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Por que as mulheres têm rejeitado a esquerda?

Nessas últimas eleições municipais, uma euforia otimista tomava os candidatos e militantes em campanha, uma resposta natural da luta contra a onda conservadora bolsonarista. No entanto, o efeito que repercutiu nas urnas foi o do refortalecimento da direita “normal”: ainda que o bolsonarismo tenha perdido bastante do seu espaço na esfera municipal, a esquerda retrocedeu mais uma vez. Aumentou o número de mulheres concorrentes e eleitas, e houve algumas primeiras nesse pleito. Aumentou também a participação política das mulheres da direita, buscando se colocar como alternativa ou ocupando o posto de vice, fazendo campanhas que se valiam de sua condição de mulher como atributo positivo para os cargos aos quais pleiteavam. “A mulher mais votada do Brasil”, no entanto, não é uma mulher, assim como alguns outros casos que vêm sendo computados na conta delas. Isso significa muito pouca mudança no panorama representativo, porque mesmo que se afirmem mulheres, essas pessoas não se interessam nem apóiam as urgências específicas da nossa condição sexual.

Quadrinho de Tatsuya Ishida.

Ainda que haja a preocupação com alguns temas que afetam mulheres, pelo menos na teoria, é somente quando elas estão à frente desses projetos que eles avançam, como foi o caso da Lei Maria da Penha, cujo projeto foi relatado por Jandira Feghali. O último avanço na legislação do aborto, o caso dos anencéfalos, foi uma decisão do STF de 2013, baseada em uma argüição da Confederação Nacional dos Trabalhadores da Saúde; perdeu-se no tempo a última vez em que a esquerda fez algum movimento ativo em direção a conquista da autonomia reprodutiva das mulheres. Por outro lado, projetos carentes de embasamento teórico-científico (ou mesmo dados demográficos básicos) que batem de frente com os direitos a princípio garantidos das mulheres e comprometem sua liberdade e segurança — como os PL João Nery e Gabriela Leite — foram discutidos em um momento em que o Brasil vivenciava o finzinho da sua última onda progressista. Quando a esquerda abraça uma “diversidade” baseada em sentimentos e autoidentidades, não há o que lhe faça olhar para a situação das mulheres, ao contrário: os direitos femininos param de importar.

Existe um punhado de interesses imbricados no que se convecionou chamar de “diversidade” e não é à toa que os patrocinadores dessa causa enfiam tanto dinheiro nela: os objetivos de um movimento como o transativismo não se resumem a acabar com o feminismo. O feminismo é, antes, a pedra no sapato deles, as mulheres inconvenientes que aparecem para acabar com a graça. O que o transativismo promove são ideais masculinistas, fetichistas, e até transhumanistas, uma vez que enxergam o corpo humano como descartável ou substituível por próteses, abrindo caminho através das possibilidades plásticas da Medicina e com a bênção de alguns de seus especialistas. O desprezo pela realidade de carne e osso dos corpos das mulheres fica visível quando seus membros se posicionam favoráveis a exploração sexual — vide o PL Gabriela Leite citado acima —, ao mesmo tempo em que se horrorizam com um cafetão lavajatista; ou ainda quando a gravidez subrogada aparece como alternativa para casais homossexuais, que só não virou pauta por essas bandas ainda por mera questão de a esquerda ter sido atropelada pelo trem do bolsonarismo. Nada disso é novidade, apenas fruto de décadas de disputas internas da maioria masculina que controla a esquerda institucional e mulheres buscando participar na política.

Dado que a esquerda se aboletou dessa esfera pública de atuação, as poucas mulheres que resistem são levadas a um discurso de apaziguamento das diferenças — onde foi parar a diversidade? —, tendo que lidar com masculinistas fantasiados de gravata e de batom. Muitas desistem dessa disputa de soma-zero, às vezes obrigadas a se calarem, quando se dão conta de que a esquerda não se interessa pelas mulheres em sua prática política: a esquerda geralmente “endireita” quando o assunto é mulher. A diferença entre o masculinismo praticado pela direita do masculinismo de esquerda é que os homens do lado de “cá” precisam ser um tanto mais criativos — e ridículos, a ponto de não se diferenciarem da sátira — se quiserem continuar se beneficiando da exploração das mulheres ao mesmo tempo em que buscam passar uma imagem moral condizente com os ideais que pregam e afirmam praticar. Existem mil maneiras de ser misógino, eles apenas inventaram mais algumas.

Programa de humor, ou horário eleitoral gratuito?

