Por que John Stoltenberg Chama Andrea Dworkin de “trans aliada”?

Tradução livre do original em inglês no blog Radical Pro Feminist.

Andrea Dworkin e John Stoltenberg. Crédito da foto: ProFeministMen

Parte I: Introdução

Em reconhecimento ao décimo quinto aniversário da morte da grande Andrea Dworkin, seu parceiro John Stoltenberg, escreveu recentemente um artigo publicado da edição online do Boston Review. Você pode lê-lo aqui.

Aprecio e entendo completamente de onde o raciocínio de John vem; compartilho suas preocupações a respeito de qualquer ideologia ou ação que vise gerar preconceito, discriminação intrapessoal ou sistêmica, ou que replique qualquer encarnação de supremacia social. Como John, acredito que Andrea teria se oposto apaixonadamente a isso. Diferente de John, Andrea teria feito isso em qualquer lugar em que encontrasse esse tipo de coisa.

Acho tanto o título quanto o conteúdo desse novo artigo de Stoltenberg problemáticos em alguns aspectos. Stoltenberg aplica a Andrea um rótulo com a intenção de silenciar alguns sentimentos. Sua empatia pelos oprimidos é notória. Mas não existem declarações públicas dela que especificamente apóiem a pauta trans. Ela não era “anti-homem” e não acredito que ela seria “anti-trans”, muito menos deveria ser rotulada como tal. Mas não se pode atribuir afeição à ausência. Não se deve pegar termos de uma batalha que não era a dela e colá-los em alguém tão calejada quanto ela. Sei que John entende que rotular alguém incorretamente não é legal [1]. Chamo a atenção de John para que ele aponte com cuidado a posição dela e não se aproprie de algo que ela escreveu em um momento que seu trabalho teórico tinha problemas, reconhecidos por ela mesma. (Mais sobre isso adiante.)

Além disso, não vejo seu artigo apontando onde Andrea era ou não trans aliada. O artigo é sobre ideias e valores: dele, dela, e sua interpretação de termos que algumas feministas radicais às vezes usam. O artigo de John borra distinções, especialmente as de Andrea. Ainda mais grave, esse artigo ofusca os termos em que o trabalho público de Andrea exige para mobilizar ações em direção à mudança feminista revolucionária. Desses dois modos, sinto que ele exagera um bocado, desrespeitando-a no processo. Stoltenberg disse que foi ingênuo ao aprovar o título sugerido para seu artigo de 2014, “Andrea Dworkin Was Not Transphobic” [2]. Por quanto tempo a ingenuidade deve ser armazenada nesse seu arsenal defensivo? Somente uma grande quantidade de privilégio permite que esse prazo nunca expire. E tem mais: Andrea pediu postumamente para ser colocada em meio a uma batalha política polêmica que não escolheu?

Leitores, isso piora.

Parte II: Mulheres reais

John identifica usos de frases “mulheres de verdade” como uma afronta moral ao que Andrea trabalha e dava valor. Ao mesmo tempo, ele se recusa a evidenciar uma preocupação, um pesadelo muito evidente para ela na vida dentro do patriarcado que, eu acredito, a maior parte do feminismo radical coloca centralmente em sua teoria e ativismo: a mulheridade não é escolhida, é imposta. Ela tem um corpo; e o corpo é de uma fêmea. Andrea descreveu graficamente a violência contra ela, contra seu corpo, seu corpo de fêmea. Perceber essa conexão (e como uma pessoa não perceberia?) não torna a Dworkin, ou qualquer outra pessoa suportando e testemunhando as mesmas atrocidades, um essencialista de sexo. Como eu irei ilustrar, é o tema mais central, abordado em dúzias de discursos e artigos, e em todos os livros dela. Eu a vi falar muitas vezes, eu li os livros dela. Isso foi o que eu ouvi:

É contra o corpo feminino que a supremacia masculina de modo flagrante e sistematicamente se expressa na ordem de manter a dominância masculina de maneira natural, criada por deus, eterna, e inevitável. É contra o corpo feminino que a força patriarcal é lançada: brutalmente, sadicamente, quebrando ossos e matando. Através de todo o trabalho dela, Andrea abordou isso explicitamente: a violência contra os seios das mulheres, seus úteros, suas vaginas. O que eu ouço mais profundamente, mais ferozmente, na oposição raivosa das feministas radicais contra os elementos do essencialismo das políticas trans, em parte, é isso: Vocês estão fazendo esse entendimento parecer louco e imoral. E de forma amplamente literal. John não está ajudando. O patriarcado faz o tratamento dos homens para com as mulheres — para Andrea, para as feministas radicais, os teimosos seres humanos com a forma de fêmea — intimamente opressivo. As palavras dela expressam esse ponto muito melhor que as minhas.

Os atos de violência retratados na pornografia são atos reais cometido contra mulheres reais e meninas reais. (Letters from a War Zone, p. 11)

A realidade material das mulheres é determinada por sua característica sexual, a capacidade reprodutiva. O homem pega um corpo que não é dele, o reivindica, planta a dita semente, e colhe os seus frutos — ele coloniza o corpo feminino, rouba seus recursos naturais, o controla, usa, esgota aos seus desejos, nega a sua liberdade e sua auto-determinação para que ele continue a lucrar com esse corpo…(War zone, p. 118)

… Eu também aprendi muito sobre o poder masculino com [mulheres], quando eu me importei o bastante com as mulheres a ponto de entender que o poder masculino era um tema ao qual minha própria vida havia me levado. Eu conheço o poder masculino de dentro para fora, com o conhecimento que ganhei através desse corpo feminino. (War Zone, p 64)

Agora, essa repulsa é literal e linear: direcionada especialmente contra as genitais dela, e também os seios, e também a boca dela recentemente percebida como um órgão sexual. É um ódio esmagador (goose-stepping é uma expressão difícil de traduzir, alguma sugestão?) contra bucetas. A mulher não possui dimensão humana, nem significado humano. (Intercourse, p.9)

O que é incrível e inaceitável para mim é que apontar isso em voz alta é controverso, a não ser para o homem — então ainda é inaceitável enquanto é esperado e normal. John, muitas feministas radicais, e qualquer um que é familiarizado com ela sabe disso: Andrea valorizava a nomeação das condições da maneira que ela as enxergava, de maneira clara. Palavras educadas ou pisar em ovos eram repugnantes para ela. Ela odiava que palavras fossem colocadas em sua boca ou tiradas de contexto. Ainda assim, a representação dela feita por John retira o fato mais incisivo sobre isso: Materialmente, o diagrama de Venn consiste em um círculo.

Eu descobri de maneira perturbadora, através da última década e meia, que um pré-requisito para operar aceitavelmente em espaços queer liberais dominados por brancos, acadêmicos e variados, é especificamente o silenciamento de Andrea Dworkin, e de feministas radicais e lésbicas em geral. Esses são os locais onde eu cada vez mais evitei por causa do meu desdém pela ideologia que prevalece e as práticas anti-feministas.

