A Promessa da Extrema-Direita para as Mulheres [RESUMO]

Adaptado de: DWORKIN, Andrea. “The Promise of the Ultra-Right”. In: Right-Wing Women. Nova York: Perigee Books, 1983. P. 13-35.


Andrea Dworkin, autora de Right-Wing Women.

Socialmente, as ações de homens e mulheres são valoradas de forma diferente, sempre colocando mulheres em posições subjugadas. Elas são vistas, portanto, como “biologicamente conservadoras”. A ideia de que mulheres têm filhos porque por definição mulheres podem ter filhos, tomada como fato, pensa o ato de ter filhos (e as obrigações que vêm com isso) como instintivo e inerente às mulheres. Se o estado atual de coisas é supostamente mais seguro para as mulheres terem filhos, então isso seria melhor que os potenciais perigos da mudança.

Segundo os homens que filosofaram sobre o assunto, o imperativo biológico devido ao potencial reprodutivo das mulheres se traduz em mentes estreitas, vidas sem muito significado e, por conseguinte, puritanismo. Resultado dessa ideia: mulheres obrigadas a terem filhos, com exceção de alguns curtos intervalos onde os homens ficam meio desorientados — o exemplo dado no texto é o que resulta do sexo depois de certas revoluções.

Mulheres de todo o espectro político apoiaram conflitos onde seus filhos acabam mortos. Essa contradição mostra como a realidade das mulheres vai contra as teorias criadas sobre elas. Mas as mulheres enquanto classe acabam aderindo a normas e tradições de seu contexto social; se rebelar ao credo dos homens em volta delas é perigoso. A aquiescência das mulheres se dá em razão de conseguir alguma proteção da violência masculina para si mesmas.

Às vezes, essa conformidade é militante: provando sua fidelidade a estes princípios, ela pode encarnar a puta feliz ou a puritana fervorosa. Isso raramente a salva, contudo. Mas reconhecer essas traições dos homens pode ser o prego no caixão dessa mulher: confrontar a violência pode levar a mais violência. A luta é sempre contra “algo pior” que sempre tem a possibilidade de ocorrer, e a maioria das mulheres não tem condições de se dar ao luxo de reconhecer que não existe nível suficiente de lealdade aos homens.

Geralmente, as mães criam suas filhas para se conformarem aos valores ideológicos dos homens à sua volta, independente de orientação política. A maioria das meninas não quer a vida da mãe, mas às vezes acaba se conformando dada a violência masculina à volta dela. Mesmo quando se rebela, a filha acaba reproduzindo os padrões de sua mãe, e assim os homens acabam conseguindo atar mulheres em seu lugar de subjugação através de culpa e ressentimento.

Os homens sempre criam “tipos” de mulheres para odiarem e fazerem piadas internas. A caricatura da “mulher burguesa”, megera vaidosa que abusa da paciência do marido bondoso, por exemplo, está na boca de todos eles independente de classe social. Falar mal desse espantalho de mulher é instantaneamente gratificante aos homens. Outros tipos desses são a mãe judia castradora, a mulher negra matriarca raivosa, a lésbica que na verdade é frustrada porque queria ser um homem etc.

A maior piada entre os homens e a maior ofensa a uma mulher é reduzi-la ao seu sexo: a mulher é uma boceta, é um útero, e todo o resto do seu corpo (principalmente o que o caracteriza como humano) é cortado fora como inútil. A obcenidade favorita entre os homens é esse ser desmembrado.

Toda mulher, independente de sua condição, luta contra isso com todos os recursos de que dispõe, e eles são muito poucos. Por causa disso, elas sempre se agarram com todas as forças às próprias estruturas de poder que as degradam. É uma fidelidade cravada no auto-ódio, e é isso que define a própria feminilidade no contexto da dominação masculina.

O medo que Marilyn Monroe tinha de atuar a paralisava, independente de ela se saber capaz disso. No entanto, a atuação da atriz se dá dentro das espectativas dos homens que controlam os processos do audiovisual. O medo de Marilyn Monroe poderia estar ligado ao fato de ela mesma não estar convencida do papel de mulher que deram para que ela representasse. A morte de Monroe provocou nos homens que fizeram uso sexual dela ou de suas imagens o questionamento de que talvez ela não gostasse de todas as coisas que eles faziam a ela — é daí que viriam, talvez, os rumores de que ela poderia não ter se matado. A ilusão dela enquanto mulher ideal era encantadora demais para esses caras.

Mulheres morrem sozinhas e solitárias, sorrindo até o momento final, tentando encarnar a fantasia masculina que se coloca sobre elas. Talvez se elas fossem a mulher perfeita — esposa perfeita, puta perfeita, mãe perfeita —, talvez não sofressem tanto. Elas morrem não insatisfeitas com o que fizeram com elas, mas por não terem conseguido encarnar o papel imposto a elas pelos homens. Sua própria sobrevivência depende disso.

A sobrevivência das mulheres, portanto, é prometida em troca de sua conformidade com as correntes que as prendem. Elas não podem fazer nada que as destaque individualmente, que chame atenção predatória sobre si. Elas acabam esperando que essa atenção masculina destruidora caia sobre outra mulher, menos hábil em se conformar, que não elaa.