À direita, até existe a preocupação de formar politicamente as mulheres que se interessam a militar dentro dos termos dos interesses dos partidos, mas essa empolgação é similiar ou pior que na esquerda: como na esquerda, as mulheres se filiam pela vontade de atuar e terminam tendo que alinhar expectativas caso queiram poder fazer qualquer coisa. Mesmo que a tentativa de disputar o espaço político institucional seja louvável e a resistência das eleitas naqueles lugares já conquistados seja essencial para o movimento de libertação das mulheres, é preciso romper esse ciclo masculinista. A esquerda em disputa não tem como ser conquistada com pedidos encarecidos aos companheiros: mulheres reais estão tendo problemas reais em virtude do masculinismo praticado por homens de todo o espectro político que, se de um lado, não se fazem de rogados no que diz respeito ao papel subalterno que reservam às mulheres, de outro, dizem que eles mesmos é que encarnam o nosso papel, e reservam a nós algo não muito diferente. À esquerda e à direita, as mulheres são empurradas para fora: as mulheres são um Terceiro Excluído no diagrama do espectro político.

Isso não significa dizer que “é tudo a mesma coisa”. Historicamente, a esquerda é a posição daqueles que advogam pela mudança, pela emancipação dos povos, pelo fim do sofrimento daqueles oprimidos pelas estruturas de poder. Escolher entre Bolsonaro e Haddad claramente não é “uma escolha muito difícil” para as mulheres feministas. Se é verdade que Haddad está a anos-luz de distância de Bolsonaro, também é verdade que ele nunca se portou como um aliado de mulheres, muito pelo contrário: seu programa da gestão municipal que visava auxiliar na formação de pessoas em situação de prostituição simplesmente não incluía mulheres, o grupo demográfico mais numeroso e prejudicado na exploração sexual.

Mesmo assim, as mulheres continuam sendo admoestadas à fidelidade de uma forma que nem os seus correligionários mais ilustres sustentam. Não se vê por aí o tipo de cobrança que as mulheres sofrem para serem puras e fiéis ao único lado do espectro que lhes promete alguma salvação, nominal e cheia de ressalvas. Por ousarem verbalizar as suas necessidades e priorizar a associação com outras mulheres igualmente interessadas em nossa libertação coletiva, mulheres são forçosamente rotuladas de “direitistas”, ainda que elas é que se mantenham coerentes com o compromisso da mudança social. O espaço que a esquerda costumar “ceder” para as mulheres sempre foi limitado: em geral, elas o tomam por sua própria competência no jogo político, por sua habilidade de navegar esses entraves todos. O transativismo aparece em um momento em que as mulheres brasileiras não se contentam mais com a subordinação que lhes é forçada e lutam em todas as esferas para se libertarem. É justamente por isso que a campanha do transativismo acontece na disputa pelo significado do sujeito político do feminismo; isso não é uma coincidência. Como a esquerda não vai nem pode sair de si mesma, as mulheres se vêem sem opção: a opção é fazer concessões demais a qualquer lado que se escolha.

O que significa “se associar à direita” quando se trata de mulheres, se os interesses das mulheres raramente estão na pauta da esquerda? Os direitos das mulheres são para quem, senão para todas, inclusive para as conservadoras, as esposas perfeitas, as alienadas politicamente…? Por que nem ao menos conversar com mulheres de outra visão e repertório, mas com interesses comuns, nós podemos? O que a esquerda teme que aconteça a elas se se aproximarem de outras mulheres? Quando foi que mulheres realmente conseguiram alguma coisa que não através de uma coalizão ampla, sem interesses masculinos e masculinistas atrapalhando? Liberais de direita e esquerda se valem do “progressismo” e das associações mais espúrias quando conveniente, mas mulheres são desencorajadas a se associarem entre si em troca de uma promessa vazia.

Falta à esquerda voltar às suas raízes e abandonar essas modas que, crias de seu próprio ambiente intelectual, casam direitinho com as políticas neoliberais e individualistas de direita a ponto de serem praticamente indistinguíveis. Cabe a nós, feministas radicais, sermos mais uma vez as portadoras das más notícias: sendo metade da mão de obra, da população, dos eleitores habilitados a votar, metade de todas as pessoas do mundo, não somos nós, mulheres, que lhes devemos fidelidade; a esquerda que lute na recuperação da nossa confiança para trabalharmos juntos. Nós simplesmente não temos porquê nos defender das acusações infundadas do crime de “associação à direita”, porque esse tipo de acusação só serve para tirar de nós um reforço de complacência: não somos nós que temos que convencer mais da metade do eleitorado de que temos uma boa proposta (ou mesmo qualquer proposta) para as mulheres enquanto agimos como um bando perverso. As mulheres não perdem nada se unindo e organizando uma pauta comum em função de seus próprios interesses, uma vez que essas oportunidades nos enriquecem na troca de experiências das diferentes formas de ser mulher e de suas muitas necessidades compartilhadas. Somos nós que estamos só começando, viu, Sabrina!

