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Masculinismo de esquerda

A batalha no campo ideológico é uma batalha pela posse dos significados. Uma vez com poder para nomear e conceituar — e a infraestrutura necessária para fazer esses nomes e conceitos circularem por aí —, é possível fazer um baita estrago na mente das pessoas. Quando um dos lados da batalha (são muitos, não apenas dois) fraqueja na hora de captar as distorções desses nomes e conceitos, a chance de se fazer a famosa cagada é bem alta. Uma galera que tem deixado bastante a desejar nesse sentido é a tal da esquerda. Fragmentada (pra variar) e sem um projeto político coletivo realmente significativo, esse grupo de pessoas autoidentificadas com os valores desse lado do espectro político grita palavras de ordem e frases feitas que não faz a menor ideia de onde vieram. Na primeira oportunidade, prova a eficácia da Lei de Godwin na internet com acusações rasas de “fascismo”.

Um ato comum desse povo da esquerda é comparar feministas radicais com a direita. A Lila já fez um texto que vale muito ser lido sobre isso, mas as ideias aqui meio que se completam [1]. Na mesma linha de raciocínio que a minha, ela destaca que, não é porque dois grupos apontam para o mesmo problema que eles enxergam as suas implicações de modo igual. Pelo contrário: afirmar esse tipo de coisa é atestado de desconhecimento completo das discussões que acontecem sobre assuntos onde qualquer um dos lados do espectro político têm interesses comuns. É de um simplismo que, se não estivéssemos tão acostumadas com o simplismo com que a esquerda costuma tratar “a questão da mulher”, já tínhamos desistido e/ou botado fogo na porra toda. Se dois grupos apontam para um problema, ainda que com visões tão díspares, isso só prova que o problema existe e que existe consenso, pelo menos, a respeito dessa existência. Tem gente que é canalha, mas canalha não é sinônimo de burro.

Quando a esquerda aponta para o movimento das mulheres e, conforme seus próprios critérios difusos, tenta determinar qual o modo correto de se fazer feminismo, é possível identificar aí pelo menos dois problemas. O primeiro deles é o problema óbvio de sentar no próprio rabo e fazer de conta que eles, a esquerda, sabe jogar o jogo político, algo que os últimos anos têm mostrado que não é verdade. O segundo problema é o de assumir a priori um caráter “identitário” para o feminismo, como se a luta do movimento das mulheres fosse contra “estereótipos” e “discriminações”, exatamente igual a qualquer outra luta de “minorias” que não possua a mesma prioridade que a tão sonhada e prometida revolução dos trabalhadores. Fato é que a esquerda nunca deu muito espaço para as mulheres para além da copa e da cozinha; elas é que tiveram de tomá-lo para si dentro desses movimentos mistos, isso quando não vencidas pelo cansaço.

Todo esse prelúdio foi só para preparar o terreno para o que quero abordar a seguir, o grande motivador para eu ter tirado a poeira do blog: o famigerado vídeo do MamãeFalei na oficina de masturbação feminina [2].

Houve todo um cuidado por parte das organizadoras do evento de deixar claro que se tratava de um evento para mulheres. Mulheres mesmo, as fêmeas da espécie humana. O problema é que relacionar “fêmea humana” ao termo “mulher” é hoje um pecado conceitual. Carreiras políticas e profissionais de mulheres estão sob constante risco de desmoronarem por conta do uso de uma palavra “errada”, mais até que as carreiras políticas e profissionais de homens abusadores, mesmo quando esses abusos acontecem dentro dos ambientes da própria esquerda. Seja por um medo legítimo de desenhar sem querer um alvo nas costas ou por uma crença legítima de que a mulheridade é uma essência a ser sentida a nível cerebral e manifestada no vestuário da seção feminina da Pernambucanas, essas mulheres abriram mão dos termos (e, consequentemente, dos espaços) que a nós nos são caros em nome da “inclusão” (de quê? de quem?), e não souberam peitar um babaca vestido de cachorro-quente cor-de-rosa.

O resultado é que um evento de mulheres voltado a educação sexual é dissolvido em poucos segundos pelo simples fato de o troll profissional que é o MamãeFalei dizer que é uma mulher. A autodeclaração nesse sentido é soberana, e nenhuma das presentes conseguiu questioná-lo quando ele pediu um critério objetivo que pudesse justificar sua exclusão do evento. Ter pinto numa oficina sobre masturbação feminina, aparentemente, não era um deles. Mulheres, e o ser/estar num corpo fêmea, com tudo o que isso acarreta, não são mais uma prioridade no movimento das mulheres, porque algumas pessoas que não são mulheres podem alegar que o são. Pela própria lógica das ideias antifeministas que se infiltraram no movimento através da livre possibilidade de se cruzar essa linha definidora, é impossível questioná-las e estabelecer limites. Não se pode usar certas palavras, porque qualquer escorregada no correto uso da novilíngua masculinista de esquerda pode levar ao temido “essencialismo”, seja lá o que queiram dizer com isso.