Você não pode ler Dworkin racionalmente e terminar negando que a visão de mundo e a experiência dela funde-se com a experiência de milhões de mulheres, isso é compreendido: masculino significa homem, homens são macho; feminino significa mulher, mulheres são fêmeas. Ela não fugiu timidamente de dizer isso em círculos acadêmicos ou sociais. Ela não satisfez teoristas ocidentais que valorizam a diversidade sexual mais que a libertação das mulheres, que pensam que multiplicando os gêneros nós iremos chegar a uma nova forma de liberdade. Não há tal cobrança pela metamorfose metastática. Quando ela estava viva, Andrea nunca articulou uma hierarquia na qual mulheres oprimiam mulheres trans. Mulheres fêmeas eram, para ela, uma classe de (leia-se: reais) mulheres: “mulher”, não modificada por nenhum prefixo.

Recitar descaradamente essas quatro passagens acima não será tolerado em muitos espaços influenciados pelos essenciais especuladores liberais das teorias de sexo e gênero. Enquanto os Estudos das Mulheres foi modificado para Estudos de Gênero, as perspectivas feministas radicais foram marcadas como uma violação à política anti-discriminatória, sendo base para demissão. Aquelas feministas radicais corajosas que insistiram em nomear a realidade que elas e Andrea experimentaram, estão perdendo suas reputações, suas carreiras, e suas seguranças. De maneira alarmante, estão sofrendo doxxing, impedidas de falar, ameaças e aterrorizadas. Sobre isso, até agora, John permanece em silêncio.

Parte III: Transsexuais

Nesse artigo de Stoltenberg, em outros que ele publicou após a morte de Andrea, ele ressuscita o capítulo nove da seção quatro de seu primeiro livro feminista, o Woman Hating (1974). Do capítulo “Androgyny: Androgyny, Fucking, and Community”, a passagem que vem antes da citada no artigo de John.

Transsexualidade pode ser definida como uma formação particular da nossa multissexualidade geral que foi incapaz de se desenvolver naturalmente por conta de condições sociais adversas. (P. 186)

Seguindo sua discussão sobre transsexualidade, Dworkin prossegue discutindo travestismo no contexto de uma sociedade eroticamente repressiva:

O travestismo é fazer uso de figurinos que violam os imperativos de gênero. O travestismo geralmente é um ato sexualmente carregado: a violação pública e visível do papel sexual é erótica, excitante, perigosa. É um tipo de desobediência civil erótica, e este é precisamente o seu valor. O uso desses figurinos é parte da estratégia e do processo de destruição dos papéis sexuais. Vemos, por exemplo, que quando as mulheres rejeitam o papel feminino, elas adotam roupas “masculinas”. Com a dissolução dos papéis sexuais, o conteúdo erótico particular ao travestismo igualmente se dissolve. (P. 187)

Nesse capítulo, ela escreve de forma acrítica sobre contatos interpessoais estigmatizados ou abusivos que existem em uma sociedade eroticamente repressiva. O trecho a seguir é da introdução desta seção:

Homossexualidade, transsexualidade, incesto e bestialidade são tidas como “perversões” dessa “natureza humana” que presumimos saber tanto a respeito. Elas persistem independente das imensas forças dirigidas contra elas — leis discriminatórias e práticas sociais, ostracismo, perseguição ativa pelo estado ou por outros órgãos da cultura — como embaraços inexplicáveis, como exemplos odiosos de “imoralidade” e/ou “desajustamento”. (P. 174)

Na conclusão, ela acrescenta: “Devemos nos recusar a nos submeter aos medos inculcados pelos tabus sexuais” (P. 192). Em 1989, em uma entrevista, Dworkin aponta que nesse momento teorizava a partir de conhecimento pouco e não integrado; teoria essa que ela abandonou e criticou posteriormente [5].

Uma vez que conseguiu embasar e integrar a teoria, de Pornography: Men Possessing Women (1981) até Heartbreak (2002), ela jamais cita novamente questões centrais ou periféricas nos termos que John mais utiliza: não existe qualquer chamado à multiplicidade de gêneros; a importância da multissexualidade desaparece; o foco em papéis sexuais fictícios e estáticos se tornou cada vez mais fraco; os libertadores dos tabus sexuais se revelaram predadores; ela nega que a androginia seja a salvação. Ela se despede disso tudo sem remorsos.

A transsexualidade também desaparece da obra de Dworkin, com exceção de duas menções na portaria antipornografia escrita em parceria com MacKinnon: “O uso de homens, crianças e transsexuais no lugar de mulheres…” e, “qualquer homem, criança ou transsexual que alegar ter sofrido danos causados pela pornografia nos mesmos termos em que as mulheres sofrem…[5]” Sobre isso, John diz: “Quero apenas pontuar que Andrea entendia de forma profunda que uma pessoa poderia ser subjugada como uma mulher sem ter sido registrada como fêmea ao nascer…”

“Subjugada como uma mulher”. Não enquanto mulher. A portaria trouxe à consciência o fato de que a pornografia pode tratar todo mundo mal, da mesma forma que, mais frequente e mais centralmente, a pornografia faz com as mulheres. Uma menina, uma mulher: do nascimento à morte. Era claro para Andrea e Catherine, nesse mecanismo legal radical para acabar com a discriminação baseada no sexo, que elas não igualavam a condição de ser transsexual com ser mulher ou homem. Para os propósitos de sua portaria, refletindo a vida como elas a conheciam, “mulher” eram, como elas, uma classe política e sexual oprimida.

Parte IV: Responsabilização

Eu chamo o John à parar de inferir que o radicalismo dela é resumido na seção pré-feminista de Woman Hating e um capítulo colonialista em seu segundo livro, Our Blood(1976), na qual ela desembaraça a filosofia prevalente de gênero, e, de maneira alarmante, postula Columbus como um héroi radical. (p 97, 110). Eu acredito que o radicalismo dela, a missão dela, é encontrada em outros lugar. Da introdução de Woman Hating:

Esse livro é uma ação, uma ação política onde a revolução é o objetivo. Não há outro propósito. Não é uma sabedoria genial, ou merda acadêmica, ou ideias gravadas em granito ou destinadas à imortalidade. É uma parte de um processo e seu contexto é a mudança. (p. 17)

Se John está a referenciar o trabalho da Andrea, ele precisa parar de silenciar ela no que significava mais para ela. Ao não fazer isso é apropriar-se indevidamente em nome do pro feminismo radical. Nós sabemos que ele é familiarizado com a prática. Do artigo do John: “Após a morte da Andrea em 2005, eu fiquei cada vez mais preocupado que ela e a política radical que eu aprendi com ela estavam sendo apropriadas indevidamente por alguns…” Eu chamo o John para que ele resolutamente se responsabilize.

Após a sua morte, tem sido triste ver o grau de diferença em que se move a óbita da trajetória política do John. Eu já fiquei enraivecido em ver as maneiras em que ele apagou a trajetória da Andrea. Essa é a minha visão sobre os respectivos trabalhos. No diagrama de Venn, o círculo dele é aquele em várias cores; o dela é totalmente eclipsado.