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A Promessa da Extrema-Direita para as Mulheres [RESUMO]

Adaptado de: DWORKIN, Andrea. “The Promise of the Ultra-Right”. In: Right-Wing Women. Nova York: Perigee Books, 1983. P. 13-35.


Andrea Dworkin, autora de Right-Wing Women.

Socialmente, as ações de homens e mulheres são valoradas de forma diferente, sempre colocando mulheres em posições subjugadas. Elas são vistas, portanto, como “biologicamente conservadoras”. A ideia de que mulheres têm filhos porque por definição mulheres podem ter filhos, tomada como fato, pensa o ato de ter filhos (e as obrigações que vêm com isso) como instintivo e inerente às mulheres. Se o estado atual de coisas é supostamente mais seguro para as mulheres terem filhos, então isso seria melhor que os potenciais perigos da mudança.

Segundo os homens que filosofaram sobre o assunto, o imperativo biológico devido ao potencial reprodutivo das mulheres se traduz em mentes estreitas, vidas sem muito significado e, por conseguinte, puritanismo. Resultado dessa ideia: mulheres obrigadas a terem filhos, com exceção de alguns curtos intervalos onde os homens ficam meio desorientados — o exemplo dado no texto é o que resulta do sexo depois de certas revoluções.

Mulheres de todo o espectro político apoiaram conflitos onde seus filhos acabam mortos. Essa contradição mostra como a realidade das mulheres vai contra as teorias criadas sobre elas. Mas as mulheres enquanto classe acabam aderindo a normas e tradições de seu contexto social; se rebelar ao credo dos homens em volta delas é perigoso. A aquiescência das mulheres se dá em razão de conseguir alguma proteção da violência masculina para si mesmas.

Às vezes, essa conformidade é militante: provando sua fidelidade a estes princípios, ela pode encarnar a puta feliz ou a puritana fervorosa. Isso raramente a salva, contudo. Mas reconhecer essas traições dos homens pode ser o prego no caixão dessa mulher: confrontar a violência pode levar a mais violência. A luta é sempre contra “algo pior” que sempre tem a possibilidade de ocorrer, e a maioria das mulheres não tem condições de se dar ao luxo de reconhecer que não existe nível suficiente de lealdade aos homens.

Geralmente, as mães criam suas filhas para se conformarem aos valores ideológicos dos homens à sua volta, independente de orientação política. A maioria das meninas não quer a vida da mãe, mas às vezes acaba se conformando dada a violência masculina à volta dela. Mesmo quando se rebela, a filha acaba reproduzindo os padrões de sua mãe, e assim os homens acabam conseguindo atar mulheres em seu lugar de subjugação através de culpa e ressentimento.

Os homens sempre criam “tipos” de mulheres para odiarem e fazerem piadas internas. A caricatura da “mulher burguesa”, megera vaidosa que abusa da paciência do marido bondoso, por exemplo, está na boca de todos eles independente de classe social. Falar mal desse espantalho de mulher é instantaneamente gratificante aos homens. Outros tipos desses são a mãe judia castradora, a mulher negra matriarca raivosa, a lésbica que na verdade é frustrada porque queria ser um homem etc.

A maior piada entre os homens e a maior ofensa a uma mulher é reduzi-la ao seu sexo: a mulher é uma boceta, é um útero, e todo o resto do seu corpo (principalmente o que o caracteriza como humano) é cortado fora como inútil. A obcenidade favorita entre os homens é esse ser desmembrado.

Toda mulher, independente de sua condição, luta contra isso com todos os recursos de que dispõe, e eles são muito poucos. Por causa disso, elas sempre se agarram com todas as forças às próprias estruturas de poder que as degradam. É uma fidelidade cravada no auto-ódio, e é isso que define a própria feminilidade no contexto da dominação masculina.