Não é a primeira vez que esse tipo de coisa acontece, e não vai ser a última. Não apenas porque casos assim abundam na história recente dessa “insurgência feminista” que vemos acontecer na internet nos últimos anos — vide o caso do Encontro das Mulheres Estudantes poucos anos atrás, onde um sujeito barbado emprestou uma saia, trocou de nome e insistiu para participar de um evento exclusivo de mulheres; vide, também, o caso do ato do último 8 de março no Rio (8MRJ), onde mulheres foram ameaçadas de violência por homens com escolhas peculiares de vestimenta apenas por não se submeterem à ideia de que 2 + 2 = 5; ou ainda a última Caminhada das Lésbicas e Bissexuais de São Paulo, onde um grandalhão de vestido e batom disse em visível tom de ameaça que pintos são vaginas com formatos diferentes e que quando mulheres não os aceitam em suas relações lésbicas, isso o deixa triste e é errado. As histórias da Primeira e Segunda Ondas feministas são cheia de exemplos didáticos de problemas que até hoje as mulheres enfrentam em militância mista.

Quando as mulheres deixam essas infiltrações masculinas/masculinistas acontecerem, seja porque esses homens são seus aliados, seus maridos, seus “iguais” (no caso do transativismo), ou seus companheiros de luta, o movimento das mulheres enfraquece. O MamãeFalei estava lá sob o pretexto frouxo de “meus impostos, dinheiro público, tenho direito de estar aqui” [3] — obvious troll is obvious —, mas seu ato provou o ponto das feministas radicais: basta um homem alegar que é mulher, e as mulheres aceitarem essa redefinição (acreditando ou não na pessoa que faz essa autoafirmação), para um espaço de mulheres deixar de existir.

Nosso problema principal enquanto movimento político — e, principalmente, como movimento de massa supostamente politicamente engajado e ligado em rede — é não saber fazer política. Quando não tercerizamos essa política a quem “entende”, a quem tem “acesso”, a quem “já está lá dentro e é nosso aliado” (homens), interpretamos mal a frase da Carol Hanisch e atribuímos a vontades individuais de mulheres específicas o rótulo de “pauta feminista”, tomando como certo tudo o que temos hoje. Ignoramos a história e os feitos do movimento das mulheres. Não fazemos a mais remota ideia de como foi que conseguimos, em menos de cinquenta anos, ir de um estado onde tínhamos os mesmos direitos e autonomia de uma criança a poder trabalhar fora e sair de casa sozinha tarde da noite, apesar da possibilidade de assédio e violência. Precisamos tomar não só a palavra e os espaços, mas criar os nossos próprios, e resistir às tentativas de invasão que, certamente, vêm. Não porque temos um direito adquirido e legitimado pelo nosso “local de fala”, mas porque é urgente que o façamos. Precisamos do feminismo , e não só depois que acontecer a tão esperada revolução do proletariado.


[1] Na mesma época em que a Lila estava escrevendo o texto dela, eu também estava rascunhando esse aqui. Acabei me enrolando porque obviamente sou muito mais incompetente nesse negócio de escrever que ela.

[2] Aqui é a deixa para você, querido e dissonante leitor de esquerda, incluir sua comparação rasa de mim com militantes de direita. Vai que é tua, campeão!

[3] A assembleia legislativa da cidade dele garanto que não invadiu pra saber o que fazem com seus impostos.

Saindo do culto trans

Texto publicado originalmente no blog Purple Sage; traduzido com permissão da autora.