O que segue em alguns trabalhos do John.[6] Eu acredito que é nisso que está a sua paixão — em discussões de gênero como essa:

Pense em uma roda de cores. E não pense em uma roda com as cores segmentadas por linhas como se fosse uma roda de carroça; pense em uma onde as cores se mesclam e borram entre elas como se fossem um arco-íris circular infinito que é o espectro visível:

Figura 1: Espectro cromático

Isso vale para qualquer indivíduo, o que pensamos sobre sexo e gênero é na verdade mais como um ponto qualquer numa roda de cores (ao contrário de um ponto qualquer em um contínuo linear com dois fins, no qual cada um representa dois pólos de um binário).

Leitores, isso não é coisa dela.

Parte V: Conclusão

Talvez Andrea não tenha estabelecido uma posição pública de um modo ou outro nessas batalhas por conta da época em que ela escrevia. Consciente da empatia e compaixão dela pelos oprimidos, simplesmente não há qualquer evidência dela sendo trans aliada da forma como tenho visto o termo ser usado [7]. Digo isso sem qualquer satisfação ou escárnio. Estou atestando um fato. Como ponto de comparação razoável: se, quarenta anos atrás, um heterossexual escrevesse afirmativamente sobre a comunidade lésbica, bi e gay e não tivesse se posicionado mais desde então sobre as dificuldades dessa comunidade de sobreviver numa sociedade ultrajantemente homofóbica, deveria ele ser considerado um aliado? Espero que todos concluamos que a resposta deva ser “não”. Aqui, John é o aliado; Andrea era a pesquisadora.

O que as pessoas — trans, queer ou quem quer que seja — podem fazer para honrar a memória de Andrea é ler todos os livros dela e lutar pelo fim da supremacia masculina racista em todas as suas manifestações, na teoria e na prática.

As visões de Andrea estão melhor exprimidas em seus próprios termos em seu próprio trabalho. Não que não possam ser discutido e debatidos. Não que não possamos imaginar que posições ela tomaria a respeito de um dado assunto. Não consigo contar quantas vezes me peguei me perguntando: O que Dworkin faria? Infelizmentes, desde sua morte, pessoas que se identificam das mais variadas formas possíveis, abraçando as mais várias ideologias, com diferentes pautas políticas, metaforicamente forçando o braço na tentativa de encaixá-la firmemente em um lado ou outro desse intenso debate trans. Ela deve ser defendida, mas não de formas indefensáveis. Andrea Dworkin lutou duramente o bastante no campo de batalha. Que ela descanse, com todas as honrarias, em poder e paz.


Notas

[1] John assume que “transsexual” e “transgênero” são termos sinônimos. Muitos de nós no Ocidente sabemos que isso é falso. Por exemplo, existem pessoas não brancas e indígenas que rejeitam a autoridade, as pautas e as apropriações racistas do pacote de políticas sexuais e de gênero do queer. Existem apoiadores do feminismo radical que são trans que não se identificam como transgêneros por razões políticas. O termo “trans” no título do artigo de John, na verdade, é comumente usado pela comunidade LGBTQIA como um termo guarda-chuva para incluir tanto pessoas que se identificam como transsexuais quanto aquelas que não. Às vezes, “trans” é sinônimo de “queer”. Se ele não sabia disso, deveria, antes de identificar Andrea como “trans aliada”. Ele, como homem gay, não está em posição de fazer essa afirmação. Sua falta de responsabilidade, se não de conhecimento, da existência de apoiadores trans do feminismo radical revela aliança com apenas algumas letras do acrônimo. Vide nota 7.

[2] Depois de escrever esse post, achei um artigo arquivado de John entitulado “Andrea Dworkin Was Not Transphobic” (2014). Eu lembrava de tê-lo lido quando me dei conta de que não o podia mais encontrar. Assim que encontrei, fiquei cativado pelos comentários. Eles casam tão bem com essa discussão que quero linká-los aqui, com destaque especial para os comentários de Morag e Lil Z.

[3] Os espaços onde atuei social e academicamente têm sido majoritariamente liderados ou dominados por teorizações anglófonas ou ocidentais. Quando nós que somos brancos falamos de feminismo ou políticas queer, geralmente significa um ponto de vista específico. Estou a par das comunidades, perspectivas e pautas antirracistas. Análises dos desafios complexos, não apenas no sentido da colonização ocidental e anglófona na cultura e no pensamento, estão além do escopo desse material sobre Andrea Dworkin e John Stoltenberg, e o uso dele dos escritos dela são a respeito de sexo e não sobre raça.

[4] Dworkin explica essa afirmação Without Apology: Andrea Dworkin’s Art and Politics (1998), de Cindy Jenefsky. Página 139, Nota 1 (fonte britânica). Cindy Jenefsky escreve:

Um minha entrevista com Dworkin em 1989, ela indica que não concorda mais com algumas sugestões propostas no fim do livro. “Acho que tem um monte de coisas realmente erradas no último capítulo de Woman Hating”, diz Dworkin. Quando perguntada especificamente sobre suas discussões sobre incesto, ela apontou diversos fatores que a influenciaram nessa parte da escrita. Primeiro, na época em que ela escreveu o livro, ela estava cuidando de uma criança que tinha sofrido abuso incestuoso, e ainda que ela tivesse falado com a polícia da Holanda sobre a prevalência do incesto lá, ela conta que havia uma lacuna entre sua análise intelectual e experiência prática da questão. Foi apenas com a escrita de Woman Hating e com as respostas que recebeu a ele que sua experiência subjetiva — não apenas sobre incesto, mas sobre violência doméstica e prnografia também — foi validada pela experiência de outras pessoas, e foi quando ela começou a entender o incesto como uma forma de abuso sexual. Ela também fez referência ao fato de ter sido influenciada por “anos de leitura de Freud e tentativas de fazer aquilo tudo fazer sentido de forma abstrata”, especialmente em razão da falta de informação disponível publicamente sobre a predominância do abuso sexual. Finalmente, Dworkin também destaca que ainda que feministas e pornógrafos estivessem se movendo em direções diferentes na época em que Woman Hating foi escrito, eles ainda compartilhavam das mesmas raízes da contra-cultura e do movimento de liberação sexual. Dworkin, em entrevista à autora, 1989.

[5] Sobre a portaria, veja Pornography: Men Possessing Women, edição comemorativa de dez anos (1989), nova introdução, P. XXXIII. Ver também a portaria de Massachusetts (1992).

[6] “The Sex/Gender Binary: Essentialism” (2015).

[7] “Becoming an Ally to Queer and Trans People of Color (QTPOC)“. Ver também o primeiro parágrafo em “11 Ways To Be A Trans* Ally, According To Transgender People Themselves” (2015). Que meu privilégio branco masculino sirva para chamar todos à honestidade e integridade.

O Conceito de Gênero: um novo “coração de mãe” nas pesquisas sobre a mulher?