O medo que Marilyn Monroe tinha de atuar a paralisava, independente de ela se saber capaz disso. No entanto, a atuação da atriz se dá dentro das espectativas dos homens que controlam os processos do audiovisual. O medo de Marilyn Monroe poderia estar ligado ao fato de ela mesma não estar convencida do papel de mulher que deram para que ela representasse. A morte de Monroe provocou nos homens que fizeram uso sexual dela ou de suas imagens o questionamento de que talvez ela não gostasse de todas as coisas que eles faziam a ela — é daí que viriam, talvez, os rumores de que ela poderia não ter se matado. A ilusão dela enquanto mulher ideal era encantadora demais para esses caras.

Mulheres morrem sozinhas e solitárias, sorrindo até o momento final, tentando encarnar a fantasia masculina que se coloca sobre elas. Talvez se elas fossem a mulher perfeita — esposa perfeita, puta perfeita, mãe perfeita —, talvez não sofressem tanto. Elas morrem não insatisfeitas com o que fizeram com elas, mas por não terem conseguido encarnar o papel imposto a elas pelos homens. Sua própria sobrevivência depende disso.

A sobrevivência das mulheres, portanto, é prometida em troca de sua conformidade com as correntes que as prendem. Elas não podem fazer nada que as destaque individualmente, que chame atenção predatória sobre si. Elas acabam esperando que essa atenção masculina destruidora caia sobre outra mulher, menos hábil em se conformar, que não elaa.

As histórias de violência sobre as mulheres são dispensadas e ridicularizadas como se fossem nada até mesmo por aqueles que dizem se importar. Para reconhecer a realidade e a validade das queixas das mulheres é preciso antes reconhecer a existência daquela pessoa. Nem homens nem mulheres acreditam da existência das mulheres enquanto seres dignos. Se as mulheres negam a validade de sua própria experiência vivida, elas não têm como reagir.

Para buscarem seu próprio valor, as mulheres acabam se aliando aos homens e aos seus valores. E se os homens demandam obediência delas, elas irão valorar sua própria existência enquanto servas deles, e não irão reconhecer o roubo da sua dignidade realizados por eles.

A direita nos EUA atua sobre as mulheres através da propagação do medo de que a violência masculina é imprevisível e incontrolável. Sua promessa se baseia na restrição dessa violência oferencendo:

  • Forma: os homens moldam as mulheres através da ignorância, do não cultivo de suas capacidades físicas e intelectuais.
  • Abrigo: a direita promete proteger as mulheres através da crença de que uma mulher sem um homem (ou sem uma família, um lar) está completamente à mercê dos perigos da vida.
  • Segurança: em um mundo indubitavelmente violento com mulheres, a direita promete que, se a mulher se comportar direito nenhum mal cairá sobre ela.
  • Regras: ignorantes em um mundo construído por homens, mulheres devem seguir regras para bem viver; a direita promete a elas um bom comportamento da parte dos homens, mas sem nenhuma garantia.
  • Amor: o conceito de amor é crucial na aliança das mulheres; uma mulher será amada (e recompensada com a proteção do homem ou de deus, sendo Jesus o único homem a quem ela pode se submeter sem medo de ser violada) se for obediente em cumprir suas funções de mulher (maternidade e servitude sexual).

Jesus jamais é enxergado como um filho perfeito, ele é apenas uma outra encarnação do deus-pai. E as mulheres passam a vida tentando agradar esse homem ideal, sofrendo com seu próprio apagamento no processo. Jesus é o modelo de homem perfeito que as mulheres devem projetar sobre todos os outros, e através do qual as mulheres perdoam as faltas e abusos deles. As mulheres também são levadas a creditar ao próprio espírito santo qualquer lampejo seu de inventividade intelectual.

O casamento é a esfera onde, com a força da religião, as mulheres devem tolerar a servidão e levantar as barreiras de sua resistência. O desejo de servir Cristo leva as mulheres à conformidade e a realizarem as vontades de seus maridos. E a autoridade paterna sobre os filhos é o que justifica algum grau de violência física dentro da família e da vida doméstica.

Essa tentativa de se tornar perfeita aos olhos dos homens e de deus pode levar as mulheres a se verem e agirem como “one of the boys“. Assim, mulheres acabam lutando contra seus próprios interesses na tentativa de alcançar suas ambições individuais. Porém, eventualmente elas acabam descobrindo que são também mulheres e não têm acesso aos altos escalões. Mas é através da manipulação dessa habilidade desenvolvida nas mulheres de respeitarem aqueles que as usam que muitas dessas advogadas do antifeminismo conseguem converter outras mulheres à direita.

