ser vistas como rituais performáticos, como um talismã. Uma vez que parece improvável que os praticantes gays do sadomasoquismo realmente desejem ser torturados de forma inteiramente fora de seu controle, parece provável que tais práticas cumpram o papel do alho para espantar o demônio, ou sejam simplesmente uma antecipação ansiosa do que pode acontecer de pior para que se acostume-se a ele.

Ambientação fascista

Os proponentes do sadomasoquismo geralmente são bastante abertos a respeito de seu uso de símbolos e fantasias fascistas e nazistas, por exemplo os quepes de couro negro da SS, suásticas, uniformes e sobretudos de couro parecidos com os da SS. Assim explica Pat Califia, principal teórica do sadomasoquismo nos Estados Unidos:

Uma cena sadomasoquista pode ser feita usando as personas do guarda e do prisioneiro, do policial e do suspeito, do nazista e do judeu, branco e negro, homem hétero e queer, pais e filhos, padre e penitente, professor e estudante, puta e cliente etc. Entretanto, nenhum destes símbolos têm um único significado. Seu significado é derivado do contexto onde é utilizado. Nem todo mundo que porta uma suástica é nazista, nem todo mundo que tem um par de algemas em seu cinto é um policial, e nem todo mundo que usa um hábito de freira é católico. O sadomasoquismo é mais uma paródia da natureza sexual oculta do fascismo do que uma adoração ou uma aquiescência a ele. Quantos nazistas, policiais, padres ou professores reais estariam envolvidos em uma cena sexual kinky? [5]

A resposta para a ingênua pergunta de Califia é, claro, um bom tanto de gente. Pelo menos uma membra do grupo de apoio ao sadomasoquismo lésbico de Londres foi vista usando um quepe da SS e suásticas em eventos sociais. Ela foi questionada a respeito do fato de esses símbolos serem ofensivos a muitas mulheres e respondeu com ameaças de violência a qualquer outra crítica feita.

No começo de 1984, skinheads gays foram à uma festa gay na discoteca Bell em Kings Cross. Um deles fez uma saudação nazista abrupta direta e deliberadamente dirigida à face de um homem gay negro na pista de dança, e três deles seguiram um homem negro gay portador de deficiência ao banheiro e o ameaçaram. Um homem gay branco puxou o som da tomada para que se discutisse a respeito do incidente e se tomasse alguma atitude. Ele foi expulso e barrado da discoteca. Este era um clube que supostamente fazia parte da cena gay alternativa, política ou pelo menos não-comercial. Os skinheads eram clientes regulares. O organizador nacional do Young National Front também apareceu no Bell e foi expulso quando tirou sua jaqueta e revelou suásticas. O coletivo do Bell e outros coletivos que gerenciavam clubes tiveram de instituir normas de vestimenta, isto é, sem suásticas ou camisetas “Hitler’s European Tour”, mas o uniforme de couro foi aceito.

Mas, diriam os proponentes do sadomasoquismo, somente usamos insígnias nazistas por diversão e não gostaríamos de ser associados a comportamentos violentos. Até é possível, mas como os outros gays vão saber a diferença? O medo será igual independente de as suásticas serem usadas por “diversão” ou perseguição. No que diz respeito à suásticas, a diversão de uma mulher é o terror de outra. Os fascistas obtêm exatamente o mesmo tipo de diversão ao usarem suásticas que os proponentes do sadomasoquismo, o poder conseguido a partir do medo e da angústia de outra mulher. Um perigo sério que resultará da tolerância ao simbolismo nazista na cena gay, sob a guisa de “diversão”, prática sexual, ou moda, é a paralisia da nossa vontade ou habilidade de agir em face de violência fascista real. É tão importante combater e rejeitar o uso irônico de emblemas nazistas agora tanto quanto o era na Alemanha nos anos 1920 e 1930, quando o fascismo tomou conta. Os indubitavelmente antifascistas de então que questionaram as suásticas encontraram os mesmos tipos de ameaças que os proponentes do sadomasoquismo já fazem quando seu prazer é questionado. O nazismo era a moda daqueles tempos?

O sadismo do fascismo alemão

Um dos termos usados para ofender as feministas em Londres que estavam realizando um encontro para questionar a promoção do sadomasoquismo era “fascistas”. As feministas lésbicas eram acusadas de serem “exatamente iguais ao Front Nacional” por ousarem realizar tal encontro. Essa linha de ataque, que se assemelha às tentativas atuais dos libertários sexuais socialistas de rotular feministas como de direita, é feita com base em um pressuposto de que as políticas fascistas seriam opostas ao sadomasoquismo. Na realidade o oposto é verdadeiro, e essa acusação é um bom exemplo do que Mary Daly chama de “reversal patriarcal”. [6]

Dorchen Leidholdt, do grupo Mulheres Contra a Pornografia de Nova York, em um artigo esclarecedor, Where Pornography Meets Fascism, explica a extensão do papel que o sadomasoquismo erótico cumpria enquanto esteio da ideologia e da prática fascista.

Hitler adotou o chicote como seu símbolo pessoal, por exemplo, e quando exaltado geralmente batia com ele em suas próprias pernas. Ele sentia muito prazer ao citar a máxima de Nietzsche, “Vais encontrar mulheres? Não esqueças teu chicote!” Talvez o mais revelador a respeito da resposta sexual de Hitler às mulheres era o seu deleite em assistir mulheres parcamente vestidas arriscarem suas vidas. Em The Psychopathic God, Waite aponta, “Ele apreciava particularmente assistir belas mulheres em um circo no alto do trapézio e fortemente amarradas… Ele não se impressionava particularmente com atos de animais selvagens a menos que mulheres bonitas estivessem envolvidas. Ele então assistia avidamente, sua face avermelhada, sua respiração logo vinha em assovios enquando seus lábios trabalhavam avidamente.” O sadismo de Hitler direcionado às mulheres provavelmente tinha algo a ver com seu histórico ruim de relações românticas: das seis mulheres com quem ele se envolveu romanticamente durante sua vida, cinco cometeram ou tentaram suicídio.
O sadomasoquismo também caracterizava as interações de Hitler com seus subordinados imediatos — “Toda vez que o encaro”, relembra Hermann Goering, “meu coração vai parar nas calças” —, bem como sua relação com o povo germânico como um todo. Eric Fromm apontou que a orientação sadomasoquista de Hitler jogava com a subordinação sadomasoquista das massas alemãs, seu desejo de ser dominado por um líder poderoso enquanto domina outros. Hitler estava bastante consciente desse teor dos tempos e das pessoas que ele governava. Em um discurso aos cadetes do exército alemão em 1942 ele declarou, “Por que resmungar a respeito da brutalidade e se indignar com a tortura? É isso que as massas querem. Eles precisam de algo que lhes dê um terror emocionante?” [7]

Leidholdt parece sugerir que o povo alemão tinha uma tendência particular para o sadomasoquismo. Toda a evidência disponível iria sugerir que toda a supremacia masculina está imbuída na mesma tendência. Mas as suas observações nos forçam a considerar a extensão com que o apelo do fascismo e do próprio racismo são abastecidas pelo erotismo. Ela prossegue apontando que Jacobo Timerman, um argentino judeu torturado por direitistas, descreveu o antissemitismo argentino como tendo um caráter erótico e sádico: “o ódio aos judeus era visceral, explosivo, um relâmpago sobrenatural, um excitamento das tripas, o senso de um ser inteiro abandonado ao ódio.” [8]

Em virtude de algum processo misterioso, tudo o que diz respeito ao sexo nesta sociedade tem sido separado da política até mesmo por aqueles que se consideram a si mesmos socialistas e radicais. Na tentativa de tornar a prática sexual um enclave privado de deleite individual, de alguma forma a sexualidade tem sido vista como removida dos efeitos do sexismo, do racismo, e de qualquer opressão que acontece no mundo fora do quarto, e se considera que ela não tem qualquer efeito ou relevância neste mundo. Na verdade, o sexo cumpre um papel crucial ao abastecer e regular a opressão das mulheres e a opressão racista. Não há nada puro a respeito do sexo ou de qualquer outra coisa que possa justificar uma exceção especial da crítica política.

Os promotores do sadomasoquismo chamam suas oponentes feministas de fascistas com a intenção de nos evitar, para nos calar, para dificultar que apontemos as ligações entre o sadomasoquismo e o fascismo. Eles devem saber que estão em uma posição exposta e acusam de “fascista” desesperadamente, na intenção de que nós não depositemos tais acusações sobre eles.

Seriam fascistas os proponentes do sadomasoquismo? Eles provavelmente não são membros de organizações fascistas e não se importam com nenhum aspecto do fascismo fora da sua esfera erótica. Eu diria que a maioria deles não é fascista, ainda que experienciar prazer ao aterrorizar outras lésbicas ao vestir iconografia fascistas se aproxime bastante disso, mas sim são promotores de valores fascistas. A erotização da dominação e da submissão, a glamourização da violência e da opressão dos gays, judeus e mulheres, é do que o fascismo é feito.

As raízes eróticas do fascismo

Qual o principal apelo do fascismo? O sistema político do fascismo oferece aos capitalistas uma forma de manter seus lucros sem qualquer ameaça de resistência da classe trabalhadora. A violência e o racismo do fascismo oferecem aos desiludidos e desempregados, aos jovens e alienados, um bode expiatório para os seus problemas em uma forma substituta de “satisfação” e excitamento. Oferece-lhes comícios, um sentimento de poder (assédio), orgulho nacionalista e um auto-respeito espúrio baseado na ideia de que se se é branco, homem e gentio, ao menos se é superior a outros grupos raciais e às mulheres. Sem dúvida há muitos outros mecanismos operando conforme o fascismo e seus valores tomam conta. Um deles inclui o excitamento do erotismo. As raízes eróticas do fascismo não têm recebido muita atenção, talvez porque exijam uma avaliação bastante assustadora da nossa própria sexualidade.

Para entender as raízes eróticas do fascismo é necessário realizar uma análise um tanto diferente e mais complexa do fascismo que a versão simplista geralmente empreendida pelos homens de esquerda. É errado assumir que o fascismo é uma força do mal que existe em algum lugar já completamente desenvolvida no mundo lá fora, que ele é facilmente reconhecível e chegará de repente, de forma óbvia, chamando-se a si mesmo de fascismo e em uma forma que seja facilmente desafiada. Esse foi, penso, o erro conceitual atrás de muito do trabalho antifascista de meados dos anos 1970. A Liga Anti-Nazi confrontou, de maneira bem sucedida, as organizações claramente fascistas. Embora estes partidos estejam atualmente adormecidos conforme o governo conservador na Grã-Bretanha faz muito de seu trabalho para eles, as pessoas envolvidas na política de esquerda podem acreditar que o uso de suásticas por pessoas que não são membros dessas organizações não é importante. Mas o fascismo não cai do céu pronto na forma de organizações fascistas. Partidos fascistas necessitam de apoio amplo, ou pelo menos tolerância para serem bem sucedidos. Membros de partidos não nascem fascistas, e às vezes são homens e mulheres que foram socialistas. Oswald Mosley é o exemplo britânico mais famoso desse fenômeno. O jovem Isherwood descrevendo que esteve em um partido nazista em um dia e no partido comunista no próximo, levado pela sedução das oportunidades para a violência e pelos sentimentos de poder pessoal, é outro exemplo.

Houve um tempo, no final dos anos 1960 e início dos 1970, em que os radicais de esquerda falavam sobre as raízes psicológicas e emocionais do fascismo em todos os que viviam sob uma sociedade supremacista masculina. Wilhelm Reich era lido avidamente. Artigos eram escritos sobre a formação da personalidade autoritária dentro da família patriarcal e sobre a necessidade de se criar um modo completamente novo de se viver que reduziria a atração por figuras do tipo do fuehrer. A análise era parcial porque não havia muita consideração a respeito da opressão das mulheres para além da simples crença de que a eliminação da família nuclear resolveria todos os problemas das mulheres. Mas havia um entendimento de que as raízes emocionais do fascismo são imbricadas nas nossas personalidades a partir de um tipo de estrutura familiar na qual nós nascemos e pelos tipos de autoridade aos quais nós somos submetidos ao longo da infância e do nosso crescimento. Esse era um entendimento de crucial importância, e seus frutos existem hoje nas novas atitudes em relação à criação das crianças, na organização política dentro do feminismo, e em algumas partes da esquerda e do movimento gay. Esse entendimento da importância das políticas pessoais, na base na qual o movimento de libertação das mulheres foi formado, parece agora cada vez mais impopular. Estou convencida, mas pode ser que seja ilusão, de que o significado do uso de suásticas poderia ser claro em 1971 de um modo que hoje não é mais.

As raízes eróticas do fascismo residem no modo pelo qual a sexualidade sob a supremacia masculina é estruturada nos indivíduos. Porque a supremacia masculina ocidental encoraja-nos a experienciar a sexualidade como uma força imensamente poderosa e quase incontrolável, o aspecto erótico do fascismo tem grande significado. Nós não aprendemos a expressar-nos sexualmente em um mundo de relações igualitárias e amorosas. Mulheres e homens nascem dentro de um sistema heterossexual de dominação masculina e submissão feminina. Isso é verdade independente de sermos capazes de escapar o suficiente disso para amar mulheres. A sexualidade na infância é construída através de interações com garotos agressivos puxando as calcinhas das meninas e através de abuso sexual e exploração por parte de homens adultos. Os modelos oferecidos a nós de sexualidade feminina são os de passividade e submissão. Somos ensinadas a responder sexualmente a investidas agressivas dos homens. Muitas lésbicas tem dificuldade em aprender qual a resposta feminina correta à sexualidade submissa dócil aos homens, todavia não emergimos facilmente incólumes da construção da sexualidade feminina no entorno do sadomasoquismo. Vivemos sob opressão e onde não há virtualmente nenhuma forma de escapar, pelo menos até atingirmos uma idade avançada, em direção a relacionamentos igualitários nos quais tomamos iniciativas sexuais, temos pouca alternativa além de nos aprazer de nossa opressão. A resposta mais comum é a de erotizar nosso desempoderamento no masoquismo. Para algumas mulheres que vêm isso como muito “afeminado”, o papel de humilhar mulheres pode ser utilizado no sadismo — os modelos para isso em uma cultura que odeia mulheres estão em todo lugar.

Lésbicas e gays sofrem pressões particulares que podem levar à posse de uma sexualidade construída no entorno do sadomasoquismo. Como resultado do heterossexismo e do anti-lesbianismo, frequentemente crescemos odiando a nós mesmos e particularmente a nossa sexualidade. É difícil para nós construir uma sexualidade própria que seja positiva, igualitária e livre de conotações sadomasoquistas. Algumas lésbicas e gays não conhecem nenhuma outra sexualidade além das fantasias sadomasoquistas que influenciam sua prática, ainda que possam evitar agir dentro do ritual sadomasoquista. Qualquer questionamento do sadomasoquismo é sentido por algumas dessas lésbicas e gays como uma ameaça séria. Eles se enxergam como não tendo nenhuma alternativa de prática sexual se tiverem de abandonar essa que é baseada na erotização da opressão. Mas existe, no nosso próprio entendimento de que a sexualidade é algo construído e não dado, uma mensagem de esperança. Podemos reconstruí-la. Existe espaço para otimismo. Algumas lésbicas e gays são bem pouco afetados pelo sadomasoquismo, e são capazes de praticar um tipo diferente de sexualidade. Até mesmo aqueles de nós que sabem do alcance da influência do sadomasoquismo em nossas vidas usualmente experienciam momentos de intensidade e prazer sexual incomum nos quais não há envolvimento de fantasias de dominação e submissão em qualquer grau. As sementes da mudança estão em todos nós. Podemos buscar maximizar a sexualidade positiva ao invés de maximizar a sexualidade negativa do sadomasoquismo.

Os gatilhos da resposta sexual construída no entorno do masoquismo são os símbolos de poder e autoridade. Os símbolos particularmente poderosos são aqueles que representam poder e autoridade abusiva, cruel e arbitrária, sendo o chicote o símbolo mais poderoso que um distintivo de chefe. Os aparatos e rituais do fascismo são símbolos perfeitos para esse propósito. Uniformes, marchas, suásticas, retratos de Hitler, discursos autoritários são todos gatilhos eróticos. Os sádicos do Front Nacional são estimulados através da visão repetida de vídeos de marchas e paradas nazistas na Alemanha. Toda a parafernália do fascismo é calculada para obter uma resposta erótica poderosa daqueles cuja sexualidade tem sido formada sob a supremacia masculina e modelada no sadomasoquismo. Isso inclui a maioria de nós.

É a capacidade de ser atraído pelo nazismo que entorpece a resposta de ultraje que muitas pessoas podem de outra forma sentir por ele. A construção da sexualidade sadomasoquista é um poderoso e inteligente truque para o opressor. Nossa resistência é minada nas nossas próprias vísceras se nossa resposta à tortura dos outros ou às armadilhas do militarismo é mais erótica do que politicamente indignada. É muito difícil lutar contra o que te excita. Esse é um problema que as feministas anti-pornografia já reconheceram e entenderam. É humilhante e paralisante ser estimulada pela própria degradação das mulheres que você visa combater. O único jeito de lutar é transformar essa dor em raiva. Não somos culpados pela forma como a nossa sexualidade é construída, ainda que sejamos totalmente responsáveis pela forma como escolhemos agir sobre isso. Temos direito de estar furiosas e de direcionar a nossa dor ao ataque aos mercadores da pornografia, aos apologistas da pornografia (infelizmente eles incluem as lésbicas do sadomasoquismo), os compradores e consumidores de pornografia. É difícil, mas devemos entender que as imagens e mensagens — das mulheres como objetos, torturadas, usadas e abusadas — que influenciam nossa própria resposta sexual têm a intenção de nos paralisar. Não podemos nos dar ao luxo de ser debilitadas por essas imagens, mas podemos compartilhar nossos sentimentos e construir nossa raiva.