— Grupo Em Canto
— GT: Mulher e Política
— Trabalho apresentado no XIII Encontro Anual da ANPOCS
— Caxambu, outubro de 1989

Introdução

A idéia de elaborarmos este texto partiu da observação de que de uns tempos para cá, a palavra “gênero” passou a ser utilizada de forma bastante frequente nos textos, trabalhos, pesquisas e discursos elaborados sobre as mulheres no Brasil.

Alia-se a isto o fato de que alguns grupos de estudos e pesquisas sobre a mulher tenham começado a se definir como grupos de estudos de relações de gênero e a própria tentativa de troca de nome deste grupo da ANPOCS de “Mulher e Política” para “Relações de dominação de gênero” [1]. Alguns cursos universitários também têm optado pelo termo, como por exemplo o de Mireva Suarez na UnB e o curso promovido pelo núcleo da USP.

A partir desta constatação nos interessava saber se este termo era apenas mais uma “moda” ou se realmente ele constituia uma nova categoria de análise que estava sendo usada nas pesquisas referentes à “mulher”. E, em caso afirmativo, que modalidade ele introduziu na análise?

Tomamos como base para nosso trabalho, de um lado alguns textos teóricos que discutem a noção de gênero e de outro, procuramos analisar uma parte da produção realizada hoje no Brasil sobre a chamada “questão da mulher”, a fim de verificar sua emergência ou não. Para isto nos reportamos aos textos veiculados, nos três últimos encontros da ANPOCS, no grupo “Mulher e Política” [2]. Temos claro que nossa escolha não esgota a produção sobre o tema, mas como teríamos que realizar um corte, optamos por este grupo por entender que já há alguns anos é um espaço assegurado a discussão de temas ligados de uma forma ou outra a problemática feminista. Assim como pensamos que uma reflexão sobre a produção do próprio grupo seria enriquecedora tanto para o grupo quanto para nós mesmas.

Este artigo se subdivide em duas partes. Na primeira, fazemos uma revisão teórica sobre a forma como o conceito de gênero foi desenvolvido por várias disciplinas: linguística, literatura, psicologia, psicanálise, sociologia e antropologia. Na segunda parte examinamos a produção que algumas pesquisadoras brasileiras vem desenvolvendo no grupo de “Mulher e Política”.

Um primeiro levantamento dos textos a serem analisados nos deixou claro que a temática gênero é bem recente nos estudos sobre mulher no Brasil, nos dando a impressão que, até o momento, salvo algumas exceções, ela é mais verbalizada do que utilizada concreta explicitamente como categoria de análise.

O conceito de gênero

Várias são as disciplinas que elaboraram o conceito de gênero. Num primeiro momento vamos repassar a maneira como este conceito vem sendo desenvolvido tanto pela linguística e literatura quanto pela psicologia e psicanálise. Num segundo momento, mostrar como as Ciências Sociais vão incorporar esse conceito e como irá ocorrer um desdobramento da categoria de “papéis sexuais” em “gênero”.

O gênero na linguística e na literatura

As analistas da linguagem apontam para a determinação arbitrária dos gêneros nos diferentes idiomas. Esta arbitrariedade da cultura no que tange a língua tem servido como contraponto a determinação arbitrária do gênero tal como sugere Marta Lamas: “Esta arbitrariedade en la asignación de genero a las cosas que se pone em evidencia muy facilmente, por ejemplo cuando el género atribuido cambia dependiendo de la lengua que se trate. En alemán el sol es femenino, “la sol” y la luna masculino, “el luna” (P. 185)”.

Muitas línguas têm, além do feminino e do masculino, a categoria do neutro, que define comumente fenômenos da natureza (chove, neva, etc.), mas que em algumas línguas como o alemão são usados indiscriminadamente para objetos.

Junto com esta discussão sobre a arbitrariedade da língua, onde se impõe o masculino, linguistas feministas têm proposto como forma de “guerrilha da linguagem” que se feminilize sistematicamente a linguagem e a escrita, usando por exemplo o feminino plural quando há uma mulher presente.

Já na crítica literária, segundo o trabalho de Ana Vicentini (1988), pode-se observar duas correntes diferentes que tratam a questão do gênero, uma anglo-americana e outra francesa. A primeira é mais preocupada com o conteúdo da produção literária das mulheres, analisando-se as mulheres escrevem ou não suas experiências ou se apenas reproduzem a escrita que tem características masculinas. As francesas, por outro lado, tendo uma grande influência psicanalítica, estão mais preocupadas com o simbólico da produção feminina e propõe uma escrita mais vinculada a especificidade do feminino [3].

Para as teóricas da “escritura feminina”, o uso da categoria gênero remete a questão da produção do discurso. Para Luce Irigaray, por exemplo, o gênero masculino é tomado como o gênero universal e é nesta dominação sobre o feminino que encontra-se o problema central da dominação de um gênero sobre outro: “L’inconscient est partiellement l’enterrement en tui par l’homme de l’autre genre et de l’ombre de son gente, les deux” (1981).

A contribuição da análise literária e linguística não tem ainda grande influência nos estudos que tratam da questão do gênero nas Ciências Sociais no Brasil.

O gênero na psicologia e na psicanálise

A contribuição da psicologia para o conceito de gênero se inicia bem antes que os estudos sobre mulher se tornassem uma área de conhecimento. O trabalho de Stoller “Sex and Gender”, de 1968, ainda é a principal referência para a constituição do conceito de gênero. No entanto, é só no final da década de 70 que o conceito vai ser usado por teóricas feministas americanas como Rubin (1975) e Chodorov (1978).

O livro recente da psicanalista argentina Di-Bletcham (1988) traz uma importante resenha dos estudos sobre o gênero na psicologia e na psicanálise. O conceito de gênero na psicologia é definido pela distinção entre o sexo biológico e o sexo social, construído única e exclusivamente pelo simbólico: “Sobre o substantivo gênero se agrupam todos os aspectos psicológicos, sociais e culturais da feminilidade/masculinidade, reservando-se sexo para os componentes biológicos anatômicos e para designar o intercâmbio sexual propriamente.” (P. 33)

No trabalho pioneiro de Stoller, o gênero enquanto categoria psicológica se compõe de três elementos: atribuição de gênero, núcleo de identidade de gênero e papel de gênero [4]. Nesta concepção, o “papel das forças biológicas será o de reforçar ou perturbar uma identidade de gênero já estruturado pelo intercâmbio humano”.