As mulheres da direita temem as lésbicas. A fantasia que elas criam entorno das lésbicas é que elas são estupradoras e abusadoras de crianças, independente da falta de qualquer evidência para embasar isso. O abuso cometido pelos homens acaba normalizado por ser heterossexual, enquanto que o desejo homossexual das mulheres é visto como monstruoso.

O aborto para as mulheres da direita, uma vez que elas abdicam de seu próprio valor, valorando mais um óvulo fertilizado que uma mulher adulta, é equivalente ao assassinato de crianças. Os fatos sobre o aborto — realizado principalmente por mulheres mais velhas com filhos, e que a ilegalidade do procedimento leva muitas à morte — não as convencem. O aborto seriam então um ato de mulheres cruéis e sem deus, o exato oposto delas mesmas. O reconhecimento do direito ao aborto seria, portanto, o reconhecimento da desigualdade de condições da mulher que é obrigada a parir um filho indesejado. Reconhecer que mulheres não queiram parir filhos indesejados é devastador para essas mulheres.

A direita americana é um movimento social e político quase que controlado totalmente por homens, mas contruído sobre a ignorância e os medos das mulheres, ambos consequências da dominação dos homens. Os sentimentos conflitantes, resultados dessa experiência de dominação, acabam projetados em outros, em estrangeiros, nos diferentes, não não-cristãos. Isso pode resultar em nacionalismo, racismo, homofobia e desprezo por aquelas mulheres que não tiveram tanta sorte — grávidas na adolescência, mulheres prostituídas etc.

Elas se apegam a esses ódios irracionais temendo danos aos seus, e projetando o medo em um “mal maior”. Uma vez não têm meios de externar essa raiva, acabam se tornando odiadoras obedientes e manipuláveis. Esse comprometimento com sua própria sobrevivência individual leva mulheres a não reconhecerem que estão jogando contra si mesmas. Com sorte, sua própria experiência da realidade pode levá-las a questionar sua posição inferior. Independente das crenças ideológicas de origem masculina que as mulheres possam adotar, essa é uma luta compartilhada por mulheres de todo o espectro político.

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Prestes a virar o jogo: um manifesto radical

A revolução das mulheres é inevitável. Libertar-se da dominação masculina é por vezes visto como algo utópico, uma impossibilidade essencialmente vinculada à nossa condição material e biológica de gestadoras da humanidade, mesmo por algumas daquelas que anseiam muito essa liberdade. Mas, como dizia Shulamith Firestone em 1970, a situação atual exige essa revolução, e as pré-condições necessárias para que essa revolução aconteça já existem em alguns lugares. É apenas uma questão de tempo para tal, e depende fundamentalmente de as mulheres não cederem os espaços que com tanta dificuldade conquistaram. Exige, portanto, um tratamento radical. Os homens (que podem parecer, mas não são de todo ignorantes) sabem disso e é por isso mesmo que estão tão empenhados na busca por substitutxs.

Audre Lorde

As evidências dessa busca estão em todos os lugares. Uma vez que a revolução feminista já começou, está acontecendo, é contagiosa e pode em breve se concretizar, os homens buscam já há muito alternativas à mulheridade. Essa busca é por alternativas a habilidades que só as mulheres possuem e pode ser observada através de alguns exemplos: na industrialização e substituição do leite materno por fórmulas, que em 1977 provocou protestos em todo o mundo contra a Nestlé, quando crianças de países subdesenvolvidos sofreram as consequências da falta de nutrientes e da irresponsabilidade dos industriais que jogaram no mercado esses produtos sem fazer testes exaustivos; nas pesquisas em reprodução humana, algumas visando realizar transplantes de útero em indivíduos do sexo masculino, ou até mesmo a busca da gestação completa fora do órgão materno, em um mundo superpovoado e repleto de crises migratórias onde “falta de gente” não é um problema; na indústria da beleza, que utiliza corpos de mulheres como cobaias de suas aberrações cirúrgicas e de seus produtos desnecessários, e busca conformar seus corpos a um padrão irreal; nos testes antiéticos para o desenvolvimento e a recomendação irresponsável do uso de pílulas anticoncepcionais a mulheres jovens; na medicalização da infelicidade de pessoas a respeito dos papéis sociais, expectativas e estereótipos atribuídos a si em virtude de sua condição sexual… A lista é imensa.