As histórias de violência sobre as mulheres são dispensadas e ridicularizadas como se fossem nada até mesmo por aqueles que dizem se importar. Para reconhecer a realidade e a validade das queixas das mulheres é preciso antes reconhecer a existência daquela pessoa. Nem homens nem mulheres acreditam da existência das mulheres enquanto seres dignos. Se as mulheres negam a validade de sua própria experiência vivida, elas não têm como reagir.

Para buscarem seu próprio valor, as mulheres acabam se aliando aos homens e aos seus valores. E se os homens demandam obediência delas, elas irão valorar sua própria existência enquanto servas deles, e não irão reconhecer o roubo da sua dignidade realizados por eles.

A direita nos EUA atua sobre as mulheres através da propagação do medo de que a violência masculina é imprevisível e incontrolável. Sua promessa se baseia na restrição dessa violência oferencendo:

  • Forma: os homens moldam as mulheres através da ignorância, do não cultivo de suas capacidades físicas e intelectuais.
  • Abrigo: a direita promete proteger as mulheres através da crença de que uma mulher sem um homem (ou sem uma família, um lar) está completamente à mercê dos perigos da vida.
  • Segurança: em um mundo indubitavelmente violento com mulheres, a direita promete que, se a mulher se comportar direito nenhum mal cairá sobre ela.
  • Regras: ignorantes em um mundo construído por homens, mulheres devem seguir regras para bem viver; a direita promete a elas um bom comportamento da parte dos homens, mas sem nenhuma garantia.
  • Amor: o conceito de amor é crucial na aliança das mulheres; uma mulher será amada (e recompensada com a proteção do homem ou de deus, sendo Jesus o único homem a quem ela pode se submeter sem medo de ser violada) se for obediente em cumprir suas funções de mulher (maternidade e servitude sexual).

Jesus jamais é enxergado como um filho perfeito, ele é apenas uma outra encarnação do deus-pai. E as mulheres passam a vida tentando agradar esse homem ideal, sofrendo com seu próprio apagamento no processo. Jesus é o modelo de homem perfeito que as mulheres devem projetar sobre todos os outros, e através do qual as mulheres perdoam as faltas e abusos deles. As mulheres também são levadas a creditar ao próprio espírito santo qualquer lampejo seu de inventividade intelectual.

O casamento é a esfera onde, com a força da religião, as mulheres devem tolerar a servidão e levantar as barreiras de sua resistência. O desejo de servir Cristo leva as mulheres à conformidade e a realizarem as vontades de seus maridos. E a autoridade paterna sobre os filhos é o que justifica algum grau de violência física dentro da família e da vida doméstica.

Essa tentativa de se tornar perfeita aos olhos dos homens e de deus pode levar as mulheres a se verem e agirem como “one of the boys“. Assim, mulheres acabam lutando contra seus próprios interesses na tentativa de alcançar suas ambições individuais. Porém, eventualmente elas acabam descobrindo que são também mulheres e não têm acesso aos altos escalões. Mas é através da manipulação dessa habilidade desenvolvida nas mulheres de respeitarem aqueles que as usam que muitas dessas advogadas do antifeminismo conseguem converter outras mulheres à direita.

As mulheres da direita temem as lésbicas. A fantasia que elas criam entorno das lésbicas é que elas são estupradoras e abusadoras de crianças, independente da falta de qualquer evidência para embasar isso. O abuso cometido pelos homens acaba normalizado por ser heterossexual, enquanto que o desejo homossexual das mulheres é visto como monstruoso.

O aborto para as mulheres da direita, uma vez que elas abdicam de seu próprio valor, valorando mais um óvulo fertilizado que uma mulher adulta, é equivalente ao assassinato de crianças. Os fatos sobre o aborto — realizado principalmente por mulheres mais velhas com filhos, e que a ilegalidade do procedimento leva muitas à morte — não as convencem. O aborto seriam então um ato de mulheres cruéis e sem deus, o exato oposto delas mesmas. O reconhecimento do direito ao aborto seria, portanto, o reconhecimento da desigualdade de condições da mulher que é obrigada a parir um filho indesejado. Reconhecer que mulheres não queiram parir filhos indesejados é devastador para essas mulheres.

A direita americana é um movimento social e político quase que controlado totalmente por homens, mas contruído sobre a ignorância e os medos das mulheres, ambos consequências da dominação dos homens. Os sentimentos conflitantes, resultados dessa experiência de dominação, acabam projetados em outros, em estrangeiros, nos diferentes, não não-cristãos. Isso pode resultar em nacionalismo, racismo, homofobia e desprezo por aquelas mulheres que não tiveram tanta sorte — grávidas na adolescência, mulheres prostituídas etc.

Elas se apegam a esses ódios irracionais temendo danos aos seus, e projetando o medo em um “mal maior”. Uma vez não têm meios de externar essa raiva, acabam se tornando odiadoras obedientes e manipuláveis. Esse comprometimento com sua própria sobrevivência individual leva mulheres a não reconhecerem que estão jogando contra si mesmas. Com sorte, sua própria experiência da realidade pode levá-las a questionar sua posição inferior. Independente das crenças ideológicas de origem masculina que as mulheres possam adotar, essa é uma luta compartilhada por mulheres de todo o espectro político.