Da mesma forma que com o sexismo, as armadilhas do fascismo e até mesmo suas práticas podem ser excitantes não apenas para o opressor mas também para suas vítimas. Edmund White, um novelista gay americano, entrevistou um casal de homens gays que tinha o hábito de usar uniformes policiais em seu livro States of Desire: Travels in Gay America. Ele explica que havia um bar cheio de homens gays em uniformes policiais no qual entre os clientes se incluíam homens gays vestidos como policiais e policiais na vida real. Esse flerte trágico e degradante com a opressão teve implicações alarmantes. Um homem fantasiado de policial, quando mais tarde foi preso do lado de fora do bar, passou esse tempo extasiado pelas botas do policial. Outro que também foi preso e surrado não falava de outra coisa que não a sua paixão pelo seu atormentador. [1]

Os promotores do sadomasoquismo constantemente destacam que o sadomasoquismo é “apenas fantasia” e não possui nenhuma relação com a realidade. A promoção do sadomasoquismo e de sua imagética vai assegurar que seja cada vez mais e mais difícil no futuro para algumas lésbicas e gays, e talvez até mesmo para todos aqueles que fazem parte da cena gay social que são afogados em imagética sadomasoquista, serem apenas raivosos e de forma nenhuma excitados eroticamente pela imagética de prática real de fascistas, policiais e valentões. Acredito que é importante que sejamos capazes de distinguir as ameaças fascistas de forma precisa e lutar contra elas de forma clara. Não quero pensar que quando os tanques, as botas marchando e as suásticas passarem em um golpe fascista real, a população gay esteja experienciando uma onda de desejo erótico que nos imobilize.

O sadomasoquismo é racista?

Os promotores britânicos e americanos do sadomasoquismo ficam moralmente indignados a respeito da sugestão de que possa haver alguma coisa de racista em suas políticas. Assim, Pat Califia, representante do sadomasoquismo lésbico californiano, proeminente “top” ou sádica, dispensou as críticas de racismo feitas quando disseram ao grupo sadomasoquista Samois que eles não poderiam alugar um espaço em um edifício de mulheres em São Francisco, “Espera-se que nos defendamos contra acusações de que somos racistas…”, ela reclamou indignada. [10] Ela claramente não o faz, nem menciona em qualquer lugar o conteúdo das alegações e os modos pelos quais ela enxerga essas acusações como falsas. Tal crença arrogante de uma mulher branca de que eles estão acima e além de qualquer possibilidade de comportamento ou atitude racistas seria, espera-se, em qualquer outra esfera além dessa da sexualidade, vista como uma forma de racismo.

Os proponentes do sadomasoquismo deveriam estar cientes da ofensa a todos os gays não brancos que o emblema de uma ideologia política que significa a morte ou a perseguição odiosa significa a todos os não arianos. O Gay Black Group deixou bastante claras as suas perspectivas em resposta à imagética nazista em eventos gays mistos.

Estamos cada vez mais conscientes da presença de pessoas usando insígnias fascistas e nazistas em vários eventos lésbicos e gays, orgulhosamente exibindo símbolos do Movimento Britânico e do Front Nacional. Crescem as denúncias de ataques a homens gays e mulheres por esse tipo de gente. Não é mais aceitável para nós que pessoas usando tais tipos ofensivos de roupas sejam perdoados ao justificarem que se trata apenas de “moda”.
Achamos ofensivo e perturbador que o racismo continue incontestado, tido como normal ou de outra forma tolerado por toda a comunidade lésbica e gay. Estamos atordoados com a ignorância a respeito dos numerosos ataques, abusos e hostilidade direcionadas às pessoas gays pelos grupos de fascistas. Sentimos que um esforço conjunto precisa começar a identificar e erradicar as raízes do racismo e do fascismo inerentes na comunidade lésbica e gay…
O Gay Black Group tem experimentado violência nas mãos dos fascistas tanto por motivo de racismo quanto por causa da nossa sexualidade. [11]

A feminista negra americana Alice Walker, em um comovente e, poderia-se pensar, incontestável artigo, explanou o modo pelo qual ela via a prática do sadomasoquismo como sendo racista. Walker escreve como uma professora que passou um período com mulheres estudantes, negras e brancas, tentando “chegar a um consenso, pela imaginação e pelos sentimentos”, a respeito do que significa ser uma escrava, senhor ou sinhá. “Mulheres negras, brancas ou mestiças escreveram sobre cativeiro, estupro, procriação forçada para reabastecer as senzalas do senhor de escravos. Elas escreveram sobre tentativas de fuga, sobre a venda de seus filhos, sobre sonhos com a África, sobre tentativas de suicídio.” [12] Em seguida, ela escreve sobre os efeitos de assistir a um programa de TV no qual duas mulheres do Samois participam como mestra e escrava. Ainda que o artigo seja escrito em um estilo ficcional e tenha sido publicado originalmente em um livro de contos, o programa de TV sadomasoquista não era ficção, mas realmente acontecia conforme ela descreve.

Imagine nossa surpresa, portanto, quando muitas de nós assistimos a um especial de televisão sobre sadomasoquismo que foi ao ar na noite anterior ao fim das nossas aulas, onde o único casal interracial que aparece, lésbicas, se apresentavam como escrava e senhora. A mulher branca, que falou todo o tempo, era a senhora (usando um anel em forma de chave que ela disse encaixar na fechadura da corrente em volta do pescoço da mulher negra), e a mulher negra, que permaneceu sorrindo e silenciosa, era — disse a mulher branca — sua escrava…
Tudo o que estive ensinando foi subvertido por aquela única imagem, e eu fiquei enfurecida de pensar que a difícil luta das minhas estudantes para se livrarem dos estereótipos, para combater o preconceito, para se colocarem na pele das mulheres escravizadas, e então verem sua luta ridicularizada, e a condição real de escravizadas de literalmente milhões de nossas mães trivializada porque duas mulheres ignorantes insistiram em seu direito de encenarem publicamente uma “fantasia” que ainda causa terror nos corações das mulheres negras. E também vergonha e nojo, pelo menos nos corações da maior parte das mulheres brancas em minha sala de aula.
Uma estudante branca, aparentemente com ligações próximas ao grupo local de lésbicas sadomasoquistas, disse que não conseguia ver nada de errado com o que vimos na TV. (A propósito, havia muitos homens brancos nesse programa que possuíam mulheres brancas como “escravas”, e até mesmo diziam ter documentos legais atestando isso. De fato, um homem exibia sua escrava pela cidade com um arreio de cavalo em seus dentes e a “emprestava” a outros sadomasoquistas para ser chicoteada.) É tudo fantasia, disse ela. Nenhum mal estava sendo feito. A escravidão, a escravidão real havia acabado afinal.
Mas ela não acabou… e os livros de Kathleen Barry sobre escravidão sexual feminina e de Linda Lovelace relatando sua experiência como escrava não são os únicos indicadores de que isso é verdade. [13]

Pat Califia resolveu responder o artigo de Alice Walker em duas frases inteiramente desdenhosas em sua contribuição ao livro do grupo Samois, Coming to Power. “…Em uma tentativa de provar que o sadomasoquismo é racista, Walker descreve essas mulheres [aquelas interpretando senhora e escrava no programa de TV] como uma mulher branca dominadora e uma mulher negra masoquista. Na verdade, a dominadora nesse casal é uma lésbica latina.” [14] Esse é o nível de seriedade com qual o grupo Samois, a partir do qual os grupos de apoio ao sadomasoquismo lésbico britânico parecem usar de modelo, aborda o assunto do racismo.

O grupo britânico lésbico de sadomasoquismo apoiado pelo Coletivo Inglês de Prostitutas (ECP) e o Wages Due Lesbians (dois subgrupos dentro da organização guarda-chuva Wages for Housework, uma campanha fortemente antifeminista que tenta se infiltrar onde quer que vejam assuntos de interesse das mulheres que possam ser usados para destruir o movimento de libertação delas) foi ao encontro de algumas lésbicas feministas em Londres que queriam planejar uma campanha para questionar a disseminação das políticas sadomasoquistas. Uma mulher do ECP apresentou uma razão, pensada a partir da literatura padrão propagandista do sadomasoquismo, do porquê o sadomasoquismo poderia ser bastante útil nas relações. Ela explicou que em relacionamentos entre mulheres negras e brancas, os rituais sadomasoquistas poderiam ser encenados de modo a equilibrar as diferenças de poder ou ao menos ajudar a entendê-las. Essa mulher, que era branca, não disse quem deveria representar o papel de dominadora e quem deveria ser a dominada nessas relações. No exemplo americano citado acima, a dominada era uma mulher negra. Mas apenas supondo que não seja sempre este o caso, é realmente possível ver encenações de rituais racistas, mesmo nos casos em que as relações de poder não são com brancos sendo dominadores e negros os dominados, como formas de ajudar a eliminar o racismo? Na literatura pornográfica masculina, a mulher negra é representada tanto como uma vítima escrava submissa quanto como dominatrix. Os rituais do sadomasoquismo podem apenas reforçar um ou ambos desses estereótipos. O sadomasoquismo não oferece qualquer chance de se libertar deles.

Pode o sadomasoquismo ser reformado?

Pat Califia explica, em Coming to Power, que alguns membros do grupo Samois acharam que alguns dos seus princípios estavam em oposição à prática sadomasoquista, e que isso levou a alguns problemas dentro do grupo. Ela não diz quais são esses princípios e não se mostra simpática a eles, mas podemos tentar adivinhar que dizem respeito a coisas como o uso de suásticas ou até mesmo rituais onde mulheres negras eram escravas. Não parece que as mulheres britânicas sadomasoquistas estejam com a consciência pesada, uma vez que ao menos uma delas foi vista abertamente usando suásticas. Mas seria possível para os praticantes do sadomasoquismo “limparem” suas performances e cortarem fora simbolismo obviamente racista como resultado da crítica? (Até o momento, a resposta deles à crítica tem sido chamar os críticos de fascistas e racistas, dizer que os sadomasoquistas não iriam permitir qualquer encontro público sem lésbicas sadomasoquistas vestidas a caráter, e impedir a discussão.)

O ritual sadomasoquista erotiza as relações de dominação e submissão, e envolve a encenação da opressão. Os cenários de nazistas e judeus, ou de escravos e senhores podem possivelmente ser tirados da pauta por aqueles com a consciência mais sensível. Isso deixaria um escopo amplo de cenários e figurinos representando opressão sexista, usando imagens da prostituição, de assédio sexual ou simplesmente estereotipificação fetichizada sexista, como por exemplo um dos personagens vestido como ciclista forte e outro afeminado usando espartilhos e babados. Isso é realmente uma solução?

Fora o fato de que esse imagético permaneceria terrivelmente sexista e heterossexista, qualquer erotização do poder, qualquer glorificação da opressão pode apenas fortalecer os valores que mantém todas as formas de opressão. A opressão racista depende tanto das ideias de que o poder é um direito, de que a violência é um razoável modo de ameaçar aqueles tidos como inferiores, que as desigualdades de poder são desejáveis e inevitáveis, quanto o sexismo. A prática do sadomasoquismo reforça esses valores. Tal prática não permite qualquer espaço para a existência de uma alternativa a esses valores. Se estamos comprometidos com a meta de uma sociedade na qual nenhum grupo da população está sujeito a violência, discriminação e exploração, então devemos desenvolver uma forma de prática sexual que reflete o tipo de sociedade que queremos criar. Do contrário, o que estamos dizendo é que o sexo e as emoções envolvidas nele estão bastante desconectados do restante de nossas vidas e não possuem nenhuma relevância política. Tal prática precisa ser mútua, carinhosa e igualitária. Isso, claro, é um pecado na opinião dos proponentes do sadomasoquismo. Práticas assim são chamadas de bambi por homens gays defensores do sadomasoquismo como Jeffrey Weeks e de vanilla pelas lésbicas do Samois. [15] Ambos os termos foram criados de forma a mostrar desdém e afastar as pessoas. Práticas sexuais igualitárias são representadas como desprovidas de intensidade, monótonas, apropriadas apenas para fracotes.

Os proponentes do sadomasoquismo estão conscientes de que estão sujeitos à crítica política, de modo que alguns deles desenvolveram uma defesa engenhosa. Alguns anos atrás, um membro do agora defunto grupo Gay Left realizou uma fala em defesa do sadomasoquismo, com apresentação de slides, em um workshop gay. Ele mostrou slides de homens vestidos com uniformes nazistas urinando em sarjetas e forçando homens algemados a lamberem a urina nos seus joelhos. Intrigada, perguntei a ele o que tudo aquilo tinha a ver com socialismo. A princípio, ele respondeu que não tinha nada a ver com o socialismo mesmo, tratava-se apenas de prática sexual. Mais tarde, ele forneceu uma justificativa que alguns ex-sadomasoquista políticos se sentiram obrigados a desenvolver. A prática sadomasoquista seria uma forma de ajudar os envolvidos entenderem as diferenças de poder existentes no mundo e trabalharem mais efetivamente para o fim delas. (Vide também o argumento descrito acima dado pelo ECP e pelo grupo de apoio sadomasoquista lésbico.) Um defensor americano do sadomasoquismo expressou essa defesa de forma bastante sucinta:

Talvez um dos modos mais efetivos de lutar contra o poder político e até mesmo torná-lo desnecessário é entender os impulsos de poder e submissão em si mesmo e integrá-los. O envolvimento no sadomasoquismo tende a remover a “necessidade” pessoal de oprimir e ser oprimido, manipular e ser manipulado socialmente e politicamente — outra razão porque aqueles que possuem delírios de poder político tendem a se opor tão fortemente a ele. O sadomasoquismo pode ser parte de uma verdadeira rebelião contra a opressão social estruturada, o que é parte da razão porque anarquistas e libertários estão sub-representados entre os praticantes do sadomasoquismo. [16]

Para esse homem, a opressão parece ser algo que as pessoas “precisam” e atraem para si. Essa é a análise lógica da perspectiva do sadomasoquismo, que vê a violência e o abuso como algo que as pessoas podem “precisar” ou escolher. É uma análise completamente individualista, da qual a opressão da vida real não faz parte. É um argumento espúrio e auto-indulgente. De que forma a prática do sadomasoquismo nos ajuda a desmantelar o complexo militar-industrial, confrontar grupos de valentões fascistas ou ajudar uma mãe lésbica a conseguir a custódia de seus filhos?

Lutar contra a opressão estrutural requer amor-próprio e alguma ideia de que uma alternativa existe fora dos círculos de dominação e submissão. Podemos nos guiar apenas pela noção de que as estruturas de poder opressivas não “precisam” existir para a felicidade humana, seja ela sexual ou de qualquer outro tipo.

Sadomasoquismo como política

Os promotores do sadomasoquismo estão atraindo apoio de liberais com base em sua reivindicação de liberdade individual, o direito pessoal de seguir a prática sexual escolhida. Mas o argumento de liberdade pessoal não é necessariamente progressiva. Esse era o alicerce da política econômica e social Thatcheriana. Tal argumento depende da condição de que o comportamento em questão não fira qualquer outra pessoa além da própria praticante. (Algumas pessoas argumentam que deveria haver limites ao direito de qualquer ser humano causar dano físico a si mesmo ou requerer que outro ser humano cause dano a eles. Qual seria a nossa responsabilidade se confrontados com um cenário de fistfucking anal brutal em um contexto de uso de drogas e álcool, quando sabemos que a prática poderia levar a lesões terríveis ou a morte? Iríamos intervir nos masturbar para isso, ou dar as costas?) A promoção do sadomasoquismo causa dano para além de apenas aos seus praticantes e trata-se da promoção de muito mais coisas do que a de uma prática sexual; não se trata de um hobby, mas de uma política e de um estilo de vida.

O uso de roupas de sadomasoquismo em eventos sociais, marchas etc, na forma de fantasias de couro negro, algemas e rebites, cria uma atmosfera de ameaça e ansiedade para todas as lésbicas presentes. As lésbicas geralmente procuram a companhia de outras mulheres para escapar do assédio e da intimidação dos homens na rua, em anúncios e na pornografia. Estamos acostumadas ao “masculino”, a homens agressivos usando roupas de sadomasoquismo rotineiramente no intuito de intimidar, por exemplo Hell’s Angels. Não deveríamos ter que temer outras lésbicas ou sermos ostracizadas porque não aceitamos esse tipo de vestimenta intimidadora. Há muitas lésbicas em Londres agora cujas vidas sociais estão restritas pela prevalência do uso de roupas sadomasoquistas, seja à guisa de moda ou como extensão da prática do sadomasoquismo. Essas lésbicas não são fracotes. Temos direito de não sentir medo e direito a espaços livres da violência.

O uso de emblemas nazistas e fascistas, por exemplo, suásticas, quepes de couro negro da SS, sobretudos de couro negro da SS, ofendem e causam grande agonia em todas as lésbicas que estão conscientes do que o fascismo germânico significa em termos de violência e morte para os judeus, ciganos, lésbicas, aqueles física e mentalmente diferentes, todos os que não sejam homens brancos, gentios, heterossexuais e fisicamente capazes.