Hoje, a principal força da dominação masculina diretamente envolvida nessa busca de alternativas ao corpo fêmea é provavelmente a ciência médica. Estabelecida e formalizada a partir do sequestro dos saberes populares que ficou conhecido como “caça às bruxas”, é de certo um dos pontapés fundamentais do início da chamada Era Moderna, período histórico onde alguns dos grilhões mais pesados do patriarcado tiveram reforço. Ela não atua sozinha, porém. Necessita de um grande aparato ideológico/epistemológico, infiltrado em movimentos sociais legítimos, para fazer suas ideias passarem. Apesar de ainda estarmos nas bordas do oceano cósmico em termos de saber científico e não termos como prever as implicações a longo prazo dessas intervenções todas, pessoas desinformadas ou deliberadamente instrumentalizadas em favor da construção dessa “mulher ideal” — em oposição a mulheres reais, vivas, sencientes e conscientes — estão propagando um duplipensar, onde ideias opostas ao feminismo são tidas como feministas. A alternativa à mulheridade se desenvolve, portanto, em um cenário onde a verdade já não importa, e o que vale é uma crença em uma verdade alternativa.

Uma das forças ideológicas empenhadas nessa desconstrução — literal e simbólica — da mulher, é a prostituição da sexualidade. Ao mesmo tempo em que ideias anti-feministas buscam tirar o sexo do centro da análise feminista, há a tentativa de convencer mulheres de que as fantasias masculinas de dominação são a única alternativa existente à sexualidade, e que todas as suas manifestações seriam legítimas. O “espaço para negociação” aí existente, defendido por alguns teóricos da sexualidade — comprometidos conscientemente ou não com a exploração das mulheres —, busca nominalmente romper com as regras ao mesmo tempo em que cria uma série de regulações que mantém as estruturas exatamente onde elas já estão. Isso fica evidente não apenas na prostituição propriamente dita, mas também na pornografia mainstream e sua “guinada à esquisitice” nas últimas décadas, com a expansão da internet e a exaustão da pulsão sexual viciada sempre em busca de novidades.

Existem pelo menos dois argumentos que buscam sustentar a separação da sexualidade em um reino específico das práticas humanas, que se pretende libertador, mas esquece que essa “liberdade” se dá na exploração das mulheres. Um deles é o de que “a pornografia existe desde tempos imemoriais” — o que, segundo esses ideólogos, estaria evidente nos mitos gregos e japoneses, nos grafites da Roma Antiga, e nas ilustrações e representações de “atos sexuais” ao longo dos tempos. Esse argumento ignora que tanto os exemplos utilizados se dão em contextos onde a dominação masculina foi ainda mais forte do que é hoje nesses mesmos territórios geográficos, e também que a pornografia hoje, inserida na lógica capitalista de produção, é ordens de magnitude diferente desses exemplos; portanto, comparações bastante longe de fazerem sentido. O segundo dos argumentos utilizados para essa normatização da sexualidade é o de que “prostitutas têm a profissão mais antiga do mundo”, se fundamentando nas chamadas prostitutas sagradas, ignorando todo o período anterior ao estabelecimento do patriarcado e fazendo uso de uma comparação errônea do modo como se davam os cultos e seus significados nos mais variados tipos de religiões da Antiguidade, e que essas religiões sofreram mutações influenciadas pela progressiva dominação masculina. Esse argumento falha em ver a prostituição como inerente ao militarismo que tornou possível essa dominação, e se faz de cego frente a uma divisão das mulheres em classes úteis ao patriarcado: a dicotomia santa x puta.

Frente a todos esses fatos e contextos, como construir uma revolução de mulheres?

O feminismo, como campo de conhecimento e movimento social, já possui alguma das bases teóricas e estratégicas para virar o jogo. Uma vez que muito desse trabalho já foi feito, não precisamos reinventar a roda: nos resta respeitar o legado das feministas que vieram antes de nós e estudar os seus tão preciosos insights. O feminismo não é qualquer coisa que uma mulher queira, seja ela uma mulher específica ou pertencente a um determinado grupo. Estamos dando continuidade a um trabalho que já começou, não precisamos reconstruir o movimento do zero toda vez que uma crise nova se abate sobre ele, e essa busca por uma “mulher alternativa” ainda mais submissa do que qualquer mulher é capaz de ser é um resultado da eficiência de nossa militância. O feminismo não sai da cabeça de uma única mulher, mas deve ser uma construção coletiva com objetivos universalistas: as nossas demandas precisam atender a todas as mulheres, principalmente no que diz respeito à sua situação enquanto mulheres. Existir em um mundo organizado pela dominação masculina em um corpo fêmea é qualitativamente diferente de habitá-lo em um corpo macho. As forças que buscam nos dominar o sabem muito bem, e é importante que nós também saibamos.