Um chamado às feministas para se lembrarem da natureza sexual da opressão das mulheres

O real brilhantismo do patriarcado… é que ele não apenas naturaliza a opressão. Ele sexualiza atos de opressão. Ele erotiza a dominação e a subordinação. Ele os institucionaliza como masculinidade e feminilidade. Então, ele naturaliza, erotiza e institucionaliza a dominação e a subordinação. O brilhantismo do feminismo é que nós descobrimos isso.

Lierre Keith

Nos últimos meses muita legislação tem passado ou foi proposta nos Estados Unidos e em outros lugares o suficiente para indicar uma assustadora escalada na guerra — sim, é uma guerra — contra as mulheres. O parlamento Russo acabou de votar a 380-3 para descriminalizar a violência doméstica. Trata-se de um país onde em média 40 mulheres por dia — 14.000 mulheres por ano — são mortas por seus parceiros homens. Os Estados Unidos, onde 1.000 mulheres são mortas por seus parceiros por ano, acabou de eleger um presidente que diz que “quando você é uma estrela, elas deixam você pegá-las pela buceta”, está envolvido com pornografia e tráfico sexual. Ele planeja eliminar o financiamento a 25 programas de combate a violência doméstica e está ordenando às funcionárias mulheres para que “se vistam como mulher”. O estado do Texas está pensando em retirar os direitos eleitorais de mulheres que fizeram aborto; o estado do Arkansas quer permitir a estupradores que processem mulheres por abortar.

Todas essas empreitadas se baseiam, é claro, em uma noção há muito estabelecida de que mulheres são propriedades dos homens. O estigma do aborto se baseia na ideia de que as mulheres não criam a vida humana através de um processo de dez meses de gestação e trabalho; seriam os homens a ejacular vida nas mulheres, e as mulheres, como incubadoras reguladas pelo estado, são obrigadas a levá-la a termo. A violência doméstica, a indústria da pornografia e da prostituição que abastecem o tráfico sexual, normas de vestimenta, tudo isso se baseia no mesmo princípio do merecimento sexual dos homens. Não surpreende que os comentadores estejam comparando essa tendência atual a O Conto da Aia de Margaret Atwood; uma nova era de regras e normas mais ortodoxas e estritas para as mulheres do Ocidente. Tudo isso justificado através dos mitos de que as mulheres são biologicamente predispostas a essas regras e normas.

Dada a situação que enfrentamos, é alarmante confrontar a realidade de que a esquerda é tão mal preparada e indisposta a discutir a opressão das mulheres quanto a direita conservadora. Hoje em dia, noções como a de “identidade de gênero” por exemplo, ameaçam engolir a compreensão coletiva das mulheres a respeito do todo da opressão baseada no sexo. A ideologia da “identidade de gênero” afirma que gênero é uma questão pessoal de identificação, e que o sexo biológico de alguém pode ser trocado e mudado à vontade. “Cis” é uma palavra que as mulheres estão adotando cada vez mais como sinal de sua compreensão de que possuem o “privilégio” de ter sua identidade de gênero em conformação com seu sexo biológico. Ao mesmo tempo, é claro, mulheres estão sofrendo pressão para engolirem a ideia de que o sexo biológico propriamente dito não é real.

A questão é que ser fêmea é algo muito real, e que ser consequentemente generificada como mulher também é — e não se trata de uma forma de privilégio. É uma forma de opressão que as mulheres têm resistido desde a criação do patriarcado. Ao oferecer uma curta história do sistema ocidental canceroso e globalizado de objetificação sexual sob o qual vivemos hoje, espero oferecer aqui um pequeno lembrete disso. Esse ensaio busca resgatar o desenvolvimento da opressão baseada no sexo desde as suas raízes, passando pela caça às bruxas, ao comércio de escravos, à patologização dos corpos das mulheres na ginecologia, e às reações à insurgência feminista recente.

Matricentralidade e a criação do patriarcado

Apesar da insistência ortodoxa de que a dominação dos machos reflete simplesmente a ordem “natural” das coisas, o patriarcado é apenas um desenvolvimento relativamente recente na história da humanidade. Durante 99% de nossa existência, os humanos não viveram sob o domínio patriarcal. A autora feminista Marilyn French chama os grupos de parentesco matrilineares de subsistência horticulturais que existiram amplamente antes do desenvolvimento do patriarcado de matricêntricos; Audre Lorde escrever sobre os cultos a deusas como Afrekete, Iemanjá, Oyo e Mawulisa; o filme Woman Shaman de Max Dashu explora a arte e os achados arqueológicos que restaram dessas culturas matricêntricas ao redor do mundo.