A aceitação de vestimenta sadomasoquista, particularmente a emblemática nazista, torna a comunidade lésbica menos apta a entender o florescimento bastante real de valores e práticas fascistas na sociedade britânica atualmente. Não precisamos que as distinções sejam ofuscadas. Devemos ver e questionar claramente qualquer tentativa de tornar os valores e comportamentos racistas e fascistas aceitáveis. Alguns daqueles que vestem emblemática fascista estão assediando e atacando gays, particularmente gays negros, agora mesmo. Eles se tornam mais difíceis de expor e rejeitar quando a emblemática fascista e “masculina”, e os valores agressivos se tornam lugar comum na cena social gay.

A erotização do poder e da opressão na sexualidade de crueldade que é o sadomasoquismo nos treina a nos excitarmos pelas armadilhas do fascismo. O apelo erótico do fascismo, estruturado em nossa sexualidade conforme aprendemos nossas respostas sexuais vivendo sob a supremacia masculinista, é aumentado pelas políticas do sadomasoquismo. Apenas a construção de uma prática sexual igualitária pode se encaixar em uma política antifascista.

O sadomasoquismo não é uma prática sexual que caiu do céu, mas uma resposta e um eco do crescente domínio dos valores e práticas fascistas no mundo fora do gueto gay. Como na Alemanha no início dos anos 1930, os ataques racistas estão aumentando agora. Militarismo crescente infecta a sociedade ocidental. O pornô e os anúncios publicitários se tornaram mais e mais violentos e sádicos com as mulheres. Temos um governo conservador que está dedicado a restringir as liberdades pessoais com a desculpa de aumentá-las. Há uma atmosfera de medo e tensão social crescentes conforme as políticas governamentais polarizam as diferenças entre os pobres e ricos, negros e brancos, mulheres e homens. Nesse contexto, o sadomasoquismo pode ser visto como sendo não uma saída corajosa e radical, mas um modo em que lésbicas podem traduzir diretamente o ódio e o desprezo por mulheres, e particularmente por lésbicas, em suas relações entre si, que os valores fascistas representam. Talvez esta seja uma forma de autodefesa mal direcionada, isto é, se lésbicas causam medo e dor umas às outras agora, não será tão angustiante quando recebermos tal tipo de abuso dos outros no futuro.

Os advogados do sadomasoquismo defendem que sua prática sexual não afeta de nenhum modo as suas relações uns com os outros e o resto do mundo fora do quarto, exceto em fazê-los se sentirem mais fortes. Nas escolas de treinamento para a tortura na Grécia sob ditadura militar e também em outros regimes de extrema-direita, os torturadores treineiros eram treinados sendo eles mesmos torturados. Pode ser que as lésbicas dominadas ou masoquistas, que correspondem à vasta maioria delas, tenham tido as suas sensibilidades enfraquecidas pela tortura a qual escolhem se sujeitar. Para criar um número suficiente de sádicas, algumas masoquistas precisam progredir na prática para distribuir o que receberam anteriormente.

A prática do sadomasoquismo escorre para fora do quarto em outras áreas das relações lésbicas. O trecho a seguir é de um artigo do Coming to Power no qual Susan Farr explica como ela e sua amante usam punição física para superar o ciúme que sentem uma pela outra na não-monogamia.

Se eu chicoteio Rae após ela ter feito sexo com alguma pessoa, isso também expressa diretamente o quanto estou com raiva e ciúmes. Este é um exercício de poder, inquestionavelmente. Ele me dá um escape para os sentimentos “negativos” e bastante naturais que existem independente do meu comprometimento com os princípios da não-monogamia. A punição também funciona como um alívio da culpa da pessoa tendo o caso, outro sentimento “negativo” e natural que existe independente das crenças sinceras de que os baixos ocasionais da não-monogamia são preferíveis à sufocação da monogamia monótona… Essa discussão dos rituais de punição usados como uma resposta à não-monogamia é um exemplo de como a agressão física pode funcionar para manter o relacionamento às claras. [17]

Os sadomasoquistas diriam que existe uma diferença entre o que é descrito aqui e um relacionamento onde ocorre agressão explícita. A distinção, baseada na falsa premissa de que podemos consentir com abuso (lembre da velha anedota na qual esposas agredidas na verdade gostam de apanhar), pode facilmente se tornar confusa de modo que a agressão se torna bastante danosa para um ou ambos os parceiros. Marissa Jonel, uma sobrevivente do sadomasoquismo, descreve uma situação em Against Sadomasochism. [18] Tal agressão “consensual” não é capaz de ajudar na nossa luta enquanto mulheres e lésbicas para afirmar o desejo das mulheres de viverem livres de violência, nosso direito de não sermos vistas como alvos apropriados para violência. O sadomasoquismo é muito mais do que uma prática sexual. É um estilo de vida e uma abordagem ao mundo que glorifica e legitima a violência. Relações onde ocorrem agressões reduzem o potencial de seus participantes e de todos nós de encontrar modos alternativos de lidar com o conflito. A agressão entre lésbicas, onde lésbicas direcionam seu anti-lesbianismo e auto-ódio internalizado umas às outras, é um problema sério com o qual a comunidade lésbica tem que lidar, não é uma brincadeira.

É importante compreender que se trata de uma política do sadomasoquismo que está sendo promovida, não apenas uma prática sexual. As táticas do sadomasoquista deixam isso claro. Os promotores do sadomasoquismo, com a desculpa de fazerem parte de uma minoria oprimida, levaram um cartaz sadomasoquista na marcha Lesbian Strength em junho de 1984. Isso significa que muitas lésbicas que sabiam desse cartaz nunca foram à marcha, e muitas outras se sentiram incapazes de fazer parte da marcha naquele dia. Os promotores do sadomasoquismo estavam bastante conscientes de que estavam dessa forma dividindo e excluindo muitas lésbicas da marcha, mas o direito de três lésbicas sadomasoquistas de causar dano à unidade e às políticas lésbicas foi defendido pelos seus asseclas e toda a objeção foi rejeitada. Os promotores do sadomasoquismo incitam deliberadamente esses confrontos e o estilhaçamento da unidade política que decorre deles. Nos EUA, o grupo Samois primeiramente destruiu a unidade das marchas do Orgulho Gay, e então buscaram dividir o centro coletivo de mulheres de São Francisco reservando espaços onde seriam realizadas atividades, e depois começaram a intimidar e assediar livrarias feministas que não exibissem sua literatura propagandista de forma proeminente. O grupo de lésbicas sadomasoquistas britânicas reservou espaço em um centro de mulheres de Londres, A Woman’s Place. A mesma tática foi usada no Lesbian and Gay Center. Apesar da oposição da vasta maioria das feministas lésbicas que eram membras do centro, os sadomasoquistas foram permitidos no espaço em junho de 1985.

Essa campanha coordenada para espalhar confusão, desunião e medo, de forma desproporcional ao seu número de integrantes, lembra nada menos do que as táticas fascistas. Fiando-se no apoio do liberalismo, eles criam confrontos para causar discórdia na oposição política e enfraquecer nossa capacidade de confrontar práticas e valores fascistas em qualquer forma que se apresentem. (Um exemplo de fascistas utilizando essa tática foi um movimento recente do Front Nacional demandando ajuda do Conselho Nacional pelas Liberdades Civis [NCCL, na sigla em inglês]. Isso foi calculado para dividir a NCCL e causou dano considerável.) O que está acontecendo é muito mais do que a tentativa de uma minoria “oprimida” de ganhar o direito de agir conforme suas práticas sexuais. O sadomasoquismo é uma política com táticas definidas, que incluem a intimidação por mulheres vestidas em uniforme de couro negro. Raras vezes um grupo “oprimido” foi tão opressivo e potencialmente destrutivo.

As implicações das políticas sadomasoquista são muito alarmantes para se ignorar. Não apenas as políticas feministas, mas todas as políticas antirracistas, antifascistas e anticapitalistas dependem de um entendimento de que os oprimidos não buscam, precisam ou querem sua opressão. O grande mito que une a ideologia da democracia ocidental é o do consentimento. No pensamento democrático ocidental todos os grupos dentro de uma população consentem com um sistema de governo. Aí existe consenso. Mas não é bem assim. Somente aqueles que são homens brancos detentores de riqueza estão em qualquer posição de exercer consentimento verdadeiro a um sistema político que rotineiramente degrada, explora e controla todos os outros. O sadomasoquismo utiliza essa noção politicamente manipulativa de consentimento para se justificar. A noção de que qualquer pessoa deliberadamente busca abuso e degradação pode ser explorada de forma muito fácil para justificar sistemas opressivos políticos, por exemplo, o valor fascista básico de que as massas “precisam” de um líder forte. A doutrina política básica do sadomasoquismo está então em contradição com a nossa luta por um sistema político baseado no direito de todo ser humano à dignidade, igualdade, amor-próprio e auto-governo.

A sexualidade de crueldade que é o sadomasoquismo não é nem inata nem inevitável. Ainda que muitos de nós experienciemos fantasias e práticas que incorporam valores de dominância e submissão do sadomasoquismo, também experienciamos uma sexualidade positiva com valores igualitários. É essa sexualidade positiva que precisamos promover e ampliar. Nossa capacidade de amarmos uns aos outros com dignidade e amor-próprio, não apenas com intensidade de sensações e prazer, tem sido danificada pela nossa experiência de opressão. Mas essa capacidade não foi destruída. Devemos lutar contra todas as pressões que nos encorajam a amar as botas que nos curvarão à submissão. Podemos decidir não participar de um romance com nossos opressores. Podemos ter uma sexualidade que é integrada, não com a nossa opressão, mas com as nossas políticas de resistência.


Notas

[1] ISHERWOOD, Christopher. Down There on a Visit. Londres: Methuen, 1962. P. 73-74.
[2] SHERMAN, Martin. Bent. Derbyshire, UK: Amber Lane Press, 1980. P. 67.
[3] HEGER, Heinz. The Men with the Pink Triangle. Tradução de David Fernback. Londres: Gay Men’s Press, 1980. P. 82-83.
[4] BELLWETHER, Janet. “Love Means Never Have to Say Oops: A Lesbian Guide to S/M Safety”. In: SAMOIS (editor). Coming to Power: Writings and Graphics on Lesbian S/M. Segunda edição. Boston: Alyson, 1982. P. 70-71 e 74.
[5] CALIFIA, Pat. “Feminism and Sadomasochism”. Heresies. Sex Issue 12. P. 32.
[6] Cf. várias passagens em DALY, Mary. Gyn/Ecology. Boston: Beacon Press, 1978; e também Beyond God the Father: Toward a Philosophy of Women’s Liberation. Boston: Beacon Press, 1973.
[7] LEIDHOLDT, Dorchen. “Where Pornography Meets Fascism”. WIN, 15 de março de 1983. P. 18. As citações usadas por Leidholdt estão em WAITE, Robert G. L. The Psychopathic God. Nova York: Basic Books, 1977. P. 153, 375 e 380.
[8] TIMERMAN, Jacobo. Prisioner without a Name, Cell without a Number. Nova York: Knopf, 1981. P. 66.
[9] WHITE, Edmund. States of Desire: Travels in Gay America. Nova York: Dutton, 1983. Aparentemente, o uso de violência real como excitação sexual tem aumentado desde as observações de White. Recentemente, uma pessoa da equipe da livraria Glad Day em Boston me disse que o livro History of Torture de Daniel P. Mannix (Nova York: Dell, 1983) é o campeão de vendas da loja.
[10] CALIFIA, Pat. “A Personal View of the History of the Lesbian SM Community and Movement in San Francisco”. In: Samois (editor). Coming to Power, 1982. P. 274.
[11] Gay Black Group. “Letter to the Editor”, Capital Gay. Londres, 14 de fevereiro de 1984.
[12] WALKER, Alice. “A Letter of the Times, or Should This Sadomasochism Be Saved?” In: LINDEN, Robin Ruth et al (editores). Against Sadomasochism: A Radical Feminist Analysis. Palo Alto, California: Frog in the Well Press, 1982. P. 206–207. Reimpresso de WALKER, Alice. You Can’t Keep a Good Woman Down: Stories by Alice Walker. Nova York: Harcourt Brace, 1981. P. 118–123.
[13] WALKER, Alice. “A Letter of the Times”, 1982. p. 207.
[14] CALIFIA, Pat. “A Personal View”, 1982. p. 268.
[15] Vide a contribuição de Jeffrey Weeks ao Gay News. No. 243. Edição de 10º aniversário, 1982. Vanilla é um termo que aparece com frequência na literatura lésbica sadomasoquista.
[16] YOUNG, Ian. Comentários sobre o “Forum on Sadomasochism”, em JAY, Karla; YOUNG, Allen (editores). Lavender Culture. Nova York: Harcourt Brace, 1978. P. 104.
[17] FARR, Susan. “The Art of Discipline: Creating Erotic Dramas of Play and Power”. In: Samois (editor). Coming to Power, 1982. P. 16.


REFERÊNCIA: JEFFREYS, Sheila. “Appendix — Sadomasochism: The Erotic Cult of Fascism”. In: The Lesbian Heresy: A Feminist Perspective on the Lesbian Sexual Revolution. Melbourne: Spinifex Press, 1993. P. 172-189.

Da prática à teoria, ou: O que exatamente é uma “mulher branca”? [Resumo]

No feminismo, a prática (vivência social) vem antes da teoria, e a teoria precisa ser construída a partir da prática. No caso das mulheres, não dá pra partir de uma teoria da igualdade porque as que existem são feitas por homens e vêm das práticas de resistência deles. O problema é que homens nunca estiveram sob o mesmo contexto de dominação com base nas suas capacidades reprodutivas que as mulheres vivem.

Catharine MacKinnon

Falar que uma mulher foi tratada “como mulher” é fazer uma afirmação empírica a respeito da realidade. E levando em conta a forma como somente mulheres são tratadas sob a dominação dos homens, socialmente institucionalizada, isso inclui uma série de outras coisas. Ser tratada “como mulher” está longe de indicar uma visão universal da condição das mulheres, mas sim se refere às desvantagens que as mulheres têm pela forma como o sexo feminino é valorado socialmente.

“Como mulher” não significa a incorporação de uma experiência coletiva; não significa que todas as mulheres têm experiências iguais. Pensar na situação das mulheres exige formas diferentes de se pensar teoria e prática. Algumas feministas pensaram a condição das mulheres em termos de inevitabilidade biológica (Brownmiller e Beauvoir) em função de como funciona a reprodução e a vulnerabilidade das mulheres ao estupro. Falta apontar a dominação dos homens propriamente dita. É a exploração da reprodução que causa problemas às mulheres, não a reprodução propriamente dita. Isso diz respeito a todas as mulheres de todas as raças e etnias vivendo sob dominação, então não faz sentido dizer que se trata de um tipo de feminismo universalizante.

As críticas ao feminismo, de que ele falha em fazer os “recortes” de classe e raça, geralmente assumem “classe” e “raça” como abstrações prontas, sem discutir do que se tratam e fazendo uso dessas categorias apenas pra bater no feminismo. “Mulher branca”, em algumas críticas do tipo, é uma mulher que não passa os perrengues da dominação (não de verdade): ela não trabalha, não é estuprada, não é explorada, não apanha etc. Ela é a imagem que os homens branco e negro têm dela: fútil, privilegiada, autoindulgente e protegida, oprimida por seus privilégios, que acha que precisa de libertação.

O problema é que a realidade das mulheres brancas está longe de ser essa abstração fantasiosa. O mito de que os homens protegem as mulheres brancas serve à manutenção do racismo e à dominação masculina. A pele branca não protege as mulheres da brutalidade de homem nenhum: assumir que as brancas são privilegiadas num contexto de dominação sexual é assumir que não existe dominação dos homens, porque ela pode ser “cancelada” de alguma forma. As mulheres negras estão mais sujeitas a violação, mas tanto negras quanto brancas estão nessa posição de sujeição. Ser “menos estuprada” não esconde o fato de que ambas o são por serem mulheres e tratadas enquanto tal. Não significa dizer que a raça é irrelevante, mas que o sexo (e a dominação baseada nele) é uma experiência de todas as mulheres.

A pornografia é um exemplo bem ilustrativo de como essa dimensão do sexo afeta mulheres de todas as etnias e raças. O tratamento horrendo destinado às mulheres brancas ali — entre tantos tropos do tipo, como as “hot mommas latinas” ou as “asiáticas passivas” — é o melhor possível que uma mulher pode obter. Cada mulher na pornografia abrange um conjunto de particularidades, mas cada uma dessas experiências significa o que é ser mulher na pornografia. Não existe uma categoria padrão de mulheres: até mesmo “brancas” são marcadas como uma preferência sexual.

A crítica às abordagens que vêem a opressão das mulheres “como mulheres” exige que as mulheres se des-identifiquem de sua condição de mulher. O ponto é que as pessoas preferem fazer parte de qualquer outro grupo que possa incluir homens do que ser “apenas mulher”, um grupo que significa o resumo da noção de opressão. Se uma opressão também é aplicada a homens, ela tem mais chances de ser reconhecida enquanto tal, e não algo aplicado a um grupo subhumano. Se inclui homens, está dentro dos padrões de humanidade; as mulheres são apenas mulheres. A mulher branca não partilha nenhuma opressão com homens, então não é oprimida.

Quando se cria teoria a partir da prática, esse problema de se deparar com abstrações limitantes deixa de existir. A assunção de que todas as mulheres são iguais vem do mesmo sexismo que o feminismo visa combater. Teóricos que falham em identificar isso precisam mudar sua forma de pensar teoria para além dos formatos da dominação masculina. A base sexual da opressão que as mulheres sofrem vem da prática, e não de um constructo abstrato ou de uma “essência” partilhada por elas.