Não compactuar com os valores e instituições que reforçam essa dominação, e parar de canalizar nossas energias nos homens e nos seus objetivos para nos centrarmos nas mulheres é essencial para evitarmos a instrumentalização do movimento. Não se faz isso mergulhada em ignorância, atemorizada pelo medo de pensar ou questionar ideais anti-feministas que venham disfarçados em pele de cordeiro. É preciso uma militância baseada em objetivos, que se foque tanto na conscientização de suas membras quanto nos objetivos comuns das mulheres. Isso começa somente quando reconhecemos nas nossas iguais as nossas lutas e dificuldades conjuntas, e compartilhamos forças na construção de uma utopia feminista.

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Masculinismo de esquerda

A batalha no campo ideológico é uma batalha pela posse dos significados. Uma vez com poder para nomear e conceituar — e a infraestrutura necessária para fazer esses nomes e conceitos circularem por aí —, é possível fazer um baita estrago na mente das pessoas. Uma turma que tem deixado bastante a desejar nesse sentido é a tal da esquerda. Fragmentada (pra variar) e sem um projeto político coletivo realmente significativo, esse grupo de pessoas autoidentificadas com os valores desse lado do espectro político grita palavras de ordem e frases feitas que não faz a menor ideia de onde vieram. Na primeira oportunidade, prova a eficácia da Lei de Godwin na internet com acusações rasas de “fascismo”.

Um ato comum na esquerda é comparar feministas radicais com a direita. A Maisa já fez um texto que vale muito ser lido sobre isso, mas as ideias aqui meio que se completam [1]. Na mesma linha de raciocínio que a minha, ela destaca que, não é porque dois grupos apontam para o mesmo problema que eles enxergam as suas implicações de modo igual. Pelo contrário: afirmar esse tipo de coisa é atestado de desconhecimento completo das discussões que acontecem sobre assuntos onde qualquer um dos lados do espectro político têm interesses comuns. É de um simplismo que, se não estivéssemos tão acostumadas com o simplismo com que a esquerda costuma tratar “a questão da mulher”, já tínhamos desistido e/ou botado fogo na porra toda. Se dois grupos apontam para um problema, ainda que com visões tão díspares, isso só prova que o problema existe e que existe consenso, pelo menos, a respeito dessa existência. Tem gente que é canalha, mas canalha não é sinônimo de burro.

Quando a esquerda aponta para o movimento das mulheres e, conforme seus próprios critérios difusos, tenta determinar qual o modo correto de se fazer feminismo, é possível identificar aí pelo menos dois problemas. O primeiro deles é o problema óbvio de sentar no próprio rabo e fazer de conta que eles, a esquerda, sabe jogar o jogo político, algo que os últimos anos têm mostrado que não é verdade. O segundo problema é o de assumir a priori um caráter “identitário” para o feminismo, como se a luta do movimento das mulheres fosse contra “estereótipos” e “discriminações”, exatamente igual a qualquer outra luta de “minorias” que não possua a mesma prioridade que a tão sonhada e prometida revolução dos trabalhadores. Fato é que a esquerda nunca deu muito espaço para as mulheres para além da copa e da cozinha; elas é que tiveram de tomá-lo para si dentro desses movimentos mistos, isso quando não vencidas pelo cansaço.

Todo esse prelúdio foi só para preparar o terreno para o que quero abordar a seguir, o grande motivador para eu ter tirado a poeira do blog: o famigerado vídeo do MamãeFalei na oficina de masturbação feminina [2].

Houve todo um cuidado por parte das organizadoras do evento de deixar claro que se tratava de um evento para mulheres. Mulheres mesmo, as fêmeas da espécie humana. O problema é que relacionar “fêmea humana” ao termo “mulher” é hoje um pecado conceitual. Carreiras políticas e profissionais de mulheres estão sob constante risco de desmoronarem por conta do uso de uma palavra “errada”, mais até que as carreiras políticas e profissionais de homens abusadores, mesmo quando esses abusos acontecem dentro dos ambientes da própria esquerda. Seja por um medo legítimo de desenhar sem querer um alvo nas costas ou por uma crença legítima de que a mulheridade é uma essência a ser sentida a nível cerebral e manifestada no vestuário da seção feminina da Pernambucanas, essas mulheres abriram mão dos termos (e, consequentemente, dos espaços) que a nós nos são caros em nome da “inclusão” (de quê? de quem?), e não souberam peitar um babaca vestido de cachorro-quente cor-de-rosa.