Quando saí do armário como lésbica, foi durante a época da inclusão, quando mais e mais letras foram adicionadasà sopa de letrinhas LGBTQ porque cada minoria sexual precisava de representação. Parecia óbvio que deveríamos incluir a todos — uma vez que nós mesmos sofríamos ostracismo e sabíamos o quão ruim era ser excluído. Queríamos justiça social, queríamos amor e respeito a todas as minorias. Não importa que outra letra fosse adicionada ao acrônimo “queer”, a incluíamos sem questionar. Conheci pessoas de todos os tipos durante minha época na universidade — homens gays, lésbicas, bissexuais, transexuais, assexuais, pessoas de gênero fluído, etc. Eu acreditava que estávamos trabalhando juntos e ganhando aceitação das pessoas hétero. Durante esse tempo também comecei a aprender sobre o feminismo. A princípio, as várias blogueiras feministas que eu estava lendo não pareciam divergir muito entre si. Mas nos últimos anos, um grande golfo começou a nos dividir. Os assuntos que nos separavam era a indústria do sexo e as políticas transgêneras. Nunca comprei a idéia de que a prostituição era um trabalho que precisava ser sindicalizado — eu era capaz de ver prontamente que se tratava de violência. Mas comprei a idéia da transgeneridade por um bom tempo. Eu acreditava, como éramos ensinados a acreditar, que as pessoas trangêneras eram apenas outra minoria sexual que, como os gays e as lésbicas, precisavam lutar contra a discriminação. Eu queria muito ajudar qualquer grupo minoritário a superar a opressão. Fui ensinada que as pessoas transgêneras tinham nascido no corpo errado e precisavam modificar seus corpos para que correspondessem à imagem interna que tinham de si mesmos. Sou uma pessoa de mente aberta e não tinha nenhum problema em acreditar nisso. Mas um monte de irmãs feministas não estavam abertas a essa idéia. Comecei a entrar em brigas com outras feministas. Queria que elas enxergassem que estavam sendo violentas com uma minoria perseguida, e que isso não era compatível com o feminismo. Eu era contra as “TERFs”. Fui ensinada que estava fazendo a coisa certa.

Foi impossível não fazer pesquisas sobre a transgeneridade porque foi impossível conter as muitas perguntas que continuavam surgindo e eram difíceis de responder. Feministas me desafiavam em discussões perguntando “O que é uma mulher?”. Descobri que não conseguiria responder essa questão. Li livros sobre transgeneridade e finalmente me decidi que “mulher” era uma categoria social, mas isso nunca foi fácil de explicar. Entrei em brigas amargas em comentários de tópicos. Chamei outras mulheres de transfóbicas. Isso me fazia sentir muito, muito mal. Nós mulheres deveríamos estar trabalhando juntas e em vez disso estávamos nos rasgando umas às outras em pedaços. Achei que as coisas que o feminismo radical falava eram exageradas. Não parecia possível que mulheres trans estivessem tentando invadir os espaços das mulheres para nos machucar porque pensei que eram apenas outra minoria sexual perseguida, como os gays e as lésbicas. Pensei que eram apenas mulheres que aconteceu de nascerem com as partes erradas. Qualquer ataque a qualquer uma das letras do acrônimo GLBTQ parecia um ataque a mim, porque eu estava naquele acrônimo também. Achei que todas as pessoas representadas sob o guarda-chuva queer eram iguais — pessoas inocentes enfrentando discriminação.

Transativistas estão constantemente à procura de qualquer coisa que possam condenar como transfóbica. A princípio eram coisas óbvias. Pessoas trans têm direito à emprego, moradia e cuidados médicos, e não deveriam ser vítimas de violência. Claro! Mas as coisas que eram condenadas como transfóbicas comecaram a ficar menos óbvias. Chamar alguém pelo pronome errado se tornou fóbico também. E então, não colocar pessoas trans no centro de todas as conversas se tornou fóbico. Daí, falar sobre biologia e anatomia também se tornou fóbico. Eu era contra as “TERFs” até que um dia li no Twitter que insinuar que mulheres menstruam é transfóbico, e percebi — segundo esse princípio, sou uma TERF. Eu sei que mulheres menstruam e que quem menstrua é mulher, e isso é suficiente para ser uma TERF. A coisa toda começou a degringolar aí. Se todo mundo que tem consciência de que mulheres menstruam são TERF, então todo mundo é TERF. Tudo mundo no mundo inteiro. Isso não faz sentido, uma vez que a maioria das pessoas não é feminista radical.

Sabendo que qualquer uma pode ser chamada de TERF por qualquer coisinha, e que não precisa sequer ser feminista radical para ser caluniada dessa maneira, me fez levar o acrônimo muito menos a sério. Comecei a ficar cada vez mais curiosa pelo que as então chamadas TERFs estavam falando. Os transativistas dizem que as feministas radicais sentem ódio pelas pessoas trans, mas toda vez que eu lia um post de blog de uma feminista radical ele era bem fundamentado, claramente explicado, baseado em fatos, destacava nuances e era compassivo. Nunca encontrei de fato a tal fobia que os escritos das feministas radicais supostamente deveriam conter. O que muitas feministas radicais estão dizendo na verdade é que não concordam com as políticas transgêneras porque as políticas transgêneras em geral são prejudiciais às mulheres, mas elas não desejam que nenhum mal aconteça a quem é transgênero. Elas estão apenas se preocupando com as mulheres, o que é algo que as feministas sempre fizeram.