MACKINNON, Catharine. “From Practice to Theory, or What is a White Woman Anyway?” 4 Yale J. L. & Feminism. 1991. Disponível em: <link> — Acesso em 12 de outubro de 2019.

Um chamado às feministas para se lembrarem da natureza sexual da opressão das mulheres

O real brilhantismo do patriarcado… é que ele não apenas naturaliza a opressão. Ele sexualiza atos de opressão. Ele erotiza a dominação e a subordinação. Ele os institucionaliza como masculinidade e feminilidade. Então, ele naturaliza, erotiza e institucionaliza a dominação e a subordinação. O brilhantismo do feminismo é que nós descobrimos isso.

Lierre Keith

Nos últimos meses muita legislação tem passado ou foi proposta nos Estados Unidos e em outros lugares o suficiente para indicar uma assustadora escalada na guerra — sim, é uma guerra — contra as mulheres. O parlamento Russo acabou de votar a 380-3 para descriminalizar a violência doméstica. Trata-se de um país onde em média 40 mulheres por dia — 14.000 mulheres por ano — são mortas por seus parceiros homens. Os Estados Unidos, onde 1.000 mulheres são mortas por seus parceiros por ano, acabou de eleger um presidente que diz que “quando você é uma estrela, elas deixam você pegá-las pela buceta”, está envolvido com pornografia e tráfico sexual. Ele planeja eliminar o financiamento a 25 programas de combate a violência doméstica e está ordenando às funcionárias mulheres para que “se vistam como mulher”. O estado do Texas está pensando em retirar os direitos eleitorais de mulheres que fizeram aborto; o estado do Arkansas quer permitir a estupradores que processem mulheres por abortar.

Todas essas empreitadas se baseiam, é claro, em uma noção há muito estabelecida de que mulheres são propriedades dos homens. O estigma do aborto se baseia na ideia de que as mulheres não criam a vida humana através de um processo de dez meses de gestação e trabalho; seriam os homens a ejacular vida nas mulheres, e as mulheres, como incubadoras reguladas pelo estado, são obrigadas a levá-la a termo. A violência doméstica, a indústria da pornografia e da prostituição que abastecem o tráfico sexual, normas de vestimenta, tudo isso se baseia no mesmo princípio do merecimento sexual dos homens. Não surpreende que os comentadores estejam comparando essa tendência atual a O Conto da Aia de Margaret Atwood; uma nova era de regras e normas mais ortodoxas e estritas para as mulheres do Ocidente. Tudo isso justificado através dos mitos de que as mulheres são biologicamente predispostas a essas regras e normas.

Dada a situação que enfrentamos, é alarmante confrontar a realidade de que a esquerda é tão mal preparada e indisposta a discutir a opressão das mulheres quanto a direita conservadora. Hoje em dia, noções como a de “identidade de gênero” por exemplo, ameaçam engolir a compreensão coletiva das mulheres a respeito do todo da opressão baseada no sexo. A ideologia da “identidade de gênero” afirma que gênero é uma questão pessoal de identificação, e que o sexo biológico de alguém pode ser trocado e mudado à vontade. “Cis” é uma palavra que as mulheres estão adotando cada vez mais como sinal de sua compreensão de que possuem o “privilégio” de ter sua identidade de gênero em conformação com seu sexo biológico. Ao mesmo tempo, é claro, mulheres estão sofrendo pressão para engolirem a ideia de que o sexo biológico propriamente dito não é real.

A questão é que ser fêmea é algo muito real, e que ser consequentemente generificada como mulher também é — e não se trata de uma forma de privilégio. É uma forma de opressão que as mulheres têm resistido desde a criação do patriarcado. Ao oferecer uma curta história do sistema ocidental canceroso e globalizado de objetificação sexual sob o qual vivemos hoje, espero oferecer aqui um pequeno lembrete disso. Esse ensaio busca resgatar o desenvolvimento da opressão baseada no sexo desde as suas raízes, passando pela caça às bruxas, ao comércio de escravos, à patologização dos corpos das mulheres na ginecologia, e às reações à insurgência feminista recente.

Matricentralidade e a criação do patriarcado

Apesar da insistência ortodoxa de que a dominação dos machos reflete simplesmente a ordem “natural” das coisas, o patriarcado é apenas um desenvolvimento relativamente recente na história da humanidade. Durante 99% de nossa existência, os humanos não viveram sob o domínio patriarcal. A autora feminista Marilyn French chama os grupos de parentesco matrilineares de subsistência horticulturais que existiram amplamente antes do desenvolvimento do patriarcado de matricêntricos; Audre Lorde escrever sobre os cultos a deusas como Afrekete, Iemanjá, Oyo e Mawulisa; o filme Woman Shaman de Max Dashu explora a arte e os achados arqueológicos que restaram dessas culturas matricêntricas ao redor do mundo.

Imagem: Max Dashu

History of Women de French e The Creation of Patriarchy de Gerda Lerner são textos incríveis sobre os processos históricos por meio dos quais os homens criaram o patriarcado que forma a base da sociedade ocidental. Isso aconteceu ao longo de aproximadamente 2500 anos, desde cerca de 3100 a.C., durante a revolução agrícola. De acordo com Lerner, a transição de um modo de vida de subsistência para a agricultura significou que as crianças se tornaram um ativo econômico, uma fonte de trabalho — e as mulheres se tornaram a primeira forma de propriedade privada.

French mostra como a dominação masculina foi primeiramente afirmada através de reivindicações paternais de posse e direito de nomear filhos. O assassinato dos primogênitos era comum nos primeiros grupos patrilineares, quando homens queriam garantir que o primeiro filho de suas esposas eram realmente “seus”. O fato de o aborto ainda estar na legislação criminal da Nova Zelândia é uma expressão contemporânea da presunção de que a vida humana é feita por e pertence aos homens. Em 2016, a Organização Mundial da Saúde também santificou os “direitos” dos homens sobre as crianças através de uma nova política declarando que a incapacidade de encontrar um parceiro sexual é uma “deficiência”.

Com a apropriação do controle sobre os filhos, a instituição do casamento progressivamente se tornou uma prática que comodifica, desempodera e isola mulheres de suas famílias e comunidades. Para colocar em perspectiva, o estupro dentro do contexto do casamento não era ilegal na Nova Zelândia até 1985.

Com a instituição do casamento veio o dote, e o maior valor no que diz respeito a ter filhas mulheres vinha de seu potencial enquanto esposas; “roubo de noivas” e “defloração ritual” eram comuns, como ainda são hoje no Quirguistão, por exemplo. As “esposas” raptadas são em geral crianças, e hoje uma média de 15 milhões de meninas por ano são forçadas a casar. Em 2013, uma garota iemenita de oito anos morreu de sangramentos internos na noite em que foi casada com um homem cinco vezes mais velho. É isso que o patriarcado faz às meninas.

Uma das práticas que melhor exemplifica a comodificação através do casamento é o costume indiano do suttee, banido legalmente apenas em 1829. Essa prática envolvia queimar vivas as viúvas, incluindo garotas sequestradas como esposas, nas piras funerárias de seus maridos. O mito de que meninas e mulheres perderam seus maridos como resultado de seu próprio carma ruim motivava a prática. Como este era para ser um ritual de “limpeza”, os homens tipicamente evitavam queimar mulheres enquanto elas estivessem menstruadas, e esperavam dois meses depois do nascimento de uma criança se ela estivesse grávida. Incontáveis mulheres poderiam ser queimadas depois da morte de um único homem da realeza.

Depois de os homens terem se apropriado das mulheres e da esfera doméstica, o estatuto das mulheres foi futuramente institucionalizado e codificado como lei através da construção das religiões monoteístas, do estado, e do desenvolvimento da prostituição comercial. Se alguém tentar te dizer que a prostituição é “a profissão mais velha do mundo”, estarão sendo condescendentes e essencialistas: como Max Dashu mostra, mulheres praticavam a medicina muito antes de os homens se darem conta de como objetificar e lucrar com as mulheres através da prostituição. Lerner discute como a burqa, o costume de as mulheres usarem véu, foi criado para ajudar os homens a distinguir entre as mulheres “respeitáveis e não respeitáveis”, entre as esposas e as mulheres na prostituição.

Como escreve Moana Jackson, a colonização sempre acontece com com uma tomada da memória histórica, saqueada de forma que um vasto silêncio se prolifera. “Algumas vezes, esse silenciamento é descrito como uma amnésia social”, diz Jackson, “na qual o passado sumiu das mentes quase como um esquecimento acidental e sem culpados que ocorre com a passagem do tempo”. O que realmente acontece porém, diz ele, é que as histórias são conscientemente redefinidas de modo que ficam “na cara” das realidades políticas e sociais dos colonizados. O mesmo se aplica às mulheres. Hoje, poucas de nós sabe sua história — seja a da nossa opressão ou da nossa resistência a ela, uma vez que a história é contada pelos patriarcas. Mas podemos retomá-la.

A queima das bruxas e a ginecologia

A “pérola”. Durante a caça às bruxas, os torturadores aqueciam essa ferramenta no fogo e então a enfiavam nas vaginas das mulheres, abrindo lá dentro as suas peças. Imagem da autora.

As mulheres continuaram a praticar amplamente a medicina na Europa até o chamado período do “Iluminismo”. Entre o Império Romano e este período, a caça às bruxas e o seu “mito da feminilidade maléfica” resultaram no assassinato de 9 milhões de pessoas, a maioria delas mulheres, ao longo de 300 anos. A história se lembra deste esforço de 300 anos, quando se lembra, como uma espécie de episódio isolado de loucura supersticiosa (pense no The Crucible de Arthur Miller). Escritoras feministas como Mary Daly, Andrea Dworkin e Max Dashu oferecem outra versão.

Dworkin escreve que muitas das mulheres tidas como bruxas eram praticantes de medicina, uma verdade que ainda existe na nossa memória cultural, de forma distorcida e corrompida, no estereótipo da bruxa dos sapos e caldeirões. Mas estas não eram mulheres más de cara esverdeada. De acordo com Dworkin, eram parteiras, principalmente, uma vez que mulheres educadas realmente ofendiam a Igreja.

As bruxas utilizavam drogas como a beladona e acônito, anfetaminas orgânicas e alucinógenos. Elas também foram pioneiras no desenvolvimento de analgésicos. Elas realizavam abortos, providenciavam toda a ajuda médica necessária para realizar partos, eram consultadas em casos de impotência que tratavam com ervas e hipnose, e foram as primeiras praticantes da eutanásia.

Anna Göldi é tida como a última mulher executada como bruxa na Europa. Ela era a empregada de um médico, que a acusou de colocar agulhas nos pães de seus filhos através de meios sobrenaturais. Depois de tentar escapar do julgamento, ela foi capturada e decapitada na Suíça em 1782.

Em seu livro Gyn/Ecology, Mary Daly aponta como a ginecologia foi estabelecida como uma prática governada pelos homens depois do tempo da queima das bruxas. O ano de 1873 marca a publicação da invenção da castração feminina de Robert Battey: a remoção dos ovários das mulheres para a “cura da insanidade”. Desde então, os homens ginecologistas têm rotineiramente patologizado, torturado e ferido cirúrgica e medicamente as mulheres e seus corpos através de práticas violentas de parto, mastectomias e histerectomias radicais, “terapias” de choque e hormonais, e lobotomias.

Imagem da autora

Desde os anos de 1890, houve um interesse louco em úteros mecânicos ou prostéticos feitos de madeira e vidro (“mães artificiais” ou “incubadoras”) — tecnologias que tentavam desafiar a indispensabilidade dos corpos das mulheres. Nessas incubadoras nós podemos ver que a pressão atual dos transativistas em neutralizar e desumanizar a linguagem da gravidez e do parto, e separar a conexão dos corpos das mulheres de sua saúde, possui ecos através da história.

Daly aponta que a tomada do controle da saúde das mulheres pelos homens depois da caça às bruxas não foi coincidência:

Muitas feministas notaram a significância do fato de que o massacre das mulheres sábias e curandeiras durante a caça às bruxas foi seguido de um crescimento no número de homens parteiros, que eventualmente se tornaram dignificados pelo nome de “ginecologistas”. A ginecologia demorou a crescer. Os homens parteiros dos séculos dezesseis, dezessete, dezoito e dezenove foram combatidos pelas mulheres parteiras, tais como Elizabeth Nihell, que discreveu seus instrumentos como “máquinas da morte”. Mesmo assim, o século dezenove viu a ereção da ginecologia sobre montes de corpos de mulheres mortas.

O acúmulo de abusos

J. Marion Sims, “o Pai da Ginecologia Moderna”, usou mulheres afro-americanas escravas para conduzir seus experimento cirúrgicos. Sims fez experimentos em mulheres negras para pesquisar doenças como câncer — sem prover anestésicos ou outros remédios para controlar a dor. Caso uma mulher morresse das complicações ou por sangramento excessivo, ele simplesmente substituiria ela por outra escrava, e sua prática era completamente legal.

Harriet Tubman. Imagem da autora.

O acúmulo de opressões sobre as mulheres negras é o tópico do livro Mulher, Raça e Classe de Angela Davis. Nele, Davis discute a experiência das mulheres negras durante o tráfico escravagista; incluindo Harriet Tubman (foto), que resgatou mais de trezentas pessoas através da Underground Railroad e foi a única mulher nos Estados Unidos a liderar tropas em uma batalha.

As mulheres negras, segundo Davis, tinham de trabalhar tão duramente quanto os homens nas plantações, performando as mesmas tarefas independente dos mitos que o patriarcado perpetua sobre as mulheres.

As mulheres não eram femininas demais para trabalhar em minas de carvão, nas fundições de ferro ou para serem lenhadoras ou escavadoras de valas. Quando o canal Santee foi construído na Carolina do Norte, mulheres escravizadas eram cinquenta porcento da força de trabalho.

As mulheres eram também escravas sexuais, além disso. “Se as punições mais violentas dos homens consistiam em flagelos e mutilações”, escreve Davis, “as mulheres eram flageladas e mutiladas, bem como estupradas”. Os homens brancos também viam as mulheres negras como “matrizes”:

Durante as décadas que precederam a guerra civil, as mulheres negras foram crescentemente avaliadas em função de sua fertilidade (ou falta dela): aquela que era potencialmente mãe de dez, doze, quatorze ou mais se tornava um tesouro cobiçado. Isso não significava, porém, que como mães as mulheres negras desfrutassem de um status mais respeitável do que o que desfrutavam enquanto trabalhadoras. A exaltação ideológica da maternidade — tão popular no século dezenove — não se estendia às escravas. De fato, para os proprietários de escravos, as mulheres escravas não eram mães; eram apenas instrumentos para a garantia do crescimento da força de trabalho. Elas eram “parideiras” — animais cujo valor monetário pode ser calculado precisamente em termos de sua habilidade de multiplicar seus números.

Uma vez que as mulheres escravas eram consideradas “parideiras” ao invés de “mães”, seus filhos ainda crianças poderiam ser vendidos e tirados delas como novilhos das vacas.

Imagem da autora

Este é outro motivo pelo qual devemos olhar com desconfiança para a introdução de termos como “menstruadores” e “incubadores” na linguagem da saúde da mulher, da gravidez e do parto como resultado da ação do transativismo hoje. Estes termos possuem uma história, e estão ligados especialmente ao tratamento desumanizador da escravidão sexual das mulheres negras. O documentário Google Baby mostra como como as mulheres são atualmente forçadas a tolerar uma vida sob o tratamento de “incubadoras” em clínicas de barriga de aluguel na Índia, muitas vezes dando à luz a bebês brancos feitos com o uso de óvulos e espermatozoides de doadores externos. O tratamento de linha de produção que as mulheres que dão à luz a bebês em clínicas de barriga de aluguel recebem é de dar arrepios, mas o mercado prevê 12 mil estrangeiros por ano indo à Índia para alugar úteros, em geral de mulheres pobres, em uma indústria de valor anual de US$ 1 bilhão.

Uma expressão de colonização racista e patriarcal tão dolorosa e brutal quanto as clínicas de barriga de aluguel na Índia seria difícil de encontrar, se não fosse pela mais velha das opressões: a prostituição. Hoje, 80% das pessoas usadas na prostituição são mulheres, 98% das quais são vítimas do tráfico sexual. Quase todos os prostituintes são homens e o tráfico sexual gera aos homens US$ 32 bilhões por ano. Uma crescente indústria de pornografia violenta acumula cerca de US$ 97,06 bilhões, o que é mais que o lucro combinado das 10 maiores companhias de tecnologia. A mais recente “tendência” na pornografia é a de mulheres sendo analmente estupradas até que sofram prolapso retal (“rosebudding“). Mesmo assim, a Anistia Internacional mostrou seu apoio a esta indústria, submetendo-se às pressões de prostituintes influentes.

Como Cherry Smiley aponta, as mulheres indígenas são mais desproporcionalmente afetadas. Na Nova Zelândia, 15% das mulheres são maori. Em nosso país onde o comércio sexual é completamente descriminalizado, 32% das pessoas prostituídas são maori. Existe uma narrativa ganhando força na Nova Zelândia, sem dúvida abastecida por homens brancos administrando os programas no Coletivo de Prostitutas da Nova Zelândia (NZPC), de que criticar a prostituição é racista por causa das mulheres maori e do Pacífico na indústria. Lembre-se que a demanda por esta indústria vem de homens brancos ricos. Em 2017, os liberais ainda estão sendo doutrinados a acreditar que mulheres indígenas são de alguma forma inatamente pré-dispostas a serem sujeitas a abusos de homens brancos ricos.