Imagem: Max Dashu

History of Women de French e The Creation of Patriarchy de Gerda Lerner são textos incríveis sobre os processos históricos por meio dos quais os homens criaram o patriarcado que forma a base da sociedade ocidental. Isso aconteceu ao longo de aproximadamente 2500 anos, desde cerca de 3100 a.C., durante a revolução agrícola. De acordo com Lerner, a transição de um modo de vida de subsistência para a agricultura significou que as crianças se tornaram um ativo econômico, uma fonte de trabalho — e as mulheres se tornaram a primeira forma de propriedade privada.

French mostra como a dominação masculina foi primeiramente afirmada através de reivindicações paternais de posse e direito de nomear filhos. O assassinato dos primogênitos era comum nos primeiros grupos patrilineares, quando homens queriam garantir que o primeiro filho de suas esposas eram realmente “seus”. O fato de o aborto ainda estar na legislação criminal da Nova Zelândia é uma expressão contemporânea da presunção de que a vida humana é feita por e pertence aos homens. Em 2016, a Organização Mundial da Saúde também santificou os “direitos” dos homens sobre as crianças através de uma nova política declarando que a incapacidade de encontrar um parceiro sexual é uma “deficiência”.

Com a apropriação do controle sobre os filhos, a instituição do casamento progressivamente se tornou uma prática que comodifica, desempodera e isola mulheres de suas famílias e comunidades. Para colocar em perspectiva, o estupro dentro do contexto do casamento não era ilegal na Nova Zelândia até 1985.

Com a instituição do casamento veio o dote, e o maior valor no que diz respeito a ter filhas mulheres vinha de seu potencial enquanto esposas; “roubo de noivas” e “defloração ritual” eram comuns, como ainda são hoje no Quirguistão, por exemplo. As “esposas” raptadas são em geral crianças, e hoje uma média de 15 milhões de meninas por ano são forçadas a casar. Em 2013, uma garota iemenita de oito anos morreu de sangramentos internos na noite em que foi casada com um homem cinco vezes mais velho. É isso que o patriarcado faz às meninas.

Uma das práticas que melhor exemplifica a comodificação através do casamento é o costume indiano do suttee, banido legalmente apenas em 1829. Essa prática envolvia queimar vivas as viúvas, incluindo garotas sequestradas como esposas, nas piras funerárias de seus maridos. O mito de que meninas e mulheres perderam seus maridos como resultado de seu próprio carma ruim motivava a prática. Como este era para ser um ritual de “limpeza”, os homens tipicamente evitavam queimar mulheres enquanto elas estivessem menstruadas, e esperavam dois meses depois do nascimento de uma criança se ela estivesse grávida. Incontáveis mulheres poderiam ser queimadas depois da morte de um único homem da realeza.

Depois de os homens terem se apropriado das mulheres e da esfera doméstica, o estatuto das mulheres foi futuramente institucionalizado e codificado como lei através da construção das religiões monoteístas, do estado, e do desenvolvimento da prostituição comercial. Se alguém tentar te dizer que a prostituição é “a profissão mais velha do mundo”, estarão sendo condescendentes e essencialistas: como Max Dashu mostra, mulheres praticavam a medicina muito antes de os homens se darem conta de como objetificar e lucrar com as mulheres através da prostituição. Lerner discute como a burqa, o costume de as mulheres usarem véu, foi criado para ajudar os homens a distinguir entre as mulheres “respeitáveis e não respeitáveis”, entre as esposas e as mulheres na prostituição.

Como escreve Moana Jackson, a colonização sempre acontece com com uma tomada da memória histórica, saqueada de forma que um vasto silêncio se prolifera. “Algumas vezes, esse silenciamento é descrito como uma amnésia social”, diz Jackson, “na qual o passado sumiu das mentes quase como um esquecimento acidental e sem culpados que ocorre com a passagem do tempo”. O que realmente acontece porém, diz ele, é que as histórias são conscientemente redefinidas de modo que ficam “na cara” das realidades políticas e sociais dos colonizados. O mesmo se aplica às mulheres. Hoje, poucas de nós sabe sua história — seja a da nossa opressão ou da nossa resistência a ela, uma vez que a história é contada pelos patriarcas. Mas podemos retomá-la.

A queima das bruxas e a ginecologia

A “pérola”. Durante a caça às bruxas, os torturadores aqueciam essa ferramenta no fogo e então a enfiavam nas vaginas das mulheres, abrindo lá dentro as suas peças. Imagem da autora.

As mulheres continuaram a praticar amplamente a medicina na Europa até o chamado período do “Iluminismo”. Entre o Império Romano e este período, a caça às bruxas e o seu “mito da feminilidade maléfica” resultaram no assassinato de 9 milhões de pessoas, a maioria delas mulheres, ao longo de 300 anos. A história se lembra deste esforço de 300 anos, quando se lembra, como uma espécie de episódio isolado de loucura supersticiosa (pense no The Crucible de Arthur Miller). Escritoras feministas como Mary Daly, Andrea Dworkin e Max Dashu oferecem outra versão.

Dworkin escreve que muitas das mulheres tidas como bruxas eram praticantes de medicina, uma verdade que ainda existe na nossa memória cultural, de forma distorcida e corrompida, no estereótipo da bruxa dos sapos e caldeirões. Mas estas não eram mulheres más de cara esverdeada. De acordo com Dworkin, eram parteiras, principalmente, uma vez que mulheres educadas realmente ofendiam a Igreja.

