Sou uma mulher atribulada. E trago questionamentos.

O que está acontecendo?

Como as nossas organizações de Esquerda e comunidade de resistência se tornaram um lugar de medo e ameaças para tantas mulheres? Por que feministas comprometidas de longa data estão temendo pelos seus empregos, suas organizações, seu serviços centrados em mulheres? Como chegamos ao ponto de lésbicas não poderem definir sua sexualidade como “atração por pessoas do mesmo sexo” sem serem rotuladas de exclusionárias? Por que nossas meninas estão tendo que rejeitar o rótulo de “mulher” para poderem fugir das normas da feminilidade compulsória, e fugir de estarem infinitamente disponíveis ao olhar, atenção e regulação masculina? Por que há muito mais garotas trans-identificadas do que lésbicas? Por que estamos apoiando que mulheres jovens amputem seus seios saudáveis? Cadê a proteção da sociedade à fertilidade futura das garotas, uma vez que lhes dão testosterona na puberdade? Onde o nosso feminismo deu tão errado?

Essas perguntas me assombram, e também à vasta maioria das mulheres. Somos as mulheres que lutaram pela nossa libertação, que organizamos abrigos e centros de apoio para mulheres vítimas de estupro e violência, que demos boas vindas às pessoas trans nas nossas vidas sociais e nos nossos movimentos, que defendiam os seus direitos e estávamos a disposição quando eles sofriam abuso.

Mas o que vemos agora é um movimento pelos direitos dos homens venenoso que encontrou o jeito perfeito de enfraquecer, atacar e silenciar aquelas feministas incômodas que ainda insistem que as palavras “mulher” e “homem” significam o que o dicionário diz que elas significam — humana adulta do sexo feminino, e humano adulto do sexo masculino. E que apontam que isso é importante porque os últimos exploram as primeiras, e se nós não pudermos nomear a nós mesmas e aos nossos opressores, não podemos articular uma posição em uma sociedade patriarcal, muito menos nos organizar para acabar com ela. O “jeito perfeito” é nos dizer que eles são a gente, que os nossos limites são exclusionários, que nossa análise a respeito do sexismo, do patriarcado e da misoginia é preconceituosa, que homens que estão insatisfeitos em seus papéis nessa sociedade não têm de fazer nada para destruir a masculinidade compulsória. Em vez disso, eles têm o absoluto direito de se identificar como nós, e não só isso, mas são, na verdade, muito mais oprimidos que nós, afinal “nasceram no corpo errado”, um conceito desumano que contradiz todo o pensamento progressista a respeito de uma visão positiva sobre o corpo.

Além disso, se nós mulheres, nós feministas, nós mulheres da esquerda, que passamos a vida defendendo a abolição dos papéis de gênero, que lutamos com unhas e dentes pelos nossos amigos e parceiros homens, nossos filhos e irmãos, para que fossem libertos das restrições da masculinidade, se ousarmos questionar esse Admirável Mundo Novo, seremos caçadas, linchadas, caladas e excomungadas dos nossos movimentos sociais. Então, segundo eles, é melhor a gente se calar.

Bem, nós ainda não estamos mortas, e algumas ainda resistem.


Tradução do texto: LIVERPOOL RESISTERS. “I am a troubled woman. I have some questions.“. Agosto de 2018.

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