O livro de Angela Davis aponta não apenas como as mulheres negras têm sido afetadas pelo acúmulo das opressões de raça, classe e baseadas no sexo, mas que também tiveram que lutar mais arduamente por representação política, mesmo dentro dos movimentos de resistência. Seu livro mostra a interseção entre os movimentos abolicionista pelo fim da escravidão e a primeira onda do feminismo; nenhum dos quais tendo sido suficiente para representar o jugo das mulheres negras. Sojourney Truth lutou com as feministas brancas da primeira onda, assim como bell hooks com as da segunda. Hoje, novamente vemos um movimento de classe média branca liberal que marqueteia um liberalismo identitário chamado “sex positive” como feminismo. Isso aconteceu porque a reação a cada onda feminista assegurou que o feminismo mainstream sairia do outro lado domesticado, branqueado e sexualizado.

Sexologia, pornografia e feminismo

Em seu ensaio Sexology and Antifeminism, Sheila Jeffreys descreve como a “disciplina” da sexologia foi construída como uma reação à primeira onda das feministas sufragistas.

Esse período, imediatamente depois da Primeira Guerra Mundial, foi um tempo no qual muitas mulheres tinham uma considerável maior liberdade e independência do que jamais tiveram. O fato de que grandes números de mulheres não estavam se casando, estavam escolhendo ser independentes, e estavam lutando contra a violência masculina causou considerável preocupação. Essa preocupação é aparente na literatura da sexologia.

Muitas mulheres tinham pouco interesse em intercurso sexual, e mais comumente, pensavam que “nenhuma mulher deveria ser obrigada a fazer intercurso sexual” (isso foi, é claro, muitas décadas antes da segunda onda feminista lutar para criminalizar o estupro marital). Em resposta a essa crescente resistência e independência, e para defender o status quo da opressão das mulheres, a subordinação sexual das mulheres foi naturalizada na sexologia. Havelock Ellis, o fundador do campo, argumentava que

a sexualidade masculina era absoluta e inevitavelmente agressiva, tomando a forma de busca e captura, e que era inevitável aos homens sentir prazer ao infligir dor nas mulheres. A sexualidade das mulheres, dizia ele, era passiva. As mulheres deveriam ser capturadas e “desfrutar” a experiência de dor nas mãos de seus amantes homens.

Os sexologistas também inventaram o conceito da “frigidez” feminina: mulheres “frígidas” eram doentes, e tinham que ser mandadas aos ginecologistas e psicanalistas.

No encalço da sexologia veio a indústria pornográfica que conhecemos hoje. Ao fim da Segunda Guerra Mundial, houve um crescimento no negócio da promoção dessa objetificação das mulheres. Pornógrafos-empresários como Hugh Hefner (Playboy), Bob Guccione (Penthouse) e Larry Flynt (Hustler) começaram a preparar o mercado para tornar a pornografia socialmente aceitável. Nos anos 90, produtos do coelhinho estavam sendo consumidos por meninas em todo lugar — a marca do coelhinho estampava tudo, de papelaria a pijamas. Os publicadores da Cosmopolitan, Bauer Media, estão envolvidos no lobby global do tráfico sexual, e chegaram a possuir os direitos de publicação da Playboy na Alemanha.

“Era um mundo muito diferente”, diz a escritora feminista Gail Dines, “depois de Hefner ter erodido as barreiras culturais econômicas e legais da produção e distribuição em massa de pornografia”. Agora é passível de discussão se pole dancing é a melhor atividade extracurricular para garotas de 8 anos de idade.

Como essa mudança ao mainstream aconteceu? A resposta é simples: de propósito. O que vemos hoje é resultado de anos de estratégia e marketing cuidadosos da indústria pornográfica para sanitizar seus produtos… reconstruindo a pornografia como divertida, deferente, chique, sexy e quente. Quanto mais a indústria se tornou sanitizada, mais ela escorregou para dentro da cultura pop e da nossa consciência coletiva.

A segunda onda feminista reconheceu e resiste aos abusos e à normalização da pornografia — mas os departamentos de Estudos das Mulheres das universidades nos quais muitas críticas como essa poderiam ser feitas não existem mais. Até mesmo os livros estão ameaçados. A disciplina que usurpou os Estudos das Mulheres é a teoria queer, e de acordo com as feministas, a teoria queer está para a segunda onda do feminismo como a sexologia era para a primeira: uma contra-reação [backlash]. Sheila Jeffreys esclarece como ela veio

dos liberais sexuais da esquerda — em particular, homens — e em grande parte do movimento gay masculino. É daí que vem a contra-reação, mas também possui representantes dentro do feminismo.

Lierre Keith ilustra a representação dessa contra-reação dentro do feminismo:

Já em 1982, Ellen Willis inventou o termo “sex positive” para se distinguir das feministas radicais — porque somos tão negativas, nós feministas radicais. Estupro, estupro, estupro — isso é tudo sobre o que queremos falar. Bom, proponho um trato — se os homens pararem com o estupro, eu paro de falar a respeito.

Keith também aponta que a busca pelo termo “torture porn” gera 32 milhões de resultados. Vale notar que a estética, as ferramentas e as práticas da pornografia moderna e do BDSM endossadas como “diferentes”, a “sexualmente positiva” teoria queer e as “taras” remontam aos tribunais de caça às bruxas. O ensaio de Max Dashu Reign of the Demonologists mostra como a tortura das bruxas era sexualizada, através da fetichização de procedimentos e equipamentos de tortura e as confissões forçadas de sexo grotesco com demônios. Uma entrevista com Audre Lorde em Burst of Light critica o sadomasoquismo por razões similares.

O sadomasoquismo é congruente com com outros desenvolvimentos acontecendo neste país que tem a ver com dominância e submissão, com desigualdade de poder — político, cultural e econômico… O sadomasoquismo é uma celebração institucionalizada das relações de dominação e subordinação… O sadomasoquismo alimenta a crença de que a dominação é inevitável e legitimamente desfrutável.

A feminista Susanne Kappeler nos oferece um lembrete para quando encontrarmos esses tipos de práticas aceitos e celebrados como revolucionários na academia.

Enquanto feministas, faremos bem em lembrar e destacar o fato de que a história do liberalismo, do libertarianismo e da libertinagem tem sido a história de cavalheiros advogando liberdade e permissão para cavalheiros — liberdades pelas quais os direitos e as liberdades das mulheres têm sido rotineiramente sacrificadas.


Cópia de um desenho de 1515 de “witch porn” de Hans Franck.

Comoditização e “escolha”

A produção dos robôs sexuais é um aprofundamento contemporâneo da objetificação das mulheres que disciplinas como a teoria queer sancionam, e até celebram. Distúrbios alimentares e a demanda por cirurgias cosméticas como a labioplastia são apenas dois exemplos do impacto da escalada de objetificação das mulheres. Estamos vendo outras invenções bizarras no mercado, também: o FitBit peniano, uma peça bucal para sexo oral.

Imagem da autora

Um jeito que o lobby do mercado sexual se infiltra sob a pele das mulheres, suga sua confiança, encoraja competição e instiga dependência a um parceiro abusivo ou um prostituinte, é através da mídia, através das revistas femininas. 70% das mulheres alega sentir culpa ou vergonha depois de três minutos folheando esse tipo de revista. É é notório que publicadores e seus anunciantes alimentam inseguranças — e abuso. A maioria das modelos nessas revistas pesa 25% menos que a média das mulheres, e está na faixa de peso da anorexia. Agora, na Europa e nos Estados Unidos, 50 milhões de mulheres sofrem de distúrbios alimentares, e meninas de 6 anos de idade vêm crescentemente expressando ansiedade a respeito de seu corpo.

A Bauer Media publica a Cosmopolitan, a Woman’s Day e a revista adolescente Dolly. Atualmente ela também lucra com pornografia online, e costumava possuir os direitos de publicação de uma série de revistas pornográficas alemãs: a Playboy alemã; Das neue Wochenend; Blitz Illu; Schlüsselloch (que significa “fechadura”); Sexy, Praline e Coupe. A Bauer Media também possui um terço do famoso canal privado RTL II, que transmite reality shows a favor de “trabalho sexual” quase diariamente. Não é surpreendente ver a última edição da Cosmopolitan oferecer conselhos sobre tratamentos cosméticos invasivos indo de micropigmentação de sobrancelha a preenchimento labial, tratamento a laser e terapia de luz.

Labioplastia — redução cirúrgica dos lábios vaginais das mulheres — é outra tendência ocidental que está aumentando e que tem conexões com práticas mais brutais, nesse se caso a mutilação genital feminina (FGM). De acordo com a OMS (que apoiava essa prática em 1958), mais de 200 milhões de mulheres e meninas vivas hoje passaram pelo procedimento em 30 países da África, do Oriente Médio e da Ásia onde a prática da FGM é concentrada. Nessas práticas, as meninas têm seus clitóris e lábios vaginais removidos; na Somália, há a prática de costurar os lábios, deixando apenas um pequeno buraco. A mulher somali Hibo Wardere diz que urinar através dessa pequena abertura é como se “uma ferida tivesse sido esfregada com sal ou pimenta”. O feminismo deve trabalhar para acabar com a mutilação genital, e não se ocupar de glorificar variedades novas e comerciais dela como “escolhas” sexualmente positivas.

O patriarcado mina e recorta os corpos das mulheres enquanto diminui o valor delas. Desde o décimo século e por dez séculos, os patriarcas chineses perceberam que as meninas e mulheres jamais conseguiriam correr, amarrando seus pés e fetichizando esse ato de aleijar mulheres. Hoje vemos o comércio de cabelos, óvulos, leite materno e aluguel de úteros através da prática da barriga de aluguel. Enquanto as incubadoras são normalmente mulheres pobres, as doadoras de óvulos são geralmente mulheres estudadas e jovens, cuja saúde foi investigada em busca de doenças hereditárias e que não foram alertadas para as implicações ou possíveis efeitos colaterais da coleta de seus óvulos.

O feminismo branco mainstream hoje irá classificar a labioplastia como algo que as mulheres “escolhem“. Da mesma forma que a imolação foi “escolhida” através da prática indiana do suttee. Da mesma forma que as mães “escolheram” amarrar os pés de suas filhas, “escolheram” cortar seus clitóris; como as mulheres que “escolhem” ser prostituídas e até mesmo traficadas, “escolhem” usar burqa, salto alto, não comer, amarrar seus seios. Essas práticas são por vezes não apenas marqueteadas e chamadas de “escolha”, mas também de altruísmo. A prostituição, a barriga de aluguel e a imolação tem sido chamadas de práticas “altruístas”. As mulheres, obviamente, querem ser capazes de escolher e contribuir. E que escolhas a sociedade nos permite fazer? Estas. Então alegamos que nós mesmas fizemos estas escolhas. Mas o feminismo precisa entender que, conforme Megan Tyler, sim, “nós fazemos escolhas, mas estas escolhas são moldadas e constritas por condições desiguais nas quais nós vivemos.”

NZPC promove a prostituição como uma “escolha” da mulher. Imagem da autora.

Quando se trata de tendências modernas como o transativismo, não podemos separar o desejo masculino de acesso aos espaços das mulheres e por transplantes de útero, de uma história de apropriação patriarcal (incluso aí as imitações de “úteros prostéticos”). Não podemos separar este movimento de uma história inteira que o precede, da exploração simultânea dos corpos e da desvalorização da mulheres. Também não podemos separar os desejos dos homens de sufocar e apropriar a discussão e a capacidade da habilidade das mulheres de criar vida de uma história inteira disso. O sistema masculino tem trabalhado para se apropriar do controle dos corpos das mulheres e de sua habilidade de criar vida humana, e para sufocar a discórdia feminista desde que chegou ao poder. Nessa Era Trump, a história continua.

Por outro lado, não podemos separar os desejos manufaturados das mulheres pelo privilégio masculino nem esquecer que as escolhas das mulheres de passar por procedimentos como binding e queima dos seios, mastectomias e cirurgias invasivas de uma história de opressão, demonização, mutilação e auto-destruição.

Não podemos separar qualquer discurso sobre gênero das realidades da opressão baseada no sexo — isso se realmente quisermos liberdade.

Imagem: Barbara Kruger

Traduzido do original: “A call to feminists to remember the history and sex-based nature of women’s oppression“. In: Writing by Renee, 7 de fevereiro de 2017.

A interdependência entre militarismo e prostituição

Traduzido de: GERLICH, Renee. “Conquest: on the inseparability of militarism and prostitution“. In. GERLICH, Renee. Writing by Renee — trigger warning: feminism and women’s rights. 20 de dezembro de 2018.


Desde que os homens começaram a se envolver com guerra, eles têm sequestrado mulheres e crianças para a escravidão sexual. De acordo com o historiadora Gerda Lerner, a conquista militar levou à escravidão e ao abuso sexual de mulheres e crianças capturadas no terceiro milênio antes da era comum. Em The Creation of Patriarchy, Lerner escreve:

Conforme a escravidão se tornou uma instituição estabelecida, donos de escravos alugavam suas escravas mulheres como prostitutas, e alguns senhores estabeleceram bordéis comerciais geridos por escravos. A pronta disponibilidade das mulheres capturadas para uso sexual particular e a necessidade de reis e chefes, frequentemente eles mesmos usurpadores da autoridade, estabelecerem sua legitimidade através da exibição de sua riqueza na forma de servas e concubinas levou ao estabelecimento dos haréns.

Os primeiros códigos legais encorajavam essa prática — como essa passagem do Velho Testamento (Deuteronômio 21:10-15):

Quando saíres à peleja contra os teus inimigos, e o Senhor teu Deus os entregar nas tuas mãos, e tu deles levares prisioneiros, e tu entre os presos vires uma mulher formosa à vista, e a cobiçares, e a tomares por mulher, então a trarás para a tua casa; e ela rapará a cabeça e cortará as suas unhas. E despirá o vestido do seu cativeiro, e se assentará na tua casa, e chorará a seu pai e a sua mãe um mês inteiro; e depois chegarás a ela, e tu serás seu marido e ela tua mulher. E será que, se te não contentares dela, a deixarás ir à sua vontade; mas de modo algum a venderás por dinheiro, nem a tratarás como escrava, pois a tens humilhado.

Ainda hoje, onde houver militarismo, haverá prostituição. Na ocupação de Papua do Leste foi reportado tráfico sexual no entorno das minas — como Freeport, a maior mina de ouro do mundo — sob a guarda do exército da Indonésia. A prostituição é abastecida pelas assim chamadas “tropas de manutenção de paz”: relatórios recentes de Rohingya mostram o envolvimento das tropas de paz no tráfico sexual e, antes de 2009, mostravam o envolvimento das tropas de paz no tráfico de mulheres e crianças para a prostituição nos Balcãs, Moçambique, Libéria, Guiné, Serra Leoa, Congo e Haiti. No começo dos anos 2000, mulheres tailandesas estavam sendo traficadas em bordéis frequentados por tropas de paz em Timor-Leste; tropas de paz criaram a indústria da prostituição em Ruanda em 1995; e no Camboja, a chegada das tropas de paz causou um aumento de 1.500 para 20.000 no número de mulheres e garotas prostituídas em 1990.

Conforme os Estados Unidos transforma o Oriente Médio em uma zona de desastre, a história está se repetindo. A autora feminista egípcia Nawaal El-Saadawi aponta em The Hidden Face of Eve que “[e]m um único ano, as Cruzadas tiveram de pagar os custos de alimentação e abrigo de mais de 13.000 prostitutas”. Hoje, o Oriente Médio tem a indústria de tráfico sexual que mais cresce no mundo, com tropas de paz envolvidas no tráfico de mulheres sírias.

Os comerciantes de escravas brancas introduziram a prostituição e as doenças sexualmente transmissíveis como parte de sua conquista e colonização: quando o capitão Cook foi ao Havaí em 1778, ele levou uma mulher havaiana chamada Lelamahoa-lani para si, em troca de ferro, e os marujos da Endeavour seguiram seu exemplo. De acordo com o historiador James Belich, pelo ano de 1810 na Nova Zelândia, a prostituição era mais lucrativa que o comércio de lã, laticínios e até mesmo ouro. Sheila Jeffreys no livro The Industrial Vagina escreve que “o estado colonial holandês agiu como um cafetão” em Curaçao, administrando, regulando e recrutando mulheres para bordéis desde o começo do século XX. Em Mulher, Raça e Classe, Angela Davis aponta que no tráfico escravagista, “as mulheres […] eram inerentemente vulneráveis a todas as formas de coerção sexual. Se a mais violenta forma de punição para um homem consistia em chicotadas e mutilações, as mulheres eram chicoteadas e mutiladas, mas também estupradas.”

A regulação do estupro pelo Estado originou de uma tentativa de evitar que a sífilis tivesse um efeito debilitante no exército como um todo. É isso que a prostituição é: a regulação do estupro no sentido de manter a capacidade dos homens de dominar. Feministas organizadas em campanha contra a regulação do estupro datam do Ato das Doenças Contagiosas de 1864 na Grã-Bretanha, que ditava que qualquer mulher encontrada em portos marítimos ou nos arredores de cidades militares (como Portsmouth) poderia ser presa, examinada e — se tivesse alguma doença venérea —, encarcerada em internamento forçado. Feministas como Josephine Butler reconheceram que essa lei significava que “homens podiam usar prostitutas com impunidade enquanto ao mesmo tempo puniam todas as mulheres”, conforme relata a jornalista Julie Bindel. Butler venceu sua luta contra o Ato das Doenças Contagiosas em 1886 — e então ela se voltou para a Índia, onde o exército britânico estava vendendo mulheres na prostituição em cidades militares usando os mesmos métodos legais. No século XIX, na Irlanda, as tropas britânicas também estavam prostituindo mulheres em cidades militares.