Quando eu brigava com as chamadas “TERFs” online, elas me mandavam artigos de jornal sobre mulheres trans que cometeram crimes contra mulheres. Eu ignorava isso no começo, pensando que eram histórias exageradas ou que eram casos isolados. Mas com o tempo, os casos isolados começaram a se acumular. Começaram a formar um padrão. Depois de um tempo eu simplesmente não poderia negar que mulheres trans podiam ser violentas com mulheres, da mesma forma que os homens são. Então, lendo as palavras das próprias mulheres trans, no Twitter ou em outras redes sociais, uma coisa se mostrou muito clara: mulheres trans se comportam exatamente como homens. Algumas delas não fazem qualquer tentativa de se comportar da forma que as mulheres se comportam ou de sequer tentar entendê-las, e são abertamente hostis à elas.

O fato de que algumas “mulheres trans” são homens violentos e misóginos que tentam se misturar entre outras mulheres realmente destrói a teoria do “sexo cerebral” e a de “nascido no corpo errado”. Estes homens claramente não são mulheres. Não faz qualquer sentido que tais homens tentem convencer a todos de que são mulheres. A única explicação possível para homens violentos e misóginos alegarem que são mulheres é para que possam entrar nos espaços das mulheres para nos perseguir e conseguir mimos e atenção. É óbvio que seu real objetivo é se infiltrar quando se olha pro ativismo deles. Eles não fazem qualquer tentativa de criar espaços para mulheres trans, ou de defender que elas tenham abrigos, empregos e moradia. Tudo o que tentam fazer é entrar nos espaços exclusivos para mulheres. E estão de fato conseguindo muita atenção da mídia, dos profissionais de medicina, e dos ativistas de gênero.

Tenho visto pessoas entrarem na ideologia trans e perderem a cabeça completamente. Cruzei com pessoas que realmente acreditavam que sexo biológico não existe e que não podiam ter acesso a cuidados médicos a menos que um doutor validasse sua identidade de gênero. Imagine, estar em um país rico com sistema de saúde disponível, e recusá-lo só porque o médico quer tratar seu corpo físico baseado em sua real biologia, em vez de tratá-lo baseado em seus sentimentos? O quão ridículo e absurdo é dizer que você não tem assistência médica quando na realidade tem, e quando há pessoas em países pobres que realmente não têm? Cruzei com homens que serviram no exército, tiveram carreiras fantásticas nas Exatas, foram pais de muitos filhos, e então decidiram que eram mulheres durante esse tempo todo. O quê?! E tenho visto lésbicas que fazem ativismo lésbico, participam da comunidade lésbica, fazem casamentos lésbicos, e de repente dizem que eram homens o tempo todo. Muito disso é puro nonsense, mas se você questionar será chamada de TERF e dirão que você está oprimindo pessoas. É como o criacionismo: inventam falsas evidências que não se sustentam quando verificadas, dizem que a ciência é intolerante com suas crenças, dizem que são perseguidos quando não conseguem forçar suas crenças a outras pessoas, e tentam silenciar e destruir os incréus. Transativismo é um culto religioso.

O efeito que o transativismo tem causado no feminismo é como o de um cavalo de Tróia. Ele entrou silenciosamente ao longo dos anos e então explodiu nos anos 2010, e agora as feministas estão divididas e brigando entre si. Gastamos metade do tempo discutindo se mulheres trans são mulheres e se tal pedacinho do feminismo é “transfóbico”, e isso significa que não estamos mais lutando pela libertação das mulheres. O feminismo deveria libertar as fêmeas humanas da opressão. Não deveríamos estar gastando tempo algum preocupadas com os sentimentos de gênero de homens abusivos. E o fato de que os transativistas geralmente são pró-prostituição deveria nos dizer alguma coisa. Essas pessoas estão lutando pelos direitos dos HOMENS. Agora que vi o que vi, voltei para o verdadeiro feminismo, aquele que luta por mulheres. Não estou mais confusa sobre o que é uma mulher. Uma mulher é uma fêmea humana adulta, como sempre foi. Aprendi algo muito importante: minhas irmãs sempre devem vir em primeiro lugar. Realmente sinto muito pela hostilidade que usei para me expressar com mulheres que têm noção de que mulheres trans são homens. Gostaria de voltar no tempo. Tenho usado uma tag em alguns posts chamada “auge trans”. Auge trans é o ponto em que os transativistas finalmente ficam tão ridículos que até mesmo seus antigos aliados não podem mais apoiá-los. Isso foi o que aconteceu comigo e sei que vai acontecer com mais gente.