A discussão das áreas psi sobre a construção da identidade de gênero também parece que ainda não foi incorporado pelas pesquisadoras que utilizam o termo gênero no Brasil. Uma das poucas referências à psicanálise é o gênero no texto da Bete Lobo (1988) [e] sugere a eliminação da utilização da categoria:

“A inquestionável importância da contribuição psicanalítica para a construção do conceito de gênero encontra seus limites na redução deste processo ao espaço das experiências individuais; da família, do inconsciente, enquanto que os espaços da experiência coletiva não são problematizados a partir de análises das relações de gênero e tampouco se desenvolve o instrumental teórico que torne possível esse tipo de abordagem” (P. 4)

Nós pensamos que a contribuição da psicanálise é central para a constituição da categoria gênero pelas Ciências Sociais, pois é pelo desvendar dos mecanismos de construção individual de identidade de gênero que é possível compreender os mecanismos das relações sociais de gênero, uma vez que não é possível pensar o indivíduo sem remetê-lo ao social. Aponta nesse sentido o artigo de Grosz-Ngate (1989) que traz a relação entre a construção do gênero e a noção de pessoa: “Gender construction implicate a society’s notion of the ‘person’ since gender is linked to aspects of personhood. Notions of the person as synonymous with the individual, i.e., an autonomous juridical entity equal to other such entities.” (P. 169)

Dos papéis sexuais ao gênero na antropologia

Apesar da questão do gênero já ter sido trabalhada por outras áreas, é com a antropologia que o conceito é levado para o campo dos estudos sobre a mulher.

Dentro deste campo, ao pensar a categoria gênero, há uma confusão inicial com “papéis sexuais”. Afinal o que distingue uma categoria da outra, se ambas se referem a comportamentos designados a indivíduos do mesmo sexo sendo elaborados enquanto construções culturais?

O termo de “papéis sexuais” surge com a antropologia [5]. Para a construção desse conceito foi essencial o estudo comparativo de culturas, porque pôde mostrar que comportamentos considerados masculinos ou femininos vão variar de uma cultura para outra. Na década de 70, as antropólogas feministas vão se reapropriar deste conceito e fazer a crítica ao viés androcêntrico da maior parte dos estudos antropológicos sobre a mulher deste período. A esta análise vai se juntar a discussão sobre a origem e a universalidade ou não da opressão feminina [6]. Originalmente, os papéis sexuais vão ser a base da justificativa para a divisão sexual do trabalho.

A noção de gênero é prefigurada a partir desses estudos, uma vez que a feminilidade e a masculinidade passam a ser consideradas como não contingentes ao sexo, mas ditados pela cultura. O que a noção de gênero irá precisar e ampliar em relação ao conceito de papel sexual é a ideia de assimetria e hierarquia nas relações entre homens e mulheres, incorporando a dimensão das relações de poder.

A introdução da noção de gênero nos estudos sobre a mulher liga-se com a preocupação em desnaturalizar e de substancializar a noção de feminino e masculino contida em categorias como “a mulher” ou a análise que vinculava os papéis sexuais ao seu substrato biológico.

Mas dizer que o gênero é construído social e culturalmente remete à questão das condições e das formas da produção social desta noção e, principalmente, das esferas sociais que prioritariamente se colocam como “configuradoras e configuradas pelas noções culturais de gênero e sexualidade” (Ortner e Whitehead:1981). Gayle Rubin (1975) considera que é a nível do parentesco e do casamento que as culturas constroem as noções de gênero. Retomando a idéia de Levi-Strauss da “troca de mulheres”, formulada pelo antropólogo francês como a gênese do social, Rubin encontra aí a chave para a constituição das relações de gênero. Nestas relações, as mulheres ocupariam o papel de bens transacionados, sendo desenvolvidas desta forma não só dos direitos sobre si mesmas como sobre os homens. Rubin usa o conceito de “economia política do sexo” para definir o campo da análise dos laços entre as transações de casamento e as relações políticas e econômicas, campo segundo ela fundamental para entender a produção social das identidades de gênero (Ortner e Whitehead, p. 11).

Ortner e Whitehead, seguindo o mesmo caminho de tentar encontrar aquelas esferas sociais que se colocariam como “particularmente críticas” na configuração das noções de gênero, apontam para um sentido diverso do de Rubin. Para elas, são as estruturas de prestígio, ou seja, as posições de status que ocupam o lugar central na construção das noções de gênero em uma ou outra sociedade. São essas estruturas que definem o significado da identidade de gênero nas relações de parentesco e casamento. Em primeiro lugar, o sistema de gênero é considerado como estruturas de prestígio, ao lado de outras estruturas (níveis sociais, geração, etc). Além disso, a noção de gênero contamina outras estruturas de prestígio, o que Strathern (1981) chama de “mútua metaforização” entre as categorias de gênero e sistemas de prestígio mais amplos. Mas, ao contrário da simetria na análise das relações entre homens e mulheres, proposta pelo uso de noções como a orientação pública masculina, ou a orientação doméstica feminina, a esfera das relações de prestígio masculina que define as relações entre os sexos.

O gênero na produção do grupo “Mulher e Política”

Ao procurarmos analisar a produção dos três últimos anos (1986/87/88) do Grupo Mulher e Política da ANPOCS, algumas questões começaram a ficar mais claras. Uma primeira questão é a constatação de que a discussão sobre “gênero”, ou a utilização deste como categoria de análise é uma questão bastante recente.

1986

No ano de 1986, ainda que se aborde a outras questões, a tônica dos trabalhos é a discussão sobre a participação política da mulher. Discute-se a dificuldade para que esta participação se dê de forma mais efetiva, bem como a necessidade de torná-la visível através de uma outra leitura dos acontecimentos.

Apenas o trabalho de Eleonora Menecucci de Oliveira, “Da recusa ao confinamento doméstico a reinvenção de novos espaços de cidadania — algumas reflexões teóricas”, se refere a palavra gênero, ainda que sua análise não esteja centrada na discussão e utilização desta categoria. Neste paper, a autora, tendo por base a pesquisa de campo realizada com as mulheres do grupo Sexualidade e Saúde da favela Beira Rio, busca pensar as diferenças de suas intervenções políticas e sociais a partir do conhecimento que estas tiveram do próprio corpo. Ao definir os elementos teóricos com os quais se trabalha (reapropriação do corpo, relações de poder, reinvenção de espaços de ação política, inferiorização dos motivos da ação política como representação de desejos e vontades, autonomia e Estado e drama social), a autora faz referência a discussão da autonomia, que passaria “necessariamente pelo desocultamento das relações de gênero na sociedade, uma vez que, considerada como resultado de uma prática social, esta problemática permite desvendar a opressão da mulher do ponto de vista da hierarquia do poder entre os sexos” (p. 68).

Ao discutir a noção de drama social, a autora retoma uma discussão do gênero. Para ela, esta categoria ajudaria a “chegar à compreensão de alguns elementos estruturais que determinam as relações de gênero na favela Beira Rio” (p. 70).

1987

O ano de 1987 já traz algumas alterações no que se refere à utilização e incorporação do gênero como categoria de análise.

Os trabalhos apresentados têm como eixo, por um lado, a reconstituição e/ou o repensar da participação política das mulheres nas mais diferentes esferas (movimentos de mulheres, feministas, partidos, centros comunitários, etc.) na sua construção enquanto sujeito político. Por outro lado, vamos ter vários textos que, trabalhando também com problemáticas diversas, se referem mais diretamente à categoria gênero.