1884 foi o ano do “Passeio pela África” da Europa: foi quando nações européias dividiram o continente africano entre si mesmos em uma conferência em Berlim, antes de invadirem seus novos territórios reivindicados. Tropas italianas e francesas estabeleceram sistemas de prostituição assim que chegaram na África: o exército italiano montou um sifilicomio, para onde mulheres seriam levadas para se recuperar de doenças sexualmente transmissíveis, quase imediatamente depois de terem ocupado Massawa em fevereiro de 1885. Assim como os franceses: o primeiro sistema de prostituição regulamentada foi criado em Algiers em 13 de julho de 1830, apenas oito dias depois de as tropas francesas terem capturado a cidade. Filles soumises ou “garotas submissas” eram levadas a bordéis europeus e distritos da luz vermelha marcadas como “indígenas” — esse sistema gradualmente se estendeu por todos os territórios do norte da África que estavam sob o controle da França.

No Congo ocupado pela Bélgica, o rei Leopoldo II enviou soldados recrutas a vilarejos para sequestrar e manter mulheres reféns, de modo a forçar os homens locais a coletar a altamente lucrativa borracha cujas árvores que cresciam na floresta. “As mulheres capturadas durante a última incursão… não estão me causando nenhum tipo de perturbação”, escreveu em seu diário um oficial belga chamado Georges Bricusse em 22 de novembro de 1895. “Todos os soldados querem uma. Os sentinelas que deveriam estar as vigiando desacorrentam as mais bonitas e as estupram”. No início dos anos 1900, os invasores alemães causaram um genocídio na Namíbia. Eles então montaram um bordel para prostituir as mulheres nativas que sobreviveram.

Os livros The Industrial Vagina e Does Khaki Become You.
Imagem da autora do texto.

Na Nigéria, grandes porcentagens de mulheres de tribos nativas foram arrastadas para a prostituição durante essa era de colonização. A pesquisadora Mfon Ekpo-Otu conta que no ano de 1948, “a prostituição se tornou tão endêmica na região de Agwagune (Akunakuna) que seu nome se tornou sinônimo de prostituição” — tribos próximas chamavam mulheres prostituídas de akuna ou akwunakuna. No Quênia, um oficial da polícia reportou em 1917 que havia entre 300 e 500 mulheres e crianças sendo prostituídas em Nairóbi, algumas com 10 anos de idade. Na época da Segunda Guerra Mundial, muitas mulheres quenianas que estavam na prostituição de rua — que começou a ser chamada de watembezi — começaram a alugar camas, esteiras e quartos em cabanas de barro onde eram prostituídas em tempo integral por soldados alocados em Nairóbi.

De acordo com livro de Cynthia Enloe Does Khaki Become You, no começo da Segunda Guerra Mundial, os bordéis em Trípoli (Líbia) passaram a ser controlados diretamente pelo exército britânico. Oficiais foram postos em seu comando. Comandantes do exército britânico alocados na Índia também administravam bordéis oficiais, e em ambos os casos, as mulheres foram submetidas a exames médicos obrigatórios, e os bordéis eram designados de acordo com a raça e a posição na hierarquia dos soldados. Quando mais tarde vieram ordens de Londres para fechar os bordéis na Índia, os militares colocaram a culpa na epidemia de sífilis. Em seu livro A Man’s Country, Jock Phillips narra como soldados da Nova Zelândia queimaram bordéis no Egito em 1915 como uma vingança por contraírem sífilis, como se as mulheres fossem as culpadas — uma vez que era esperado delas se manterem “limpas” para o uso das tropas.

Nos anos 1930 e 40, o Japão continuou expandindo seu território através da China e do Pacífico. Em Japan’s Comfort Women, Yuki Tanaka explica que em abril de 1933, o exército imperial japonês criou uma estação chamada “Instalação Higiênica para Prevenção de Epidemias” em Xangai, onde mantinha 35 mulheres coreanas e três japonesas. Duas camisinhas eram distribuídas para cada soldado — um total de 15.528 camisinhas. No ano de 1942, 32,1 milhões de camisinhas foram enviadas para unidades alocadas fora do Japão, e além disso, as tropas japonesas sequestraram por volta de 200 mil mulheres e meninas da Coreia através de tráfico, trapaça e à força, para usá-las no que ficou conhecido como “mulheres conforto”. Mulheres japonesas chinesas e taiwanesas também foram usadas, e meninas filipinas de dez anos foram sequestradas por grupos de soldados. Jovens meninas virgens eram preferidas, uma vez que era menos provável que estivessem infectadas com sífilis, e sob o sistema das mulheres conforto, os oficiais tinham a preferência no “direito” às garotas mais jovens traficadas.

Os japoneses estabeleceram esse sistema de mulheres conforto na Indonésia; 3000 mulheres japonesas chinesas e coreanas foram também enviadas a Papua Nova Guiné ocupada pelo Japão, para lidar com entre 25 e 35 “clientes” por dia. As mulheres japonesas foram menos usadas no papel de “mulher conforto” porque se acreditava que seu papel era criar crianças japonesas saudáveis que cresceriam fiéis ao Império. O governo japonês no período das grandes guerras se inspirou na ideologia eugênica nazista, proclamando a Lei Eugênica Nacional em 1940. De acordo com Jeffreys, Himmler ordenou o estabelecimento de pelo menos nove bordéis em campos de concentração. Sob instruções do departamento de saúde, o gueto de Varsóvia estabeleceu um bordel com cinquenta mulheres judias para o uso dos soldados alemães, e em alguns lugares mulheres judias eram aprisionados para o uso dos guardas da SS.

Em 1945, no início da primeira guerra do Vietnã, os vietnamitas resistiram às tropas francesas entregando a eles as mulheres locais — mas em 1954 os franceses quebraram essa resistência. “Primeiro garotas baristas, e então casas de massagens para os fuzileiros navais em Da Nang, até que uma favela de bordéis, casas de massagens e negociantes de entorpecentes conhecidos como Dogpatch logo rodeavam a região”, lembra um veterano americano. Novamente, haviam bordéis separados para os soldados brancos e negros. Em seu livro Don’t Be Afraid of Gringo, Elvia Alvarado diz que o povo hondurenho se referia a sífilis como “flor de Vietnam”. “Quando os gringos chegaram”, diz Alvarado, a prostituição “deu início a algo terrível, com ruas inteiras cheias de bordéis”. Ela acrescenta,

Houve também um escândalo em torno do abuso sexual de crianças pelos gringos. Houveram casos de crianças que foram estupradas. Nunca ouvimos falar de nada parecido com isso antes de os gringos virem para cá.

E as pessoas começaram a falar sobre uma doença sexual chamada “flor de Vietnam”. Acredito que esse nome venha do país Vietnã, onde os Estados Unidos lutou outra guerra. Tudo que sei é que é uma doença sexual difícil de curar.

Mas o pior tem sido a AIDS… Dizem que quando os gringos contraem AIDS eles duram mais, porque tinham mais defesas que nós indígenas temos.

Protesto da organização filipina Gabriela.
Imagem da autora do texto.

Evento do fim da Segunda Guerra Mundial, o Japão perdeu o seu domínio sobre a Coreia e ela se dividiu em dois estados: a do Norte e a do Sul, desencadeando a Guerra da Coreia. Desde então, mais de um milhão de mulheres coreanas foram prostituídas pelo exército dos Estados Unidos. Em seu livro In Order to Live, Yeonmi Park conta sua experiência de ter sido contrabandeada da Coreia do Norte por traficantes que tinham como alvo garotas norte-coreanas buscando passagem segura,de modo a vender essas garotas para casamento e prostituição na China.

Um dos focos do livro The Industrial Vagina de Jeffreys são as regiões que o exército americano transformou em regimes de “descanso e recreação”, antes desses países se tornarem destinos de turismo sexual. Coreia, Tailândia e Filipinas estão entre essas regiões: 100.000 mulheres em Bangkok foram prostituídas sob o pretexto de “descanso e recreação” antes de a Tailândia se tornar um destino para o turismo sexual. 70% dessas mulheres e garotas sofriam com sífilis. Por volta dos anos 1960, 55.000 mulheres filipinas foram usadas na prostituição por tropas americanas para “descanso e recreação”. A organização filipina feminista Gabriela foi criada para resistir ao modo como as mulheres e meninas filipinas eram responsabilizadas, punidas e medicalizadas por causa da epidemia de sífilis causada pelo influxo de tropas americanas que as estavam prostituindo.

De acordo com o expert em tráfico de pessoas Siddharth Kara, os países asiáticos tem agora o maior número total de mulheres e meninas na prostituição. Nações como Quênia, Hawaii, Tahiti e Brasil também estão entre os maiores destinos sexuais militarizados.

A conexão que a prostituição e a pornografia tem com o militarismo é cíclica. A prostituição organizada por exércitos abasteceu a demanda da indústria pornográfica que cresceu rapidamente depois da Segunda Guerra Mundial; a pornografia também é usada para encorajar a agressividade dentro das forças armadas. Pornografia foi usada com este propósito quando soldados paquistaneses invadiram Bangladesh durante o genocídio de 1971; um jornal de mulheres britânico chamado Outwrite reportou que filmes pornográficos hardcore eram exibidos as tropas britânicas com destino às ilhas Malvinas em 1982. A Iugoslávia foi saturada de pornografia antes do genocídio bósnio, e a pornografia foi um fator para o estabelecimento de campos de estupro por milícias sérvias na Bósnia. Combatente sérvios filmaram o estupro de mulheres não-sérvias para fazer pornografia dentro de um sistema de prostituição onde o assassinato era comum.

Prostituição e pornografia são inseparáveis do militarismo. Juntas, essas instituições mantém o domínio dos homens no poder sobre as mulheres, e sobre as regiões ocupadas: mais do que isso a pornografia e a prostituição encoraja os homens a fetichizar a violência e a dominação.

A resistência feminista contra o estupro regulamentado — como o trabalho da organização Gabriela nas Filipinas, e a campanha de Josephine Butler contra o Ato das Doenças Contagiosas na Grã-Bretanha e Índia — ainda é uma parte crucial da oposição a violência masculina e ao militarismo. A prostituição tem se tornado normalizada de forma crescente ao redor do mundo, com jurisdições como a Nova Zelândia implementando versões contemporâneas do Ato das Doenças Contagiosas de 1864. Sobre o modelo do legislativo da Nova Zelândia chamado de “redução de danos”, o “apoio” oferecido às mulheres na prostituição constitui em nada mais do que distribuição de preservativos, de modo que os homens possam se proteger de doenças sexualmente transmissíveis. O estupro de mulheres vai permanecer intocado, a menos que as feministas se deêm conta de que precisamos agir.

Prestes a virar o jogo: um manifesto radical

A revolução das mulheres é inevitável. Libertar-se da dominação masculina é por vezes visto como algo utópico, uma impossibilidade essencialmente vinculada à nossa condição material e biológica de gestadoras da humanidade, mesmo por algumas daquelas que anseiam muito essa liberdade. Mas, como dizia Shulamith Firestone em 1970, a situação atual exige essa revolução, e as pré-condições necessárias para que essa revolução aconteça já existem em alguns lugares. É apenas uma questão de tempo para tal, e depende fundamentalmente de as mulheres não cederem os espaços que com tanta dificuldade conquistaram. Exige, portanto, um tratamento radical. Os homens (que podem parecer, mas não são de todo ignorantes) sabem disso e é por isso mesmo que estão tão empenhados na busca por substitutxs.

Audre Lorde

As evidências dessa busca estão em todos os lugares. Uma vez que a revolução feminista já começou, está acontecendo, é contagiosa e pode em breve se concretizar, os homens buscam já há muito alternativas à mulheridade. Essa busca é por alternativas a habilidades que só as mulheres possuem e pode ser observada através de alguns exemplos: na industrialização e substituição do leite materno por fórmulas, que em 1977 provocou protestos em todo o mundo contra a Nestlé, quando crianças de países subdesenvolvidos sofreram as consequências da falta de nutrientes e da irresponsabilidade dos industriais que jogaram no mercado esses produtos sem fazer testes exaustivos; nas pesquisas em reprodução humana, algumas visando realizar transplantes de útero em indivíduos do sexo masculino, ou até mesmo a busca da gestação completa fora do órgão materno, em um mundo superpovoado e repleto de crises migratórias onde “falta de gente” não é um problema; na indústria da beleza, que utiliza corpos de mulheres como cobaias de suas aberrações cirúrgicas e de seus produtos desnecessários, e busca conformar seus corpos a um padrão irreal; nos testes antiéticos para o desenvolvimento e a recomendação irresponsável do uso de pílulas anticoncepcionais a mulheres jovens; na medicalização da infelicidade de pessoas a respeito dos papéis sociais, expectativas e estereótipos atribuídos a si em virtude de sua condição sexual… A lista é imensa.

Hoje, a principal força da dominação masculina diretamente envolvida nessa busca de alternativas ao corpo fêmea é provavelmente a ciência médica. Estabelecida e formalizada a partir do sequestro dos saberes populares que ficou conhecido como “caça às bruxas”, é de certo um dos pontapés fundamentais do início da chamada Era Moderna, período histórico onde alguns dos grilhões mais pesados do patriarcado tiveram reforço. Ela não atua sozinha, porém. Necessita de um grande aparato ideológico/epistemológico, infiltrado em movimentos sociais legítimos, para fazer suas ideias passarem. Apesar de ainda estarmos nas bordas do oceano cósmico em termos de saber científico e não termos como prever as implicações a longo prazo dessas intervenções todas, pessoas desinformadas ou deliberadamente instrumentalizadas em favor da construção dessa “mulher ideal” — em oposição a mulheres reais, vivas, sencientes e conscientes — estão propagando um duplipensar, onde ideias opostas ao feminismo são tidas como feministas. A alternativa à mulheridade se desenvolve, portanto, em um cenário onde a verdade já não importa, e o que vale é uma crença em uma verdade alternativa.

Uma das forças ideológicas empenhadas nessa desconstrução — literal e simbólica — da mulher, é a prostituição da sexualidade. Ao mesmo tempo em que ideias anti-feministas buscam tirar o sexo do centro da análise feminista, há a tentativa de convencer mulheres de que as fantasias masculinas de dominação são a única alternativa existente à sexualidade, e que todas as suas manifestações seriam legítimas. O “espaço para negociação” aí existente, defendido por alguns teóricos da sexualidade — comprometidos conscientemente ou não com a exploração das mulheres —, busca nominalmente romper com as regras ao mesmo tempo em que cria uma série de regulações que mantém as estruturas exatamente onde elas já estão. Isso fica evidente não apenas na prostituição propriamente dita, mas também na pornografia mainstream e sua “guinada à esquisitice” nas últimas décadas, com a expansão da internet e a exaustão da pulsão sexual viciada sempre em busca de novidades.

Existem pelo menos dois argumentos que buscam sustentar a separação da sexualidade em um reino específico das práticas humanas, que se pretende libertador, mas esquece que essa “liberdade” se dá na exploração das mulheres. Um deles é o de que “a pornografia existe desde tempos imemoriais” — o que, segundo esses ideólogos, estaria evidente nos mitos gregos e japoneses, nos grafites da Roma Antiga, e nas ilustrações e representações de “atos sexuais” ao longo dos tempos. Esse argumento ignora que tanto os exemplos utilizados se dão em contextos onde a dominação masculina foi ainda mais forte do que é hoje nesses mesmos territórios geográficos, e também que a pornografia hoje, inserida na lógica capitalista de produção, é ordens de magnitude diferente desses exemplos; portanto, comparações bastante longe de fazerem sentido. O segundo dos argumentos utilizados para essa normatização da sexualidade é o de que “prostitutas têm a profissão mais antiga do mundo”, se fundamentando nas chamadas prostitutas sagradas, ignorando todo o período anterior ao estabelecimento do patriarcado e fazendo uso de uma comparação errônea do modo como se davam os cultos e seus significados nos mais variados tipos de religiões da Antiguidade, e que essas religiões sofreram mutações influenciadas pela progressiva dominação masculina. Esse argumento falha em ver a prostituição como inerente ao militarismo que tornou possível essa dominação, e se faz de cego frente a uma divisão das mulheres em classes úteis ao patriarcado: a dicotomia santa x puta.

Frente a todos esses fatos e contextos, como construir uma revolução de mulheres?

O feminismo, como campo de conhecimento e movimento social, já possui alguma das bases teóricas e estratégicas para virar o jogo. Uma vez que muito desse trabalho já foi feito, não precisamos reinventar a roda: nos resta respeitar o legado das feministas que vieram antes de nós e estudar os seus tão preciosos insights. O feminismo não é qualquer coisa que uma mulher queira, seja ela uma mulher específica ou pertencente a um determinado grupo. Estamos dando continuidade a um trabalho que já começou, não precisamos reconstruir o movimento do zero toda vez que uma crise nova se abate sobre ele, e essa busca por uma “mulher alternativa” ainda mais submissa do que qualquer mulher é capaz de ser é um resultado da eficiência de nossa militância. O feminismo não sai da cabeça de uma única mulher, mas deve ser uma construção coletiva com objetivos universalistas: as nossas demandas precisam atender a todas as mulheres, principalmente no que diz respeito à sua situação enquanto mulheres. Existir em um mundo organizado pela dominação masculina em um corpo fêmea é qualitativamente diferente de habitá-lo em um corpo macho. As forças que buscam nos dominar o sabem muito bem, e é importante que nós também saibamos.