As bruxas utilizavam drogas como a beladona e acônito, anfetaminas orgânicas e alucinógenos. Elas também foram pioneiras no desenvolvimento de analgésicos. Elas realizavam abortos, providenciavam toda a ajuda médica necessária para realizar partos, eram consultadas em casos de impotência que tratavam com ervas e hipnose, e foram as primeiras praticantes da eutanásia.

Anna Göldi é tida como a última mulher executada como bruxa na Europa. Ela era a empregada de um médico, que a acusou de colocar agulhas nos pães de seus filhos através de meios sobrenaturais. Depois de tentar escapar do julgamento, ela foi capturada e decapitada na Suíça em 1782.

Em seu livro Gyn/Ecology, Mary Daly aponta como a ginecologia foi estabelecida como uma prática governada pelos homens depois do tempo da queima das bruxas. O ano de 1873 marca a publicação da invenção da castração feminina de Robert Battey: a remoção dos ovários das mulheres para a “cura da insanidade”. Desde então, os homens ginecologistas têm rotineiramente patologizado, torturado e ferido cirúrgica e medicamente as mulheres e seus corpos através de práticas violentas de parto, mastectomias e histerectomias radicais, “terapias” de choque e hormonais, e lobotomias.

Imagem da autora

Desde os anos de 1890, houve um interesse louco em úteros mecânicos ou prostéticos feitos de madeira e vidro (“mães artificiais” ou “incubadoras”) — tecnologias que tentavam desafiar a indispensabilidade dos corpos das mulheres. Nessas incubadoras nós podemos ver que a pressão atual dos transativistas em neutralizar e desumanizar a linguagem da gravidez e do parto, e separar a conexão dos corpos das mulheres de sua saúde, possui ecos através da história.

Daly aponta que a tomada do controle da saúde das mulheres pelos homens depois da caça às bruxas não foi coincidência:

Muitas feministas notaram a significância do fato de que o massacre das mulheres sábias e curandeiras durante a caça às bruxas foi seguido de um crescimento no número de homens parteiros, que eventualmente se tornaram dignificados pelo nome de “ginecologistas”. A ginecologia demorou a crescer. Os homens parteiros dos séculos dezesseis, dezessete, dezoito e dezenove foram combatidos pelas mulheres parteiras, tais como Elizabeth Nihell, que discreveu seus instrumentos como “máquinas da morte”. Mesmo assim, o século dezenove viu a ereção da ginecologia sobre montes de corpos de mulheres mortas.

O acúmulo de abusos

J. Marion Sims, “o Pai da Ginecologia Moderna”, usou mulheres afro-americanas escravas para conduzir seus experimento cirúrgicos. Sims fez experimentos em mulheres negras para pesquisar doenças como câncer — sem prover anestésicos ou outros remédios para controlar a dor. Caso uma mulher morresse das complicações ou por sangramento excessivo, ele simplesmente substituiria ela por outra escrava, e sua prática era completamente legal.

Harriet Tubman. Imagem da autora.

O acúmulo de opressões sobre as mulheres negras é o tópico do livro Mulher, Raça e Classe de Angela Davis. Nele, Davis discute a experiência das mulheres negras durante o tráfico escravagista; incluindo Harriet Tubman (foto), que resgatou mais de trezentas pessoas através da Underground Railroad e foi a única mulher nos Estados Unidos a liderar tropas em uma batalha.

As mulheres negras, segundo Davis, tinham de trabalhar tão duramente quanto os homens nas plantações, performando as mesmas tarefas independente dos mitos que o patriarcado perpetua sobre as mulheres.

As mulheres não eram femininas demais para trabalhar em minas de carvão, nas fundições de ferro ou para serem lenhadoras ou escavadoras de valas. Quando o canal Santee foi construído na Carolina do Norte, mulheres escravizadas eram cinquenta porcento da força de trabalho.

As mulheres eram também escravas sexuais, além disso. “Se as punições mais violentas dos homens consistiam em flagelos e mutilações”, escreve Davis, “as mulheres eram flageladas e mutiladas, bem como estupradas”. Os homens brancos também viam as mulheres negras como “matrizes”:

Durante as décadas que precederam a guerra civil, as mulheres negras foram crescentemente avaliadas em função de sua fertilidade (ou falta dela): aquela que era potencialmente mãe de dez, doze, quatorze ou mais se tornava um tesouro cobiçado. Isso não significava, porém, que como mães as mulheres negras desfrutassem de um status mais respeitável do que o que desfrutavam enquanto trabalhadoras. A exaltação ideológica da maternidade — tão popular no século dezenove — não se estendia às escravas. De fato, para os proprietários de escravos, as mulheres escravas não eram mães; eram apenas instrumentos para a garantia do crescimento da força de trabalho. Elas eram “parideiras” — animais cujo valor monetário pode ser calculado precisamente em termos de sua habilidade de multiplicar seus números.

Uma vez que as mulheres escravas eram consideradas “parideiras” ao invés de “mães”, seus filhos ainda crianças poderiam ser vendidos e tirados delas como novilhos das vacas.