Anette Goldberd, em seu texto “Gênero Mulher — identidade de esquerda: o feminismo das brasileiras no exílio”, aponta como objetivo central de seu trabalho ilustrar duas ideias: “A primeira delas é a de que a consciência de uma identidade de gênero por parte de certas mulheres em determinado momento de suas trajetórias, isto é, a percepção que adquirem quanto ao fato de que os sexos feminino e masculino constituem categorias além de biológicas, socialmente construídas e de que, por conseguinte, elas compartilham com outras mulheres uma série de experiências, problemas e dificuldades específicas e são vítimas de discriminações semelhantes, pode desembocar em distintas orientações” (p. 1).

Lúcia Avelar, em seu trabalho “A participação política da mulher e a ideologia do conservadorismo político feminino — subsídios para novas pesquisas” aponta, em diferentes momentos do texto, para a necessidade de se pensar a diferença de classe e gênero nas diversas formas de participação, bem como o embricamento dessas duas categorias. Para a autora, seria necessário um estudo da participação política das mulheres utilizando como categoria explicativa o gênero: “Ao que tudo indica, existem munros próprios e particulares da ação política feminina, o que significa dizer que há diferenças de gênero na participação que merecem um instrumental teórico e analítico que as considerem” (p. 22)

Um outro texto que aponta para a necessidade de se pensar o gênero é o de Albertina de Oliveira Costa, Carmem Barroso e Cynthia Sarti, “Estudos sobre mulher: militância e pesquisa”. Neste título, que na verdade engloba três textos, um de cada uma das autoras, algumas preocupações mais gerais a respeito da pesquisa sobre a mulher se colocam.

Albertina de Oliveira Costa, em “Baseado e pau-de-arara: memórias do feminismo nos trópicos”, através de entrevistas com participantes do primeiro grupo de mulheres que se reuniram em São Paulo em 1972 para pensar sua condição, composto em sua maioria por intelectuais de esquerda, reconstitui as relações entre as instituições de saber reconhecido e o movimento social. Para a autora, “Foi o movimento social das mulheres que forneceu as bases de legitimação para a construção de uma problemática científica concernente a mulher e posteriormente ao gênero, ou seja, relações sociais entre os sexos. O emergir de uma nova área de estudos têm no feminismo seu parâmetro simbólico” (p. 1).

Concordamos com a afirmação de que a constituição deste campo de estudo sobre a mulher vai sendo construído em paralelo e em estreita relação à construção do próprio movimento social, mas, no nosso entender esta construção de uma problemática do gênero propriamente dito, como a preocupação explícita de se pensar esta relação é bastante recente nos estudos realizados no Brasil. Ela vai ser também um divisor de águas entre uma visão que propõe e defende a criação de um campo específico de estudo sobre a mulher e a que entende ser necessário integrá-la nas Ciências Sociais como um todo.

Carmen Barroso, em seu texto “O descompasso na expansão do Ensino e da Pesquisa”, faz referência a participação dos grupos de mulheres com a “subordinação do gênero” ou a “hierarquia do gênero”, bem como uma tendência (já na década de 80) à institucionalização dos estudos sobre a mulher.

Já Cynthia Sarti em “Pesquisa e feminismo: armadilha em campo confinado”, procura analisar os pontos de tensão existentes na relação entre pesquisa e militância. Para a autora, a preocupação com a mulher no Brasil nasceria a partir do problema de articular classe e gênero, sendo que num primeiro momento a ênfase era à noção de classe, em detrimento da de gênero como categoria explicativa. Com a abertura política nos anos 80 e a volta da exiladas, o movimento de mulheres conquista maior espaço e também a corrente feminista. Nesse período “desenvolveu-se a linha de pesquisas voltadas para o ‘especificamente’ feminino, e ganha espaço o discurso propriamente feminista, para quem o que conta são as relações de gênero” (p. 2).

Mais uma vez, gostaríamos de registrar aqui que a preocupação com a questão das relações de gênero não estava presente de forma clara na formulação do movimento feminista em suas primeiras décadas, e nem tampouco nas pesquisas realizadas sobre o tema mulher. Não se pensava as relações de gênero, se pensava “um dos gêneros”, o feminino, isoladamente. [7]

Um dos textos apresentados no ano de 87 se propõe a refletir sobre os movimentos sociais utilizando o gênero como categoria central de análise. É o de Elizabeth Souza Lobo “Homem e mulher: imagens das Ciências Sociais”. Para ela, gênero seria “o conjunto de representações sociais construídos a partir das condições biológicas das diferenças entre os sexos” (p. 10) e “o interesse em problematizar a constituição dos movimentos a partir de uma problemática de gêneros reside justamente no fato de que sob este ângulo se coloca a questão das relações entre os sujeitos e as práticas sociais. A dinâmica dos movimentos não só rompe com as formas institucionais de reivindicação, mas rompe também com as formas internas de constituição dos grupos em ação na sociedade, estabelecendo novas relações entre indivíduos, grupos e sociedades” (p. 3). a participação das mulheres questionaria então A hierarquia de gênero em vários campos: na família, ao nível do discurso e nos espaços de políticas tradicionais.

1988

É significativo que, no ano de 1988, o tema que reúne os trabalhos do grupo no encontro seja “relações de gênero”. Dos 12 trabalhos apresentados, 6 deles citam o termo gênero. Esse aspecto, do nosso ponto de vista, por si só já explicita uma mudança na trajetória dos estudos sobre a mulher para as relações de gênero. Neste ano, não somente cresce a produção sobre o gênero, como também se aprofunda sua discussão.

No texto de Lourdes Bandeira e Deise Siqueira que trata da relação das mulheres com o tempo socialmente construído e analisa as mudanças no sentido de identidade feminina com a entrada das mulheres no mercado de trabalho, a palavra gênero aparece uma vez, subentendendo que gênero é o gênero feminino:

“Assim, o modêlo de referência grupal no caso do gênero, assenta-se primordialmente na construção de uma representação por uma subjetividade coletiva — as mulheres —, quanto pelo imaginário social, na produção e na reprodução (tempos específicos: ativo x passivo).”

O texto de Maria Filomena Gregori “Violência contra a mulher: a atuação feminista e as vítimas” analiss a questão da violência contra a mulher sob o ponto de vista das relações de gênero, apesar desse talo apenas uma só vez. Ela aplica o conceito na análise como referência para interpretar as relações de violência, mas não usa a categoria como “analisador” para questão. Trabalha a violência contra mulher como um jogo relacional no qual homens e mulheres reproduzem papéis atribuídos aos gêneros. Outra contribuição importante deste trabalho para compreensão dos papéis de gênero é a inserção de categorias do universo mediterrâneo na configuração dos gêneros em algumas regiões brasileiras.

No artigo intitulado “Divisão sexual do trabalho e relação de gênero: anotações sobre o tema”, de Magda de Almeida Neves, a autora, a partir da revisão de um conjunto de trabalhos, elabora os conceitos de divisão sexual do trabalho e relações de gênero. esses estudos como situa A autora se orienta pela perspectiva apontada nos grupos “Sex and Class Group”, na Inglaterra e “Groupe sur la division sociale et sexuelle du travail”, na França, procurando articular a relação família/trabalho, produção/reprodução, relações de sexo/relações de classe e centrando sua análise nas relações sociais entre os sexos.