Não compactuar com os valores e instituições que reforçam essa dominação, e parar de canalizar nossas energias nos homens e nos seus objetivos para nos centrarmos nas mulheres é essencial para evitarmos a instrumentalização do movimento. Não se faz isso mergulhada em ignorância, atemorizada pelo medo de pensar ou questionar ideais anti-feministas que venham disfarçados em pele de cordeiro. É preciso uma militância baseada em objetivos, que se foque tanto na conscientização de suas membras quanto nos objetivos comuns das mulheres. Isso começa somente quando reconhecemos nas nossas iguais as nossas lutas e dificuldades conjuntas, e compartilhamos forças na construção de uma utopia feminista.

O Conceito de Gênero: um novo “coração de mãe” nas pesquisas sobre a mulher?

— Grupo Em Canto
— GT: Mulher e Política
— Trabalho apresentado no XIII Encontro Anual da ANPOCS
— Caxambu, outubro de 1989

Introdução

A idéia de elaborarmos este texto partiu da observação de que de uns tempos para cá, a palavra “gênero” passou a ser utilizada de forma bastante frequente nos textos, trabalhos, pesquisas e discursos elaborados sobre as mulheres no Brasil.

Alia-se a isto o fato de que alguns grupos de estudos e pesquisas sobre a mulher tenham começado a se definir como grupos de estudos de relações de gênero e a própria tentativa de troca de nome deste grupo da ANPOCS de “Mulher e Política” para “Relações de dominação de gênero” [1]. Alguns cursos universitários também têm optado pelo termo, como por exemplo o de Mireva Suarez na UnB e o curso promovido pelo núcleo da USP.

A partir desta constatação nos interessava saber se este termo era apenas mais uma “moda” ou se realmente ele constituia uma nova categoria de análise que estava sendo usada nas pesquisas referentes à “mulher”. E, em caso afirmativo, que modalidade ele introduziu na análise?

Tomamos como base para nosso trabalho, de um lado alguns textos teóricos que discutem a noção de gênero e de outro, procuramos analisar uma parte da produção realizada hoje no Brasil sobre a chamada “questão da mulher”, a fim de verificar sua emergência ou não. Para isto nos reportamos aos textos veiculados, nos três últimos encontros da ANPOCS, no grupo “Mulher e Política” [2]. Temos claro que nossa escolha não esgota a produção sobre o tema, mas como teríamos que realizar um corte, optamos por este grupo por entender que já há alguns anos é um espaço assegurado a discussão de temas ligados de uma forma ou outra a problemática feminista. Assim como pensamos que uma reflexão sobre a produção do próprio grupo seria enriquecedora tanto para o grupo quanto para nós mesmas.

Este artigo se subdivide em duas partes. Na primeira, fazemos uma revisão teórica sobre a forma como o conceito de gênero foi desenvolvido por várias disciplinas: linguística, literatura, psicologia, psicanálise, sociologia e antropologia. Na segunda parte examinamos a produção que algumas pesquisadoras brasileiras vem desenvolvendo no grupo de “Mulher e Política”.

Um primeiro levantamento dos textos a serem analisados nos deixou claro que a temática gênero é bem recente nos estudos sobre mulher no Brasil, nos dando a impressão que, até o momento, salvo algumas exceções, ela é mais verbalizada do que utilizada concreta explicitamente como categoria de análise.

O conceito de gênero

Várias são as disciplinas que elaboraram o conceito de gênero. Num primeiro momento vamos repassar a maneira como este conceito vem sendo desenvolvido tanto pela linguística e literatura quanto pela psicologia e psicanálise. Num segundo momento, mostrar como as Ciências Sociais vão incorporar esse conceito e como irá ocorrer um desdobramento da categoria de “papéis sexuais” em “gênero”.

O gênero na linguística e na literatura

As analistas da linguagem apontam para a determinação arbitrária dos gêneros nos diferentes idiomas. Esta arbitrariedade da cultura no que tange a língua tem servido como contraponto a determinação arbitrária do gênero tal como sugere Marta Lamas: “Esta arbitrariedade en la asignación de genero a las cosas que se pone em evidencia muy facilmente, por ejemplo cuando el género atribuido cambia dependiendo de la lengua que se trate. En alemán el sol es femenino, “la sol” y la luna masculino, “el luna” (P. 185)”.

Muitas línguas têm, além do feminino e do masculino, a categoria do neutro, que define comumente fenômenos da natureza (chove, neva, etc.), mas que em algumas línguas como o alemão são usados indiscriminadamente para objetos.

Junto com esta discussão sobre a arbitrariedade da língua, onde se impõe o masculino, linguistas feministas têm proposto como forma de “guerrilha da linguagem” que se feminilize sistematicamente a linguagem e a escrita, usando por exemplo o feminino plural quando há uma mulher presente.

Já na crítica literária, segundo o trabalho de Ana Vicentini (1988), pode-se observar duas correntes diferentes que tratam a questão do gênero, uma anglo-americana e outra francesa. A primeira é mais preocupada com o conteúdo da produção literária das mulheres, analisando-se as mulheres escrevem ou não suas experiências ou se apenas reproduzem a escrita que tem características masculinas. As francesas, por outro lado, tendo uma grande influência psicanalítica, estão mais preocupadas com o simbólico da produção feminina e propõe uma escrita mais vinculada a especificidade do feminino [3].

Para as teóricas da “escritura feminina”, o uso da categoria gênero remete a questão da produção do discurso. Para Luce Irigaray, por exemplo, o gênero masculino é tomado como o gênero universal e é nesta dominação sobre o feminino que encontra-se o problema central da dominação de um gênero sobre outro: “L’inconscient est partiellement l’enterrement en tui par l’homme de l’autre genre et de l’ombre de son gente, les deux” (1981).

A contribuição da análise literária e linguística não tem ainda grande influência nos estudos que tratam da questão do gênero nas Ciências Sociais no Brasil.

O gênero na psicologia e na psicanálise

A contribuição da psicologia para o conceito de gênero se inicia bem antes que os estudos sobre mulher se tornassem uma área de conhecimento. O trabalho de Stoller “Sex and Gender”, de 1968, ainda é a principal referência para a constituição do conceito de gênero. No entanto, é só no final da década de 70 que o conceito vai ser usado por teóricas feministas americanas como Rubin (1975) e Chodorov (1978).

O livro recente da psicanalista argentina Di-Bletcham (1988) traz uma importante resenha dos estudos sobre o gênero na psicologia e na psicanálise. O conceito de gênero na psicologia é definido pela distinção entre o sexo biológico e o sexo social, construído única e exclusivamente pelo simbólico: “Sobre o substantivo gênero se agrupam todos os aspectos psicológicos, sociais e culturais da feminilidade/masculinidade, reservando-se sexo para os componentes biológicos anatômicos e para designar o intercâmbio sexual propriamente.” (P. 33)

No trabalho pioneiro de Stoller, o gênero enquanto categoria psicológica se compõe de três elementos: atribuição de gênero, núcleo de identidade de gênero e papel de gênero [4]. Nesta concepção, o “papel das forças biológicas será o de reforçar ou perturbar uma identidade de gênero já estruturado pelo intercâmbio humano”.

A discussão das áreas psi sobre a construção da identidade de gênero também parece que ainda não foi incorporado pelas pesquisadoras que utilizam o termo gênero no Brasil. Uma das poucas referências à psicanálise é o gênero no texto da Bete Lobo (1988) [e] sugere a eliminação da utilização da categoria:

“A inquestionável importância da contribuição psicanalítica para a construção do conceito de gênero encontra seus limites na redução deste processo ao espaço das experiências individuais; da família, do inconsciente, enquanto que os espaços da experiência coletiva não são problematizados a partir de análises das relações de gênero e tampouco se desenvolve o instrumental teórico que torne possível esse tipo de abordagem” (P. 4)

Nós pensamos que a contribuição da psicanálise é central para a constituição da categoria gênero pelas Ciências Sociais, pois é pelo desvendar dos mecanismos de construção individual de identidade de gênero que é possível compreender os mecanismos das relações sociais de gênero, uma vez que não é possível pensar o indivíduo sem remetê-lo ao social. Aponta nesse sentido o artigo de Grosz-Ngate (1989) que traz a relação entre a construção do gênero e a noção de pessoa: “Gender construction implicate a society’s notion of the ‘person’ since gender is linked to aspects of personhood. Notions of the person as synonymous with the individual, i.e., an autonomous juridical entity equal to other such entities.” (P. 169)

Dos papéis sexuais ao gênero na antropologia

Apesar da questão do gênero já ter sido trabalhada por outras áreas, é com a antropologia que o conceito é levado para o campo dos estudos sobre a mulher.

Dentro deste campo, ao pensar a categoria gênero, há uma confusão inicial com “papéis sexuais”. Afinal o que distingue uma categoria da outra, se ambas se referem a comportamentos designados a indivíduos do mesmo sexo sendo elaborados enquanto construções culturais?

O termo de “papéis sexuais” surge com a antropologia [5]. Para a construção desse conceito foi essencial o estudo comparativo de culturas, porque pôde mostrar que comportamentos considerados masculinos ou femininos vão variar de uma cultura para outra. Na década de 70, as antropólogas feministas vão se reapropriar deste conceito e fazer a crítica ao viés androcêntrico da maior parte dos estudos antropológicos sobre a mulher deste período. A esta análise vai se juntar a discussão sobre a origem e a universalidade ou não da opressão feminina [6]. Originalmente, os papéis sexuais vão ser a base da justificativa para a divisão sexual do trabalho.

A noção de gênero é prefigurada a partir desses estudos, uma vez que a feminilidade e a masculinidade passam a ser consideradas como não contingentes ao sexo, mas ditados pela cultura. O que a noção de gênero irá precisar e ampliar em relação ao conceito de papel sexual é a ideia de assimetria e hierarquia nas relações entre homens e mulheres, incorporando a dimensão das relações de poder.

A introdução da noção de gênero nos estudos sobre a mulher liga-se com a preocupação em desnaturalizar e de substancializar a noção de feminino e masculino contida em categorias como “a mulher” ou a análise que vinculava os papéis sexuais ao seu substrato biológico.

Mas dizer que o gênero é construído social e culturalmente remete à questão das condições e das formas da produção social desta noção e, principalmente, das esferas sociais que prioritariamente se colocam como “configuradoras e configuradas pelas noções culturais de gênero e sexualidade” (Ortner e Whitehead:1981). Gayle Rubin (1975) considera que é a nível do parentesco e do casamento que as culturas constroem as noções de gênero. Retomando a idéia de Levi-Strauss da “troca de mulheres”, formulada pelo antropólogo francês como a gênese do social, Rubin encontra aí a chave para a constituição das relações de gênero. Nestas relações, as mulheres ocupariam o papel de bens transacionados, sendo desenvolvidas desta forma não só dos direitos sobre si mesmas como sobre os homens. Rubin usa o conceito de “economia política do sexo” para definir o campo da análise dos laços entre as transações de casamento e as relações políticas e econômicas, campo segundo ela fundamental para entender a produção social das identidades de gênero (Ortner e Whitehead, p. 11).

Ortner e Whitehead, seguindo o mesmo caminho de tentar encontrar aquelas esferas sociais que se colocariam como “particularmente críticas” na configuração das noções de gênero, apontam para um sentido diverso do de Rubin. Para elas, são as estruturas de prestígio, ou seja, as posições de status que ocupam o lugar central na construção das noções de gênero em uma ou outra sociedade. São essas estruturas que definem o significado da identidade de gênero nas relações de parentesco e casamento. Em primeiro lugar, o sistema de gênero é considerado como estruturas de prestígio, ao lado de outras estruturas (níveis sociais, geração, etc). Além disso, a noção de gênero contamina outras estruturas de prestígio, o que Strathern (1981) chama de “mútua metaforização” entre as categorias de gênero e sistemas de prestígio mais amplos. Mas, ao contrário da simetria na análise das relações entre homens e mulheres, proposta pelo uso de noções como a orientação pública masculina, ou a orientação doméstica feminina, a esfera das relações de prestígio masculina que define as relações entre os sexos.

O gênero na produção do grupo “Mulher e Política”

Ao procurarmos analisar a produção dos três últimos anos (1986/87/88) do Grupo Mulher e Política da ANPOCS, algumas questões começaram a ficar mais claras. Uma primeira questão é a constatação de que a discussão sobre “gênero”, ou a utilização deste como categoria de análise é uma questão bastante recente.

1986

No ano de 1986, ainda que se aborde a outras questões, a tônica dos trabalhos é a discussão sobre a participação política da mulher. Discute-se a dificuldade para que esta participação se dê de forma mais efetiva, bem como a necessidade de torná-la visível através de uma outra leitura dos acontecimentos.

Apenas o trabalho de Eleonora Menecucci de Oliveira, “Da recusa ao confinamento doméstico a reinvenção de novos espaços de cidadania — algumas reflexões teóricas”, se refere a palavra gênero, ainda que sua análise não esteja centrada na discussão e utilização desta categoria. Neste paper, a autora, tendo por base a pesquisa de campo realizada com as mulheres do grupo Sexualidade e Saúde da favela Beira Rio, busca pensar as diferenças de suas intervenções políticas e sociais a partir do conhecimento que estas tiveram do próprio corpo. Ao definir os elementos teóricos com os quais se trabalha (reapropriação do corpo, relações de poder, reinvenção de espaços de ação política, inferiorização dos motivos da ação política como representação de desejos e vontades, autonomia e Estado e drama social), a autora faz referência a discussão da autonomia, que passaria “necessariamente pelo desocultamento das relações de gênero na sociedade, uma vez que, considerada como resultado de uma prática social, esta problemática permite desvendar a opressão da mulher do ponto de vista da hierarquia do poder entre os sexos” (p. 68).

Ao discutir a noção de drama social, a autora retoma uma discussão do gênero. Para ela, esta categoria ajudaria a “chegar à compreensão de alguns elementos estruturais que determinam as relações de gênero na favela Beira Rio” (p. 70).

1987

O ano de 1987 já traz algumas alterações no que se refere à utilização e incorporação do gênero como categoria de análise.

Os trabalhos apresentados têm como eixo, por um lado, a reconstituição e/ou o repensar da participação política das mulheres nas mais diferentes esferas (movimentos de mulheres, feministas, partidos, centros comunitários, etc.) na sua construção enquanto sujeito político. Por outro lado, vamos ter vários textos que, trabalhando também com problemáticas diversas, se referem mais diretamente à categoria gênero.

Anette Goldberd, em seu texto “Gênero Mulher — identidade de esquerda: o feminismo das brasileiras no exílio”, aponta como objetivo central de seu trabalho ilustrar duas ideias: “A primeira delas é a de que a consciência de uma identidade de gênero por parte de certas mulheres em determinado momento de suas trajetórias, isto é, a percepção que adquirem quanto ao fato de que os sexos feminino e masculino constituem categorias além de biológicas, socialmente construídas e de que, por conseguinte, elas compartilham com outras mulheres uma série de experiências, problemas e dificuldades específicas e são vítimas de discriminações semelhantes, pode desembocar em distintas orientações” (p. 1).

Lúcia Avelar, em seu trabalho “A participação política da mulher e a ideologia do conservadorismo político feminino — subsídios para novas pesquisas” aponta, em diferentes momentos do texto, para a necessidade de se pensar a diferença de classe e gênero nas diversas formas de participação, bem como o embricamento dessas duas categorias. Para a autora, seria necessário um estudo da participação política das mulheres utilizando como categoria explicativa o gênero: “Ao que tudo indica, existem munros próprios e particulares da ação política feminina, o que significa dizer que há diferenças de gênero na participação que merecem um instrumental teórico e analítico que as considerem” (p. 22)

Um outro texto que aponta para a necessidade de se pensar o gênero é o de Albertina de Oliveira Costa, Carmem Barroso e Cynthia Sarti, “Estudos sobre mulher: militância e pesquisa”. Neste título, que na verdade engloba três textos, um de cada uma das autoras, algumas preocupações mais gerais a respeito da pesquisa sobre a mulher se colocam.

Albertina de Oliveira Costa, em “Baseado e pau-de-arara: memórias do feminismo nos trópicos”, através de entrevistas com participantes do primeiro grupo de mulheres que se reuniram em São Paulo em 1972 para pensar sua condição, composto em sua maioria por intelectuais de esquerda, reconstitui as relações entre as instituições de saber reconhecido e o movimento social. Para a autora, “Foi o movimento social das mulheres que forneceu as bases de legitimação para a construção de uma problemática científica concernente a mulher e posteriormente ao gênero, ou seja, relações sociais entre os sexos. O emergir de uma nova área de estudos têm no feminismo seu parâmetro simbólico” (p. 1).

Concordamos com a afirmação de que a constituição deste campo de estudo sobre a mulher vai sendo construído em paralelo e em estreita relação à construção do próprio movimento social, mas, no nosso entender esta construção de uma problemática do gênero propriamente dito, como a preocupação explícita de se pensar esta relação é bastante recente nos estudos realizados no Brasil. Ela vai ser também um divisor de águas entre uma visão que propõe e defende a criação de um campo específico de estudo sobre a mulher e a que entende ser necessário integrá-la nas Ciências Sociais como um todo.

Carmen Barroso, em seu texto “O descompasso na expansão do Ensino e da Pesquisa”, faz referência a participação dos grupos de mulheres com a “subordinação do gênero” ou a “hierarquia do gênero”, bem como uma tendência (já na década de 80) à institucionalização dos estudos sobre a mulher.