Imagem da autora

Este é outro motivo pelo qual devemos olhar com desconfiança para a introdução de termos como “menstruadores” e “incubadores” na linguagem da saúde da mulher, da gravidez e do parto como resultado da ação do transativismo hoje. Estes termos possuem uma história, e estão ligados especialmente ao tratamento desumanizador da escravidão sexual das mulheres negras. O documentário Google Baby mostra como como as mulheres são atualmente forçadas a tolerar uma vida sob o tratamento de “incubadoras” em clínicas de barriga de aluguel na Índia, muitas vezes dando à luz a bebês brancos feitos com o uso de óvulos e espermatozoides de doadores externos. O tratamento de linha de produção que as mulheres que dão à luz a bebês em clínicas de barriga de aluguel recebem é de dar arrepios, mas o mercado prevê 12 mil estrangeiros por ano indo à Índia para alugar úteros, em geral de mulheres pobres, em uma indústria de valor anual de US$ 1 bilhão.

Uma expressão de colonização racista e patriarcal tão dolorosa e brutal quanto as clínicas de barriga de aluguel na Índia seria difícil de encontrar, se não fosse pela mais velha das opressões: a prostituição. Hoje, 80% das pessoas usadas na prostituição são mulheres, 98% das quais são vítimas do tráfico sexual. Quase todos os prostituintes são homens e o tráfico sexual gera aos homens US$ 32 bilhões por ano. Uma crescente indústria de pornografia violenta acumula cerca de US$ 97,06 bilhões, o que é mais que o lucro combinado das 10 maiores companhias de tecnologia. A mais recente “tendência” na pornografia é a de mulheres sendo analmente estupradas até que sofram prolapso retal (“rosebudding“). Mesmo assim, a Anistia Internacional mostrou seu apoio a esta indústria, submetendo-se às pressões de prostituintes influentes.

Como Cherry Smiley aponta, as mulheres indígenas são mais desproporcionalmente afetadas. Na Nova Zelândia, 15% das mulheres são maori. Em nosso país onde o comércio sexual é completamente descriminalizado, 32% das pessoas prostituídas são maori. Existe uma narrativa ganhando força na Nova Zelândia, sem dúvida abastecida por homens brancos administrando os programas no Coletivo de Prostitutas da Nova Zelândia (NZPC), de que criticar a prostituição é racista por causa das mulheres maori e do Pacífico na indústria. Lembre-se que a demanda por esta indústria vem de homens brancos ricos. Em 2017, os liberais ainda estão sendo doutrinados a acreditar que mulheres indígenas são de alguma forma inatamente pré-dispostas a serem sujeitas a abusos de homens brancos ricos.

O livro de Angela Davis aponta não apenas como as mulheres negras têm sido afetadas pelo acúmulo das opressões de raça, classe e baseadas no sexo, mas que também tiveram que lutar mais arduamente por representação política, mesmo dentro dos movimentos de resistência. Seu livro mostra a interseção entre os movimentos abolicionista pelo fim da escravidão e a primeira onda do feminismo; nenhum dos quais tendo sido suficiente para representar o jugo das mulheres negras. Sojourney Truth lutou com as feministas brancas da primeira onda, assim como bell hooks com as da segunda. Hoje, novamente vemos um movimento de classe média branca liberal que marqueteia um liberalismo identitário chamado “sex positive” como feminismo. Isso aconteceu porque a reação a cada onda feminista assegurou que o feminismo mainstream sairia do outro lado domesticado, branqueado e sexualizado.

Sexologia, pornografia e feminismo

Em seu ensaio Sexology and Antifeminism, Sheila Jeffreys descreve como a “disciplina” da sexologia foi construída como uma reação à primeira onda das feministas sufragistas.

Esse período, imediatamente depois da Primeira Guerra Mundial, foi um tempo no qual muitas mulheres tinham uma considerável maior liberdade e independência do que jamais tiveram. O fato de que grandes números de mulheres não estavam se casando, estavam escolhendo ser independentes, e estavam lutando contra a violência masculina causou considerável preocupação. Essa preocupação é aparente na literatura da sexologia.

Muitas mulheres tinham pouco interesse em intercurso sexual, e mais comumente, pensavam que “nenhuma mulher deveria ser obrigada a fazer intercurso sexual” (isso foi, é claro, muitas décadas antes da segunda onda feminista lutar para criminalizar o estupro marital). Em resposta a essa crescente resistência e independência, e para defender o status quo da opressão das mulheres, a subordinação sexual das mulheres foi naturalizada na sexologia. Havelock Ellis, o fundador do campo, argumentava que

a sexualidade masculina era absoluta e inevitavelmente agressiva, tomando a forma de busca e captura, e que era inevitável aos homens sentir prazer ao infligir dor nas mulheres. A sexualidade das mulheres, dizia ele, era passiva. As mulheres deveriam ser capturadas e “desfrutar” a experiência de dor nas mãos de seus amantes homens.