O que o estudo de alguns desses trabalhos mostra, de acordo com a autora, é que “a divisão sexual do trabalho contém um elemento importante que precisa se tornar visível, qual seja, das relações de gênero”. Essas relações não se caracterizam, para a autora, como “complementares mas sim como de dominação e de poder dos homens em relação às mulheres, relações essas que são construídas socialmente e culturalmente” (p. 20).

O conceito de gênero defendido pela autora apoia-se no desenvolvido por Scott. Esta, de acordo com a autora, critica o uso do termo “como simplesmente sinônimo de mulher, pois para ela implica muito mais, uma vez que as informações sobre mulheres necessariamente envolvem informações sobre os homens”. Para Scott, esta forma de definir o conceito de gênero recusa a separação de esferas e o coloca na perspectiva das relações sociais entre os sexos, uma vez que “o mundo da mulher faz parte do mundo do homem”. Scott chamaria ainda a atenção, segundo ela, para “as representações de poder que estas relações envolvem”. Nesta mesma linha de pensamento, Paola Tabet, conforme ainda a autora, “contesta o caráter natural, esta ideia de complementariedade e reciprocidade na divisão do trabalho”. Sua tese seria de que a divisão do trabalho não é neutra, mas orientada e assimétrica, mesmo nas sociedades pretendidas igualitárias. Tratar-se-ia, neste caso, de uma relação que “não se caracteriza nem pela reciprocidade nem pela complementaridade mas sim pela dominação, e se manifesta objetivamente e constantemente na repartição das tarefas, refletindo as relações de classe entre os dois sexos”. Nestes termos, a autora articula as relações de classe/sexo com as relações de gênero.

O artigo de Elizabeth Lobo, “Os usos do gênero”, se propõe a discutir o gênero como categoria analítica, assim como a pertinência de um campo de estudo sobre a mulher.

A autora situa a construção do gênero como categoria analítica nos impasses dos estudos feministas, centrados, de um lado, na idéia de patriarcado e de outro, na análise marxista da divisão sexual do trabalho.

Esses impasses e seus questionamentos levam “as pesquisadoras feministas a teorizarem o gênero através de incursões antropologia estrutural e na psicanálise, para analisarem justamente o significado social de masculinidade e feminilidade”. Desse modo, o eixo de reflexão nas pesquisas feministas, de acordo com autora, se desloca para a busca dos significados das representações do feminino e do masculino, para “as construções culturais e históricas das relações de gênero” (p. 3).

Nas palavras da autora, “o inventário e a arqueologia deste significados desconstrói o gênero”, ao mesmo tempo que “atualiza uma outra questão: a da relação de gênero como relação de poder” (p. 3)

Citando Joan Scott, a autora encontra as seguintes definições para gênero:

  1. “O gênero como elemento constitutivo das relações sociais baseadas nas diferenças perceptíveis entre os sexos”;
  2. “O gênero como forma básica de representar as relações de poder em que as representações dominantes são apresentados como naturais e inquestionáveis” (p. 3 e 4).

Bete Lobo discute ainda a questão da constituição de um campo de estudos sobre o gênero x estudos sobre mulheres. Para ela, “na medida em que as pesquisas feministas trouxeram uma contribuição à construção do gênero como relação social histórica que implica em relações de poder e que atravessa tecido social, este não pode ser um campo à parte no contexto das relações sociais”. Fundamentando-se ainda em Scott, ela defende a incorporação dos estudos de gênero a outras áreas interdisciplinares, criticando os “guetos teóricos” ou os “estudos sobre mulheres” como disciplina autônoma. O conceito de gênero neste sentido seria pertinente, uma vez que não se apresenta identificado com o tema das mulheres, mas as relações entre os gêneros enquanto relações de poder que perpassam o tecido social e constituem os poderes na sociedade.

Mas a preocupação em trazer a discussão sobre a questão do gênero não se limita ao grupo de “Mulher e Política”. O trabalho de Cynthia Sarty, apresentado no grupo de Família e A, também 1988, intitulado “Reciprocidade e Hierarquia — relações de gênero na periferia de São Paulo” traz uma contribuição fundamental para a questão do gênero.

Sua formulação é da questão do gênero como relacional e hierárquica:

“Encontrei, neste bairro, relações de gênero bastante tradicionais, o velho modelo da autoridade masculina, das relações hierárquicas onde o homem tem precedência sobre a mulher… Minha ideia foi relativizar o significado da subordinação feminina a partir da vivência e das referências culturais próprias a estas mulheres”.

Em torno do gênero

Nos estudos sobre a mulher no Brasil, parece haver uma linha evolutiva que vai da “condição feminina” as “relações de gênero” passando pelos “papéis sexuais”. Num rápido olhar sobre a utilização desses conceitos, se pode observar que os primeiros estudos, ao falar da condição feminina, isolavam a mulher de seu contexto relacional. Estudos que parecem muito influenciados pela própria prática do movimento feminista da “não mixidade”, onde se “procurava dar voz às mulheres”, “fazer emergir a mulher de seu papel de oprimida” [8].

O momento onde começa aparecer o conceito de gênero é um momento onde aparece junto a preocupação em relativizar este isolamento da condição feminina. Um dos primeiros textos publicados no Brasil que tem como preocupação recuperar um pouco da sua trajetória e que, de alguma maneira, abre caminho na perspectiva de uma reflexão sobre a assimetria das relações homem/mulher é o texto de Bruna Franchetto, Maria Laura Cavalcanti e Maria Luiza Heilborn “Antropologia e Feminismo” (1982).

A partir da análise dos textos da ANPOCS, é em 87 que esta preocupação começa a tomar corpo, através da utilização do termo “gênero”. Em 88, uso da categoria gênero passa a ser um dos elementos definidores dos estudos sobre mulher no Brasil. Coisa que se evidencia pela realização de um grupo de trabalho sobre “Representação e a questão do gênero” na Associação Brasileira de Antropologia e em uma das sessões do encontro comemorativo dos 10 anos do grupo “Mulher e Força de Trabalho”. O uso da categoria gênero se torna um divisor de águas entre as pesquisadoras da área. A tendência de 88 se reafirma claramente em 89, com inúmeros trabalhos que estão sendo apresentados na ANPOCS, tanto no grupo de “Mulher e Política” quanto “Mulher e Força de Trabalho”, assim como nos vários encontros e seminários que tratam da questão da mulher.

O levantamento dos textos analisados nos deixou claro que a discussão sobre o gênero é bem recente nos estudos sobre a mulher no Brasil, deixando a impressão que até o momento, salvo algumas exceções, ela é mais verbalizada do que utilizada concreta e explicitamente como categoria de análise.