Já Cynthia Sarti em “Pesquisa e feminismo: armadilha em campo confinado”, procura analisar os pontos de tensão existentes na relação entre pesquisa e militância. Para a autora, a preocupação com a mulher no Brasil nasceria a partir do problema de articular classe e gênero, sendo que num primeiro momento a ênfase era à noção de classe, em detrimento da de gênero como categoria explicativa. Com a abertura política nos anos 80 e a volta da exiladas, o movimento de mulheres conquista maior espaço e também a corrente feminista. Nesse período “desenvolveu-se a linha de pesquisas voltadas para o ‘especificamente’ feminino, e ganha espaço o discurso propriamente feminista, para quem o que conta são as relações de gênero” (p. 2).

Mais uma vez, gostaríamos de registrar aqui que a preocupação com a questão das relações de gênero não estava presente de forma clara na formulação do movimento feminista em suas primeiras décadas, e nem tampouco nas pesquisas realizadas sobre o tema mulher. Não se pensava as relações de gênero, se pensava “um dos gêneros”, o feminino, isoladamente. [7]

Um dos textos apresentados no ano de 87 se propõe a refletir sobre os movimentos sociais utilizando o gênero como categoria central de análise. É o de Elizabeth Souza Lobo “Homem e mulher: imagens das Ciências Sociais”. Para ela, gênero seria “o conjunto de representações sociais construídos a partir das condições biológicas das diferenças entre os sexos” (p. 10) e “o interesse em problematizar a constituição dos movimentos a partir de uma problemática de gêneros reside justamente no fato de que sob este ângulo se coloca a questão das relações entre os sujeitos e as práticas sociais. A dinâmica dos movimentos não só rompe com as formas institucionais de reivindicação, mas rompe também com as formas internas de constituição dos grupos em ação na sociedade, estabelecendo novas relações entre indivíduos, grupos e sociedades” (p. 3). a participação das mulheres questionaria então A hierarquia de gênero em vários campos: na família, ao nível do discurso e nos espaços de políticas tradicionais.

1988

É significativo que, no ano de 1988, o tema que reúne os trabalhos do grupo no encontro seja “relações de gênero”. Dos 12 trabalhos apresentados, 6 deles citam o termo gênero. Esse aspecto, do nosso ponto de vista, por si só já explicita uma mudança na trajetória dos estudos sobre a mulher para as relações de gênero. Neste ano, não somente cresce a produção sobre o gênero, como também se aprofunda sua discussão.

No texto de Lourdes Bandeira e Deise Siqueira que trata da relação das mulheres com o tempo socialmente construído e analisa as mudanças no sentido de identidade feminina com a entrada das mulheres no mercado de trabalho, a palavra gênero aparece uma vez, subentendendo que gênero é o gênero feminino:

“Assim, o modêlo de referência grupal no caso do gênero, assenta-se primordialmente na construção de uma representação por uma subjetividade coletiva — as mulheres —, quanto pelo imaginário social, na produção e na reprodução (tempos específicos: ativo x passivo).”

O texto de Maria Filomena Gregori “Violência contra a mulher: a atuação feminista e as vítimas” analiss a questão da violência contra a mulher sob o ponto de vista das relações de gênero, apesar desse talo apenas uma só vez. Ela aplica o conceito na análise como referência para interpretar as relações de violência, mas não usa a categoria como “analisador” para questão. Trabalha a violência contra mulher como um jogo relacional no qual homens e mulheres reproduzem papéis atribuídos aos gêneros. Outra contribuição importante deste trabalho para compreensão dos papéis de gênero é a inserção de categorias do universo mediterrâneo na configuração dos gêneros em algumas regiões brasileiras.

No artigo intitulado “Divisão sexual do trabalho e relação de gênero: anotações sobre o tema”, de Magda de Almeida Neves, a autora, a partir da revisão de um conjunto de trabalhos, elabora os conceitos de divisão sexual do trabalho e relações de gênero. esses estudos como situa A autora se orienta pela perspectiva apontada nos grupos “Sex and Class Group”, na Inglaterra e “Groupe sur la division sociale et sexuelle du travail”, na França, procurando articular a relação família/trabalho, produção/reprodução, relações de sexo/relações de classe e centrando sua análise nas relações sociais entre os sexos.

O que o estudo de alguns desses trabalhos mostra, de acordo com a autora, é que “a divisão sexual do trabalho contém um elemento importante que precisa se tornar visível, qual seja, das relações de gênero”. Essas relações não se caracterizam, para a autora, como “complementares mas sim como de dominação e de poder dos homens em relação às mulheres, relações essas que são construídas socialmente e culturalmente” (p. 20).

O conceito de gênero defendido pela autora apoia-se no desenvolvido por Scott. Esta, de acordo com a autora, critica o uso do termo “como simplesmente sinônimo de mulher, pois para ela implica muito mais, uma vez que as informações sobre mulheres necessariamente envolvem informações sobre os homens”. Para Scott, esta forma de definir o conceito de gênero recusa a separação de esferas e o coloca na perspectiva das relações sociais entre os sexos, uma vez que “o mundo da mulher faz parte do mundo do homem”. Scott chamaria ainda a atenção, segundo ela, para “as representações de poder que estas relações envolvem”. Nesta mesma linha de pensamento, Paola Tabet, conforme ainda a autora, “contesta o caráter natural, esta ideia de complementariedade e reciprocidade na divisão do trabalho”. Sua tese seria de que a divisão do trabalho não é neutra, mas orientada e assimétrica, mesmo nas sociedades pretendidas igualitárias. Tratar-se-ia, neste caso, de uma relação que “não se caracteriza nem pela reciprocidade nem pela complementaridade mas sim pela dominação, e se manifesta objetivamente e constantemente na repartição das tarefas, refletindo as relações de classe entre os dois sexos”. Nestes termos, a autora articula as relações de classe/sexo com as relações de gênero.

O artigo de Elizabeth Lobo, “Os usos do gênero”, se propõe a discutir o gênero como categoria analítica, assim como a pertinência de um campo de estudo sobre a mulher.

A autora situa a construção do gênero como categoria analítica nos impasses dos estudos feministas, centrados, de um lado, na idéia de patriarcado e de outro, na análise marxista da divisão sexual do trabalho.

Esses impasses e seus questionamentos levam “as pesquisadoras feministas a teorizarem o gênero através de incursões antropologia estrutural e na psicanálise, para analisarem justamente o significado social de masculinidade e feminilidade”. Desse modo, o eixo de reflexão nas pesquisas feministas, de acordo com autora, se desloca para a busca dos significados das representações do feminino e do masculino, para “as construções culturais e históricas das relações de gênero” (p. 3).

Nas palavras da autora, “o inventário e a arqueologia deste significados desconstrói o gênero”, ao mesmo tempo que “atualiza uma outra questão: a da relação de gênero como relação de poder” (p. 3)

Citando Joan Scott, a autora encontra as seguintes definições para gênero:

  1. “O gênero como elemento constitutivo das relações sociais baseadas nas diferenças perceptíveis entre os sexos”;
  2. “O gênero como forma básica de representar as relações de poder em que as representações dominantes são apresentados como naturais e inquestionáveis” (p. 3 e 4).

Bete Lobo discute ainda a questão da constituição de um campo de estudos sobre o gênero x estudos sobre mulheres. Para ela, “na medida em que as pesquisas feministas trouxeram uma contribuição à construção do gênero como relação social histórica que implica em relações de poder e que atravessa tecido social, este não pode ser um campo à parte no contexto das relações sociais”. Fundamentando-se ainda em Scott, ela defende a incorporação dos estudos de gênero a outras áreas interdisciplinares, criticando os “guetos teóricos” ou os “estudos sobre mulheres” como disciplina autônoma. O conceito de gênero neste sentido seria pertinente, uma vez que não se apresenta identificado com o tema das mulheres, mas as relações entre os gêneros enquanto relações de poder que perpassam o tecido social e constituem os poderes na sociedade.

Mas a preocupação em trazer a discussão sobre a questão do gênero não se limita ao grupo de “Mulher e Política”. O trabalho de Cynthia Sarty, apresentado no grupo de Família e A, também 1988, intitulado “Reciprocidade e Hierarquia — relações de gênero na periferia de São Paulo” traz uma contribuição fundamental para a questão do gênero.

Sua formulação é da questão do gênero como relacional e hierárquica:

“Encontrei, neste bairro, relações de gênero bastante tradicionais, o velho modelo da autoridade masculina, das relações hierárquicas onde o homem tem precedência sobre a mulher… Minha ideia foi relativizar o significado da subordinação feminina a partir da vivência e das referências culturais próprias a estas mulheres”.

Em torno do gênero

Nos estudos sobre a mulher no Brasil, parece haver uma linha evolutiva que vai da “condição feminina” as “relações de gênero” passando pelos “papéis sexuais”. Num rápido olhar sobre a utilização desses conceitos, se pode observar que os primeiros estudos, ao falar da condição feminina, isolavam a mulher de seu contexto relacional. Estudos que parecem muito influenciados pela própria prática do movimento feminista da “não mixidade”, onde se “procurava dar voz às mulheres”, “fazer emergir a mulher de seu papel de oprimida” [8].

O momento onde começa aparecer o conceito de gênero é um momento onde aparece junto a preocupação em relativizar este isolamento da condição feminina. Um dos primeiros textos publicados no Brasil que tem como preocupação recuperar um pouco da sua trajetória e que, de alguma maneira, abre caminho na perspectiva de uma reflexão sobre a assimetria das relações homem/mulher é o texto de Bruna Franchetto, Maria Laura Cavalcanti e Maria Luiza Heilborn “Antropologia e Feminismo” (1982).

A partir da análise dos textos da ANPOCS, é em 87 que esta preocupação começa a tomar corpo, através da utilização do termo “gênero”. Em 88, uso da categoria gênero passa a ser um dos elementos definidores dos estudos sobre mulher no Brasil. Coisa que se evidencia pela realização de um grupo de trabalho sobre “Representação e a questão do gênero” na Associação Brasileira de Antropologia e em uma das sessões do encontro comemorativo dos 10 anos do grupo “Mulher e Força de Trabalho”. O uso da categoria gênero se torna um divisor de águas entre as pesquisadoras da área. A tendência de 88 se reafirma claramente em 89, com inúmeros trabalhos que estão sendo apresentados na ANPOCS, tanto no grupo de “Mulher e Política” quanto “Mulher e Força de Trabalho”, assim como nos vários encontros e seminários que tratam da questão da mulher.

O levantamento dos textos analisados nos deixou claro que a discussão sobre o gênero é bem recente nos estudos sobre a mulher no Brasil, deixando a impressão que até o momento, salvo algumas exceções, ela é mais verbalizada do que utilizada concreta e explicitamente como categoria de análise.

Esse uso crescente do conceito de gênero nos últimos anos revela uma preocupação em relativizar o isolamento e a naturalização da “condição feminina” presente nos estudos anteriores. No entanto, a análise dos trabalhos apresentados deixa a impressão que, mesmo quando as relações são colocadas em termos de gênero, o uso deste conceito ainda aparece impregnado dos enfoques anteriores, ou seja, gênero é usado em vários momentos como sinônimo de “papéis sexuais”, ou de “mulher” (universal e no singular). Na verdade, parece ter acontecido uma incorporação e uma generalização do uso do conceito, sem a contrapartida do desenvolvimento de um estudo mais analítico sobre o uso e o seu significado (uma tentativa neste sentido é o texto de Bete Lobo). Não é gratuito o fato de que os textos que servem como referência teórica para pensar a questão não foram traduzidos nem publicados no Brasil (um dos textos é a coletânea Mulher, Cultura e Sociedade, cuja tradução brasileira está incompleta). Na verdade, parece haver um vácuo entre um primeiro momento em que esta discussão chega no Brasil e passa num primeiro momento a ser assumida pelo uso sistemático do conceito de gênero, e num segundo momento incorpora a polêmica sobre se os estudos sobre o gênero devem se constituir numa área a parte ou não. Esse descompasso entre o número de trabalhos e de estudiosas da questão da mulher que hoje adotam o conceito de gênero e a escassa produção teórica é um dos motivos que levam à perda de referências no uso do conceito, e que acaba confundindo muitas vezes com o próprio enfoque que o conceito de gênero procura rever.

Pode-se constatar que os estudos apresentados desde 87 no grupo de “Mulher e Política” da ANPOCS usam como fonte teórica principal as pesquisas na área de história social de Joan Scott e Michelle Perrot, entre outras (sendo que esta última não chega a utilizar o conceito de gênero). Esta referência, no entanto, aparece como implícita mas é pouco elaborada no sentido de trabalhar a dimensão toda que envolve a categoria gênero.

Mesmo tendo surgido a partir de fontes ligadas a diferentes áreas de conhecimento, a adoção do conceito de gênero nos estudos sobre a mulher veio no sentido de construir uma categoria que desse conta das novas questões colocadas neste campo de estudo. Essas questões estavam ligadas à crítica dos enfoques tradicionais que, ao mesmo tempo, naturalização e congelavam a “condição feminina”. Na introdução ao Sexual Meanings, Ortner e Whitehead definiam as noções ligadas ao que é gênero como “produtos de processos sociais e culturais” assumindo a visão radical de sexo e gênero como “construções culturais”. Esta noção implica em duas outras premissas que define mais precisamente o significado do gênero. De um lado, a ideia de que as identidades de gênero constroem-se de forma relacional, ou seja, pelo contraste permanente com o outro. De outro lado, como decorrência, a ideia de que, pelo fato das relações entre homens e mulheres, e as representações que fazem dessas relações, não serem estanques mas dinâmicas, o gênero é também mutável e conjuntural. A aceitação dessas duas premissas não só coloca o limite na utilização do conceito de gênero como substituto da ideia de “condição feminina” como põe em questão a noção de “feminino” como algo substancializável, ou que possa existir por si só.

A partir daí, uma segunda questão se coloca, ligada à definição de quais são as fontes fundamentais para a constituição do gênero. Constatamos que, por trás das diferentes visões sobre se as noções culturais de gênero são construídas ao nível do parentesco e da família partir da noção central de “troca de mulheres” (Rubin:1985), ou se o sistema de gênero é um “sistema de prestígio” (conforme Ortner e Whitehead:1981), encontra-se uma única noção comum: a de hierarquia. Consideramos que a noção de hierarquia é uma chave central para se compreender o sentido da noção de gênero.

O conceito de gênero: um novo “coração de mãe” nos estudos sobre a mulher?

A resposta final é esta interrogação ainda não está formulada. Por um lado, porque o contato mais aprofundado com o tema nos remeteu para sua amplitude e complexidade e, por outro, pelos limites colocados num trabalho deste tipo. Mas, podemos afirmar que gênero é um “coração de mãe” por ser um conceito gerado e utilizado nas mais diversas áreas de conhecimento e que oferece a possibilidade de uma prática tão falada e pouco exercida: a interdisciplinaridade. O risco que se corre com um “coração de mãe” é nele se incorporar tudo e todos sem critérios. Para que isso não ocorra, é necessário que se desenvolva e amplie o debate teórico.


Notas

[1] O Núcleo de Estudos da Mulher e Relações Sociais de Gênero da USP e o Instituto de Estudos Interdisciplinares sobre Relações Sociais de Gênero em São Paulo São dois grupos já reconhecidos. Em Florianópolis, ainda estamos discutindo se nosso Núcleo de Estudos da UFSC deve se denominar “da mulher” ou de “relações de gênero”.

[2] Também faremos algumas referências a estudos discutidos em outros grupos que tratam da questão. Fizemos também uma análise das pesquisas financiadas nos primeiros concursos da Fundação Carlos Chagas (78/80/82). Constatamos que alguns buscam resgatar a visibilidade da mulher na História Brasileira, e outros já trabalhavam com noções de representações e imagens da mulher, apontando para uma das dimensões que o conceito de gênero remete, sem no entanto trabalhar com a categoria.

[3] As principais autores que defendem a escritura feminina são Helene Cixous e Annie LeClerc.

[4] Resumindo estas categorias:

  1. Atribuição de gênero — primeiro critério que vai determinar o núcleo e o assinalamento que médicos e familiares dão à criança ao nascer.
  2. Núcleo de identidade de gênero — é o sentimento mais primitivo, consciente e inconsciente, de posse de um sexo e não de outro.
  3. Papel de gênero — conjunto de prescrições e proscrições para uma determinada conduta, pois a criança aprende a discriminar as relações de gênero que correspondem aos comportamentos aprovados e também aprende a empregar tal etiquetação para si mesma, e seu processo será reforçado ou desaprovado por seus pais.

[5] Maiakovski, que trata a sexualidade, Murdock, que traz comparações transculturais e Margaret Mead, no seu estudo clássico sobre os povos da Melanésia.

[6] Ver, entre outros, Rosaldo e Lamphere (1979).

[7] Isso pode ser constatado em algumas teses sobre o feminismo no Brasil, como a de Heloísa Fontes — “Do palco aos bastidores”, Unicamp, 1986; Sônia Miguel — “Feminismo: um olhar para dentro”, UFSC, 1988; Miriam Grossi — “Discours sur les femmes battues: representations de la violence sur le femmes au Rio Grande do Sul, Paris, 1988.

[8] A este respeito, ver o interessante artigo de Strathern (1987) sobre a relação de sua produção acadêmica vinculada ao movimento feminista.


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GRUPO EM CANTO

O Grupo Em Canto é formado por quatro pesquisadores que moram no Canto da Lagoa da Conceição em Florianópolis: Marilda Gonçalves da Silva, Miriam Pillar Grossi, Sônia Malheiros Miguel e Sônia Weidner Maluf.