Os sexologistas também inventaram o conceito da “frigidez” feminina: mulheres “frígidas” eram doentes, e tinham que ser mandadas aos ginecologistas e psicanalistas.

No encalço da sexologia veio a indústria pornográfica que conhecemos hoje. Ao fim da Segunda Guerra Mundial, houve um crescimento no negócio da promoção dessa objetificação das mulheres. Pornógrafos-empresários como Hugh Hefner (Playboy), Bob Guccione (Penthouse) e Larry Flynt (Hustler) começaram a preparar o mercado para tornar a pornografia socialmente aceitável. Nos anos 90, produtos do coelhinho estavam sendo consumidos por meninas em todo lugar — a marca do coelhinho estampava tudo, de papelaria a pijamas. Os publicadores da Cosmopolitan, Bauer Media, estão envolvidos no lobby global do tráfico sexual, e chegaram a possuir os direitos de publicação da Playboy na Alemanha.

“Era um mundo muito diferente”, diz a escritora feminista Gail Dines, “depois de Hefner ter erodido as barreiras culturais econômicas e legais da produção e distribuição em massa de pornografia”. Agora é passível de discussão se pole dancing é a melhor atividade extracurricular para garotas de 8 anos de idade.

Como essa mudança ao mainstream aconteceu? A resposta é simples: de propósito. O que vemos hoje é resultado de anos de estratégia e marketing cuidadosos da indústria pornográfica para sanitizar seus produtos… reconstruindo a pornografia como divertida, deferente, chique, sexy e quente. Quanto mais a indústria se tornou sanitizada, mais ela escorregou para dentro da cultura pop e da nossa consciência coletiva.

A segunda onda feminista reconheceu e resiste aos abusos e à normalização da pornografia — mas os departamentos de Estudos das Mulheres das universidades nos quais muitas críticas como essa poderiam ser feitas não existem mais. Até mesmo os livros estão ameaçados. A disciplina que usurpou os Estudos das Mulheres é a teoria queer, e de acordo com as feministas, a teoria queer está para a segunda onda do feminismo como a sexologia era para a primeira: uma contra-reação [backlash]. Sheila Jeffreys esclarece como ela veio

dos liberais sexuais da esquerda — em particular, homens — e em grande parte do movimento gay masculino. É daí que vem a contra-reação, mas também possui representantes dentro do feminismo.

Lierre Keith ilustra a representação dessa contra-reação dentro do feminismo:

Já em 1982, Ellen Willis inventou o termo “sex positive” para se distinguir das feministas radicais — porque somos tão negativas, nós feministas radicais. Estupro, estupro, estupro — isso é tudo sobre o que queremos falar. Bom, proponho um trato — se os homens pararem com o estupro, eu paro de falar a respeito.

Keith também aponta que a busca pelo termo “torture porn” gera 32 milhões de resultados. Vale notar que a estética, as ferramentas e as práticas da pornografia moderna e do BDSM endossadas como “diferentes”, a “sexualmente positiva” teoria queer e as “taras” remontam aos tribunais de caça às bruxas. O ensaio de Max Dashu Reign of the Demonologists mostra como a tortura das bruxas era sexualizada, através da fetichização de procedimentos e equipamentos de tortura e as confissões forçadas de sexo grotesco com demônios. Uma entrevista com Audre Lorde em Burst of Light critica o sadomasoquismo por razões similares.

O sadomasoquismo é congruente com com outros desenvolvimentos acontecendo neste país que tem a ver com dominância e submissão, com desigualdade de poder — político, cultural e econômico… O sadomasoquismo é uma celebração institucionalizada das relações de dominação e subordinação… O sadomasoquismo alimenta a crença de que a dominação é inevitável e legitimamente desfrutável.

A feminista Susanne Kappeler nos oferece um lembrete para quando encontrarmos esses tipos de práticas aceitos e celebrados como revolucionários na academia.

Enquanto feministas, faremos bem em lembrar e destacar o fato de que a história do liberalismo, do libertarianismo e da libertinagem tem sido a história de cavalheiros advogando liberdade e permissão para cavalheiros — liberdades pelas quais os direitos e as liberdades das mulheres têm sido rotineiramente sacrificadas.


Cópia de um desenho de 1515 de “witch porn” de Hans Franck.

Comoditização e “escolha”

A produção dos robôs sexuais é um aprofundamento contemporâneo da objetificação das mulheres que disciplinas como a teoria queer sancionam, e até celebram. Distúrbios alimentares e a demanda por cirurgias cosméticas como a labioplastia são apenas dois exemplos do impacto da escalada de objetificação das mulheres. Estamos vendo outras invenções bizarras no mercado, também: o FitBit peniano, uma peça bucal para sexo oral.

Imagem da autora

Um jeito que o lobby do mercado sexual se infiltra sob a pele das mulheres, suga sua confiança, encoraja competição e instiga dependência a um parceiro abusivo ou um prostituinte, é através da mídia, através das revistas femininas. 70% das mulheres alega sentir culpa ou vergonha depois de três minutos folheando esse tipo de revista. É é notório que publicadores e seus anunciantes alimentam inseguranças — e abuso. A maioria das modelos nessas revistas pesa 25% menos que a média das mulheres, e está na faixa de peso da anorexia. Agora, na Europa e nos Estados Unidos, 50 milhões de mulheres sofrem de distúrbios alimentares, e meninas de 6 anos de idade vêm crescentemente expressando ansiedade a respeito de seu corpo.