Esse uso crescente do conceito de gênero nos últimos anos revela uma preocupação em relativizar o isolamento e a naturalização da “condição feminina” presente nos estudos anteriores. No entanto, a análise dos trabalhos apresentados deixa a impressão que, mesmo quando as relações são colocadas em termos de gênero, o uso deste conceito ainda aparece impregnado dos enfoques anteriores, ou seja, gênero é usado em vários momentos como sinônimo de “papéis sexuais”, ou de “mulher” (universal e no singular). Na verdade, parece ter acontecido uma incorporação e uma generalização do uso do conceito, sem a contrapartida do desenvolvimento de um estudo mais analítico sobre o uso e o seu significado (uma tentativa neste sentido é o texto de Bete Lobo). Não é gratuito o fato de que os textos que servem como referência teórica para pensar a questão não foram traduzidos nem publicados no Brasil (um dos textos é a coletânea Mulher, Cultura e Sociedade, cuja tradução brasileira está incompleta). Na verdade, parece haver um vácuo entre um primeiro momento em que esta discussão chega no Brasil e passa num primeiro momento a ser assumida pelo uso sistemático do conceito de gênero, e num segundo momento incorpora a polêmica sobre se os estudos sobre o gênero devem se constituir numa área a parte ou não. Esse descompasso entre o número de trabalhos e de estudiosas da questão da mulher que hoje adotam o conceito de gênero e a escassa produção teórica é um dos motivos que levam à perda de referências no uso do conceito, e que acaba confundindo muitas vezes com o próprio enfoque que o conceito de gênero procura rever.

Pode-se constatar que os estudos apresentados desde 87 no grupo de “Mulher e Política” da ANPOCS usam como fonte teórica principal as pesquisas na área de história social de Joan Scott e Michelle Perrot, entre outras (sendo que esta última não chega a utilizar o conceito de gênero). Esta referência, no entanto, aparece como implícita mas é pouco elaborada no sentido de trabalhar a dimensão toda que envolve a categoria gênero.

Mesmo tendo surgido a partir de fontes ligadas a diferentes áreas de conhecimento, a adoção do conceito de gênero nos estudos sobre a mulher veio no sentido de construir uma categoria que desse conta das novas questões colocadas neste campo de estudo. Essas questões estavam ligadas à crítica dos enfoques tradicionais que, ao mesmo tempo, naturalização e congelavam a “condição feminina”. Na introdução ao Sexual Meanings, Ortner e Whitehead definiam as noções ligadas ao que é gênero como “produtos de processos sociais e culturais” assumindo a visão radical de sexo e gênero como “construções culturais”. Esta noção implica em duas outras premissas que define mais precisamente o significado do gênero. De um lado, a ideia de que as identidades de gênero constroem-se de forma relacional, ou seja, pelo contraste permanente com o outro. De outro lado, como decorrência, a ideia de que, pelo fato das relações entre homens e mulheres, e as representações que fazem dessas relações, não serem estanques mas dinâmicas, o gênero é também mutável e conjuntural. A aceitação dessas duas premissas não só coloca o limite na utilização do conceito de gênero como substituto da ideia de “condição feminina” como põe em questão a noção de “feminino” como algo substancializável, ou que possa existir por si só.

A partir daí, uma segunda questão se coloca, ligada à definição de quais são as fontes fundamentais para a constituição do gênero. Constatamos que, por trás das diferentes visões sobre se as noções culturais de gênero são construídas ao nível do parentesco e da família partir da noção central de “troca de mulheres” (Rubin:1985), ou se o sistema de gênero é um “sistema de prestígio” (conforme Ortner e Whitehead:1981), encontra-se uma única noção comum: a de hierarquia. Consideramos que a noção de hierarquia é uma chave central para se compreender o sentido da noção de gênero.

O conceito de gênero: um novo “coração de mãe” nos estudos sobre a mulher?

A resposta final é esta interrogação ainda não está formulada. Por um lado, porque o contato mais aprofundado com o tema nos remeteu para sua amplitude e complexidade e, por outro, pelos limites colocados num trabalho deste tipo. Mas, podemos afirmar que gênero é um “coração de mãe” por ser um conceito gerado e utilizado nas mais diversas áreas de conhecimento e que oferece a possibilidade de uma prática tão falada e pouco exercida: a interdisciplinaridade. O risco que se corre com um “coração de mãe” é nele se incorporar tudo e todos sem critérios. Para que isso não ocorra, é necessário que se desenvolva e amplie o debate teórico.


Notas

[1] O Núcleo de Estudos da Mulher e Relações Sociais de Gênero da USP e o Instituto de Estudos Interdisciplinares sobre Relações Sociais de Gênero em São Paulo São dois grupos já reconhecidos. Em Florianópolis, ainda estamos discutindo se nosso Núcleo de Estudos da UFSC deve se denominar “da mulher” ou de “relações de gênero”.

[2] Também faremos algumas referências a estudos discutidos em outros grupos que tratam da questão. Fizemos também uma análise das pesquisas financiadas nos primeiros concursos da Fundação Carlos Chagas (78/80/82). Constatamos que alguns buscam resgatar a visibilidade da mulher na História Brasileira, e outros já trabalhavam com noções de representações e imagens da mulher, apontando para uma das dimensões que o conceito de gênero remete, sem no entanto trabalhar com a categoria.

[3] As principais autores que defendem a escritura feminina são Helene Cixous e Annie LeClerc.

[4] Resumindo estas categorias:

  1. Atribuição de gênero — primeiro critério que vai determinar o núcleo e o assinalamento que médicos e familiares dão à criança ao nascer.
  2. Núcleo de identidade de gênero — é o sentimento mais primitivo, consciente e inconsciente, de posse de um sexo e não de outro.
  3. Papel de gênero — conjunto de prescrições e proscrições para uma determinada conduta, pois a criança aprende a discriminar as relações de gênero que correspondem aos comportamentos aprovados e também aprende a empregar tal etiquetação para si mesma, e seu processo será reforçado ou desaprovado por seus pais.

[5] Maiakovski, que trata a sexualidade, Murdock, que traz comparações transculturais e Margaret Mead, no seu estudo clássico sobre os povos da Melanésia.

[6] Ver, entre outros, Rosaldo e Lamphere (1979).

[7] Isso pode ser constatado em algumas teses sobre o feminismo no Brasil, como a de Heloísa Fontes — “Do palco aos bastidores”, Unicamp, 1986; Sônia Miguel — “Feminismo: um olhar para dentro”, UFSC, 1988; Miriam Grossi — “Discours sur les femmes battues: representations de la violence sur le femmes au Rio Grande do Sul, Paris, 1988.

[8] A este respeito, ver o interessante artigo de Strathern (1987) sobre a relação de sua produção acadêmica vinculada ao movimento feminista.


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GRUPO EM CANTO

O Grupo Em Canto é formado por quatro pesquisadores que moram no Canto da Lagoa da Conceição em Florianópolis: Marilda Gonçalves da Silva, Miriam Pillar Grossi, Sônia Malheiros Miguel e Sônia Weidner Maluf.