O resultado é que um evento de mulheres voltado a educação sexual é dissolvido em poucos segundos pelo simples fato de o troll profissional que é o MamãeFalei dizer que é uma mulher. A autodeclaração nesse sentido é soberana, e nenhuma das presentes conseguiu questioná-lo quando ele pediu um critério objetivo que pudesse justificar sua exclusão do evento. Ter pinto numa oficina sobre masturbação feminina, aparentemente, não era um deles. Mulheres, e o ser/estar num corpo fêmea, com tudo o que isso acarreta, não são mais uma prioridade no movimento das mulheres, porque algumas pessoas que não são mulheres podem alegar que o são. Pela própria lógica das ideias antifeministas que se infiltraram no movimento através da livre possibilidade de se cruzar essa linha definidora, é impossível questioná-las e estabelecer limites. Não se pode usar certas palavras, porque qualquer escorregada no correto uso da novilíngua masculinista de esquerda pode levar ao temido “essencialismo”, seja lá o que queiram dizer com isso.

Não é a primeira vez que esse tipo de coisa acontece, e não vai ser a última. Não apenas porque casos assim abundam na história recente dessa “insurgência feminista” que vemos acontecer na internet nos últimos anos — vide o caso do Encontro das Mulheres Estudantes poucos anos atrás, onde um sujeito barbado emprestou uma saia, trocou de nome e insistiu para participar de um evento exclusivo de mulheres; vide, também, o caso do ato do último 8 de março no Rio (8MRJ), onde mulheres foram ameaçadas de violência por homens com escolhas peculiares de vestimenta apenas por não se submeterem à ideia de que 2 + 2 = 5; ou ainda a última Caminhada das Lésbicas e Bissexuais de São Paulo, onde um grandalhão de vestido e batom disse em visível tom de ameaça que pintos são vaginas com formatos diferentes e que quando mulheres não os aceitam em suas relações lésbicas, isso o deixa triste e é errado. As histórias da Primeira e Segunda Ondas feministas são cheia de exemplos didáticos de problemas que até hoje as mulheres enfrentam em militância mista.

Quando as mulheres deixam essas infiltrações masculinas/masculinistas acontecerem, seja porque esses homens são seus aliados, seus maridos, seus “iguais” (no caso do transativismo), ou seus companheiros de luta, o movimento das mulheres enfraquece. O MamãeFalei estava lá sob o pretexto frouxo de “meus impostos, dinheiro público, tenho direito de estar aqui” [3] — obvious troll is obvious —, mas seu ato provou o ponto das feministas radicais: basta um homem alegar que é mulher, e as mulheres aceitarem essa redefinição (acreditando ou não na pessoa que faz essa autoafirmação), para um espaço de mulheres deixar de existir.

Nosso problema principal enquanto movimento político — e, principalmente, como movimento de massa supostamente politicamente engajado e ligado em rede — é não saber fazer política. Quando não tercerizamos essa política a quem “entende”, a quem tem “acesso”, a quem “já está lá dentro e é nosso aliado” (homens), interpretamos mal a frase da Carol Hanisch e atribuímos a vontades individuais de mulheres específicas o rótulo de “pauta feminista”, tomando como certo tudo o que temos hoje. Ignoramos a história e os feitos do movimento das mulheres. Não fazemos a mais remota ideia de como foi que conseguimos, em menos de cinquenta anos, ir de um estado onde tínhamos os mesmos direitos e autonomia de uma criança a poder trabalhar fora e sair de casa sozinha tarde da noite, apesar da possibilidade de assédio e violência. Precisamos tomar não só a palavra e os espaços, mas criar os nossos próprios, e resistir às tentativas de invasão que, certamente, vêm. Não porque temos um direito adquirido e legitimado pelo nosso “local de fala”, mas porque é urgente que o façamos. Precisamos do feminismo , e não só depois que acontecer a tão esperada revolução do proletariado.


[1] Na mesma época em que a Lila estava escrevendo o texto dela, eu também estava rascunhando esse aqui. Acabei me enrolando porque obviamente sou muito mais incompetente nesse negócio de escrever que ela.

[2] Aqui é a deixa para você, querido e dissonante leitor de esquerda, incluir sua comparação rasa de mim com militantes de direita. Vai que é tua, campeão!

[3] A assembleia legislativa da cidade dele garanto que não invadiu pra saber o que fazem com seus impostos.