A Bauer Media publica a Cosmopolitan, a Woman’s Day e a revista adolescente Dolly. Atualmente ela também lucra com pornografia online, e costumava possuir os direitos de publicação de uma série de revistas pornográficas alemãs: a Playboy alemã; Das neue Wochenend; Blitz Illu; Schlüsselloch (que significa “fechadura”); Sexy, Praline e Coupe. A Bauer Media também possui um terço do famoso canal privado RTL II, que transmite reality shows a favor de “trabalho sexual” quase diariamente. Não é surpreendente ver a última edição da Cosmopolitan oferecer conselhos sobre tratamentos cosméticos invasivos indo de micropigmentação de sobrancelha a preenchimento labial, tratamento a laser e terapia de luz.

Labioplastia — redução cirúrgica dos lábios vaginais das mulheres — é outra tendência ocidental que está aumentando e que tem conexões com práticas mais brutais, nesse se caso a mutilação genital feminina (FGM). De acordo com a OMS (que apoiava essa prática em 1958), mais de 200 milhões de mulheres e meninas vivas hoje passaram pelo procedimento em 30 países da África, do Oriente Médio e da Ásia onde a prática da FGM é concentrada. Nessas práticas, as meninas têm seus clitóris e lábios vaginais removidos; na Somália, há a prática de costurar os lábios, deixando apenas um pequeno buraco. A mulher somali Hibo Wardere diz que urinar através dessa pequena abertura é como se “uma ferida tivesse sido esfregada com sal ou pimenta”. O feminismo deve trabalhar para acabar com a mutilação genital, e não se ocupar de glorificar variedades novas e comerciais dela como “escolhas” sexualmente positivas.

O patriarcado mina e recorta os corpos das mulheres enquanto diminui o valor delas. Desde o décimo século e por dez séculos, os patriarcas chineses perceberam que as meninas e mulheres jamais conseguiriam correr, amarrando seus pés e fetichizando esse ato de aleijar mulheres. Hoje vemos o comércio de cabelos, óvulos, leite materno e aluguel de úteros através da prática da barriga de aluguel. Enquanto as incubadoras são normalmente mulheres pobres, as doadoras de óvulos são geralmente mulheres estudadas e jovens, cuja saúde foi investigada em busca de doenças hereditárias e que não foram alertadas para as implicações ou possíveis efeitos colaterais da coleta de seus óvulos.

O feminismo branco mainstream hoje irá classificar a labioplastia como algo que as mulheres “escolhem“. Da mesma forma que a imolação foi “escolhida” através da prática indiana do suttee. Da mesma forma que as mães “escolheram” amarrar os pés de suas filhas, “escolheram” cortar seus clitóris; como as mulheres que “escolhem” ser prostituídas e até mesmo traficadas, “escolhem” usar burqa, salto alto, não comer, amarrar seus seios. Essas práticas são por vezes não apenas marqueteadas e chamadas de “escolha”, mas também de altruísmo. A prostituição, a barriga de aluguel e a imolação tem sido chamadas de práticas “altruístas”. As mulheres, obviamente, querem ser capazes de escolher e contribuir. E que escolhas a sociedade nos permite fazer? Estas. Então alegamos que nós mesmas fizemos estas escolhas. Mas o feminismo precisa entender que, conforme Megan Tyler, sim, “nós fazemos escolhas, mas estas escolhas são moldadas e constritas por condições desiguais nas quais nós vivemos.”

NZPC promove a prostituição como uma “escolha” da mulher. Imagem da autora.

Quando se trata de tendências modernas como o transativismo, não podemos separar o desejo masculino de acesso aos espaços das mulheres e por transplantes de útero, de uma história de apropriação patriarcal (incluso aí as imitações de “úteros prostéticos”). Não podemos separar este movimento de uma história inteira que o precede, da exploração simultânea dos corpos e da desvalorização da mulheres. Também não podemos separar os desejos dos homens de sufocar e apropriar a discussão e a capacidade da habilidade das mulheres de criar vida de uma história inteira disso. O sistema masculino tem trabalhado para se apropriar do controle dos corpos das mulheres e de sua habilidade de criar vida humana, e para sufocar a discórdia feminista desde que chegou ao poder. Nessa Era Trump, a história continua.

Por outro lado, não podemos separar os desejos manufaturados das mulheres pelo privilégio masculino nem esquecer que as escolhas das mulheres de passar por procedimentos como binding e queima dos seios, mastectomias e cirurgias invasivas de uma história de opressão, demonização, mutilação e auto-destruição.

Não podemos separar qualquer discurso sobre gênero das realidades da opressão baseada no sexo — isso se realmente quisermos liberdade.

Imagem: Barbara Kruger

Traduzido do original: “A call to feminists to remember the history and sex-based nature of women’s oppression“. In: Writing by Renee, 7 de fevereiro de 2017.